quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sopa de ossos

Não existe nenhuma dieta mais nutricionalmente densa do que uma dieta páleo.

Densidade nutricional é um conceito interessante, no qual a quantidade de nutrientes importantes é dividida pelas calorias dos alimentos. 

Os cereais, por exemplo, são repletos de amido e contêm alguns nutrientes - densidade nutricional baixa. As hortaliças, por outro lado, são repletas de fibras e nutrientes e são praticamente desprovidas de calorias e amido: densidade nutricional elevadíssima.

Para uma bela aula sobre o assunto, assista Mathieu Lalonde discorrendo longamente sobre densidade nutricional:

Uma dieta baseada em comida de verdade (plantas e bichos), rica em vegetais (alta densidade nutricional) e pobre em açúcar, farináceos, grãos e alimentos processados (baixa densidade nutricional) só pode ser imbatível neste quesito. 

Quando me perguntam sobre suplementação, geralmente respondo que o ideal é comer uma dieta nutricionalmente densa. Afinal, há VÁRIOS exemplos nos quais os nutrientes são saudáveis quando consumidos no contexto de ALIMENTOS de verdade, mas são DELETÉRIOS quando consumidos na forma de suplementos. Parece ser o caso do cálcio, do selênio, da vitamina E e do beta caroteno, só para citar os exemplos mais conhecidos.

Em outras palavras, suplementos de cálcio podem aumentar o risco cardiovascular, e suplementos de selênio, de vitamina E e de caroteno aumentam o risco de câncer. No entanto, o consumo de ALIMENTOS contendo estes elementos PROTEGE contra essas doenças.

Alguns alimentos, como ovos, são verdadeiros multivitamínicos naturais (um ovo contém TODOS os nutrientes para produzir um pinto a partir de uma única célula).

Na blogosfera páleo internacional, um alimento muito badalado é a sopa de ossos. O que é isso? É um caldo de carne feito em casa. É uma fonte absurdamente densa de nutrientes, muitos dos quais são de difícil obtenção na dieta (tem muito mais cálcio e fósforo do que leite, tem muito mais colágeno do que qualquer suplemento do mercado, tem riqueza de aminoácidos associados com desfechos favoráveis em estudos de longevidade - veja este artigo, por exemplo). Mas, como eu sou uma negação na cozinha, de quem eu me lembrei?? Dos Carecas da Cavernas, é claro! Para quem não conhece, é uma dupla que ensina a nós, os analfabetos culinários, a fazer as pazes com a cozinha - com muito humor.

Então, a meu pedido, segue o vídeo dos carecas sobre como fazer sua própria sopa de ossos - seu suplemento alimentar caseiro - e com custo praticamente zero.



Gostaram?

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Reflexões éticas sobre alimentação

Já tratei desse tema em algumas poucas postagens como essa e essa.

E já dei a dica em outra postagem: para quem quiser um livro realmente BOM e profundo sobre o assunto, leia The Vegetarian Myth: Food, Justice, and Sustainability.





Mas a Patrícia Ayres traduziu um texto excelente (sobre o qual já tuitei, e que já foi gravado no Umano), na mesma linha do livro acima, e que deve ao menos fazer o leitor PENSAR. Segue o texto:

P.S.: na verdade, a Patrícia me informa que foram seu filho e nora, Marina Málaco e Victor Ayres, que traduziram. Feita a correção.

Pedindo refeições vegetarianas? Há mais sangue de animais em suas mãos
6 de Novembro de 2014 | por Mike Archer AM
crédito da foto: Ser vegetariano salva a vida de vacas, mas ameaça o futuro de outros seres vivos: nunro

Nota: o autor deste artigo é australiano, e grande parte da informação contida nesse artigo se aplica especificamente para essa área específica do mundo. Técnicas de atividade agrícola diferem ao redor do mundo.

O valor ético de comer carne vermelha tem sido criticado constantemente por aqueles que questionam suas consequências para a saúde ambiental e o bem-estar dos animais. Mas se o propósito é minimizar o sofrimento animal e promover uma agricultura sustentável, adotar uma dieta vegetariana é a pior coisa que você pode fazer.

O renomado sociólogo ético Peter Singer afirma que se há uma variedade de formas que podemos nos alimentar, devemos escolher o método que causa o mínimo de dano desnecessário a animais. A maioria dos defensores dos direitos de animais diz que isso significa que deveríamos nos alimentar de plantas ao invés de animais.

É necessário entre dois a dez quilos de plantas, dependendo do tipo de planta envolvido,para produzir um quilo de animal. Dada a quantia limitada de terras produtivas para a agricultura, aparentemente faria maior sentido voltar a atenção culinária às plantas, porque iríamos possivelmente obter mais energia por hectare para consumo humano. Teoricamente isso significaria menos animais sendo mortos para saciar o apetite incansável de milhões de humanos.

Mas antes de excluir a carne vermelha de pasto da lista de “coisas boas de se comer” por razões éticas ou ambientais, vamos testar estes pressupostos:

Pesquisas indicam que, na Austrália, produzir trigo e outros grãos resulta em:

  • pelo menos 25 vezes mais animais sendo mortos por quilo de proteína utilizável 
  • mais dano ambiental 
  • muito mais crueldade com animais do que na criação de carne vermelha 

Como isso pode ser possível?

A agricultura que produz arroz, farinha e outros requer o corte raso de qualquer vegetação nativa. Esse ato per se resulta na morte de milhares de animais australianos e plantas por hectares. Desde que os europeus chegaram neste continente perdemos mais da metade da vegetação típica da Austrália, sua maioria por aumento de produção de monocolturas de espécies introduzidas apenas para o consumo humano.

A maior parte da terra arável da Austrália já está em uso. Se mais australianos decidirem que querem suas necessidades nutricionais atendidas por plantas, nossa terra arável precisará ser ainda mais explorada. Isso irá exigir um aumento no uso de fertilizantes, herbicidas, pesticidas e outras ameaças à biodiversidade e saúde ambiental. Ou, se as atuais leis forem alteradas, mais vegetação nativa pode ser desmatada para a agricultura (uma área do tamanho de Victoria mais a Tasmânia seria desmatada para produzir o valor adicional de comidas baseadas em plantas necessárias).


Gado australiano se alimenta de pastos, predominantemente, reduzindo o impacto ambiental. Chris Runoff.


A grande maioria do gado abatida na Austrália se alimenta apenas de pasto. Pastagens constituem naturalmente cerca de 70% do continente.

O pastoreio ocorre em ecossistemas predominantemente nativos. Estes têm e mantém níveis muito maiores de biodiversidade que áreas de cultivo. Os pastos não podem ser utilizados para produzir plantações, então a produção de carne nesse local não limita a produção de plantas para alimento. O pastoreio é a única forma de humanos receberem nutrientes de 70% do continente.

Em certos casos, pastagens foram substancialmente alteradas para aumentar a porcentagem de plantas que podem ser estocadas. O pastoreio também pode causar danos significativos ao solo como perda de fertilidade e erosão, mas não resulta no “blitzkrieg” do ecossistema nativo que é requerida para plantios.

Esse dano ambiental está fazendo com que muitos ambientalistos conhecidos questionem suas próprias percepções. O defensor do meio ambiente britânico George Monbiot, por exemplo, publicamente “se converteu” de vegano a onívoro após ler a tese de Simon Fairlie sobre a sustentabilidade da carne, e a ativista ambiental Lierre Keitg documentou o chocante dano para o meio-ambiente envolvido na produção de plantas para o consumo humano.

Na Australia também podemos suprir nossas necessidades proteicas usando carne sustentavelmente criada de cangurus. Ao contrário de outros animais, eles não oferecem qualquer ameaça à biodiversidade nativa: Têm pés macios, produzem pouco metano e precisam de relativamente pouca água. Eles também produzem carne excepcionalmente saudável e de baixa gordura.

Na Austrália, 70% da carne australiana produzida para o consumo humano vem de animais criados em pastos com pouco ou nenhum suprimento de grãos. Apenas 2% do gado australiano se alimenta majoritariamente de grãos, em cativeiro, enquanto os outros 98% são criados em pastos, comendo em sua maioria grama. Dois terços do gado abatido na Austrália se alimenta apenas de pastagens.

Para produzir proteína de bifes de pastoreio, o gado é morto, e cada morte resulta (em média, considerando pastos australianos) uma carcaça de cerca de 288 quilogramas. Das quais 68% são carne, com 23% de proteína, o que é igual a 45 quilos de proteína por animal morto. Isso significa 2.2 animais mortos para cada 100 quilos de proteína utilizável produzida.

Produzir proteína de farinha significa arar a terra e plantar as sementas. Qualquer um que já tenha sentado em um arador mecânico sabe que pássaros predadores lhe seguirão o dia inteiro e não porque eles não têm nada melhor para fazer – arar e colher mata pequenos mamíferos, lagartos, cobras e outros animais em grandes números, além dos milhões de ratos que são envenenados em galpões de estoque a cada ano.

Entretanto, a maior e mais pesquisada perda de vidas é o envenenamento de ratos durante pragas.


Com suas patas macias e pouca necessidade de água, cangurus são uma fonte de uma carne sustentável e que traz menos dano ao meio-ambiente. No Dust

Cada área de produção de grãos na Austrália tem uma praga de ratos enfrenta uma praga de ratos aproximadamente a cada quatro anos, que varia de 500 a mil ratos por hectare. Envenenamento mata cerca de 80% dos ratos.

Pelo menos 100 ratos são mortos per hectare por ano (500/4 × 0.8) para o plantio de grãos. to grow grain. O rendimento médio é de cerca de 1.4 toneladas de trigo por hectare; 12% do trigo é proteína utilizável. Portanto, pelo menos 55 animais morrem para produzir 100 quilos de proteína em plantas; 25 vezes mais do que para a mesma quantia de carne de pasto.

Parte deste grão produzido, é utilizado para suprir gado criado em cativeiros (parte como comida diária para gado, porcos e aves),mas é fato que mais animais são sacrificados para produzir proteína a partir de grãos do que em pastos.

Outro problema a ser considerado aqui é a questão da senciência – a capacidade de sentir, perceber ou ter consciência.

Você pode não pensar que os bilhões de insetos e aranhas mortas por produções de grãos não possuem consciência, mas eles percebem e respondem ao mundo a seu redor. Você pode considerar cobras e lagartos como criaturas de sangue frio incapazes de sentir, apesar de eles formarem vínculos e cuidarem de filhotes, mas e quanto a ratos?

Ratos são muito mais conscientes do que pensamos. Eles cantam canções de amor complexas e pessoais uns para os outros que evoluem em complexidade com o tempo. Qualquer tipo de canção é um comportamento raro entre mamíferos, anteriormente apenas observado em baleias, morcegos e humanos.

Ratos fêmea, assim como adolescentes histéricas, tentam se aproximar de bons cantores. Pesquisas atuais estão tentando determinar se as inovações musicais são geneticamente programadas ou se ratos aprendem a variar suas músicas conforme atingem a maturidade.


Tentando se preparar para um descuido ético! Nikkita Archer.

Ratos filhotes deixados no ninho cantam para suas mães – um tipo de choro para chama-las de volta. Para cada fêmea morta pelos pesticidas administrados por nós, uma média de cinco a seis filhotes totalmente dependentes de sua mãe irá, apesar de desesperadamente chorar e cantar para trazer sua mãe de volta, morrer de fome, desidratação ou se tornar presa de outros animais.

Quando em rebanhos, cangurus e outros animais são abatidos instantaneamente, enquanto ratos morrem lenta e dolorosamente por venenos. De um ponto de vista do bem estar, esses métodos entram nos menos aceitáveis métodos de se matar. Apesar de filhotes de canguru eventualmente serem mortos ou deixados para cuidar de si mesmos, apenas 30% dos cangurus abatidos são fêmeas, das quais poucas têm filhotes (o código de caça da indústria diz que deve-se evitar atirar em fêmeas que tenham filhotes dependentes). Entretanto, mais do que o dobro do número de ratos filhotes são deixados a própria sorte quando deliberadamente envenenamos milhões de suas mães.

Substituir carne por grãos leva a muito mais mortes de animais, muito mais sofrimento e um significante aumento na degradação do meio-ambiente. A proteína obtida de pecuária e pastos custa menos vidas por quilo: é uma opção de dieta mais humana, ética e sustentável.

Então, o que faz um ser humano faminto? Nossos dentes e sistema digestivo são adaptados para que sejamos onívoros, mas agora somos forçados a considerar questões filosóficas. Nos preocupamos com as questões éticas envolvidas em matar animais de pasto e nos perguntamos se há alguma forma mais humana de obter os nutrientes adequados.

Depender de grãos destrói ecossistemas nativos, apresenta ameaças a espécies nativas e implica em pelo menos 25 vezes mais mortes de animais por quilograma de comida. A maioria desses animais canta serenatas de amor até que nós desumanamente os matemos em massa.

O antigo líder da suprema corte, o honrado senhor Michael Kirby, escreveu:

“Em nossa consciência social, seres humanos estão intimamente conectados com outros animais. Dotados de razão e da fala, somos singularmente capazes de fazer decisões éticas e nos unir para promover mudanças sociais para o bem daqueles que não possuem voz. Animais explorados não podem protestar sobre seu tratamento ou exigir uma vida melhor – sua vida está em nossas mãos. Então, qualquer decisão sobre o bem estar dos animais, seja no Parlamento ou no supermercado, nos apresenta um teste profundo de caráter moral.”.

Agora sabemos que ratos têm uma voz, mas não estávamos ouvindo.

O desafio do defensor de uma dieta ética é escolher a dieta que causa a menor quantidade de mortes e danos ambientais. Aparentemente há muito mais apoio ético a uma dieta onívora que inclui a carne vermelha de pasto e muito mais para aquela que inclui cangurus criados na selva de maneira sustentável.

Agradeço a muitos colegas, dentre eles Rosie Cooney, Peter Ampt, Grahame Webb, Bob Beale, Gordon Grigg, John Kelly, Suzanne Hand, Greg Miles, Alex Baumber, George Wilson, Peter Banks, Michael Cermak, Barry Cohen, Dan Lunney, Ernie Lundelius Jr e zoologistas australianos anônimos que forneceram críticas valiosas.

Mike Archer AM não trabalha para, consulta, possui ações ou recebe fundos de qualquer companhia ou organização que se beneficiaria deste artigo, e não possui qualquer filiação relevante.

Este artigo foi originalmente publicado (em inglês) no The Conversation.