terça-feira, 12 de julho de 2016

PODCAST SEMANAL - Toda terça-feira

Toda terça-feira, às 7 da manhã, um novo episódio. O episódio mais recente pode ser acessado clicando no logotipo abaixo:


*Tribo Forte é uma iniciativa de Rodrigo Polesso, com colaboração minha e da Paty Ayres, para oferecer um serviço de assinatura com acesso a fórum exclusivo e moderado, acesso a textos, vídeos e documentários legendados, receitas e ferramentas de acompanhamento dos resultados, com metas e medições. Os podcasts são gratuitos, não há necessidade de ser assinante.

Você pode acessar todos os episódios anteriores clicando nos links desta página (abaixo), ou através do seu aplicativo favorito de podcast em seu tablet e celular.

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LISTA DE PODCASTS:

Episódio 20 (19/07/2016)
Neste episódio

  • Low carb e exercício, com Lara Nesteruk



Episódio 19 (12/07/2016)
Neste episódio

  • Laticínios, lactose, queijo, iogurte, etc.



Episódio 18 (04/07/2016)
Neste episódio




Episódio 17 (28/06/2016)
Neste episódio:

  • Amido resistente, pré-bióticos, probióticos
  • Bacon
  • Uma TORNEIRA no estômago??


Episódio 16 (21/06/16)
Neste episódio

  • Entrevista com Hilton Souza, do blog http://www.paleodiario.com/
  • Como Hilton, que é estudante de nutrição, convive com a consenso nutricional vigente no meio acadêmico?



Episódio 15 (14/06/16)
Neste episódio

  • Consumo de sal
  • Medicamentos para emagrecer
  • Beber líquidos durante a refeição
  • Como ganhar peso com este estilo de alimentação?


Episódio 14 (07/06/16)
Neste episódio:

  • O relatório do Fórum Nacional da Obesidade, do Reino Unido: "Coma gordura, corte carboidratos e evite lanchar entre as refeições para reverter obesidade e diabetes tipo 2"
  • Clique aqui se quiser ler a íntegra traduzida, e as repercussões na Inglaterra.


Episódio 13 (31/05/16)
Neste episódio:

Episódio 12
Neste episódio

  • A resistência dogmática às mudanças baseadas em evidência científica - comentários sobre um artigo do Dr. David Ludwig.
  • Estudos e especulações sobre low carb e câncer.


Episódio 11 (com videocast)
Neste episódio

  • Entrevista com o maior especialista em jejum intermitente, o médico canadense Jason Fung, autor do livro The Obesity Code. Videocast LEGENDADO.

Episódio 10 (com videocast)
Neste décimo episódio:

  • Participação da nutricionista Polyana Freitas, do blog nutridaspanelas.blogspot.com.br
  • Dificuldades e soluções na implementação de low carb. 
  • Episódio disponível também em vídeo. 

Episódio 9
Neste nono episódio:

  • Mais discussão sobre a dissociação entre as diretrizes nutricionais e a ciência atual
  • Alzheimer e resistência à insulina
  • Ferritina alta versus dieta


Episódio 8
Neste oitavo episódio:

  • A Conspiração do Açúcar: como é possível que a ciência da nutrição possa ter estado TÃO errada por tanto tempo? Texto publicado no jornal britânico The Guardian demonstra que não foi apenas um acidente de percurso - houve desinformação e até mesmo assassinato de reputações em um processo deliberado de defesa de diretrizes cientificamente natimortas.
  • Na mesma linha: houve um ensaio clínico randomizado feito HÁ MAIS DE 40 ANOS, com mais de 9 mil pacientes, provando que a substituição da manteiga por óleo de milho AUMENTA o risco cardiovascular. Os detalhes deste estudo foram ocultados até a semana passada. A supressão da verdade foi deliberada.


Episódio 7
Neste sétimo episódio:

  • Doença do Cacto na dieta Páleo? É verdade de uma dieta páleo estrita pode produzir espinhos nas suas mãos?
  • O leite, os laticínios integrais e a gordura

Episódio 6
Neste sexto episódio:
  • Será verdade que uma dieta paleolítica pode levar à terrível doença do cacto, com o surgimento de espinhos nas mãos?
  • Dicas não alimentares para o sucesso na perda de peso 

Episódio 5
Neste quinto podcast:

  • Cálculos renais e low carb.
  • pH e ossos


Episódio 4
Neste quarto podcast:

Episódio 3
Neste terceiro podcast:



Episódio 2
Neste segundo podcast:



Episódio 1

Para acessar, clique aqui.



terça-feira, 5 de julho de 2016

Mais um estudo epidemiológico de Harvard

A escola de saúde pública de Harvard tem algumas coortes (conjuntos de milhares de pessoas que são observadas no decorrer dos anos) que rendem vários estudos por ano. São eles: Nurses’ Health Study e o Health Professionals Follow-up Study.

Tratam-se de estudos OBSERVACIONAIS / EPIDEMIOLÓGICOS. Ou seja, eles podem levantar hipóteses, mas não estabelecem causa e efeito. Neste momento, é muito importante PARAR e LER, e sua totalidade, a seguinte postagem:

O que é uma referência bibliográfica aceitável?




Ok, leu? Não leu? Então leia!!! Só continue após a leitura da postagem.



Leu? Ok, vamos adiante.

Hoje foi publicado um novo estudo das coortes de Harvard. O estudo mostrou o que TODOS os estudos observacionais e epidemiológicos da escola de saúde pública de Harvard SEMPRE mostram (pois esta é a posição FECHADA de Walter Willett, o chairman do departamento): que gordura saturada é pior do que insaturada.

Isto já está repercutindo da forma que habitualmente repercute na imprensa: a gordura vai lhe matar, especialmente a saturada.

Veja esta notícia, por exemplo:

Estudo de 30 anos confirma que gorduras saturadas fazem mal à saúde

Vejamos o que o estudo mostrou:


  • O estudo (observacional) indicou que quem comia MAIS gordura e MENOS carboidrato morria MENOS. Ou seja, que aumentar a gordura e reduzir os carboidratos é BENÉFICO. Por favor, veja a notícia da imprensa (acima), e veja se você encontra esse "pequeno detalhe"...
Eis o trecho do estudo: "dietary total fat compared with total carbohydrates was inversely associated with total mortality (hazard ratio [HR] comparing extreme quintiles, 0.84; 95% CI, 0.81-0.88; P < .001 for trend)." Ou seja "A gordura total da dieta quando comparada com os carboidatos foi INVERSAMENTE associada com a mortalidade total".

Então, se você já leu a postagem sobre estudos epidemiológicos (leia!), já sabe que eles não estabelecem causa e efeito. Contudo, se alguém quiser usar este estudo para dizer que gordura saturada faz mal, terá que afirmar também que é melhor comer mais gordura do que carboidratos - pois o estudo afirma essas duas coisas. Bem entendido? Vamos adiante.

O estudo diz que gordura saturada está associado com aumento da mortalidade, e que gorduras insaturadas estão associadas com diminuição. Mas, como explicado na postagem sobre estudos epidemiológicos, há incontáveis variáveis de confusão. Embora você já tenha lido a postagem sobre estudos epidemiológicoseu vou citar aqui um trecho:

"(...) pessoas que comiam muita carne processada também tinham uma chance muito maior de fumar, comer menos frutas e saladas, e ter níveis mais baixos de educação. Eram muito mais gordos e se exercitavam muito menos do que o restante da amostra. E os homens que comiam mais carne processada bebiam muito. Ah, e os maiores comedores de carne eram também mais velhos - muitos já haviam passado dos 70 anos quando sofreram as consequências das salsichas.

as pessoas que comiam a maior quantidade de carne processada - que o estudo qualificou como mais de 160g por dia (equivalente a cerca de 6 salsichas) - não morreram apenas de de doenças cardiovasculares ou câncer, as coisas que costumamos associar à uma dieta ruim; eles também morreram mais de "outras causas", uma categoria que inclui acidentes de carro, ferimentos acidentais e outras causas não relacionadas à comida. Os maiores consumidores de carne branca, por outro lado, eram os "escoteiros" do grupo: não fumavam muito, comiam bastante salada, faziam exercício, iam à faculdade, e com certeza escovavam os dentes, usavam cinto de segurança e faziam seus check-ups regularmente."

 Será que as pessoas nestas duas coortes de Harvard (compostas exclusivamente por profissionais de saúde, ou seja, gente que acredita que gordura faz mal), e que comiam gordura saturada MESMO ASSIM, tinham alguma diferença em relação às que não comiam gordura saturada?

Vejamos:



Ou seja, EXATAMENTE como no estudo EPIDEMIOLÓGICO E OBSERVACIONAL sobre carne vermelha e câncer, aqui também o que se observa é que as pessoas que comem mais gordura saturada (quintil 5) tem mais que o dobro da chance de serem fumantes (13,7% versus 5,6%) em relação às que consomem menos (quintil 1). Da mesma forma, as pessoas que comem menos óleos vegetais em maior chance de fumar, e as que consomem mais óleos vegetais, fumam menos. Agora, multiplique isso pela infinidade de outros fatores e variáveis...

Ok, mas ainda sobra uma "suspeita" de que a gordura saturada faça mal, e de que o óleo de soja/milho/canola seja melhor, não? Não! Por quê? Porque JÁ HÁ ENSAIOS CLÍNICOS RANDOMIZADOS, um nível de evidência muito mais alto, mostrando o CONTRÁRIO.

Já escrevi sobre isso, recentemente, nesta postagem. Relembrando:


"O maior ensaio clínico randomizado jamais realizado sobre os efeitos de substituir a manteiga por óleo de milho (substituir a gordura saturada por gordura poliinsaturada, aquela com um adesivo escrito "cuide de seu coração") foi conduzido no final dos anos 60 e início dos anos 70. Estarrecedor por quê? Porque os resultados completos nunca foram publicados!!! E por quê não? Porque mostraram o contrário do que todos imaginavam. E sabe quem era um dos co-autores do estudo? Ancel Keys (relembre quem é ele).
Sim, o colesterol (desfecho MOLE) reduziu-se com a troca de manteiga por óleo vegetal refinado. Mas as mortes e o nível de aterosclerose (verificado por necrópsias!) AUMENTOU no grupo que trocou a manteiga pelo óleo de milho (desfecho DURO). "

Prezado leitor: quando um estudo epidemiológico mostra uma coisa, e o ensaio clínico randomizado mostra outra (especialmente quando são vários randomizados), VALE O RANDOMIZADO.

Então, vamos recapitular:

  1. O estudo em questão é EPIDEMIOLÓGICO, portanto não estabelece causa e efeito (última chance de reler a postagem sobre isso)
  2. Ainda assim, o estudo mostra que comer mais gordura e menos carboidratos está associado com MENOS mortes;
  3. O estudo sugere que gordura saturada está associada com mais mortes, e que gorduras insaturadas (tanto as mono quanto as poliinsaturadas) estão associadas com menos mortes;
  4. Ensaios clínicos randomizados indicam que isso não é verdade (as monoinsaturadas são ótimas, mas não as poli-ômega-6 na forma de óleos industriais);
  5. Os grupos que comem mais gordura saturada são diferentes (fumam mais, etc), o que pode muito bem explicar este aparente paradoxo.

Que mais este exemplo sirva de lição para sempre lembrar, ao ler um estudo, de verificar se ele é epidemiológico. Se for, releia imediatamente esta postagem (e esta também), antes de passar margarina no pão e jogar a manteiga no lixo.

domingo, 3 de julho de 2016

Aseem Malhotra - o Yudkin moderno.

Assim como outro cientista do Reino Unido, John Yudkin, décadas atrás, tentou nos alertar de que o problema não era a gordura, e sim o açúcar, outro especialista daquele país anda agitando o mundo da nutrição nos últimos anos. Seu nome é Aseem Malhotra.



Este cardiologista britânico começou devagar, alguns anos atrás, apenas com a mensagem de que nem todas as gorduras são ruins, e de que o foco deveria recair sobre os carboidratos e, em especial, o açúcar. Mas Malhotra seguiu as evidências. E as evidências, para quem as segue às últimas consequências, levam necessariamente ao desmonte das diretrizes dogmáticas e pseudocientíficas vigentes.




"Consumir MAIS gordura, desde que eliminando o açúcar ao mesmo tempo, pode ajudar a perder peso e ser mais feliz", diz importante cardiologista.

Por Aseem Malhotra, 02/07/2016

O meu plantão noturno tinha sido muito movimentado. Como cardiologista em treinamento no Harefield Hospital, eu havia tratado um fluxo constante de pacientes - entre eles um homem que sofria de doença cardíaca severa e necessitou cirurgia de emergência.

Quando eu visitava os pacientes na manhã seguinte, o carrinho com o café da manhã estava no corredor. E o que estava no menu? cereais açucarados, torrada de pão branco e geleias de todos os tipos.

Quando comecei meu discurso sobre os benefícios de uma dieta saudável, meu paciente me olhou nos olhos antes de dizer “como você espera que eu mude meus hábitos, quando o local para onde eu vim me tratar está servindo o mesmo tipo de lixo que me fez acabar aqui para começo de conversa”?

Isso foi há seis anos, mas eu ainda lembro claramente, porque foi neste momento que eu tive uma espécie de epifania .

Ele tinha razão! O carrinho do hospital, carregado de comida processada, era emblemático do estado lamentável da alimentação em nosso país.

E a minha noite, transcorrida inserindo stents de emergência (um fino tubo para manter uma artéria aberta), deixava claro o impacto das dietas ruins sobre nossa saúde e felicidade.

Ainda assim, eu não tinha resposta para a pergunta tão pertinente de meu paciente.

Então, onde havíamos errado tanto? Sim, nós havíamos dispensado os antigos demônios dietéticos - sanduíches de bacon e frituras - mas trocamos pelo quê?

Atordoado, eu fui para casa e embarquei em um projeto de pesquisa que me tem absorvido por anos. E o que eu descobri foi revolucionário.

Hoje, eu trabalho para a NHS (National Health Service, o sistema de saúde inglês). Mas eu me encontro na posição peculiar de opor-me às diretrizes nutricionais que os médicos aprendem, e que espera-se que repitam para os pacientes, de que deveríamos reduzir a gordura, para perder peso e manter nossos corações saudáveis, e consumir mais carboidratos.

Este mantra tem sido cegamente defendido e repetido por profissionais de saúde, a despeito de numerosos estudos que confirmam que algumas gorduras são essenciais para nossa sobrevivência, e que consumir mais gorduras - não menos - é, na verdade, bom para você.

São estas orientações erradas que levaram o meu pobre paciente, recuperando-se de uma cirurgia cardíaca séria, a receber lixo processado carregado de açúcar, fornecido justamente pelas pessoas que deveriam ajudá-lo a se recuperar.

E eu creio que são estas mesmas orientações erradas que contribuíram, ao menos em parte, para que carboidratos processados e açúcares tornassem-se uma parte endêmica da dieta britânicas.

E não pense que apenas porque você não é do tipo que fica consumindo lanchinhos fora de hora, você estaria imune a tudo isso.

Qualquer um que coma qualquer coisa que venha em uma embalagem - de pão fatiado até molho de tomate - está em risco. A comida hoje em dia é cheia de açúcar escondido, a ponto de o açúcar estar presente em quase 80% de todos os alimentos processados.

Acrescente-se a isso o fato de que carboidrato simples, tais como farinha branca, batatas e arroz, são metabolizados em açúcar pelo corpo, e você irá perceber que estamos sentados em uma bomba-relógio dietética.

Assim, mesmo que você não sucumba a uma fatia de bolo em seu chá da tarde, uma proporção significativa de nós está consumindo até 40 colheres de chá de açúcar todos os dias, sem nem mesmo dar-se conta disso.

Enquanto isso, a gordura foi completamente demonizada. Nós somos orientados a beber leite desnatado, a tirar a pele crocante do frango, e a usar margarinas processadas, e não manteiga, muito embora estas gorduras naturais (da manteiga) sejam justamente o tipo que nosso corpo necessita para funcionar eficientemente.

Estou convencido que esta dieta alta em açúcar e pobre em gorduras tornou-se a causa dominante de morte no mundo ocidental - e não apenas devido ao fato de que o açúcar é uma das principais causas da epidemia de obesidade, mas também por ser um fator de risco independente para tantas doenças crônicas, que vão desde diabetes tipo 2 à doença cardíaca.

Pois, assim como desencadeia uma sobrecarga de insulina que pode ter impactos metabólicos catastróficos no corpo, o açúcar também parece tornar o colesterol mais inflamatório, e portanto mais danoso as artérias do coração.

Assim, não espanta que muitos de nós sintamo-nos letárgicos. Minhas próprias pesquisas, que levaram em conta numerosos estudos de todo o mundo, indicaram evidência científica convincente no sentido de cortar o açúcar e favorecer o aumento na ingestão de gordura.

Ainda assim, de forma preocupante, estes estudos são consistentemente desconsiderados ou ignorados pela maior parte dos médicos.

Neste quesito, nós, britânicos, estamos ficando atrás de nossos vizinhos. Até os americanos, que são tão frequentemente criticados por serem lentos no que tange as diretrizes dietéticas e que têm estatísticas de obesidade ainda mais alarmantes do que as nossas, estão à nossa frente no que diz respeito ao açúcar.

Em 2009 a American Heart Association publicou um artigo sublinhando os perigos do açúcar e recomendando um limite máximo diário para indivíduos saudáveis de não mais do que 9 colheres de chá para homens e 6 para mulheres.

Eu supus, então, que um limite superior seria implementado no Reino Unido também. Mas, quando fui verificar, tudo o que pude achar era uma diretriz que aceitava até 22 colheres de chá de açúcar ao dia. Fiquei pasmo!

Então, o que foi que eu fiz, frente a tanta orientação ruim? Exatamente o que estou recomendando que você faça: eu as ignorei, e transformei meus hábitos alimentares com minha própria revolução dietética, uma que vai completamente de encontro a todo o meu treinamento médico.

A dieta que eu sigo é fundamentalmente baixa em carboidratos e alta em gorduras saudáveis. Sendo assim, é diametralmente oposta às diretrizes dietéticas convencionais pelo mundo afora, mas está ganhando interesse e apoio médico e científico.

Trocar para uma dieta de baixo carboidrato e gorduras saudáveis significará comer menos carboidratos e uma porção maior de gordura do que você está acostumado.

Significa cortar o açúcar e os amidos (tais como grãos integrais, cereais, pão, massa, arroz e batatas) e colocar em ênfase em gorduras saudáveis, e ao mesmo tempo manter uma ingestão adequada de proteínas (peixe, carne, ovos e laticínios).

Significa comer alimentos in natura, cozinhar a partir dos mesmos, quando possível, focando-se em qualidade dos alimentos e no aporte nutricional da comida de verdade, ao contrário das versões processadas que tem infiltrado as dietas tipo Atkins, por exemplo.

Em uma típica dieta baseada em carboidratos, estes são convertidos em açúcar no sangue, que seu corpo queima como fonte de energia. Qualquer excesso de açúcar é convertido em gordura (sob o comando do hormônio insulina) e preferencialmente armazenado nesta forma.

Contudo, se você restringir seus os carboidratos a 50 gramas por dia ou menos, seu corpo não pode mais obter a energia de que necessita a partir dos açúcares, de modo que precisará usar outros combustíveis. E é aí que a gordura entra.

O corpo pode obter a energia que necessita a partir da gordura armazenada, e da gordura contida nos alimentos.

Uma dieta LCHF ("Low Carb,  Healthy Fat", ou seja, baixo carboidrato e gordura saudável) alivia o corpo da tirania do vício no açúcar - os altos e baixos da glicose e da insulina. isto é uma excelente notícia para sua saúde, e também para sua silhueta.

Sem açúcar, você verá melhoras na sua pele, humor e concentração, além de uma redução nos desejos e, finalmente, a capacidade de perceber se o que você está sentindo é fome de verdade, ou se é apenas o desejo de comer doces.

Isso torna LCHF uma forma naturalmente simples de perder peso, porque o corpo precisa começar a utilizar gordura, retirando-a das áreas incômodas.

Eu cortei os carboidratos e radicalmente aumentei meu consumo de gorduras. Em resumo eu comia aquilo que me fazia sentir muito bem.

Isso não era nenhuma dieta rígida ou punitiva. Eu ainda posso me sentar e beber cálice de bom vinho tinto, com um suculento filé feito na manteiga. E adivinhe? Nunca me senti melhor. E minha saúde nunca esteve melhor também.

Tenho recomendado a todos os meus pacientes cardíacos que sigam este plano alimentar, que você poderá seguir facilmente com o guia de saúde e alimentação de Karen Thomson, que estará disponível na edição do The Daily Mail da semana que vem.

Então, como meus pacientes se saíram? Afinal, ao encorajá-los a aumentar o consumo de gordura, incluindo gorduras saturadas tais como manteiga, queijo e iogurte, eu tenho efetivamente promovido os chamados “venenos”, que lhes disseram que causaram os seus problemas cardíacos.

Felizmente, eu posso lhe dizer que suas vidas foram transformadas, e isso não é um exagero.

Meus pacientes saem do meu consultório com duas instruções simples: corte os carboidratos processados e o açúcar, e coma mais gordura. Eu os oriento a não seguir a dieta de baixa a gordura recomendada pelo governo.

Eu também digo a eles para evitar todos os alimentos que tenham “baixa gordura” escrito no rótulo, bem como “reduz o seu colesterol” e, ao invés disso, apenas comer comida de verdade, integral.

Para o espanto deles, o impacto na saúde pode ser impressionante. Um homem na faixa dos 50 anos perdeu 20 quilos em seis meses apenas eliminando o açúcar.

Ele não conseguia acreditar que esta mudança tão simples pudesse funcionar, quando as diretrizes dietéticas convencionais tinham falhado para ele durante quase toda a sua vida. Mas funcionou.

E ele não está sozinho. Eu recebi um e-mail, recentemente, de um homem com diabetes tipo 2 que havia lido uma matéria no jornal na qual eu havia falado das virtudes de consumir mais gordura.

Ele disse, horrorizando sua família, que havia começado a comer manteiga novamente, mas que estava cortando os carboidratos. Ele escrevia para agradecer, porque seus níveis de colesterol eram os melhores em muitos anos.

Uma paciente com cerca de 40 anos foi encaminhada para mim com pressão perigosamente alta. Depois de dois meses eliminando o açúcar e os carboidratos refinados, sua pressão sanguínea havia normalizado, e ela já não precisava mais de medicação.

A minha própria vida foi transformada também. Eu costumava ter uma queda por doces. Eu começava o dia com cereal matinal açucarado e suco de frutas; uma garrafa isotônico após academia; panini e uma barra de chocolate para almoço, e depois um grande prato de massa com curry, arroz e pão na janta.

Incrivelmente, dada a quantidade de comida que eu consumia, eu estava sempre com fome. Eu frequentemente comia uma fatia grande de bolo de chocolate para acalmar a fome antes de ir pra cama.

Eu comecei a revolução da minha dieta simplesmente cortando o açúcar, os carboidratos refinados, pão branco, doces, massa e arroz, e sendo mais generoso com o uso do azeite de oliva, nozes e sementes.

Então, 18 meses atrás, eu parei de comer pão completamente, até mesmo integral, e reduzi meu consumo de vegetais ricos em amidos, tais como batatas e leguminosas (“pulses”, isto é, coisas que crescem em vagens, tais como feijão e lentilha).

Arroz feito de couve-flor e espaguete de abobrinha são minhas opções hoje em dia. Minha alimentação lembra mais uma dieta mediterrânea ou grega, que tem evidência científica rica enquanto base para uma boa saúde. Eu aumentei radicalmente meu consumo de gorduras saturadas, porque tenho certeza que elas protegem meu coração, e não o atacam. Afinal, os alimentos mais naturais e nutritivos disponíveis - carne, peixe, ovos, laticínios, nozes, sementes, azeitonas e abacate - todos contêm gorduras saturadas.

Assim, hoje em dia, eu com um omelete de dois ou três ovos, cheio de vegetais, como café da manhã ou almoço, juntamente com um punhado de nozes.

Eu reforço meu café uma porção de manteiga ou com uma colher de sopa de óleo de coco para manter a minha saciedade por mais tempo.

Eu despejo azeite de oliva extra virgem generosamente nas minhas saladas e vegetais. De fato, eu tenho como objetivo consumir pelo menos quatro colheres de sopa de azeite de oliva todos os dias, pois os estudos mostram que isso é excelente para o coração. Ah, sim, eu aprecio um cálice de vinho tinto também.

Embora as pessoas pensem que sucos de frutas e smoothies sejam saudáveis, na verdade eles são apenas um pouco melhores do que açúcar líquido. Assim, ao contrário, eu consumo frutas vermelhas (berries) juntamente com meu café da manhã baseado em ovos e, uma vez por dia, uma maçã de sobremesa após a janta.

Ao fim e ao cabo, eu não poderia me sentir melhor. Antigamente, eu tinha uma barriguinha que insistia em resistir às tentativas de perder peso a despeito de um regime de exercícios diários.

Agora, aos 38 anos, peso 6 quilos a menos do que pesava 5 anos atrás.

A gordura da barriga desapareceu, embora eu me exercite muito menos do que eu costumava me exercitar. Por quê? Bem, quando você come uma dieta baseada em carboidratos, os carboidratos e os açúcares são convertidos em açúcar no sangue. Qualquer excesso de açúcar que não seja usado para energia é convertido em gordura. Entretanto, se você restringir seus carboidratos, seu corpo terá que utilizar outro combustível, e este combustível vem dos estoques de gordura do seu corpo.

Além destes benefícios, a vida é muito mais simples quando você não está distraído por desejos e pelo roncar do estômago que o consumo de açúcar e carboidratos processados gera. De fato, os carboidratos induzem comportamentos alimentares que lembram vício.

Quando sua dieta é predominantemente baseada em carboidratos refinados, a habilidade do corpo de reconhecer que já está abastecido de energia é prejudicada, pois o açúcar interfere com os sinais da saciedade.

Então, se os ensinamentos nutricionais que eu recebi na faculdade de medicina estivessem corretos, hoje em dia eu deveria ser uma bomba relógio ambulante, com níveis de colesterol elevadíssimos e doença cardíaca avançado.

Mas eu faço checkups regulares, e nunca estive tão saudável. Eu estou convencido de que minha dieta está protegendo-me contra doença cardíaca, envelhecimento precoce, câncer e demência.

Novos estudos que dão suporte a minha revolução alimentar são publicados todos os dias. Justamente esta semana, pesquisas importantes da Universidade de Tufts, perto de Boston, nos Estados Unidos, indicaram que mesmo uma colher de sopa cheia de manteiga todos os dias não aumenta o seu risco de doença cardíaca - o que é mais uma prova de que a demonização da gordura por décadas foi um erro.

Desde que você corte o açúcar e os carboidratos refinados, a manteiga pode sem dúvida ser parte de uma dieta saudável. Eu provavelmente consumo sozinho um tablete inteiro de manteiga a cada 4 dias. Não admira que eu tenha encontrado bastante resistência a esta minha posição.

E, a despeito de toda a evidência, os “guias de alimentação saudável” deste país permanecem imutáveis, algo que eu creio ser no mínimo escandaloso.

Então, por que todos os médicos ainda não estão recomendando este plano para seus pacientes?

As rodas da burocracia movem-se de forma muito lenta, e muito das diretrizes dietéticas estabelecidas incorporam o interesse comercial das grandes indústrias alimentícias. Você não pode deixar de observar que comida processada de baixa gordura gera grandes negócios.

Mas o que poderíamos esperar quando os jogos Olímpicos de Londres de 2012, a maior celebração de fitness e saúde neste país em décadas, foi patrocinado pela Coca-Cola e pelo McDonald's?

Enquanto organizações influentes tais como o British Nutrition Foundation tiverem um corpo de membros que lembra o “quem é quem” da indústria do açúcar - Coca-Cola, Kellogg’s, McDonald’s, Nestle e Pepsi entre eles e a British Dietetic Association continue a promover sucos de fruta como parte de uma dieta balanceada, eu receio que ainda vai levar um bom tempo antes que as diretrizes mudem.

Mas elas precisam mudar. Eu ajudei a produzir um documentário, “The Big Fat Fix”, que explica como cortar o açúcar e comer gorduras saudáveis pode aumentar nossa longevidade. Ele deverá estrear nas próximas semanas. Vamos ver se isso ajuda.

Neste meio tempo eu peço a você junte-se à minha revolução alimentar. Você simplesmente se sentirá melhor do que nunca.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Metanálise: manteiga não causa doenças


Para os leitores desse blog, nada de novo.

  • Já sabíamos que gordura na dieta não tem relação com doença cardiovascular;
  • Já sabíamos que laticínios com toda a sua gordura (mas NÃO os desnatados) estão associados com diminuição do risco de diabetes;
  • Já sabíamos, baseado no maior ensaio clínico randomizado já feito sobre o assunto, que a substituição de manteiga por óleo de milho (embora reduza o colesterol) AUMENTA a mortalidade cardiovascular.
Mas, como nos alerta o chefe de Medicina Cardiovascular da Cleveland Clinic, as diretrizes nutricionais são uma Zona Livre de Evidências. Assim, é preciso jogar cada vez mais evidências de nível cada vez mais elevado sobre as mesmas, para tentar forçar a quebra do dogma.

Acaba de ser publicada uma nova metanálise sobre a manteiga. A revista Time repercute o assunto:

Novo estudo não encontrou ligação entre comer manteiga e doença cardiovascular

Parece que a manteiga pode, de fato, estar voltando. O condimento cremoso é um alimento que "está no meio-termo" nutricionalmente falando - melhor do que o açúcar, pior do que o azeite de oliva - de acordo com um novo estudo, que se soma a um crescente corpo de pesquisas que mostram que a moda de dieta de baixa gordura estava errada. O novo estudo analisou 9 artigos, que incluíam mais de 600 mil pessoas, e concluiu que consumir manteiga não está ligado com risco aumentado de doença cardíaca, e pode ser até levemente protetor contra o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Isto contraria a orientação vigente de evitar a manteiga porque a mesma contém gordura saturada.

Para ser claro, o novo estudo não disse que a manteiga é um alimento especialmente saudável, mas, ao invés disso, diz que "não parece ser nem muito prejudicial e nem muito benéfica", diz o autor do estudo Dr Dariush Mozaffarian, diretor da Friedman School of Nutrition Science and Policy da universidade Tufts em Boston. Isto está de acordo com o novo pensamento de um grupo cada vez maior de cientistas da nutrição, que afirmam que cortar a gordura, mesmo a saturada, está causando muito mais danos do que benefícios.

"Na minha forma de ver, a gordura saturada é neutra de uma forma geral", diz Mozaffarian. "Óleos vegetais, frutas e nozes são mais saudáveis do que manteiga. Mas, por outro lado, carne de peru de baixa gordura, um bagel (espécie de rosca), cereais matinais ou refrigerantes são piores para você do que manteiga". (no que tange aos óleos vegetais, o Dr. Mozaffarian está equivocado: leia aqui)

No estudo, publicado terça-feira na revista PLOS One, os pesquisadores analisaram o consumo de manteiga das pessoas e o seu risco de doenças crônicas, e não encontraram nenhuma ligação com doença cardiovascular. Em 4 dos 9 estudos, as pessoas que comiam manteiga diariamente tiveram um risco 4% menor de desenvolver diabetes tipo 2. Mais pesquisas são necessárias para entender o porquê, mas isto pode ser em parte devido ao fato de que a gordura dos laticínios também contém gorduras monoinsaturadas, que podem melhorar os níveis de açúcar no sangue a sensibilidade à insulina.

Como a revista Time relatou na história de capa de 2014, a gordura tornou-se "o nutriente mais demonizado da dieta americana", a despeito da evidência científica que mostra que ela não traz problemas à saúde, nem causa ganho de peso. "A gordura saturada era considerada a inimiga pública número 1", diz o Dr. David Ludwig, professor de nutrição da escola de saúde pública de Harvard, e autor de Always Hungry. "Nos últimos anos, tem havido pesquisas e comentários em periódicos científicos sugerindo que este foco estava equivocado" (Ludwig não estava envolvido neste mais recente estudo).

De fato, as pesquisas estão-se acumulando no sentido de que a gordura saturada é muito melhor para você do que carboidratos processados, tais como açúcar e pão branco, que têm sido ligados a diabetes, obesidade e doença cardíaca em muitos estudos. Em abril Mozaffarian publicou um estudo na revista Circulation que analisou o sangue de 3333 adultos, e descobriu que as pessoas que tinham níveis mais elevados de três subprodutos da gordura dos laticínios tinham um risco 46% menor de desenvolver diabetes do que as pessoas com níveis mais baixos. Outros estudos também demonstraram que laticínios com a gordura podem ser úteis na manutenção do peso, e para outros aspectos da saúde.

Mozaffarian e seus coautores no novo estudo esperam que a sua pesquisa ajude a afastar as discussões da nutrição dos efeitos de nutrientes específicos na saúde, focando-se ao invés disso nos alimentos que as pessoas comem. "Nós comemos queijo, nós comemos manteiga, nós comemos iogurte, nós bebemos leite, nós comemos carne", diz Mozaffarian, e não cálcio, gordura e proteína. Além disso, ele acrescenta, apenas porque uma porção de manteiga e um sanduíche de pastrami ambos possuem gordura saturada, não significa que seus efeitos sobre a saúde sejam os mesmos. É a comida, e não seus componentes, que interessa mais. "Carnes processadas podem ter efeitos diferentes no risco de derrame e doença cardíaca não por causa da gordura saturada, mas por causa do sódio e dos conservantes", diz Mozaffarian. "No fim das contas, tomar as decisões sobre alimentação baseado em uma coisa tal como gordura saturada não é útil". (No que diz respeito ao sal, o Dr. Mozaffarian pode estar equivocado - veja aqui).

Conseguir que as pessoas sigam esse conselho pode ser difícil. Uma pesquisa, de julho de 2014, da Gallup, mostrou que o dobro de americanos diz estar ativamente evitando gordura, comparado com o número de pessoas que ativamente evitam carboidratos. Mas o movimento em direção à compreensão dos benefícios e riscos dos alimentos, ao invés dos seus nutrientes singulares, pode valer muito à pena.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Foco primário em calorias ou em carboidratos? 3 - DIRECT trial, 2008

Esta é a terceira de 3 postagens mostrando que já se sabe há décadas que a restrição calórica voluntária não é a melhor alternativa para perda de peso (leia a primeira e a segunda postagem)

Nas primeiras duas postagens, resgatei artigos de interesse histórico, publicados nos anos 1950, indicando com clareza que a restrição de carboidratos é uma estratégia eficaz para a perda de peso sem restrição calórica voluntária, e que, para um dado consumo de calorias, quanto menos carboidratos, mais fácil é a perda de peso.

Contudo, tais estudos não seriam suficientes para embasar cientificamente uma conduta nos dias de hoje. Hoje, vivemos o paradigma da medicina baseada em evidências. E a medicina baseada em evidências tem, como base, o Ensaio Clínico Randomizado. Este é o Santo Graal da pesquisa médica. Aqui, um grupo grande de pessoas é sorteado para dois ou mais grupos, e cada grupo receberá um tratamento/remédio/dieta diferente. O sorteio assegura que, estatisticamente, quaisquer variáveis de confusão (conhecidas ou desconhecidas) estejam igualmente distribuídas entre os grupos. 


Assim, vamos dar um salto no tempo, e sair dos anos 1950, quando a medicina e a nutrição eram ainda agnósticas no que diz respeito aos efeitos de diferentes proporções de macronutrientes nobre a redução do peso, e chegar a 2008, já em pleno renascimento nutricional, após 4 décadas de uma idade das trevas, durante a qual a simples menção de "dieta low carb" poderia levar um profissional a ser queimado na fogueira da inquisição acadêmica (veja aqui um exemplo real).

Vamos conhecer o Dietary Intervention Randomized Controlled Trial (DIRECT). Este é o tipo de estudo que encerra uma discussão. Você pode não gostar de low carb, você pode não seguir low carb, mas você precisa dobrar-se às evidências: é um ensaio clínico randomizado, tem mais de 300 participantes, durou DOIS anos, e foi extremamente bem conduzido (o almoço foi fornecido pelo próprio estudo na cafeteria do local de trabalho de todos os participantes durante dois anos, ou seja, ao menos essa refeição nós sabemos que foi correta). Ah, sim, e foi publicado no periódico médico peer reviewed de maior prestígio do mundo, o New Englando Journal of Medicine.



  • Foram incluídas pessoas de ambos sexos com IMC > 27, ou diabetes tipo 2, ou doença coronariana (ou seja, nem todo mundo tinha excesso de peso).
  • Os grupos foram sorteados para um de três grupos, a saber:
    • Dieta Low Fat, da forma que é recomendada pela associação americana de cardiologia; a dieta tinha restrição compulsória de calorias (1500 kcal para mulheres, e 1800 kcal para homens);
    • Dieta Mediterrânea, nos moldes do livro popular escrito por Willett, de Harvard; a dieta tinha restrição compulsória de calorias (1500 kcal para mulheres, e 1800 kcal para homens);
    • Dieta Low Carb, baseada no livro A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins. A dieta NÃO TINHA restrição de calorias.
É preciso salientar muito esse fato: como se sabe desde pelo menos os anos 1950 que a restrição de carboidratos é mais eficaz para a perda de peso, os autores do estudo utilizaram de um estratagema para que a vantagem da dieta low carb não fosse tão absurda. Os grupos low fat e mediterrânea foram instruídos a restringir as calorias, enquanto o grupo low carb foi expressamente orientado a comer o quanto quisesse, desde que low carb.

É como se um corredor olímpico fosse competir com um grupo de amadores, mas largasse atrás de todos os outros para dar a eles uma vantagem que diminuísse a óbvia e previsível disparidade de seus desempenhos.

Para que não reste dúvida quanto a isso, eis a descrição dos métodos do artigo: 



Ok, vamos ver o que aconteceu:


Não há um ganhador claro, mas há um óbvio perdedor! Nos primeiros 6 meses, a dieta low carb foi evidentemente mais eficaz. Com o passar do tempo, todas as dietas vão perdendo eficácia, afinal as pessoas tendem a voltar aos velhos hábitos. No entanto, low fat segue sendo pior sempre, até o final do estudo. E, é preciso lembrar O TEMPO TODO: o grupo low carb (roxo no gráfico) podia comer quantas calorias, proteína e gordura bem entendesse. Os outros dois estavam contando calorias. Outra coisa importante é que o grupo low carb foi orientado a aumentar os carboidratos até 120g após os primeiros 2 meses, de modo que é esperado que haja diminuição dos bons resultados.

Os 3 grupos reduziram seu consumo diário de calorias na mesma proporção (low fat e mediterrânea por que contavam calorias, low carb porque estava saciado e sentia menos fome), mas ainda assim low carb perdeu mais peso, e teve a maior redução da circunferência abdominal (low fat foi obviamente o pior nesse quesito também).

Se você reler o estudo de Kekwick, de 1956, não é exatamente esse o resultado esperado? Que, havendo uma redução calórica semelhante, o grupo que consumiu menos carboidratos tivesse o melhor desempenho, e que o grupo que consumiu mais carboidratos tivesse o pior?

E não, a perda de peso não foi de água e músculo, como diz o senso comum nutricional. Todos os 3 grupos tiveram redução de circunferência abdominal, mas observe os resultados por grupo:
  • Low fat: -2.8 (±4.3) cm
  • Mediterrânea: -3.5 (±5.1) cm
  • Low Carb: -3.8 (±5.2) cm

A perda maior de circunferência abdominal no grupo low carb sugere que este foi o grupo que MENOS perdeu massa magra.


Este estudo não avaliou composição corporal diretamente, mas há outro ensaio clínico randomizado que o fez: clique aqui para saber mais.

E como ficou o restante da saúde dessas pessoas? Veja os gráfico a seguir (low carb é roxo, low fat é vermelho):
  • HDL, o colesterol "bom": Low carb é sabidamente a única estratégia alimentar que aumenta o HDL sistematicamente.


  • Triglicerídeos: quanto menor, melhor. Como os triglicerídeos dependem exclusivamente dos carboidratos na dieta, é evidente que low fat terá resultado pior. O fato de que que os grupo low carb e mediterrânea terminaram os dois anos com os mesmos níveis de triglicerídeos é prova de que o grupo low carb já estava comendo carboidratos demais naquele momento (por isso a piora dos resultados em 2 noas quanto comparado com 6 meses).


  • LDL, ou "colesterol ruim". Aqui se observa o padrão típico de elevação inicial do LDL em low carb, e normalização com o passar do tempo. Não deixa de ser IRÔNICO que o grupo low fat foi o pior neste quesito também, já que low fat foi inventado nos anos 1960 com o único objetivo de baixar o LDL. A dieta mediterrânea ganha pontos no que diz respeito a LDL, o que indica que uma dieta low carb com ênfase em gorduras naturais insaturadas seja a melhor opção para pessoas dislipidêmicas.


Você pode achar que este resultado é uma aberração na literatura. Não é. O mais recente ensaio clínico randomizado comparando low carb e low fat (2014) demonstrou exatamente a mesma coisa: que uma dieta low carb SEM restrição calórica produz maior perda de peso  e que uma dieta low fat AUMENTA o risco cardiovascular:
  • Neste estudo de 2014, a linha vermelha indica low carb, e a linha azul é a dieta que se ensina nas faculdades de medicina e nutrição (low fat, high carb). Não apenas low carb produz o dobro da perda de peso, mas também o escore de risco cardiovascular de Framingham indica AUMENTO do risco no grupo low fat e REDUÇÃO do risco no grupo low carb (afinal, o grupo low carb teve redução dos triglicerídeos, aumento do HDL e perda de peso).
De fato, a relação colesterol total dividido por HDL é a que melhor prediz o risco cardiovascular:

Que low fat é uma receita para o desastre já foi demonstrado de forma eloquente no ensaio clínico randomizado denominado PREDIMED, com mais de CINCO MIL pessoas, publicado no New England Journal of Medicine em 2013. O grupo de baixa gordura (e, portanto, de alto carboidrato) teve 30% mais desfechos combinados de morte, derrames e ataques cardíacos do que o grupo de dieta mediterrânea (com gordura oriunda de azeite de oliva ou nozes):
A linha preta é a dieta de baixa gordura: 30% mais mortes, derrames e infartos (agora, você já sabe porquê.).

Mas, voltando ao nosso estudo de 2008: eis o comportamento de algumas outras variáveis, de acordo com o tipo de dieta:



  • A proteína C reativa, um marcador de inflamação, foi menor com low carb, e pior com low fat (é um fator de risco para doença cardiovascular).


  • A glicemia de jejum não mudou em quem não era diabético. Contudo, nos diabéticos a dieta mediterrânea foi superior em 24 meses. OBSERVE, porém, que em 12 meses foi igual - o que denota que as pessoas aumentaram seus carboidratos no segundo ano da dieta (como já vimos que de fato ocorreu, como demonstram os triglicerídeos). Observe ainda que a dieta low fat ensinada nas faculdades e prescrita nos consultórios AUMENTOU a glicemia dos diabéticos (o que é óbvio, visto que low fat é high carb).


  • Um fenômeno semelhante é observado no que diz respeito à insulina de jejum: a dieta low carb foi superior pra não-diabéticos, mas a dieta mediterrânea foi melhor para os diabéticos. E low fat foi pior do que as duas.
IMPORTANTE: embora tal resultado não seja apresentado de forma gráfica, está perdido no meio do texto do artigo: a dieta que obteve os melhores resultados em Hemoglobina Glicada nos pacientes diabéticos foi a dieta LOW CARB. Veja (tradução abaixo):

"Entre os participantes com diabetes, a proporção de hemoglobina glicada aos 24 meses diminuiu 0,4% no grupo low fat, 0,5% no grupo de dieta mediterrânea, e 0,9% no grupo Low Carb. As mudanças foram significativas (P<0,05) apenas para o grupo Low Carb."

Tradução - o grupo low carb, mesmo comendo mais carboidratos do que seria o ideal ao final do estudo, ainda foi o ÚNICO no qual a hemoglobina glicada caiu significativamente. A disparidade entre os resultados superiores de low carb na hemoglobina glicada, mas não na glicemia de jejum, pode ser encontrada aqui.

Tais resultados levantam a hipótese de que uma dieta low carb de tipo mediterrâneo, isto é, com ênfase em gorduras insaturadas (peixe, azeite de oliva, abacate, nozes e castanhas) possa ser o caminho ideal para diabéticos, ao combinar as virtudes de ambas abordagens. Mas isto é apenas especulação de minha parte. Afinal, apenas uma coisa é certa: mais uma vez, a dieta low fat foi a pior - em TODOS os desfechos.

Algumas considerações finais: apenas 8,3% do grupo low carb apresentou cetonúria (metade disso nos outros grupos), o que indica que a dieta não era very low carb (e que, portanto, não precisa ser). Outro achado interessante e que merece estudo é o fato de que as mulheres, neste ensaio clínico, perderam mais peso com dieta mediterrânea do que com dieta low carb. Isso é discutido de forma muito casual no texto do estudo, e não está apresentado como resultado formal (tabela ou figura). Como 86% dos participantes eram homens, tal achado pode dever-se exclusivamente à flutuação estatística (além disso, o estudo não tinha a intenção de investigar este aspecto, e o "data mining" é causa conhecida de vieses). Se for realmente verdade, pode ser que mulheres se beneficiem de uma dieta low carb de estilo mais mediterrâneo, ou com um pouco mais de carboidratos. Ao meu ver, isso dependerá de quão resistente à insulina a pessoa for.

Em resumo: um dos mais bem feitos ensaios clínicos randomizados de longo prazo sobre dieta demonstrou que uma dieta restrita em carboidratos e SEM limitação de calorias é superior às dietas mediterrânea e de baixa gordura (mesmo quando essas duas são restritas em calorias), tanto no concerne à perda de peso, quanto no que diz respeito a virtualmente todos os fatores de risco cardiovasculares, aos componentes da síndrome metabólica e ao eixo insulina/glicose. E isso não é novidade. Já se vão quase 10 anos da publicação deste estudo.

A maior ameaça à saúde no século 21 não é a resistência à insulina; é a resistência à evidência.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Foco primário em calorias ou em carboidratos? 2 - Kekwick,1956

Esta é a segunda de 3 postagens mostrando que já se sabe há décadas que a restrição calórica voluntária não é a melhor alternativa para perda de peso. Não se trata de novidade, de dieta da moda. Isso é sabido há mais de 60 anos.

Na postagem anterior, abordamos a dieta de baixo carboidrato de Pennington em duas publicações de 1953, nas quais o Dr. Pennington explica que a restrição de carboidratos leva a uma redução calórica espontânea, sem fome e sem redução do metabolismo basal.

Hoje veremos fascinante artigo experimental publicado em 1956 por Kerwick e Pawan na prestigiosa revista médica The Lancet, que responde à questão: será que as calorias são todas iguais??



O artigo começa explicando que a restrição calórica leva à perda de peso, mas que a fome acaba sendo um obstáculo ao seu sucesso no longo prazo.

Os autores decidiram, então, realizar uma série de experimentos em voluntários obesos, internados em ala metabólica. Lembre-se, isso é 1956, antes da era dos ensaios clínicos randomizados. No entanto, não faltava engenhosidade aos cientistas da época, como veremos.

O primeiro experimento.
Neste primeiro experimento, todos os voluntários receberam dietas com as mesmas proporções de macronutrientes (20% proteína, 33% gordura e 47% carboidratos). Apenas as calorias foram variadas: por 7 a 9 dias, cada paciente foi submetido a uma dieta de 2000, 1500, 1000 e 500 calorias. O resultado, como esperado, indicou que a restrição calórica emagrece:


No século 21, a maioria dos profissionais de saúde para por aqui: precisa comer menos calorias para perder peso - passar fome é inevitável. Mas não em 1956: naquela época, a ortodoxia nutricional ainda não havia banido as hipóteses alternativas. E nossos cientistas foram adiante.

O segundo experimento.
Segue o original, e eu traduzo abaixo:
"A prova final de que a quantidade de peso perdido depende diretamente do deficit calórico deveria ser obtida observando uma perda de peso constante em cada paciente cuja ingestão (hipo)calórica é mantida constante, independentemente do tipo de comida contida na dieta.Catorze pacientes foram colocados em dietas nas quais as calorias foram mantidas constantes em 1000 calorias por dia, e 90% da dieta foi fornecida como carboidratos, gordura ou proteína [por 5 a 9 dias cada]".
Então, para deixar claro: todos os pacientes receberam dietas de 1000 calorias por dia por 3 semanas, mas a cada semana a dieta mudava e era composta por 90% de um macronutriente: carboidratos, proteína ou gordura. Sabemos, pelo primeiro experimento, que as calorias são importantes. Mas será que a ÚNICA coisa que importa são as calorias? Vejamos o resultado:



Vejamos... O grupo que comeu 90% gordura perdeu mais peso. O grupo que comeu 90% proteína perdeu peso, mas um pouco menos do que o grupo da gordura. O grupo que comeu comida mista (20% proteína, 33% gordura e 47% carboidratos) perdeu a metade do peso, mas perdeu. Agora, no grupo que comeu 90% carboidratos... metade dos pacientes GANHOU um pouco de peso, mesmo comendo 1000 calorias por dia. E os que perderam, perderam menos do que nos demais grupos.

O terceiro experimento.
O terceiro experimento foi uma confirmação do segundo, mas dessa vez com excesso de calorias. Os voluntários foram alimentados com 2000 calorias de uma dieta mista, e alguns mantiveram o peso, enquanto outros ganharam peso. No entanto, quando foram alimentados com 2600 calorias de dieta low carb, OS MESMOS pacientes PERDERAM peso. Olhe só:



Observe, acima: com exceção do paciente número 4, TODOS os demais ganharam peso com 2000 calorias contendo cerca de 50% de carboidratos, mas PERDERAM peso com 2600 calorias de dieta low carb, high fat.

A seguir, as conclusões do estudo:


 
 

Conclusões:
  1. A perda de peso é possível com qualquer tipo de dieta que restrinja calorias;
  2. A taxa de perda de peso é proporcional à restrição calórica QUANDO as proporções de macronutrientes são mantidas constantes;
  3. Quando as calorias foram mantidas constantes em 1000 por dia, contudo, a taxa de perda de peso variou tremendamente em dietas de diferentes composições. A perda foi mais rápida em dietas de alta gordura; foi menos rápida em dietas de alta proteína; e o peso foi mantido por curtos períodos em uma dieta de 1000 calorias se o principal macronutriente foi carboidrato.
  4. Com a ingestão de 2000 calorias por dia, o peso foi mantido ou aumentou em 4 de 5 pacientes obesos. Nas mesmas pessoas, uma perda de peso significativa ocorreu quando as calorias aumentaram para 2600 ao dia, desde que tal dieta fosse composta principalmente de gordura e proteína.
  5. Não ocorreram defeitos de absorção de nutrientes que pudesse explicar a perda de peso. Não houve nem perda, nem ganho de proteína no corpo, nem do estoque corporal de carboidratos em um grau que pudesse explicar a perda de peso (essas coisas foram todas mensuradas);
  6. A perda de peso nestas dietas foi parcialmente derivada de água (30-50%) e o restante foi de gordura corporal (50-70%);
  7. Como a taxa de perda de peso variou de forma tão marcada com a composição da dieta, mesmo com calorias constantes, sugere-se que estes pacientes alteraram seu metabolismo em reposta à composição da dieta.

***

Recapitulando:

  • Na postagem anterior, vimos que Pennington já tratava a obesidade com restrição de carboidratos desde o início dos anos 1950, pois havia observado que a perda de peso ocorria sem fome.
  • No estudo atual, Kekwick investigou as alegações de Pennington com uma série de engenhosos experimentos, mostrando que as calorias não são todas iguais quando o assunto é perda de peso. A restrição de carboidratos facilita sobremaneira a perda de peso.
  • Na próxima postagem dessa série, vamos avaliar o mesmo fenômeno, à luz dos modernos ensaios clínicos randomizados, que anos depois vieram a comprovar o que todo mundo já sabia há mais de 60 anos - mas que foi esquecido durante a idade média nutricional.