terça-feira, 21 de março de 2017

PODCAST SEMANAL - Toda terça-feira

Os últimos estudos, a revisão crítica das notícias de saúde da semana, respostas às perguntas de leitores - tudo isso você encontrará em nosso podcast semanal.

Toda terça-feira, às 7 da manhã, um novo episódio. 

http://hotmart.net.br/show.html?a=R4021473J&pad=http://emagrecerdevez.com/tribo-forte-031-acucar-causa-diabetes-e-o-maior-experimento-na-saude-publica


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LISTA DE PODCASTS:


Episódio 54 (21/03/2017)




Episódio 53 (14/03/2017)

  • Estudo opiniativo, escrito por membros de uma organização vegetariana, é falsamente divulgado no Brasil como se fosse a opinião oficial do Colégio Americano de Cardiologia;
  • Análise do referido estudo
  • Nova revisão sistemática sobre os benefícios de low carb para infertilidade feminina



Episódio 52 (07/03/2017)

  • Metanálise de dietas de baixo carboidrato para diabetes (quanto menos carboidrato, melhor o resultado)
  • Ensaio clínico randomizado comparando programa ONLINE de dieta low carb versus dieta tradicional para diabetes


Episódio 51

  • Manchete bizarra da semana: duas torradas com manteiga pela manhã duplicam o seu risco de diabetes (por causa da manteiga!!).
  • Leitura crítica do estudo original por trás da manchete bizarra


Episódio 50

  • A indústria do arroz responde às nossas críticas, com argumentos muito fracos
  • Uma dieta sem glúten aumenta seu risco de doenças? Como é que é??
  • Os resultados preliminares de um mega estudo global (estudo PURE): carboidratos associados com aumento da mortalidade, e gordura é protetora.


Episódio 49

  • Quanto tempo demora para nos adaptarmos a uma dieta low carb?
  • Como mudou a dieta da população dos anos 1970 para cá?
  • Pela primeira vez, o Congresso dos EUA ordenaram uma revisão das diretrizes nutricionais; mas o establishment já se mobilizou para impedir 


Episódio 48

  • Café da manhã: tomar ou não tomar?
  • Ensaio clínico: dieta páleo versus dieta da associação americana do diabetes
  • Hipotireoidismo tratado não costuma ser o problema


Episódio 47

  • A falta que o raciocínio lógico faz (ou "como a imprensa pode publicar tanto lixo em uma única semana??):
  • Arroz para o tratamento do diabetes??
  • Batata frita é mais saudável do que a cozida??
  • Pão torrado dá câncer??


Episódio 46

  • Depressão e inflamação
  • Não seja ingênuo com relação à mídia (precisa de ceticismo)
  • CUIDADO com conclusões precipitadas em relação aos seus exames (eles podem se alterar até mesmo por flutuações aleatórias)


Episódio 45

  • A lentidão glacial das mudanças nas diretrizes alimentares
  • Artigo de Jason Fung sobre gordura no fígado (esteatose)
  • Mais um ensaio clínico randomizado sobre redução de carboidratos no manejo da esteatose
  • Artigo no San Francisco Chronicle sobre a volta da gordura na dieta dos americanos


Episódio 44

  • Com a participação de Paty Ayres
  • O ridículo ranking das melhores e piores dietas
  • Papo sobre jejum


Episódio 43

  • Em quantidades iguais, açúcar é pior do que amido (ensaio clínico randomizado)
  • Estudo (revisão) tenta dizer que o açúcar não é problema - e o New York Times mostra que o estudo é constrangedoramente ligado à indústria alimentícia
  • Pizza pode ser considerada um vegetal??


Episódio 42

  • XYZ quebra o jejum? And does it matter?
  • Novo livro de Gary Taubes sobre o açúcar (The Case Against Sugar)
  • O excesso na indicação das estatinas


Episódio 41

  • Exercícios em jejum?
  • Ensaio clínico randomizado: óleo de coco versus óleo de milho em pacientes de alto risco
  • Metanálise sobre consumo de ovos e risco cardiovascular


Episódio 40

  • O que há de comum entre diferentes dietas saudáveis? Não é a quantidade de carboidratos, e sim a QUALIDADE dos alimentos: é a retirada das porcarias e dos alimentos processados que faz a diferença
  • Até onde as calorias importam?
  • Pesquisadores criticam abertamente o estudo de Harvard aludido no episódio 39


Episódio 39

  • Mais um estudo epidemiológico de Harvard, confundindo associação e causa e efeito.
  • Ensaio clínico randomizado: 1000 calorias a menos, sem nem mesmo tentar: low carb.


Episódio 38

  • Low carb produz perda de massa muscular?
  • Estudo peer reviewed indicando melhora de Hashimoto com low carb
  • Estilo de vida pode reduzir em 50% o risco cardiovascular de pessoas com genética desfavorável


Episódio 37 (15/11/2016)

  • Evento histórico low carb /TF em São Paulo
  • Reversão de pré-diabetes com low carb moderada: ensaio cínico randomizado
  • LCHF e vegetarianismo?
  • Insulina para diabetes tipoo 2 não impacta as complicações
  • Inflamação e depressão
  • HDL
  • Existe uma dieta saudável para todo mundo?
  • Gordura saturada e câncer de próstata?


Episódio 33 (18/10/2016)
Neste episódio:

  • Taxação dos refrigerantes
  • Prêmio Nobel de medicina 2016: autofagia (algo que ocorre durante o jejum)
  • Editorial do JAMA: está na hora de admitir que low fat foi um grande erro.


Episódio 32
Neste episódio:

  • Colesterol alto em low carb
  • Estudo em roedores, sugerindo que o melhor para a nossa saúde seria "o oposto de páleo". Será?


Episódio 31(04/10/2016)
Neste episódio

  • Um novo mecanismo que ajuda a explicar porque o açúcar é pior do que os demais carboidratos, e envolvido na gênese do diabetes tipo 2.
  • Novo e espetacular editorial do JAMA, a revista da Associação Médica Americana, sugerindo que está na hora de admitir que a dieta de baixa gordura foi um grande erro. 


Episódio 30 (27/09/2016)
Neste episódio
  • Tireoide e low carb
  • A escandalosa revelação de que pessoas envolvidas no desenvolvimento das diretrizes vigentes foram compradas pela indústria do açúcar, décadas atrás, com o objetivo de culpar a gordura, e desviar o foco dos carboidrtaos.

Episódio 29
Neste episódio:
  • Quebrando 7 grandes mitos sobre low carb

Episódio 28
Neste episódio:
  • Entrevista com Dr. Thomas Seyfried sobre câncer como uma doença metabólica

Episódio 27 (06/09/2016)
Neste episódio

  • Erros comuns de que está começando


Episódio 26 (30/08/2016)
Neste episódio:

  • Impacto do sono
  • Diferença entre comer pouco passando fome versus por falta de fome


Episódio 25 (23/08/2016)
Neste episódio

  • Super-alimentos?
  • Low carb piora o seu humor, ou seria o contrário?
  • Glicemia e suas variações


Episódio 24 (16/08/2016)
Neste episódio

  • Faço tudo certo, mas não perco peso
  • 4 pilares de uma alimentação low carb bem feita


Episódio 23 (09/08/2016)
Neste episódio

  • Participação da Paty Ayres
  • Aspectos emocionais da alimentação


Episódio 22 (02/08/2016)
Neste episódio
  • Resistência a insulina
  • Como saber se você está em cetose? E, afinal, isso tem alguma importância?
  • Será que só queimamos gordura quando estamos em cetose?

Episódio 21 (26/07/2016)
Neste episódio

  • Macarrão ajuda a emagrecer?
  • Harvard novamente extraindo confissões dos mesmos estudos observacionais (gorduras saturadas; de novo...);
  • Estudos observacionais versus ensaios clínicos - não caia na falácia da confusão entre causa versus associação.


Episódio 20 (19/07/2016)
Neste episódio

  • Low carb e exercício, com Lara Nesteruk



Episódio 19 (12/07/2016)
Neste episódio

  • Laticínios, lactose, queijo, iogurte, etc.



Episódio 18 (04/07/2016)
Neste episódio




Episódio 17 (28/06/2016)
Neste episódio:

  • Amido resistente, pré-bióticos, probióticos
  • Bacon
  • Uma TORNEIRA no estômago??


Episódio 16 (21/06/16)
Neste episódio

  • Entrevista com Hilton Souza, do blog http://www.paleodiario.com/
  • Como Hilton, que é estudante de nutrição, convive com a consenso nutricional vigente no meio acadêmico?



Episódio 15 (14/06/16)
Neste episódio

  • Consumo de sal
  • Medicamentos para emagrecer
  • Beber líquidos durante a refeição
  • Como ganhar peso com este estilo de alimentação?


Episódio 14 (07/06/16)
Neste episódio:

  • O relatório do Fórum Nacional da Obesidade, do Reino Unido: "Coma gordura, corte carboidratos e evite lanchar entre as refeições para reverter obesidade e diabetes tipo 2"
  • Clique aqui se quiser ler a íntegra traduzida, e as repercussões na Inglaterra.


Episódio 13 (31/05/16)
Neste episódio:

Episódio 12
Neste episódio

  • A resistência dogmática às mudanças baseadas em evidência científica - comentários sobre um artigo do Dr. David Ludwig.
  • Estudos e especulações sobre low carb e câncer.


Episódio 11 (com videocast)
Neste episódio

  • Entrevista com o maior especialista em jejum intermitente, o médico canadense Jason Fung, autor do livro The Obesity Code. Videocast LEGENDADO.

Episódio 10 (com videocast)
Neste décimo episódio:

  • Participação da nutricionista Polyana Freitas, do blog nutridaspanelas.blogspot.com.br
  • Dificuldades e soluções na implementação de low carb. 
  • Episódio disponível também em vídeo. 

Episódio 9
Neste nono episódio:

  • Mais discussão sobre a dissociação entre as diretrizes nutricionais e a ciência atual
  • Alzheimer e resistência à insulina
  • Ferritina alta versus dieta


Episódio 8
Neste oitavo episódio:

  • A Conspiração do Açúcar: como é possível que a ciência da nutrição possa ter estado TÃO errada por tanto tempo? Texto publicado no jornal britânico The Guardian demonstra que não foi apenas um acidente de percurso - houve desinformação e até mesmo assassinato de reputações em um processo deliberado de defesa de diretrizes cientificamente natimortas.
  • Na mesma linha: houve um ensaio clínico randomizado feito HÁ MAIS DE 40 ANOS, com mais de 9 mil pacientes, provando que a substituição da manteiga por óleo de milho AUMENTA o risco cardiovascular. Os detalhes deste estudo foram ocultados até a semana passada. A supressão da verdade foi deliberada.


Episódio 7
Neste sétimo episódio:

  • Doença do Cacto na dieta Páleo? É verdade de uma dieta páleo estrita pode produzir espinhos nas suas mãos?
  • O leite, os laticínios integrais e a gordura

Episódio 6
Neste sexto episódio:
  • Será verdade que uma dieta paleolítica pode levar à terrível doença do cacto, com o surgimento de espinhos nas mãos?
  • Dicas não alimentares para o sucesso na perda de peso 

Episódio 5
Neste quinto podcast:

  • Cálculos renais e low carb.
  • pH e ossos


Episódio 4
Neste quarto podcast:

Episódio 3
Neste terceiro podcast:



Episódio 2
Neste segundo podcast:



Episódio 1

Para acessar, clique aqui.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia Mundial do Rim

Hoje é o Dia Mundial do Rim. Para celebrar a data, a Sociedade Mineira de Nefrologia lançou um vídeo, que me foi enviado pelo Dr. José Neto, diretor científico daquela sociedade.

Abaixo, o vídeo da SMN:


Quem estiver com pressa, vá direto à posição 2' 18'', a partir da qual o Dr. José Neto explica que as principais causas de doença renal são

  • Hipertensão;
  • Diabetes;
  • Obesidade, a tônica da campanha este ano (pois acaba gerando as outras duas)
A ênfase deve ser na PREVENÇÃO. E o Dr. Neto sugere 5 passos nesse sentido:
  1. Boa alimentação: "comida de verdade, com o mínimo de açúcar e de farináceos";
  2. hidratação com água, e não com sucos e refrigerantes (açúcar);
  3. Atividade física regular;
  4. Cuidado com automedicação (anti-inflamatórios);
  5. Controle do stress;

***

Evitar o açúcar e os farináceos não é apenas uma questão de vaidade; é essencial para a sua saúde. 
Leia também:

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Estudo PURE: novas evidências sobre alimentação e saúde

Semana passada, na tarde do dia 12 de fevereiro de 2017, o cardiologista Dr. Salim Yusuf, fez uma apresentação memorável em um simpósio de cardiologia em Davos, Suíça.

O Dr. Yusuf é o chefe de medicina cardiovascular na McMaster University, Canadá, e presidente da Federação Mundial de Cardiologia.

Ele é o investigador principal do maior e mais amplo estudo epidemiológico sobre as causas das doenças cardiovasculares - o PURE Study (Prospective Urban and Rural Epidemiological Study), que segue de forma prospectiva mais de 150 mil pessoas em 17 países de renda baixa, média e alta, e que está expandindo para ainda mais países e mais de 200 mil pessoas.

Com isso em mente, por favor reserve 20 minutos do seu tempo e assista à palestra do Dr. Yusuf (em inglês, por ora sem legendas):

https://www.facebook.com/emagrecerdevez/videos/1551218898229200/

  • Envie o vídeo para profissionais de saúde.
  • Se você é profissional da saúde, mande para seus colegas.


P.S.: Sim, é um estudo epidemiológico, e não um ensaio clínico randomizado. Sim, isso significa que possui todas as limitações dos estudos não randomizados. Mas vamos relembrar um ponto importante, sobre o qual já escrevi no passado:

"Quando uma coisa efetivamente CAUSA a outra, obrigatoriamente haverá também uma associação entre elas. Ou seja, a associação não implica necessariamente que haja relação de causa e efeito, mas a relação de causa e efeito, quando de fato existe, evidentemente engendra a existência de uma associação.
Corolário lógico? A ausência de associação entre variáveis, mesmo em estudo observacional, sugere fortemente a inexistência de uma relação de causa e efeito entre elas.
Entenda: correlação não implica necessariamente causalidade, mas causalidade implica necessariamente correlação. Assim, a AUSÊNCIA de correlação efetivamente REFUTA a existência de causalidade.
Em bom português: não há como gordura ser uma CAUSA de doença cardiovascular e, ao mesmo tempo, não estar associada com doença cardiovascular em dezenas de estudos epidemiológicos."

Assim, o fato de o estudo PURE indicar uma importante associação positiva entre o consumo de carboidratos e doenças cardiovasculares bem como uma associação inversa entre o consumo de gorduras e doenças cardiovasculares não implica necessariamente que carboidratos causem doença cardíaca ou que gordura proteja contra doença cardíaca. CONTUDO, se gordura FOSSE a causa das doenças cardiovasculares, não poderia ao mesmo tempo estar INVERSAMENTE associada às mesmas. Se FOSSE saudável consumir 60% de carboidratos, se isso fosse PROTETOR contra doença cardíaca, não seria possível que o consumo de carboidratos estivesse associado a AUMENTO do risco na coorte.

Em 2017, você pode alegar que não gosta da abordagem low carb; que acha restritiva; que acha que não é sustentável. Essas são questões de opinião, e se prestam a debates bizantinos. Eu discordo, mas eu entendo. Mas, em 2017, alegar que não é eficaz (contra dezenas de ensaios clínicos randomizados) ou que não deveria ser feita em virtude do fato de reduzir os carboidratos e aumentar, proporcionalmente, as gorduras dietéticas é, oficialmente, irracional.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ainda sobre arroz e diabetes

Há poucas semanas, escrevi aqui sobre o lamentável fato de que um hospital universitário de Porto Alegre tenha permitido que uma entidade que representa a cadeia produtiva do arroz fizesse campanha dentro da instituição afirmando que o arroz (glicose) poderia auxiliar no tratamento do diabetes (intolerância à glicose).

Tomei conhecimento de que a entidade publicou uma resposta em seu site. O texto contém os seguintes trechos relevantes:

"A partir de citações recentemente divulgadas em redes sociais que apontam o arroz como alimento não adequado a diabéticos, viemos por meio deste apresentar, com base em estudos e artigos científicos, que este cereal possui moderado índice glicêmico entre outras qualidades e sempre que consumido em quantidades orientadas não agrava a condição do diabético. "
Vejamos:
  • O texto não elenca NENHUM estudo científico.
  • O índice glicêmico do arroz é elevadíssimo. O arroz branco tem índice glicêmico próximo de 100. Você pode conferir aqui: http://www.glycemicindex.com/
  • Além disso, a CARGA glicêmica do arroz é alta, mesmo quando suas versões integrais têm índice glicêmico um pouco menor --> continua sendo glicose.
  • A última parte do parágrafo deve ser repetida: "sempre que consumido em quantidades orientadas não agrava a condição do diabético." --> mas VEJA: a campanha NÃO dizia isso! A campanha dizia "Arroz é saúde: auxilia no tratamento do diabetes". Não conheço nenhum ensaio clínico randomizado que tenha demonstrado que o ACRÉSCIMO de arroz à dieta de um diabético MELHORE os desfechos. Dizer que pequenas quantidades de glicose (arroz) NÃO AGRAVAM a condição do diabético é MUITO diferente de dizer que alimentar-se com glicose quase pura AUXILIA no tratamento do diabetes. A campanha está ERRADA, e o correto seria simplesmente admitir isso.

Mais um trecho:
"A ingestão dietética de carboidratos para pessoas com diabetes segue recomendações semelhantes às definidas para a população em geral, respeitando concentrações entre 45 e 60% do requerimento energético. Embora o carboidrato seja um importante preditor da glicemia pós-prandial, os alimentos que contêm esse nutriente são também fontes importantes de energia, fibra, vitaminas e minerais, contribuindo ainda com a palatabilidade da dieta."
Vejamos

  •  "Embora o carboidrato seja um importante preditor da glicemia pós-prandial, os alimentos que contêm esse nutriente são também fontes importantes de energia, fibra, vitaminas e minerais". Vamos traduzir: --> Embora a pessoa com diabetes seja diagnosticada justamente pelo fato de que, ao consumir alimentos como arroz, sua glicemia passa de 200 em duas horas, as pessoas com diabetes deveriam comer arroz? Por quê? Porque arroz é fonte de energia (peixe, frango e ovos também são, mas não alteram a glicemia); porque é fonte de fibra (couve e espinafre também, mas não aumentam a glicemia); porque é fonte de vitaminas (vegetais de baixo amido também, mas não aumentam a glicemia). E nem vamos entrar na questão da POBREZA nutricional do arroz (péssima fonte de qualquer coisa que não seja amido)
  • "contribuindo ainda com a palatabilidade da dieta". --> Vejamos: arroz é amido. Amido é glicose. Glicose na dieta deve ser evitado por pessoas com intolerância à glicose (que é sinônimo de diabetes, quando tal intolerância é mais grave); de que forma afirmar que o gosto é bom justificaria seu uso nessa situação? Se sim, porque não açúcar? 
  • Enfim, se o arroz (e coisas nutricionalmente semelhantes, como batata, polenta, mingau de aveia, pão ou açúcar mascavo) fossem as únicas fontes disponíveis de energia, fibra, vitaminas ou minerais, a solução seria medicar o diabético para que ele tolerasse um pouco melhor o excesso de glicose que o adoece, e torcer para que as amputações, cegueira e infartos demorassem um pouco mais a chegar. Mas não são. Há muitos alimentos muito mais ricos em "energia, fibra, vitaminas e minerais", e que não são compostos fundamentalmente de glicose.
  • Finalmente, vamos à seguinte afirmação: "A ingestão dietética de carboidratos para pessoas com diabetes segue recomendações semelhantes às definidas para a população em geral, respeitando concentrações entre 45 e 60% do requerimento energético". O fato de que, efetivamente, as diretrizes vigentes afirmam isso é embaraçoso e, de fato, não é um motivo para recomendar arroz para diabéticos, e sim para questionar veementemente as diretrizes. Primeiramente, vamos deixar claro que as diretrizes não recomendam consumir alimentos de alto índice glicêmico (como o arroz) para AUXILIAR no tratamento do diabetes. Elas partem de premissas errôneas (de que as pessoas precisariam consumir uma quantidade maior de carboidratos do que realmente precisam) e tentam então LIMITAR O DANO causado por estes carboidratos (usando suas versões de menor índice glicêmico, por exemplo, e estimulando o exercício físico). No entanto, este blog se pauta por evidência, ou seja, pelos ESTUDOS, que mostram que restrições maiores de carboidratos produzem melhores desfechos. Para uma revisão que pode lhe levar aos estudos em questão, clique aqui.
Mas aqui, vou reproduzir um artigo publicado no site da clínica Joslin em 2015. A Joslin é maior centro mundial para a pesquisa e tratamento da diabetes, em Boston, Massachusetts, uma instituição afiliada à Universidade de Harvard. O texto original pode ser lido aqui.

Revolução na Nutrição: O Fim da Era de Alto Carboidrato para a Prevenção e Manejo do Diabetes Tipo 2.

"Em 1977, o Comitê Especial de Nutrição e Necessidades Humanas do Senado dos EUA recomendou que as pessoas aumentassem seu consumo de carboidratos para 55 a 60% de suas calorias, reduzindo ao mesmo tempo o consumo de gordura de 40 para 30% das calorias totais. O objetivo destas recomendações era reduzir os crescentes gastos com saúde e maximizar a qualidade de vida dos americanos, como explicou o senador George McGovern, o presidente daquela comissão.

A suposta redução de custos seria o resultado de uma possível redução na incidência de doença cardíaca, câncer e derrames, assim como de outras doenças letais. A despeito de controvérsias sobre fato de que tais recomendações eram baseadas em evidências científicas fracas, o Departamento Americano de Agricultura (USDA) criou em 1980 uma pirâmide alimentar para representar o que seria o número ótimo de porções a ser consumido a cada dia, de cada um dos grupos alimentares básicos. Os carboidratos foram colocados na base da pirâmide (perfazendo a maior porção da ingestão calórica - 6 a 11 porções por dia), e as gorduras foram relegadas ao ápice da pirâmide, a fim de mostrar que deveriam ser consumidas em pouca quantidade.


O que foi descrito corretamente como um "experimento nutricional em âmbito nacional"contribuiu, como agora sabemos, para aumentar a prevalência da obesidade. E, contrariamente aos principais objetivos das recomendações, a prevalências do diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares também aumentou significativamente.

Por que isso aconteceu? Fisiologicamente, um aumento no consumo de carboidratos resulta em um aumento da resposta da INSULINA aos carboidratos e, devido à ação promotora do armazenamento de gordura deste hormônio, promove a obesidade. E, como já foi demonstrado, este acúmulo de gordura abdominal ("gordura visceral") está associado com inflamação crônica, que é diretamente ligada à diabetes tipo 2 e ataques cardíacos.

"um aumento no consumo de carboidratos resulta em um aumento da resposta da INSULINA aos carboidratos e, devido à ação promotora do armazenamento de gordura deste hormônio, promove a obesidade. E, como já foi demonstrado, este acúmulo de gordura abdominal ("gordura visceral") está associado com inflamação crônica, que é diretamente ligada à diabetes tipo 2 e ataques cardíacos."

O problema é igualmente ruim para aquelas pessoas que já são portadoras de diabetes tipo 2. Hoje nós sabemos que aumentar a quantidade de carboidratos na dieta de um diabético aumenta a chamada toxicidade da glicose (ou "glicotoxicidade") e, consequentemente, aumenta a resistência à insulina, os triglicerídeos e reduz o benéfico HDL.


"Hoje nós sabemos que aumentar a quantidade de carboidratos na dieta de um diabético aumenta a chamada toxicidade da glicose (ou "glicotoxicidade") e, consequentemente, aumenta a resistência à insulina, os triglicerídeos e reduz o benéfico HDL."

No início do século 20 (portanto muito antes das recomendações do USDA representados na pirâmide alimentar), aquilo que hoje conhecemos como diabetes tipo 2 era predominantemente definido como uma doença de intolerância os carboidratos, e era tratado fundamentalmente através da redução dos carboidratos. A restrição dos carboidratos era uma forma particularmente bem sucedida de tratar o diabetes antes da descoberta da insulinaOs Drs. Elliot P. Joslin e Frederick Allen, os pais da ciência do diabetes, tratavam com sucesso seus pacientes diagnosticados com "diabetes gorda" (mais tarde conhecida como diabetes tipo 2) com uma dieta de muito baixo carboidrato ("very low carb diet"). Hoje, a dieta de Joslin seria considerada excêntrica, como se pode ver pela reação da comunidade médica à Dieta Atkins, que nada mais é do que a sua reencarnação.

"Hoje, a dieta de Joslin seria considerada excêntrica, como se pode ver pela reação da comunidade médica à Dieta Atkins, que nada mais é do que a sua reencarnação."

Tal redução extrema dos carboidratos, embora fosse altamente bem sucedida em tratar o diabetes tipo 2 antes da descoberta da insulina, era associada a alguns efeitos colaterais desconfortáveis, tais como constipação, dor de cabeça, mau hálito e cãibras. Mas, embora a recomendação quanto à quantidade de carboidratos tivesse sido um pouco afrouxada após a descoberta da insulina em 1922, tal recomendação nunca excedeu 40% das calorias, uma quantidade que já demonstrava reduções na glicemia e nos triglicerídeos. Assim, foi um grande absurdo o fato de que, quando as recomendações do USDA foram publicadas, várias sociedades médicas passaram a recomendar um aumento dos carboidratos e uma redução do consumo de gordura para os pacientes com diabetes.

"(...) foi um grande absurdo o fato de que, quando as recomendações do USDA foram publicadas, várias sociedades médicas passaram a recomendar um aumento dos carboidratos e uma redução do consumo de gordura para os pacientes com diabetes."

Desde 2003, muitos ensaios clínicos confirmaram que reduzir os carboidratos é superior à reduzir as gorduras, tanto na redução do peso, quanto em melhorar o controle da glicose. Também foi demonstrado que reduzir os carboidratos em pacientes com diabetes tipo 2 melhora a sensibilidade dos mesmos à sua própria insulina, reduz a gordura abdominal, os triglicerídeos, e aumenta o HDL (colesterol "bom").

"Desde 2003, muitos ensaios clínicos confirmaram que reduzir os carboidratos é superior à reduzir as gorduras, tanto na redução do peso, quanto em melhorar o controle da glicose. Também foi demonstrado que reduzir os carboidratos em pacientes com diabetes tipo 2 melhora a sensibilidade dos mesmos à sua própria insulina, reduz a gordura abdominal, os triglicerídeos, e aumenta o HDL (colesterol "bom")."

Recentemente uma análise de vários estudos (metanálise) mostrou que reduzir a carga glicêmica (quantidade de glicose) e o índice glicêmico (o efeito de um determinado alimento na glicemia) estava associado com uma redução no risco de desenvolver diabetes tipo 2. Após a redução do peso, manter uma dieta com redução de alimentos de alto índice glicêmico e com mais proteína demonstrou ser uma estratégia superior em manter a perda de peso já atingida, por um tempo maior do que qualquer outra composição de dieta.
(...) 
Recentemente, a maior parte das sociedades médicas afastou-se das recomendações de alto consumo de carboidratos e passaram a recomendar a individualização das necessidades nutricionais. Na Clínica Joslin nós temos prova de que esta é uma decisão acertada. Desde 2005 nós temos seguido a diretrizes Joslin para manejo do peso (N.T.: redução de carboidratos). Os 44 grupos de pacientes com diabetes tipo 2 que passaram pelo programa e seguiram as diretrizes Joslin perderam um total de 5 mil quilos, melhoram seu controle do diabetes e cortaram significativamente sua necessidade de medicamentos.

"Recentemente, a maior parte das sociedades médicas afastou-se das recomendações de alto consumo de carboidratos (...)"

Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas em todo o país ainda recomendam uma dieta de alto carboidrato para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode prejudicá-los e contribuir para o aumento de sua obesidade e piora do controle de seu diabetes, consequentemente aumentando sua chance de vir a desenvolver complicações da doença no futuro.

"Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas em todo o país ainda recomendam uma dieta de alto carboidrato para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode prejudicá-los e contribuir para o aumento de sua obesidade e piora do controle de seu diabetes, consequentemente aumentando sua chance de vir a desenvolver complicações da doença no futuro."

Agora está CLARO que um GRANDE ERRO foi cometido nos anos 1970 quando se recomendou um aumento dos carboidratos para mais de 40% das calorias totais. Este período precisa terminar, se nós realmente queremos reduzir a epidemia de obesidade e de diabetes tipo 2."

References:

1- U. S. Government Printing Office: Stock No. 052-070-03913-2/catalog No. Y 4.N95:D 63/3 accessed at http://zerodisease.com/archive/Dietary_Goals_For_The_United_States.pdf

2- U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services. Nutrition and Your Health: Dietary Guidelines for Americans. Home and Garden Bulletin No. 232, 1980.

3- Flegal KM1, Carroll MD, Kuczmarski RJ, Johnson CL. Overweight and obesity in the United States: prevalence and trends, 1960-1994. Int J Obes Relat Metab Disord. 1998;22(1):39-47.

4- Hedley AA1, Ogden CL, Johnson CL, Carroll MD, Curtin LR, Flegal KM Prevalence of overweight and obesity among US children, adolescents, and adults, 1999-2002. JAMA. 2004;291(23):2847-50.

5- Flegal KM1, Carroll MD, Kit BK, Ogden CL. Prevalence of obesity and trends in the distribution of body mass index among US adults, 1999-2010. JAMA. 2012;307(5):491-7.

6- Aldhahi W, Hamdy O. Adipokines, inflammation, and the endothelium in diabetes. Curr Diab Rep. 2003;3(4):293-8.

7- Osler W & McCrae T, The Principles and Practice of Medicine, 1923; Westman EC, Perspect Biol Med, 2006

8- Yancy WS Jr1, Olsen MK, Guyton JR, Bakst RP, Westman EC. A low-carbohydrate, ketogenic diet versus a low-fat diet to treat obesity and hyperlipidemia: a randomized, controlled trial. Ann Intern Med. 2004;140(10):769-77.

9- Gannon MC1, Nuttall FQ, Saeed A, Jordan K, Hoover H. An increase in dietary protein improves the blood glucose response in persons with type 2 diabetes. Am J Clin Nutr. 2003;78(4):734-41.

10- Foster GD, Wyatt HR, Hill JO, McGuckin BG, Brill C, Mohammed BS, Szapary PO, Rader DJ, Edman JS, Klein S. A randomized trial of a low-carbohydrate diet for obesity.

N Engl J Med. 2003;348(21):2082-90.

11- Stern L, Iqbal N, Seshadri P, Chicano KL, Daily DA, McGrory J, Williams M, Gracely EJ, Samaha FF. The effects of low-carbohydrate versus conventional weight loss diets in severely obese adults: one-year follow-up of a randomized trial. Ann Intern Med. 2004;140(10):778-85.

12- Gardner CD, Kiazand A, Alhassan S, Kim S, Stafford RS, Balise RR, Kraemer HC, King AC. Comparison of the Atkins, Zone, Ornish, and LEARN diets for change in weight and related risk factors among overweight premenopausal women: the A TO Z Weight Loss Study: a randomized trial. JAMA. 2007;297(9):969-77.

13- Miyashita Y1, Koide N, Ohtsuka M, Ozaki H, Itoh Y, Oyama T, Uetake T, Ariga K, Shirai K. Beneficial effect of low carbohydrate in low calorie diets on visceral fat reduction in type 2 diabetic patients with obesity. Diabetes Res Clin Pract. 2004;65(3):235-41.

14- Larsen TM1, Dalskov SM, van Baak M, Jebb SA, Papadaki A, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunešová M, Pihlsgård M, Stender S, Holst C, Saris WH, Astrup A; Diet, Obesity, and Genes (Diogenes) Project. Diets with high or low protein content and glycemic index for weight-loss maintenance. N Engl J Med. 2010;363(22):2102-13. doi: 10.1056/NEJMoa1007137.

15- Ludwig DS. Clinical update: the low-glycaemic-index diet.Lancet. 2007;369(9565):890-2.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

AHA 1995: comam mais açúcar para comer menos gordura

Recentemente, conversando com colegas médicos, surgiu por parte dos mesmos a ideia de que as pessoas passaram a consumir muito açúcar e carboidratos refinados por força de uma má interpretação das diretrizes nutricionais. Ou seja, embora meus colegas também achassem que a ênfase em reduzir a gordura na dieta fora equivocada, afirmavam que "nunca se disse que as pessoas deveriam consumir açúcar e farinha refinada" no seu lugar. Será mesmo?

O problema é que a memória nos trai. Embora o passado molde muito das nossas atitudes presentes, nossas lembranças são editadas pelo cérebro à luz do que hoje sabemos, e determinadas coisas parecem jamais ter acontecido. Felizmente, em tempos de internet, as fontes primárias podem ser garimpadas. Esta pérola foi tuitada pela jornalista australiana Maryanne Demasi:



O documento da Associação Americana de Cardiologia, de 1995, é intitulado "Um plano alimentar para americanos saudáveis".

Ali, se lê:

"Para controlar a quantidade e o tipo de gordura, gorduras saturadas e colesterol da dieta, você deve comer:"


  • Frutas e SUCOS DE FRUTA
  • Vegetais crus e MOLHOS LOW FAT (ou seja, high carb)
  • BISCOITOS LOW FAT (muito açúcar e farinha)
  • BISCOITOS SALGADOS LOW FAT (muita farinha)
  • PIPOCA SEM MANTEIGA E SEM SAL
  • PRETZELS SEM SAL
  • BALAS DURAS, BALAS DE GOMA
  • AÇÚCAR, XAROPE, MEL, GELEIA, GELATINA, DOCES DO TIPO GOIABADA / MARMELADA
E, para beber, a primeira escolha é:
  • SUCOS DE FRUTAS
  • Outra opções: REFRIGERANTES.

Sim, é chocante. E não faz tanto tempo assim. Eu já era formado há 2 anos quando essa cartilha circulou em 1995. Toda essa geração de médicos teve como ÚNICA formação nutricional este tipo de informação. Depois, foram estudar suas respectivas especialidades, e continuaram propagando permutações dessa cartilha, pois foi o que aprenderam. 

Foi justamente a esse propósito que o Dr. David Ludwig publicou, ano passado, editorial na revista científica JAMA, cuja íntegra pode ser vista aqui.

Naquele editorial, o Dr Ludwig diz:
  • Pesquisas recentes sugerem que o foco na redução da gordura dietética contribuiu diretamente para o fardo crescente de doenças crônicas.
  • De particular importância, os principais estudos de dieta com baixo teor de gordura, como os ensaios clínicos randomizados Women's Health Initiative e Look Ahead, não conseguiram reduzir o risco de doença cardíaca, apesar do uso de intervenções de baixa intensidade no grupo controle. Em contraste, o estudo PREDIMED foi encerrado precocemente quando a incidência de doença cardiovascular diminuiu mais rapidamente do que o esperado nos grupos de dieta com maior teor de gordura em comparação com o grupo controle com baixo teor de gordura (low fat).
  • Estudos preliminares sugerem que a redução da secreção de insulina em dietas com baixo índice de carboidratos e baixo índice glicêmico pode atenuar [a fome e a redução do metabolismo característicos das dietas de restrição calórica simples], facilitando a manutenção da perda de peso a longo prazo e reduzindo as doenças associadas à hiperinsulinemia (modelo carboidratos-insulina).
  • O foco na substituição da gordura dietética por carboidratos não atingiu os objetivos de saúde pública pretendidos e, sem dúvida, causou danos, mas esses resultados adversos não foram claramente e consistentemente reconhecidos [pela comunidade médica e acadêmica]. Consequentemente, muitas pessoas nos Estados Unidos ainda evitam ativamente comer gordura. De fato, a política nacional de nutrição continua promovendo a redução de gordura nas escolas (por exemplo, proibindo o leite integral e permitindo o leite achocolate desnatado adoçado com açúcar), nos programas governamentais de aquisição de alimentos e na linha de "gordura total" na tabela nutricional dos alimentos. De acordo com um relatório recente sobre a indústria do açúcar, os efeitos cardiovasculares adversos do açúcar adicionado permanecem amplamente sub-reconhecidos por causa de um programa de pesquisa patrocinado pela indústria nos anos 1960 e 1970 "que lançou com êxito dúvidas sobre os perigos da sacarose, promovendo gordura como culpado dietético na cardiopatia coronariana".
  • Alguns especialistas sustentam que há muito tempo já existe consenso sobre os componentes de uma dieta saudável; que a recomendação de dieta de baixo teor de gordura sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados adversos deve recair sobre a indústria alimentícia, por comercializar alimentos insalubres, com baixo teor de gordura, processados; e sobre o público por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), explicitamente por causa de sua menor densidade energética do que a gordura; a ênfase da pirâmide alimentar em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa.
O trecho mais importante deste editorial é o seguinte: "Alguns especialistas sustentam (...) que a recomendação de dieta low fat sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados aversos deve recair sobre a indústria alimentícia (...) e sobre o público, por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), (...) a ênfase da pirâmide em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa."

Se alguém tinha dúvida de que isso realmente aconteceu, reveja o panfleto da AHA, no início dessa postagem.

A culpa não é das pessoas; elas apenas seguiram as diretrizes.

Leituras adicionais para essa postagem:

domingo, 29 de janeiro de 2017

Arroz para diabetes?

Cerca de 10 dias atrás, uma colega endocrinologista enviou-me, pelo WhatsApp, uma foto:



Ela estava exasperada. Eu, nem tanto, pois a ganância há muito já recrutou a ignorância a seu favor. Mas então eu li o resto da mensagem: a foto estava sendo enviada, ao vivo, da mesa do refeitório de um grande hospital universitário de Porto Alegre. Como é possível?

Veja, a placa em questão não esconde em nenhum momento que trata-se de peça publicitária. Está ali, em baixo, o logotipo de um Instituto cuja função é promover a produção e o comércio do arroz. Mas que um hospital universitário permita isso em seu refeitório, é outra história. Isso confere um aparente verniz de verdade sobre a afirmação "arroz: auxilia no tratamento da diabetes".

Já escrevi sobre diabetes em outra postagem. Vamos nos focar especificamente na questão arroz e diabetes.

Qual a composição do arroz?

Arroz é uma das formas mais puras de amido disponível na alimentação humana. Não difere muito nem mesmo da farinha de trigo refinada (mas nem mesmo a farinha branca de trigo contém tanta glicose):
Dados para arroz branco, cozido


Como se vê, é praticamente PURO amido, com uma quantidade homeopática de outras coisas.

E o que é amido?

Amido é glicose, na forma de um polímero. Quando várias moléculas de glicose são unidas umas às outras (por um tipo de ligação covalente chamada de ligação glicosídica), a isto chama-se AMIDO. Sob pena de ser repetitivo: AMIDO é GLICOSE em sua forma PURA.

Isso é glicose: 

Isto é amido:

Para quem não gosta de química: faça de conta que cada tijolo de Lego na foto abaixo é uma molécula de glicose:

Então, a foto abaixo (um "polímero" de Legos) seria o amido:

Eu imagino que não escape à percepção da maioria das pessoas que esta pequena estrutura feita de vários tijolinhos de Lego pode, fácil e rapidamente, ser transformada em tijolinhos individuais de lego. Do ponto de vista fisiológico, não há diferença entre consumir glicose pura ou amido. Amido É GLICOSE PURA! A única diferença é de natureza gustativa e culinária, não fisiológica!! Os tijolinhos de lego não se transformam em outra coisa quando são ligados uns aos outros. Quando a estrutura é desmontada (o que, no nosso corpo, chama-se digestão), os tijolinhos voltam a ser tijolinhos individuais, indistinguíveis daqueles que nunca fizeram parte de um amido antes. 

Como se diagnostica o diabetes?
1) glicemia de jejum > 126 mg/dl (jejum de 8 horas)
2) glicemia casual (colhida em qualquer horário do dia, independente da última refeição realizada (> 200 mg/dl em paciente com sintomas característicos de diabetes.
3) glicemia > 200 mg/dl duas horas após sobrecarga oral de 75 gramas de glicose.

Vamos nos focar no item 3. Se dermos 75 de glicose para uma pessoa, e sua glicemia estiver acima de 200 após 2 horas (este exame chama-se curva glicêmica ou teste de tolerância oral à glicose), isto caracteriza diabetes. Então, qual seria uma forma de dar 75 gramas de glicose para uma pessoa, na forma de comida?
Que tal 300g de arroz? Não apenas arroz é praticamente amido puro, mas seu índice glicêmico é elevadíssimo. A glicemia de uma pessoa elevar-se-ia mais e mais rapidamente com 75 de glicose na forma de arroz (ou seja, 300g de arroz cozido, visto que a maior parte do mesmo é água) do que com 75 de açúcar puro, retirado do açucareiro.

Então, vamos ver se conseguimos entender:

  1. Existe uma doença chamada diabetes, caracterizada por níveis extremos de intolerância à glicose;
  2. Isto pode ser verificado em um exame chamado de Teste de Tolerância Oral à Glicose;
  3. Neste teste, uma pessoa que consumir 75g de glicose pura (equivalente a 300g de arroz preparado) será considerada diabética se a glicemia de 2h for superior a 200, pois o que define a doença é a capacidade prejudicada de tolerar tais doses de glicose;
  4. Aliás, se a glicemia após 2h ficar entre 140 e 200, é feito o diagnóstico intolerância à glicose.
Certo. Então, vamos supor que uma pessoa seja diagnosticada com diabetes após obter valores de glicemia superiores a 200 duas horas após consumir a quantidade de glicose pura presente em um prato de arroz. De que forma comer arroz auxiliaria no tratamento deste paciente? DE QUE FORMA? Não é o MESMO arroz que desencadeou uma elevação de tal monta da glicemia que levou ao seu diagnóstico? Como isso pode ser terapêutico?

Isso é absolutamente bizarro e acintoso. Poderia ser enquadrado no mesmo naipe das seguintes afirmações:

  • Leite: auxilia no tratamento da intolerância à lactose;
  • Cigarro: auxilia no tratamento da doença pulmonar obstrutiva crônica;
  • Montanha russa: auxilia no tratamento da labirintite;
  • Camarão: auxilia no tratamento da alergia ao camarão;
  • Bebidas destiladas: auxiliam no tratamento da cirrose;
  • Glúten: auxilia no tratamento da doença celíaca
Vejamos um exemplo: existe um teste para asma no qual o paciente é nebulizado com uma medicação chamada metacolina, que induz um ataque de asma em pessoas suscetíveis. Então, o consumo de arroz por um diabético faria tanto sentido quanto utilizar metacolina no tratamento de um paciente com asma, cujo diagnóstico foi feito porque a metacolina desencadeou uma crise de asma. Percebem??

Para deixar ainda mais claro: como algo que se usa para fazer o diagnóstico de uma doença, justamente por causa uma resposta aberrante no corpo da pessoa doente, poderia ser apregoado para "auxiliar no tratamento" justamente da doença que se carateriza por sua intolerância? Percebem?? É tautológico, é auto-evidente, não precisa ser um Einstein para perceber isso.

Desculpe-me, mas há coisas que não precisam de um ensaio clínico randomizado. Basta pensar.

Dito isso, qual ensaio clínico randomizado já mostrou que arroz possa auxiliar no tratamento da diabetes? Nenhum que eu saiba. E quais já mostraram que a restrição de carboidratos auxilia no tratamento do diabetes? Vários! Sugiro a leitura deste artigo de revisão.

Veja bem: mesmo os profissionais que não adotam a estratégia low carb para o manejo dos pacientes diabéticos, compreendem que alguns alimentos ricos em carboidratos são melhores do que outros. Sim, uma cenoura contém carboidratos, mas é uma fonte incrível de nutrientes, além ter carga glicêmica baixa. Sim, o feijão contém carboidratos, mas contém proteína, fibras, nutrientes e tem baixo índice glicêmico. Mas ninguém indica especificamente o arroz. O arroz é extremamente pobre em nutrientes, algumas variedades têm índice glicêmico próximo de 100. O máximo que você ouvirá de um profissional de saúde que não adota a estratégia low carb é que "modere" a quantidade de arroz e de outras fontes concentradas de amido como pão e batata, por exemplo, dando preferência para vegetais de menor índice e carga glicêmica.
Não consigo conceber que alguém que tenha passado pelos bancos de uma universidade possa, de fato, recomendar que um diabético consuma MAIS arroz (isto é, mais glicose pura), pois isso iria auxiliar no tratamento da doença (que se define por intolerância à glicose).

***

De quem patrocina esta campanha, obviamente eu espero que promova seu produto. Mas mesmo isso tem limite.

De uma montadora de automóveis, por exemplo, eu espero todo o tipo de argumentos no sentido de aumentar a venda de carros. Comprem mais carros porque:
  • Cheirinho de carro novo é irresistível;
  • Os novos modelos têm design mais bonito;
  • Tem melhor desempenho, com economia;
  • Você vai poder passear em belas paisagens
  • Você não precisará mais depender do ônibus ou do trem
Enfim, os alegados motivos são muitos e variados. Mas nem mesmo uma montadora faria uma campanha com o seguinte conteúdo:
  • Comprem mais carros, pois isso reduz a poluição das nossas cidades;
  • Comprem mais carros, pois isso contribui para a redução dos acidentes nas estradas.
  • Comprem mais carros, pois isso reduzirá os congestionamentos.
Dizer que "arroz auxilia no tratamento da diabetes" é uma dessas coisas que não se espera nem mesmo de uma entidade dedicada a vender arroz.

Mas, infelizmente, não me espanta. O que me espanta é que essa campanha foi realizada dentro de um hospital universitário de Porto Alegre. Como é possível? Como isso foi sequer permitido? O equivalente nutricional de "cigarro ajuda no tratamento das doenças pulmonares" foi colocado sobre as mesas do refeitório de uma instituição séria, com a permissão da mesma. Como pode?? Só vejo duas possibilidades, e AMBAS me assustam. A primeira é a de que o interesse financeiro tenha silenciado os escrúpulos. Eu não consigo acreditar nisso. Então, fico com a segunda: o estado lamentável do conhecimento nutricional é tal que não permite às pessoas a compreensão de que a afirmação contida na placa é tão acintosa como se ali estivesse escrito "açúcar é saúde: auxilia no tratamento da diabetes". Do ponto de visto glicêmico, a diferença é que o arroz aumenta mais a glicemia do que o açúcar, visto que esse último contem 50% de frutose (que causa ainda mais danos, por mecanismos distintos). Se quisermos uma comparação exata, com o mesmo efeito metabólico, poderíamos por exemplo recomendar Karo (xarope de glicose de milho) para os diabéticos:
"É saúde! auxilia no tratamento da diabetes"; se for verdade para o arroz, é verdade também para o xarope de glicose - ambos tem exatamente a mesma composição e o mesmo índice glicêmico.

Não bastasse isso, 4 dias depois, o jornal Zero Hora repercutiu a notícia (felizmente no caderno de agricultura, e não no de saúde!):


Campo Aberto

Campanha busca elevar consumo de arroz

Programa de valorização do cereal desembarca em Porto Alegre

Por: Gisele Loeblein
24/01/2017 - 20h41min | Atualizada em 24/01/2017 - 20h41min
Campanha busca elevar consumo de arroz Sara Kirchhof/Irga,divulgação
Foto: Sara Kirchhof / Irga,divulgação 
É com o objetivo de abrir o apetite do gaúcho que o Programa de Valorização do Arroz (Provarroz) do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) vem trabalhando. Lançado na abertura oficial da colheita de 2016, o projeto desembarcou na Capital. Desde a semana passada, no refeitório do Hospital São Lucas da PUCRS foram colocados cartazes que mostram os benefícios do consumo desse cereal (foto acima). A projeção do Irga é de espalhar 400 displays em restaurantes do Estado, com informações como a de que o arroz não contém glúten e auxilia no tratamento do diabetes.
A iniciativa começou com visitas de nutricionistas a escolas e depois a universidades e tem como objetivo ampliar o consumo. Estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura mostra que em 20 anos, de 1986 a 2006, houve decréscimo de 17,1% do consumo no Brasil.
– Futuramente, a ideia é estampar a campanha também em guardanapos – acrescenta Camila Pilownic, coordenadora do Provarroz.
Vejamos, por onde começar?
Arroz não tem glúten. É verdade, não tem mesmo. E daí? O açúcar também não tem - então, isso o torna bom, não é mesmo? Talvez até mesmo para o diabetes... Só que não!
Quem lê meu blog sabe que eu não sou fã do consumo de glúten. Afinal, é uma proteína que está associada com aumento da permeabilidade intestinal, e a um estado inflamação sistêmica em muitas pessoas que não são celíacas. E, de qualquer forma, quando se segue um estilo de vida low carb, você já não consome carboidratos de alta carga glicêmica, de modo que o trigo estaria fora de qualquer maneira, pelo mesmo motivo que a arroz: trata-se de amido purificado, praticamente destituído de valor nutricional.
No entanto, nutricionistas tradicionalmente tendem a ver a restrição do glúten como uma "dieta da moda", havendo inclusive resoluções oficiais sobre o tema. Sendo assim, novamente é de estranhar que, em um hospital universitário de grande prestígio, placas como esta sejam permitidas no refeitório: 

Como se vê, além de afirmações não baseadas em evidência (não existe evidência de que arroz previne doenças do coração, e no diabetes trata-se de uma piada de muito mau gosto), temos a placa do glúten, que é uma forma pseudo-científica de surfar na onda dos alimentos sem glúten para, ao dizer que o alimento não o contém, conferir-lhe uma falsa aura de alimento saudável.

Sugiro que coloquem plaquinhas idênticas para açúcar e leite condensado; como as fotos abaixo mostram, ambos não contém glúten (o que os torna automaticamente bons, pelo jeito...), e ambos têm, inegavelmente, os mesmo tipo de "benefício" para os diabéticos que o arroz (como qualquer um que estudou bioquímica para o vestibular sabe):
Rótulo de açúcar - não contém glúten, e eleva a glicemia dos diabéticos menos do que o arroz

Rótulo de leite condensado - não contém glúten, e eleva a glicemia dos diabéticos menos do que o arroz


***

Esperança para a humanidade.

Fiquei sabendo que alguns endocrinologistas ficaram suficientemente ofendidos pelo disparate a ponto de colocar algumas dessas placas no lixo. Isso me lembrou a seguinte citação:


***

Minha sugestão aos organizadores desta campanha, e às pessoas responsáveis por sua aprovação dentro de hospitais:

Quando uma campanha é baseada em algo flagrantemente falso, as pessoas logo percebem a farsa, e as duas únicas explicações possíveis (desonestidade intelectual x ignorância) pegam muito mal.

O arroz, para pessoas que não são diabéticas, não são obesas e não apresentam síndrome metabólica, não é inerentemente ruim. Trata-se de uma fonte de amido barata, não perecível e saborosa. Faz parte da cultura culinária nacional, e casa bem com inúmero outros pratos. Então, se quiserem incentivar a venda e o consumo de arroz, façam-no de forma ética e responsável. Salientem o sabor, apostem no conhecido arroz com feijão como preferência nacional, chamem atenção para a insuperável capacidade de combinar-se com diferentes molhos.

Agora, estimular justamente os diabéticos a consumir glicose quase pura é publicidade ruim para todos os envolvidos.