sábado, 26 de novembro de 2016

Ensaio Clínico: Low carb reduz espontaneamente a fome (e melhora a saúde no processo)

O artigo de hoje é um pequeno ensaio clínico, publicado em 2005: Ann Intern Med. 2005 Mar 15;142(6):403-11


O objetivo do estudo foi pontual: determinar de que forma uma dieta low carb produz perda de peso, e qual o efeito desta intervenção sobre o diabetes tipo 2 e a resistência à insulina que caracteriza esta patologia.

O estudo

10 pacientes obesos com diabetes tipo 2 (3 homens e 7 mulheres) foram recrutados para participar do estudo. Todos concordaram em ficar internados por 21 dias, com controle TOTAL de tudo que comiam. Repito - este não é um estudo (falho) no qual as pessoas tentam seguir regras ou lembrar do que comeram; foi um estudo 100% conduzido dentro de um hospital, com todos os voluntários internados.

Fase inicial: dias 1 a 7. Neste período, os voluntários foram encorajados a consumir suas dietas usuais. A cafeteria do hospital forneceu tudo o que eles pediram. Itens que não estavam disponíveis no hospital podiam ser encomendados de fora, incluindo sanduíches do McDonald's, Dunkin' Donuts e biscoitos recheados Oreos. A atividade física prévia dos internos foi mantida (na academia do hospital).

Fase low carb - dias 8 a 21. Neste período, os voluntários foram colocados na fase de indução da dieta Atkins:
  • Os carboidratos foram reduzidos para 21g por dia;
  • Os voluntários podiam comer tanta proteína e gordura quanto desejassem;
  • A quantidade de queijo e de cream cheese era limitada
  • Marcas específicas de molhos e lanches permitidos pelo Dr. Atkins podiam ser consumidas, assim como os produtos da empresa Atkins;
  • 100% do que foi consumido foi pesado e anotado, e os voluntários eram aferidos todos os dias de manhã (sinais vitais e exames).
O estudo foi financiado pelo NIH e pela ADA (não, não foi financiado pelas empresas Atkins).

Resultados:

  • O grupo low carb (Atkins) perdeu peso, o peso não foi de água, e sim de gordura. 
  • Houve uma redução ESPONTÂNEA de 1000 calorias consumidas ao dia, e a quantidade de peso perdida foi exatamente a quantidade esperada para um déficit calórico dessas proporções.
Vejamos:


Como se pode ver na tabela, houve redução de cerca de 2 quilos e meio de gordura. E houve um déficit calórico de 1027 calorias em média por dia.
Aqui cabe salientar algumas coisas:
  • A taxa metabólica média, que foi medida pelo método padrão-ouro (água duplamente marcada), era de cerca de 3200 calorias por dia;
  • Neste estudo, no qual as pessoas não podiam mentir, a ingestão de comida na dieta habitual era também de cerca de 3200 calorias por dia (as pessoas imaginam que comem muito menos do que realmente comem);
  • As pessoas podiam comer a quantidade que bem entendessem de comida na fase low carb, conquanto fossem alimentos low carb compatíveis com a fase de indução de Atkins.
  • Estas pessoas, que podiam comer o quanto quisessem, desenvolveram um déficit calórico diário de MIL CALORIAS. Eu disse MIL, quando a ÚNICA intervenção foi a restrição de carboidratos para 21g por dia.
Efeitos sobre os demais parâmetros
  • As pessoas relataram a mesma quantidade de fome em low carb (com MIL calorias a menos) do que em high carb (com MIL calorias a mais).

  • A glicemia diminuiu em TODOS os pacientes (de uma média de 135 para 113:

  • 2 pacientes precisaram diminuir suas doses de insulina, 2 tiveram de diminuis as doses de hipoglicemiantes orais, e um teve de interromper o hipoglicemiante oral. Em 14 dias.
  • A hemoglobina glicada reduziu-se de 7,3% para 6,8%. Em apenas 14 dias.
  • Houve melhora de 30% na sensibilidade à insulina verificada através do teste de clamp hiperinsulinêmico euglicêmico (padrão-ouro).
É interessante notar que, como sempre, o aumento do consumo de proteínas foi irrisório. Já expliquei isso em outra postagem.

Veja a distribuição de macronutrientes no estudo em tela:


O grupo low carb, que podia consumir tanta comida quanto quisesse, desde que fosse low carb, consumiu em média 14 (CATORZE) gramas de proteína a mais do que o grupo high carb. Então, POR FAVOR, não ofenda uma dieta low carb chamando-a de "dieta da proteína". Por favor.

***

Qual a grande lição deste pequeno e bem conduzido estudo? É o fato de que, em condições de vida livre (ok, as pessoas estavam confinadas, mas podiam comer o quanto quisessem), low carb produz uma redução do consumo calórico. Não existe contradição entre a afirmação de que, para perder peso, é preciso comer menos, versus a afirmação de que para perder peso, a melhor alternativa é restringir carboidratos.

Eu sempre fico pasmo quando as pessoas citam estudos nos quais os grupos foram alimentados com dieta low carb versus dieta low fat, mas as calorias foram artificialmente mantidas iguais. Então, conclui-se que low carb e low fat são equivalentes. Isso é um argumento de uma imbecilidade atroz. Senão vejamos: eu tenho uma Ferrari e um Fiat 147 lado a lado, prestes a disputar uma corrida. Mas eu tenho uma regra: a velocidade máxima é 40 Km/h. Ambos carros terminam juntos na linha de chegada. Conclusão? A Ferrari e o Fiat 147 são equivalentes. O que interessa é a performance em condições de vida livre, é evidente!

Por outro lado, como já discuti em outras postagens, low carb não é mágica e não viola as leis da termodinâmica (veja aqui, aqui e aqui). De forma que low carb não será uniformemente eficaz (como aliás soe ocorrer com QUALQUER intervenção em biologia). Uma pessoa que, mesmo comendo low carb, continue consumindo 3200 calorias, provavelmente não perderá peso. Este é um dos motivos pelos quais junk food low carb, uso excessivo de adoçantes em receitas low carb, e fat bombs tendem a ser contraproducentes. Este também é o motivo pelo qual laticínios de alta concentração calórica e alta palatabilidade, tais como queijos, podem ser complicados para algumas pessoas. Aliás, não creio ser coincidência o fato de que os únicos alimentos low carb cuja quantidade foi controlada no presente estudo foram justamente "queijo e de cream cheese".

Food for thought.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

David Ludwig e o livro Always Hungry - Harvard low carb, high fat

Acaba de ser lançado no Brasil o livro Always Hungry, do Dr. David Ludwig - traduzido em tempo recorde com o título de Emagreça sem Fome:


Trata-se de leitura obrigatória, especialmente por seu sumário da evidência científica, em linguagem clara e acessível.

Eis o vídeo de apresentação do livro:

Eu já havia escrito sobre este livro por ocasião de seu lançamento em inglês, e reproduzo abaixo os meus comentários de então:

Já acompanho as publicações de David Ludwig há muito tempo.


Dr. David Ludwig
Ludwig é professor de pediatria na escola de medicina de Harvard, e professor de nutrição na escola de saúde pública daquela mesma instituição. Ele é o fundador de um centro de estudos da obesidade no Children's Hospital de Harvard, tem mais de 150 estudos peer reviewed publicados, uma quantidade impressionantes dos quais no New England Journal of Medicine e no JAMA, dois dos mais importantes e influentes periódicos médicos do mundo. Ou seja, David Ludwig não é o seu típico autor de livros de dieta. Ludwig é um cientista respeitado, e diretor de um dos mais antigos centros de pesquisa e tratamento de obesidade dos EUA, em Harvard.

Por que estou enfatizando tanto o pedigree do Dr. Ludwig? Em seu novo livro, Always Hungry, Ludwig não diz quase nada de novo em relação ao que Gary Taubes já dizia em sua opus magna, Good Calories, Bad Calories. Mas Taubes é um jornalista. Ludwig, bem, Ludwig é Ludwig, o famoso pesquisador em obesidade, de Harvard. Ter alguém dessa envergadura dando total apoio à restrição de carboidratos, e não de calorias e gordura, como intervenção preferencial no manejo da obesidade, sobrepeso, síndrome metabólica e diabetes é simplesmente maravilhoso. Já falei aqui sobre a irrelevância da falácia de autoridade - não importa se Taubes é jornalista, o que importa é a lógica cartesiana e a qualidade de suas referências bibliográficas peer reviewed. Mas o MUNDO se importa com credenciais, e ter alguém do gabarito de Ludwig defendendo a abordagem low carb é, sim, uma grande vitória.

O livro é dividido em duas partes. A parte inicial é a ciência. É simplesmente espetacular. Escrita clara, referências bibliográficas maravilhosas (muitas oriundas de estudos do próprio autor).

Para se ter uma ideia da qualidade da argumentação científica de Ludwig, clique aqui.

Já a dieta recomendada pelo autor tem fases, e a última fase é bem diferente do que eu sugeriria (muitos grãos integrais para o meu gosto). Ainda assim, trata-se de uma vitória para o campo low carb, e um livro cuja leitura vale muito a pena, e um excelente presente a ser dado para aqueles profissionais de saúde que precisam ler algo escrito por uma autoridade inconteste (não há nada mais mainstream do que um médico, professor de nutrição de Harvard, que publica no JAMA e no New England).


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Ensaio clínico randomizado: remissão de 100% dos casos de pré-diabetes com low carb, high protein

Pré-diabetes é uma condição de intolerância à glicose, caracterizada por resistência à insulina mas sem ter ainda atingido os critérios diagnósticos de diabetes tipo 2. A cada ano, cerca de 10% dos pacientes pré-diabéticos tornam-se diabéticos tipo 2. O estudo abaixo, realizado na Universidade do Tennessee, foi publicado esta semana, e compara duas abordagens dietéticas para o manejo do pré-diabetes: high carb, e high protein.



O que poderia ser considerada uma fraqueza do estudo (apenas 24 participantes), permitiu também a sua maior virtude: trata-se de estudo muito bem controlado, com duração de seis meses e fornecimento de toda a alimentação para os participantes durante todo esse tempo, de modo a garantir que estivessem, de fato, seguindo as dietas para as quais foram sorteados.

O Estudo

24 pacientes pré-diabéticos, homens e mulheres, foram selecionados. Pré-diabetes foi definido como um teste de tolerância à glicose no qual a glicemia após 2 horas do início do teste ficasse entre 140–199 mg/dL, mas com glicemia de jejum inferior a 126 mg/dL, e hemoglobina glicada entre 5.7–6.4%.

Todos foram então avaliados para determinar quantas calorias necessitavam diariamente para manter seu peso estável. As dietas foram calculadas individualmente para conter 500 calorias A MENOS do que o necessário, de modo a produzir uma perda de peso semelhante em todos os pacientes, independentemente da dieta.

A seguir, foram randomizados para um de dois grupos: um grupo high carb, com a proporção de macronutrientes normalmente recomendada pelas diretrizes da maioria dos países e instituições (ou seja, de acordo com a antiga pirâmide alimentar): 15% proteína, 30% gordura e 55% carboidratos; e outro grupo lower carb, high protein (com menos carboidratos e mais proteínas): 30% proteína, 40% carboidratos e 30% gordura).

Note que ambos grupos são low fat (baixa gordura). Note que o grupo de alta proteína é um pouco mais low carb do que o outro (55% versus 40) - ou seja, é um grupo high carb versus um grupo lower carb - ou seja, LEVEMENTE low carb. Então, para ficar bem claro o que está sendo testado:


Pirâmide alimentar com restrição de 500 calorias por dia (15% proteína, 30% gordura e 55% carboidratos) - de agora em diante chamada aqui de HC-Pirâmide - versus High Protein, lowER carb com restrição de 500 calorias por dia (30% proteína, 40% carboidratos e 30% gordura), ou seja, alta proteína com menos carboidrato - de agora em diante chamada aqui de HPLC.

Ok, o que o estudo mostrou?

Houve melhora na tolerância à glicose em ambos grupos - o que era esperado, já que ambos grupos perderam a mesma quantidade de peso em virtude da restrição calórica. Mas, a magnitude da melhora foi MUITO diferente:



  • Grupo HC-Pirâmide: 4 dos 12 reverteram seu pré-diabetes (33%)
  • Grupo HPLC: 12 dos 12 ficaram CURADOS (100%)

Você leu corretamente: 6 meses de uma dieta com mais proteínas e menos carboidratos do que o recomendado na pirâmide alimentar normalizou completamente as curvas glicêmicas e insulinêmicas da TOTALIDADE do grupo.

Veja os gráficos:

Isto é a resposta média dos pacientes ao teste de tolerância à glicose. Quanto menos a glicose subir, melhor. Observe que o grupo HPLC foi MUITO melhor, após 6 meses, do que o grupo da pirâmide alimentar. E, como dissemos acima, não foi apenas uma melhora na média. TODOS os pacientes do grupo HPLC normalizaram sua curva glicêmica em 6 meses.

Vejamos agora a curva de INSULINA, isto é, como é a resposta da insulina dos pacientes após o consumo de glicose. Quem é mais resistente à insulina tem elevações mais acentuadas. Quem curou sua resistência à insulina terá elevações bem menores deste hormônio:
Aqui a diferença é ainda mais acentuada: a pirâmide alimentar produz, após 6 meses e com restrição calórica e perda de peso, um resultado em 2 horas quase idêntico ao de que não fez dieta nenhuma. Já a dieta com menos carboidratos e mais proteína (HPLC) produz uma curva COMPLETAMENTE distinta, e muito melhor, indicando a reversão da resistência à insulina.

Por fim, sabemos que dietas hipocalóricas produzem perda de peso. Mas sabemos que parte desse peso pode ser massa muscular, o que é indesejável. Qual dieta terá produzido uma perda maior de músculo? A pirâmide alimentar, ou a com menos carboidrato e mais proteína?
Como se vê, ambas dietas produziram perda de peso, mas a pirâmide alimentar produziu perda de músculo juntamente com gordura, enquanto a dieta com menos carboidrato e mais proteína promoveu perda de gordura com PRESERVAÇÃO da massa muscular.

Tal achado não é uma anomalia. Já publiquei uma postagem em 2014 sobre um ensaio clínico randomizado muito maior, com 148 pessoas e duração de um ano, que mostrou exatamente a mesma coisa: low carb preserva a massa magra, enquanto low fat high carb produz perda de massa magra. Abaixo, os gráficos daquele estudo:


No que diz respeito à superioridade de low carb quanto à glicemia e à sensibilidade à insulina, outro ensaio clínico randomizado maior ainda, com mais de 300 pacientes e duração de DOIS anos, também não deixou muito dúvida. Clique aqui para ler a postagem completa, e veja os gráficos abaixo:


GLICEMIA DE JEJUM: A linha vermelha é a pirâmide alimentar: a glicose dos diabéticos PIOROU; as outras linhas são dieta mediterrânea e low carb high fat - MUITO melhores.


INSULINA DE JEJUM: mais uma vez, a pirâmide alimentar foi a PIOR intervenção.

E não custa lembrar que há um ensaio clínico randomizado com 7.500 pessoas no qual ficou demostrado que o grupo da pirâmide alimentar teve 30% mais desfechos combinados de morte, derrames e ataques cardíacos do que os grupos de dieta mediterrânea com mais gordura na sua dieta: 
A linha preta corresponde à pirâmide alimentar.

***

Ok, já sabíamos então que uma dieta low fat (pirâmide alimentar) é inferior para perda de peso, inferior para desfechos substitutos de risco cardiovascular, inferior para controle de diabetes e inferior para desfechos duros, tais como morte, derrames e ataques cardíacos quando comparada a virtualmente todas as demais alternativas (LCHF, low carb moderada, mediterrânea, paleolítica, etc).

Assim, este estudo é apenas mais um a mostrar que basicamente qualquer coisa é superior à pirâmide alimentar. Mas há alguns aspectos muito interessantes a ser destacados:

  1. Uma restrição de carboidratos relativamente modesta já foi capaz de produzir resultados muito animadores. O mesmo observa-se em outros estudos com dieta mediterrânea e de low carb moderado;
  2. As proteínas, muito embora estimulem a insulina tanto ou mais do que alguns carboidratos, não estão associadas à resistência à insulina - ao contrário, levaram à sua reversão neste estudo. Tudo indica que a concomitância de hiperinsulinemia juntamente com hiperglicemia (que não acontece com proteínas, apenas com carboidratos) é chave no desenvolvimento de doença;
  3. O elemento comum entre os estudos de low carb, high fat e este estudo lower carb, high protein (low fat) é a restrição de carboidratos.
Este pequeno - mas muito bem conduzido - ensaio clínico randomizado amplia a gama de alternativas à disposição dos profissionais de saúde que pretendam reverter o dano produzido por dietas nos moldes da pirâmide alimentar.
  • Restrição severa de carboidratos, com mais gordura
  • Restrição leve de carboidratos, com um pouco mais de gordura
  • Restrição leve de carboidratos, com mais proteína e menos gordura
Pode haver motivos para optar por cada um deles. Preferência pessoal é um deles. Pacientes com dislipidemia podem se beneficiar de reduzir a gordura e aumentar as proteínas. Pacientes com alteração de função renal podem se beneficiar de manter as proteínas moderadas e aumentar a gordura. Pacientes focados em ganho de massa muscular (magros mas com síndrome metabólica ou pré-diabetes) talvez pudessem se beneficiar de algo nos moldes do presente estudo.

A única coisa que parece cada vez mais indiscutível, à luz de numerosos ensaios clínicos randomizados e metanálises, é que nunca houve uma ideia tão desastrosa quanto a combinação de restrição de gorduras associada ao aumento compulsório de carboidratos - a pirâmide alimentar.

sábado, 29 de outubro de 2016

Dr. Flávio Melo entrevista Dr. Robert Lustig

recomendei previamente o site do Dr. Flávio Melo, Pediatra do Futuro, parada essencial para quem precisa informações de qualidade em pediatria.

O Dr. Flávio entrevistou recentemente um dos meus heróis, o Dr. Robert Lustig - também pediatra, professor de pediatria e endocrinologia na Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF).

Já escrevi sobre o Dr. Lustig algumas vezes aqui no blog (aqui, aqui, aqui e aqui)

Eis o vídeo legendado da conversa do Dr. Lustig com o Dr. Flávio Melo:


domingo, 23 de outubro de 2016

Low carb é alternativa aceitável para diabetes, segundo a ADA

A postagem anterior reproduz um editorial do JAMA, o periódico oficial da Associação Médica Americana, no qual afirma-se que as diretrizes low fat foram um erro e que low carb é superior, segundo a preponderância da evidência científica atual. O editorialista então salienta que as novas diretrizes nutricionais, na verdade, tacitamente admitem isso, na medida em que, pela primeira vez, foi removido o limite superior da quantidade de gordura permitida na dieta. Contudo, quase ninguém sabe disso, pois a mudança foi feita de forma absolutamente discreta, sem que se tenha admitido publicamente o erro da abordagem anterior. E, em virtude disso, a fobia à gordura segue entranhada na mente do público e dos profissionais. Eis o trecho:


"The focus on replacing dietary fat with carbohydrate did not achieve intended public health goals and arguably produced harm, but these adverse outcomes have not been clearly and consistently acknowledged.Consequently, many people in the United States still actively avoid eating fat. Indeed, national nutrition policy continues to promote fat reduction in schools (eg, by banning whole milk and allowing sugar-sweetened nonfat chocolate milk), in government food procurement programs, and in the line item for total fat on the Nutrition Facts label."
Em um segundo editorial, desta vez na CNN, o mesmo David Ludwig desenvolve o argumento: 

"Responding to new evidence, the 2015 USDA Dietary Guidelines lifted the limit on dietary fat, unofficially ending the low-fat diet era. But you'd never know it, because a full accounting of this failed experiment has not been made. In the absence of this corrective process, public health harms persist, with the low-fat diet remaining deeply embedded in public consciousness and food policy. In fact, according to a recent Gallup survey, a majority of Americans still actively avoid eating fat. It's time to acknowledge past mistakes and examine why a focus on calorie balance backfired"
O fato é que, se você procurar BEM, você descobre que outras instituições, assim como a USDA, tacitamente vêm admitindo a mudança de paradigma. Mas de forma muito sutil...

A Associação American do Diabetes (ADA- American Diabetes Association) publica, periodicamente, suas próprias diretrizes. A última atualização das diretrizes da ADA foi em 2013, publicadas no periódico científico da própria ADA, o Diabetes Care:

Evert, A.B. et al., 2014. Nutrition Therapy Recommendations for the Management of Adults With Diabetes. Diabetes Care, 37(Supplement 1), pp.S120–S143. Available at:http://care.diabetesjournals.org/content/37/Supplement_1/S120[Accessed October 23, 2016].

A ADA, nesta sua revisão mais recente da literatura, passou a listar dieta low carb (Low Carbohydrate Diet) como uma das opções terapêuticas para o diabetes tipo 2. Reproduzo, abaixo, slide educativo da própria ADA, com as dietas que podem ser prescritas para pacientes com DM2:



Observe a segunda alternativa, de cima para baixo. Ali se lê: 

  • "Baixo carboidrato - alimentos ricos em proteína e gordura; vegetais de baixo carboidrato. Evitar alimentos ricos em açúcar e grãos".


Sim, a ADA dá a entender que todas as alternativas são igualmente válidas. Eu, ao contrário, penso que low carb é superior (clique aqui para um BOM artigo de revisão sobre as evidências científicas de tal superioridade). Mas - atenção! - simplesmente admitir que low carb é TÃO válido quanto as demais alternativas já é um grande passo para uma instituição como a ADA. E assim como no caso da questão das gorduras, salientada pelo editorial do JAMA, isso está escondido no meio da página 127, sem nenhuma ênfase. Se você não é um pesquisador especialmente focado no assunto, isso tende a passar batido - como de fato passou: a maioria dos profissionais de saúde ainda acha que low carb é uma estratégia "fringe", uma "dieta da moda", ignorando que a mesma já consta como uma estratégia OFICIAL (dentre outras) defendida pela ADA.

Para que não reste dúvida, eis o que a ADA define como Low Carb, na tabela 3 do artigo:

  • Low carbohydrate: Focuses on eating foods higher in protein (meat, poultry, fish, shellfish, eggs, cheese, nuts and seeds), fats (oils, butter, olives, avocado), and vegetables low in carbohydrate (salad greens, cucumbers, broccoli, summer squash). The amount of carbohydrate allowed varies with most plans allowing fruit (e.g., berries) and higher carbohydrate vegetables; however, sugar-containing foods and grain products such as pasta, rice, and bread are generally avoided. There is no consistent definition of “low” carbohydrate. In research studies, definitions have ranged from very low-carbohydrate diet (21–70 g/day of carbohydrates) to moderately low-carbohydrate diet (30 to 40% of calories from carbohydrates).
Ou seja, é dieta low carb mesmo, da forma como a tratamos aqui no blog.

Eis os motivos dados pela ADA para que low carb seja uma das estratégias oficiais válidas no manejo do diabetes tipo 2:

"The amount of carbohydrates and available insulin may be the most important factor influencing glycemic response after eating and should be considered when developing the eating plan.
Monitoring carbohydrate intake, whether by carbohydrate counting or experience-based estimation, remains a key strategy in achieving glycemic control."

***

Em 2011, quando comecei este blog, muito do que aqui se defendia era diferente do que constava nas diretrizes vigentes, muito embora tudo sempre tenha sido baseado em evidências peer reviewed de alto nível, como ensaios clínicos randomizados em metanálises.

Mas, em 2016, já acumulam-se mudanças na postura de instituições e em suas diretrizes. Contudo, tais mudanças são feitas de forma tímida e quase envergonhada. Cabe-nos trazê-las à tona, à luz do dia. Então, reproduzo aqui postagem do ano passado, com outros exemplos de que low carb já é uma abordagem aceita e completamente mainstream. Se algum profissional de saúde diz o contrário, peça-lhe que revise a literatura dos últimos anos, citada nesta postagem (não é mais questão de opinião - as fontes originais estão todas acessíveis nos hiperlinks).


***
Postagem publicada originalmente em junho de 2015:

Para quem acompanha o blog, não é nenhuma novidade. Mas notícias como essa são importantes para ir quebrando a resistência dos profissionais de saúde.

Recentemente, várias instituições muito importantes e tradicionais têm revisado sua postura. Poder mostrar que nossa opinião não é mais minoritária é um passo importante para vencer a desconfiança que o novo provoca.

Exemplos recentes de mudanças de postura:


"Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas em todo o país ainda recomendam uma dieta de alto carboidrato para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode prejudicá-los e contribuir para o aumento de sua obesidade e piora do controle de seu diabetes, consequentemente aumentando sua chance de vir a desenvolver complicações da doença no futuro."



American Heart Association:
"Há uma concepção errônea de que a Associação Americana de Cardiologia (AHA) apoia uma dieta de baixa gordura", diz Rachel Johnson, PhD, MPH, RD, professora de nutrição na Universidade de Vermont e última presidente do Comitê de Nutrição da AHA. "Nós não estamos mais dizendo que uma dieta low fat (baixa gordura) é a resposta.






UpToDate
uma metanálise de 2014 não achou associação entre gordura saturada e doença cardiovascular. A metanálise também não achou relação entre o consumo de gordura monoinsaturada e doença cardiovascular, mas sugeriu uma redução com o aumento do consumo de gorduras ômega-3; o benefício de gorduras ômega-6 permanece incerto. Em virtude destes resultados, nós não sugerimos mais que se evitem as gorduras saturadas propriamente ditas, embora muitos alimentos ricos em gorduras saturadas sejam menos saudáveis do que os que contém níveis mais baixos (nota do tradudutor: estão falando de fast food, não de coco ou carne de gado alimentado com pasto). Em particular, nós não achamos mais que haja evidências substanciais no sentido de escolher laticínios desnatados (tais como escolher leite desnatado ao invés de integral).


Academy of Nutrition and Dietetics:
"Deve-se notar que NENHUM estudo incluído na revisão sobre doença cardiovascular identificou a gordura saturada como tendo associação desfavorável com doença cardiovascular"
"Nós sugerimos que as próximas diretrizes ajudem as pessoas a adotar dietas que não são as recomendadas até hoje, tais como uma dieta de baixo carboidrato, para ajudá-las as fazer escolhas mais saudáveis dentro deste tipo de dieta."



Nova proposta de diretrizes do USDA (texto da revista VEJA):
"O documento americano é um cartapácio de 571 páginas. A alforria do colesterol aparece na 17ª e, em pouco mais de discretas cinco linhas, abre o sinal verde, com uma recomendação que desde já começa a fazer barulho pela força de sua assertividade. "Não há evidência disponível que mostre alguma relação significativa entre uma dieta com colesterol e os níveis de colesterol sanguíneo. O consumo excessivo de colesterol não é motivo de preocupação."


Então, é nesse contexto que vem mais um espetacular editorial, num dos principais periódicos médicos peer reviewed do mundo, o JAMA (Revista da Associação Médica Americana)




Diretrizes Dietéticas 2015
Removendo a restrição à gordura da dieta

A íntegra do texto pode ser lida aqui.

Pontos altos:


  • Nas novas diretrizes, não há mais limite de consumo diário de colesterol, pois o colesterol nos alimentos pouco ou nada impacta o colesterol no sangue;
  • "A less noticed, but more important, change was the absence of an upper limit on total fat consumption. The DGAC report neither listed total fat as a nutrient of concern nor proposed restricting its consumption. Rather, it concluded, “Reducing total fat (replacing total fat with overall carbohydrates) does not lower CVD [cardiovascular disease] risk": Uma mudança menos percebida, mas MAIS importante, é a ausência de um limite superior para o consumo de gordura total. O Dietary Guidelines Advisory Committee (DGAC - comitê de aconselhamento das diretrizes dietéticas) não listou gordura total como nutriente digno de preocupação nem propôs restringir seu consumo. Ao contrário, concluiu que "reduzir a gordura total (substituindo-a com carboidratos) não reduz o risco de doença cardiovascular.
Há outras pérolas que não tenho agora tempo para traduzir:
  • The complex lipid and lipoprotein effects of saturated fat are now recognized, including evidence for beneficial effects on high-density lipoprotein cholesterol and triglycerides and minimal effects on apolipoprotein B when compared with carbohydrate. These complexities explain why substitution of saturated fat with carbohydrate does not lower cardiovascular risk. Moreover, a global limit on total fat inevitably lowers intake of unsaturated fats, among which nuts, vegetable oils, and fish are particularly healthful. Most importantly, the policy focus on fat reduction did not account for the harms of highly processed carbohydrate (eg, refined grains, potato products, and added sugar)—consumption of which is inversely related to that of dietary fat.;
  • Randomized trials confirm that diets higher in healthful fats, replacing carbohydrate or protein and exceeding the current 35% fat limit, reduce the risk of cardiovascular disease. The 2015 DGAC report tacitly acknowledges the lack of convincing evidence to recommend low-fat–high-carbohydrate diets for the general public in the prevention or treatment of any major health outcome, including heart disease, stroke, cancer, diabetes, or obesity.;
  • The DGAC report highlights that more than 70% of the US population consumes too many refined grain products. Many of these foods enjoy a lingering health halo or at least a benign reputation, based on years of government guidelines and industry promotion. Recognizing this widespread misunderstanding, the 2015 DGAC report specifies that, “consumption of ‘low-fat’ or ‘nonfat’ productswith high amounts of refined grains and added sugars should be discouraged.” The elimination of the upper limit on total fat would make it easier for industry, restaurants, and the public to increase healthful fats and proteins while reducing refined grains and added sugar.;
  • the Nutrition Facts Panel, separately regulated by the US Food andDrug Administration (FDA), lists percentage daily values for several key nutrients on packaged foods. Remarkably, the Nutrition Facts Panel still uses the older 30% limit on dietary fat, already obsolete for more than a decade. The Nutrition Facts Panel should now be revised to eliminate total fat as well as dietary cholesterol from among the listed nutrients and instead add refined grains and added sugar.;
  • The current restriction on total fat has implications for virtually all aspects of the US diet, including government procurement for offices and the military, meals for the elderly, and guidelines for food assistance programs that together provide 1 in 4 meals consumed in the United States. The focus on total fat also affects other policies and guidelines. For example, the National School Lunch Program recently banned whole milk, but allows sugar-sweetened non-fat milk.;
  • Current National Institutes of Health guidelines on healthy diets for families and children recommend “eat[ing] almost anytime” fat-free creamy salad dressing, trimmed beef or pork, and extra-lean ground beef. Yet it recommends being cautious about eating any vegetables cooked with added fat, nuts, peanut butter, tuna canned in oil, vegetable oils, and olive oil.;
  • the FDA recently issued a warning letter to a manufacturer of minimally processed snack bars, stating that these products could not be marketed as healthy in part due to FDA health claim limits on total and saturated fat, even though the fats in these bars derive predominantly from healthful nuts and other vegetable sources.;
  • Based on years of inaccurate messages about total fat, a 2014 Gallup poll shows that a majority of US residents are still actively trying to avoid dietary fat, while eating far too many refined carbohydrates;
  • The limit on total fat presents an obstacle to sensible change, promoting harmful low-fat foods, undermining attempts to limit intakes of refined starch and added sugar, and discouraging the restaurant and food industry from providing products higher in healthful fats.
  • It is time for the US Department of Agriculture and Department of Health and Human Services to develop the proper signage, public health messages, and other educational efforts to help people understand that limiting total fat does not produce any meaningful health benefits and that increasing healthful fats, including more than 35% of calories , has documented health benefits.