quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Postagem rápida: novas diretrizes abolirão completamente a restrição ao colesterol na dieta

Estou de férias fora do Brasil,  com Internet ruim e sem computador. Assim cheguei a pensar em não postar nada mas... algumas notícias simplesmente não podem esperar! Então, vou aproveitar para lançar as Postagens Rápidas: postagens feitas no celular mesmo, sem formatação, mas com as últimas notícias.

1) As novas diretrizes nutricionais dos EUA,  que estão para sair agora em 2015, deverão ABOLIR COMPLETAMENTE qualquer restrição ao consumo e qualquer alimento em virtude do seu conteúdo de COLESTEROL. Isso mesmo, acabou o limite de número de ovos. Claro que isso não é NENHUMA novidade para quem estuda: há pelo menos 50 anos é  SABIDO que o colesterol da dieta não tem nada a ver com o colesterol do sangue. Mas agora, como deu na imprensa, você terá mais facilidade para convencer seus parentes e amigos...  Seguem os links :

http://www.forbes.com/sites/larryhusten/2015/02/10/new-us-guidelines-will-lift-limits-on-dietary-cholesterol/

http://www.theverge.com/2015/2/11/8018253/us-dietary-guidelines-drop-cholesterol-warning

2) Novo artigo no periódico científico Open Heart, do British Medical Journal, afirma, com todas as letras, que as diretrizes nutricionais vigentes, e sua orientação low fat (de baixa gordura) não são nem nunca foram baseadas em ciência, e que jamais deveriam ter sido implementadas!
Segue os links:

http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2015/feb/10/fat-guidelines-lacked-any-solid-scientific-evidence-study-concludes

http://time.com/3702058/dietary-guidelines-fat-wrong/

E, agora, na Veja:
http://veja.abril.com.br/noticia/saude/alerta-sobre-consumo-de-gordura-nao-tem-base-cientifica-diz-estudo

Alerta sobre consumo de gordura não tem base científica, diz estudo

veja.abril.com.br | 2 de Novembro

Diretrizes médicas que recomendam limitar o consumo de comidas como carne vermelha e manteiga "nunca deveriam ter sido introduzidas", afirmam pesquisadores

Diretrizes médicas que recomendam limitar o consumo de alimentos como carne bovina e manteiga para evitar doenças cardiovasculares não têm fundamento científico. A afirmação é de uma pesquisa publicada nesta semana no periódico Open Heart.

Há mais de trinta anos, países como Estados Unidos e Grã-Bretanha recomendam que seus cidadãos consumam com moderação gordura saturada, encontrada em alimentos de origem animal, sobretudo carnes vermelhas e derivados de leite. De acordo com as diretrizes desses países, no máximo 10% do total de calorias ingeridas no dia deve vir desse tipo de gordura.

Para pesquisadores da Universidade do Oeste da Escócia, no entanto, os dados que motivaram essa recomendação eram falhos e inconclusivos. Eles chegaram a essa conclusão depois de revisar seis estudos realizados com quase 2 500 homens na época em que as diretrizes foram elaboradas. As seis pesquisas investigaram a redução nas mortes e no nível de colesterol promovidas por dietas com baixa ingestão de gordura. 

Conclusão — Segundo os atuais pesquisadores, os regimes reduziram a taxa de colesterol dos participantes, mas não o índice de mortes decorrentes de doenças cardíacas. Eles criticaram ainda a ausência de mulheres nos levantamentos e o fato de que a maioria dos participantes tinha fatores de risco para doenças cardiovasculares. Os cientistas concluem que “não só as diretrizes devem ser revistas, como nunca deveriam ter sido introduzidas”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Laticínios: low carb versus páleo

Quando se fala em leite, uma coisa é certa: este alimento não pertence nem à dieta paleolítica, nem a dietas Low Carb.

Não pertence à dieta páleo por motivos óbvios: nenhum animal bebe o leite de outras espécies, e até o final do paleolítico o leite era consumido apenas por bebês - não evoluímos bebendo leite como adultos.

Não pertence às dietas low carb pois contém açúcar, na forma de lactose. Cada 100 ml de leite contém cerca de 5g de açúcar, de modo que um copo de 300 ml conterá 15g, ou uma colher das de sopa cheias.



Ok, mas e os laticínios fermentados? Na fermentação, que ocorre naturalmente por ação dos lactobacilos, a lactose é convertida, em sua maioria, em ácido lático. Estamos falando de queijo, iogurte, coalhada, kefir, etc. Tais alimentos são low carb, mas não eram consumidos por nossos ancestrais. E então, comer ou não comer?

A reposta de autores low carb como Michael Eades, Robert Atkins, Jonathan Bailor é um inequívoco SIM: queijo, cream cheese, manteiga e nata tornam uma dieta low carb bem mais fácil e gostosa. A reposta de autores páleo, notadamente de Loren Cordain e Staffan Lindeberg é um inequívoco NÃO, afinal nossos antepassados não consumiam, portanto não devemos consumir. E então, que fazer?

Comecemos relembrando o que escrevi recentemente:
"O postulado evolutivo, por exemplo, parte do princípio de que a carne de uma ovelha, embora domesticada e inexistente há 15 mil anos, seja mais parecida com a dieta com a qual evoluímos, do que Sucrilhos - não obstante este último não conter colesterol e ser enriquecido com vitaminas e minerais (e ser uma bomba de açúcar e amido). Um é comida de verdade, o outro é uma ração industrial que empobrece dietas e enriquece bolsos corporativos.
O termo “The Paleo Diet” foi patenteado pelo Dr. Loren Cordain, que foi introduzido ao tema pela leitura do artigo de Boyd Eaton, referido acima. Cordain ateve-se aos conceitos originais: se emularmos a dieta de nossos ancestrais com alimentos modernos, lidaremos melhor com as doenças da civilização.
Quem acompanha esse blog há mais tempo já sabe que sigo muito mais a abordagem de Mark Sisson, baseada em partes iguais de emprego uma matriz evolutiva para pensar sobre assuntos nutricionais, ciência e bom senso. O termo empregado por Sisson é "Primal" ao invés de "Paleo", justamente para se diferenciar da abordagem Paleo que, como já disse, é marca registrada de Loren Cordain. Sisson libera o uso de laticínios fermentados full-fat, por exemplo, embora os mesmos não estivessem presentes no paleolítico. Libera-os pois são low carb, são gostosos, são saciantes, e a preponderância da ciência mostra que são benéficos (para quem os tolera)."
Então, se pode comer queijo, algo com o qual não evoluímos, por que não grãos? E, se é assim, por que não Pizza Hut??

Vamos devagar! O que realmente tem ciência SÓLIDA por trás é o fato de que a restrição de carboidratos é eficaz no manejo de síndrome metabólica, diabetes, e excesso de peso, sobretudo em pessoas portadoras de resistência à insulina. Assim, mesmo que grãos cereais não fossem inflamatórios, ainda seriam cheios de amido de rápida absorção - o oposto de low carb. Sob pena de ser repetitivo, cito novamente o que escrevi dias atrás:
"(...)ninguém disse, em nenhum momento, que queremos uma dieta IGUAL à dos ancestrais. (...) Na realidade, trata-se de partir de uma matriz baseada em critérios evolutivos, para tentar reconstruir com alimentos modernos algo que não esteja TÃO distante daquilo com o que evoluímos (como é o caso da dieta ocidental padrão)."
Assim, o paradigma evolutivo (um termo que seria muito mais apropriado do que "dieta paleolítica") serve apenas para formular e informar hipóteses, e não pode ser um fim em si mesmo, sob pena de tornar-se um DOGMA. Já escrevi mais de 300 postagens desconstruindo o dogma nutricional vigente, e obviamente não o fiz para substituir por outro postulado igualmente dogmático!

O próprio Cordain e seus seguidores concordam que vinho tinto e chocolate amargo são saudáveis, e sabemos que tais alimentos não são nem um pouco paleolíticos.

Quero dizer com isso que, diferentemente do que ocorre com tabus alimentares religiosos (imutáveis), o fato de um alimento estar ausente durante nossa evolução não o proscreve completamente do que considero saudável, da mesma forma que o fato de algo estar presente durante nossa evolução (pense em mandioca) não o torna adequado para o manejo de diabetes e obesidade. O fato de um alimento não ter feito parte da dieta humana por 99,5% de nossa evolução não o torna automaticamente ruim, mas nos autoriza a olhar para tal alimento com desconfiança. No linguajar científico, a hipótese nula, aquela da qual partimos, deve ser a de que este alimento novo seja nocivo; e cabe a ciência tentar refutar essa hipótese - mostrar que ele NÃO é. Mas, como corolário, se a ciência mostra que determinado alimento novo não é nocivo, o fato de ele não ser paleolítico não me impedirá de incluí-lo dentre os alimentos que considero adequados em uma dieta low carb de viés páleo. Ok? Estamos de acordo?

Então, vamos lá, por que os laticínios fermentados, embora não sejam estritamente páleo, são adequados para quem os tolera?


  • Leite sempre foi consumido pelos humanos durante a lactação. Já os grãos não, de modo que o leite é incomparavelmente mais próximo de ser um alimento adequado (tanto que a natureza o oferece a mamíferos). Assim, não existe uma dicotomia ("é páleo versus não é páleo"), e sim um espectro, e nesse espectro o leite e seus derivados parecem ser naturalmente mais aceitáveis para mamíferos do que farinha de trigo ou açúcar refinado;
  • O tipo de proteína é de alto valor biológico, e é imunogênico apenas para algumas pessoas;
  • O tipo de gordura é muito bom, contendo inclusive ácidos graxos de cadeia média e curta;
  • Os estudos, mesmo aqueles promovidos por pesquisadores que, ideologicamente, são contrários aos laticínios full-fat por causa da gordura saturada, CONSISTENTEMENTE mostram benefícios metabólicos. É muito engraçado, pois os autores deixam claro a sua surpresa e até mesmo a sua decepção com os próprios resultados. Afinal, eles conduziram o estudo para provar que fazia mal, mas os efeitos benéficos são tão fortes que mesmo os fortes vieses dos autores não são suficientes para mudar esse fato.
Exemplo:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pm...

Dairy and Cardiovascular Disease: A Review of Recent Observational Research
(...)This was in contrast to the findings reported from a prospective study of Caucasian American adults in which it was observed that women who reported “nearly daily” low-fat cheese and fat-free milk consumption had an increased incidence of CHD compared to those who reported “rarely/never” consuming low-fat cheese and fat-free milk. This was a surprising observation in light of the fact that there was no significant association between total dairy intake and risk of CHD in this population. The results of these studies indicate the complexity of dairy foods and the differences in CVD risk depending upon the type of dairy food consumed. Whereas total dairy and cheese reportedly had inverse relationshipswith CVD risk, butter (as a spread) was associated with disease but total butter consumption was not.

Tenho vontade de gritar. Sacudir os pesquisadores pela lapela. Parece que os dados precisam de uma melancia pendurada no pescoço para serem notados!! Resumindo o texto acima:

1) O consumo diário de laticínios DESNATADOS está associado a doenças cardiovasculares;
2) Laticínios com gordura e queijo são inversamente associados com doença cardiovascular (ou seja, quanto mais se consome, MENOS doença cardiovascular se tem);
3) Manteiga, quando usada para espalhar no pão, está associada com doença cardiovascular;
4) Manteiga, de uma forma geral, não está associada com doença cardiovascular.

Qual é a única variável que salta aos olhos??? O Pão!!! Dã!
E o que é leite desnatado?? Água com açúcar. Eu disse açúcar!!

Mas, enfim, voltando da minha digressão. Os laticínios têm proteínas de alto valor biológico, têm gorduras das mais saudáveis possíveis, são deliciosos, práticos e saciantes. Até o oxigênio que respiramos nos mata, de forma que não me espantaria que os efeitos da elevação de IGF-1 (que pode ser causada por laticínios), no longo prazo, possam contribuir para algo ruim, ou para a redução da longevidade, etc. A questão não é essa. A questão é que, ao focarmo-nos em um alimento, esquecemos o que ele está substituindo.

Meu café da manhã, dia desses, foi pastrami com queijo derretido no microondas. Com certeza é possível isolar coisas malignas nessa combinação: carne processada e defumada, laticínios com caseína A1 (leia aqui sobre o que é isso), hormônio de crescimento bovino recombinante, etc. Mas o fato é que nunca me senti tão bem, meu café da manhã foi uma delícia, estou muitos quilos mais magro (e mantendo o peso há 4 anos!), e meus exames estão perfeitos. Afinal, ANTES, meu café da manhã teria pão com margarina e geleia, e 2 copos de bebida láctea adoçada sabor morango (é SÉRIO, eu comia isso no passado).

Quando um estudo epidemiológico indica que a carne vermelha vai nos matar, nós criticamos por ser epidemiológico, devido ao fato de que, após 4 décadas de demonização, somente pessoas que não se preocupam com a saúde comem carne vermelha, de modo que o seu consumo está associado com tabagismo, sedentarismo, etilismo, e montes de outros "ismos" ruins. Basicamente, os vieses de pesquisadores e de pacientes se alinham para produzir o resultado esperado, de associação entre consumo de carne/gordura/proteína com maus resultados de saúde. Pois bem, mas o que dizer de um alimento rico em proteína e gordura saturada, igualmente demonizado, no qual os resultados de todos os estudos epidemiológicos indicam BENEFÍCIO à saúde, mesmo indo CONTRA os vieses dos pacientes e dos pesquisadores? Minha visão é a de que laticínios full fat, especialmente os fermentados, são tão benéficos, mas TÃO benéficos, que superam até mesmo os vieses de confusão e seleção presentes nos estudos observacionais. Na minha visão, o consumo de carne é benéfico, mas não tão benéfica assim a ponto de suplantar os vieses dos estudos epidemiológicos.

Os Masai consomem litros de leite por dia e nunca desenvolvem câncer, nem nenhuma outra doença ocidental associada ao eixo insulina-IGF-1. O livro de Weston Price tem outros exemplos no mesmo sentido - é a entrada da farinha e do açúcar na vida desses povos que provocou o início das doenças ocidentais, não do leite.
Então, onde isso nos deixa?

1) laticínios fermentados são low carb;
2) laticínios full fat têm gorduras saudáveis;
3) laticínios têm proteínas de alto valor biológico;
4) são gostosos e tornam a migração para uma dieta low carb muito mais amena.

Mas...:

1) Têm lactose -> solução, fermentação
2) Aumentam IGF-1 -> carne também, e CARBOIDRATOS também, e a insulina de quem faz low carb comendo laticínios fica mais BAIXA a despeito dos laticínios;
3) Têm uma caseína problemática -> tenho minhas dúvidas;
4) Há pessoas com intolerância genuína -> isso é verdade para outros alimentos também, e justifica apenas sua eliminação seletiva de tais alimentos em tais pessoas;
5) Pode ter reação cruzada com glúten -> importante apenas para quem sofre de auto-imunidade.

Conclusão (bottomline):

É tudo uma questão de prioridades. Talvez se a prioridade for viver mais, seja mesmo uma boa ideia restringir proteínas a 0,8g/Kg, manter o IGF-1 baixo e restringir calorias em cerca de 30%, indefinidamente. Se a prioridade for evitar a síndrome metabólica, algo que afeta negativamente a longevidade MUITO MAIS, será preciso restringir os carboidratos e comer proteínas à vontade. É preciso lembrar que há um custo associado com qualquer escolha. Ativar a via IGF-1 e mTOR mantém massa muscular, o que está associado com mais QUALIDADE DE VIDA na velhice. Optar por desativar essas vias não é compatível com manter uma massa muscular ótima. Eu, pessoalmente, prefiro chegar aos 85 com boa massa muscular, conseguindo levantar sozinho da cadeira, do que aos 95 porém emaciado e frágil após uma vida evitando a ativação do mTOR (e sem queijo). E, como você sabe, se a pessoa não for DOENTE (diabetes, doença cardiovascular, coisas que os laticínios ajudam a PREVENIR), o que determina, MESMO, a longevidade, é uma combinação aleatória de genética e acaso.

Veja, a gordura do leite e derivados é muito saudável; contém minerais importantes, além de vitaminas lipossolúveis, em especial a vitamina K2, que pode ser difícil de se achar em outras fontes. A proteína do leite é de alto valor biológico (lembra de ondem vem o whey?). Para quem não tem intolerância severa à lactose, nem doenças associadas a IGF-1 (espinhas, ovários policísticos), eu penso que 
laticínios fermentados são coisas gostosas e práticas - diferentemente de alguns alimentos que são apenas saudáveis, mas que são horríveis.
O leite, seja ele integral, desnatado ou sem lactose, tem açúcar. A lactose é formada por 1 molécula de glicose, e outra de galactose, que são 2 açúcares simples. No leite chamado de "sem lactose", os fabricantes usam uma enzima (lactase) para transformar a lactose em glicose e galactose. Se você toma um copo com 200ml de leite sem lactose, está consumindo 10 gramas de açúcar, só que 5 gramas serão galactose e 5 gramas serão glicose. Se você tomar um copo de leite integral, estará consumindo as mesmas 10 gramas de açúcar na forma de lactose. Se você tomar um copo de leite desnatado, continuará ingerindo 10 gramas de lactose do mesmo jeito, porque neste leite foi retirada apenas a gordura (que é a parte mais saudável).

Se o leite não está lhe fazendo bem, melhor retirar. E ele pode sim causar má digestão, azia, etc. Já a gordura do leite (nata, manteiga) e os laticínios fermentados (iogurtes, queijos) são recomendados para a maioria das pessoas.

Alergia propriamente dita aos componentes do leite é algo muito raro. O leite é rico em aminoácidos de cadeia ramificada, que pode provocar picos de insulina nas pessoas independentemente dos carboidratos nele contidos. Para a maioria das pessoas, isso não é problema. Algumas pessoas, no entanto, são muito sensíveis às elevações de IGF-1 (Insulin-like gowth factor 1) que os laticínios induzem. O IGF-1 é uma fator de crescimento, útil para mamíferos em crescimento, mas não tão útil assim para adultos. Especialmente em patologias nas quais o IGF-1 está etiologicamente envolvido (ovários policísticos, espinhas, etc), pode haver grande benefício em eliminar os laticínios. Mais uma vez, isso não tem nada a ver com intolerância à lactose, que é uma incapacidade de digerir a lactose em glicose e galactose, levando à fermentação da mesma no intestino com consequentes distúrbios DIGESTIVOS (gases, cólicas, diarreias). A quantidade mínima de lactose que resta em queijos, por exemplo, não costuma ser um problema para pessoas com intolerância à lactose, exceto para aqueles casos mais extremos. Já para as pessoas que têm espinhas, PCOS ou dificuldade de perder peso, a restrição de laticínios (mesmo aqueles fermentados, já que aqui a lactose não é o problema) pode ajudar bastante, juntamente com uma dieta páleo low carb.

xxx***xxx

Bônus

Editorial publicado ano passado no American Journal of Clinical Nutrition, e traduzido pelo Hilton Sousa em seu blog Paleodiário:

Uma visão alternativa das gorduras saturadas e laticínios: de inimigas a amigas

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui (publicado no Jornal Americano de Nutrição Clínica :-)

por Arne Astrup

Quase todas as diretrizes dietárias internacionais recomendam uma redução nas gorduras saturadas (SFA) como intervenção-chave para reduzir a incidência e mortalidade por doença cardiovascular (CVD). Isso foi traduzido em aconselhamentos para reduzir a ingestão das maiores fontes de SFA - ou seja, laticínios, carnes e ovos. Entretanto, meta-análises recentes tanto de estudos observacionais quanto de testes randomizados controlados não apenas levantaram dúvidas sobre a substanciação científica para tal aconselhamento, mas na prática minaram tais hipóteses. Tornou-se claro que existe uma necessidade para uma abordagem completamente diferente, com aconselhamento que seja baseado em alimentos ao invés de em nutrientes.

A evidência que suporta a redução da SFA repousa em um argumento de 2 passos:

"Um corpo de evidências sólido indica que ingestão mais alta da maioria das SFAs (A) está associada com níveis mais altos de colesterol total e colesterol LDL (B). Níveis mais altos de colesterol total e de LDL (B) são fatores de risco para CVD (C)" [1]

A maioria interpretaria a afirmação acima como evidência de relação causal entre a ingestão de SFA (A) e a CVD (C), mas isso na prática é uma premissa de que concentrações aumentadas de LDL (B) sempre vão aumentar o risco de CVD (C). A relação entre gorduras dietárias (e outros componentes dietários) e CVD é, entretanto, muito mais complexa, e tal premissa não leva em consideração a importância do tamanho das partículas de LDL, os efeitos do HDL e outros mediatores dos processos ateroscleróticos, trombóticos e trombolíticos. [2].

SFA e CVD


Mais meta-análises recentes que compararam ingestões altas e baixas de SFA falharam em encontrar qualquer aumento de risco para CVD. Siri-Tarino et al. [3] compararam quantis extremos de ingestão de SFA e não encontraram risco relativo diferente de 1.0. Entretanto, tornou-se óbvio que os diferentes ácidos graxos derivados de diferentes alimentos não tem os mesmos efeitos biológicos, e que a matriz alimentar dentro da qual são entregues modifica seu efeito. Então os efeitos de saúde de qualquer matriz alimentar rica em SFA não podem ser previstos somente com base no "conteúdo total de gordura saturada" dado pelo rótulo. Há uma necessidade de se ver o efeito de saúde das "comidas integrais" (N.T.: o sentido de "integral" aqui refere-se a comidas pouco ou nada processadas) e de usar biomarcadores para melhorar a validade da ingestão habitual de alimentos em estudos observacionais e a aderência em estudos randomizados controlados (RCTs).

Chowdhury et al. [4]  examinaram o efeito de SFAs baseados em uma meta-análise de 17 estudos observacionais com biomarcadores de ácidos graxos e 27 RCTs de suplementação de ácidos graxos. Nos estudos observacionais, o risco relativo para doença coronariana não foi diferente para SFAs, PUFAs o-6 (gorduras poliinsaturadas ômega-6) e MUFAs (gorduras monoinsaturadas) quando os terços superior e inferior do consumo e do volume em circulação destes ácidos graxos foram comparados. A meta-análise de RCTs dados de CVD chegou à mesma conclusão. Outra meta-análise de RCTs até mesmo sugere que substituir SFAs por PUFAs o-6 pode aumentar o risco e mortalidade por CVD [5].

Laticínios e risco de CVD e diabetes tipo 2


Em anos recentes, um corpo de pesquisa substancial tem investigado os efeitos dos laticínios e suas gorduras sobre o risco de CVD, diabetes tipo 2 e obesidade. Uma meta-análise tipo dose-resposta, de estudos prospectivos, indica que a ingestão de leite não está associada com a mortalidade todal, mas pode estar inversamente associada com o risco geral de CVD [6]. Confiança nos relatórios recordatórios sobre ingestão dietária apresenta problemas substanciais com a validade, e o desenvolvimento de biomarcadores objetivos para distinguir entre os ácidos graxos derivados da alimentação representa uma grande vantagem; ácido pentadecanóico (15:0), ácido heptadecanóico (17:0) e ácido trans palmitoléico (trans 16:1n-7) podem ser usados como biomarcadores para a ingestão de laticínios. A literatura gerou resultados mistos no que diz respeito ao risco de derrame, mas o mais completo estudo de 2 grandes coortes (Estudo Acompanhamento de Profissionais de Saúde: 51.529 homens; Estudo da Saúde das Enfermeiras: 121.700 mulheres) usando biomarcadores para laticínios (ácidos pentadecanóico, heptadecanóico e trans palmitoléico) reportaram resultados sobre derrame nesta edição do Jornal [7].

Após ajustes relevantes, nenhum associação significativa com o número total de derrames foi vista para qualquer dos 3 biomarcadores. Os resultados foram similares para os subtipos isquêmico e hemorrágico, e os mantiveram-se em análises de sensibilidade.

SFAs também já foram associadas com risco aumentado de diabetes tipo 2, que é um grande fator de risco para CVD. Entretanto, meta-análises de estudos observacionais baseados em recordatórios dietários falharam em mostrar que laticínios aumentam o risco para diabetes tipo 2 [8, 9]. Em uma meta-análise de 17 estudos tipo coorte, houve uma relação modesta mas inversa entre a ingestão total de laticínios, laticínios com pouca gordura e queijo, e o risco de diabetes tipo 2 [9].

Biomarcadores para laticínios e risco de diabetes


Uma análise de coorte foi conduzida baseada na Investigação Européia Prospectiva sobre Câncer e Nutrição (InterAct), um estudo com 12.403 indivíduos com diabetes tipo 2, e ácidos graxos foram medidos nos fosfolipídios plasmáticos [10]. 

Enquanto SFAs de cadeia par estiveram positivamente associados com a incidência de diabetes tipo 2, as SFAs de cadeia ímpar (ácidos pentadecanóico e heptadecanóico) estiveram inversamente associados com diabetes tipo 2 (Taxa de risco: 0.79 e 0.67, respectivamente). Entretanto, enquanto este estudo adiciona mais uma evidência ao efeito protetor dos laticínios contra a diabetes, ele não apresenta nenhum mecanismo nem provê informação sobre se são as SFAs ou outros componentes da matriz alimentar dos laticínios que media os efeitos. Em contraste, também nesta edição do jornal, Santaren et al. [11] confirmam que as concentrações séricas de ácido pentadecanóico estiveram associadas com um risco de 27% de diabetes (Razão de possibilidades: 0.73; P ¼ 0.02), e a associação manteve-se após ajuste por IMC e circunferência da cintura. Isso sugere que o efeito é independente da gordura corporal, uma causa importante da diabetes tipo 2. Santaren et al. também usaram amostras frequentes de testes de tolerância à glicose intravenosos para medir sensibilidade à insulina (SI) e funcionamento de células-beta (Índice de Disposição), e descobriram que concentrações de ácido pentadecanóico estavam positivamente associadas tanto com ambas as medidas em modelos inteiramente ajustados. Estas associações foram substancialmente enfrequecidas pelo ajuste por taxas de obesidade. Os autores corretamente afirma quem o mecanismo subjacente à relação inversa de ácido pentadecanóico e risco de diabetes não é conhecido, e que poderia ser tanto um efeito do ácido graxo ou atribuível a outro componente benéfico dentro da matriz do laticínio.

Conclusões


A totalidade da evidência não suporta que o aumento da gordura saturada de laticínios aumente o risco de doença arterial coronariana ou derrame ou mortalidade por doença cardiovascular. Em constraste, laticínios magros estão claramente associados com risco de diabetes tipo 2 diminuído, e este efeito é parcialmente independente de quaisquer efeitos na perda de gordura corporal. Além disso, laticínios magros não aumentam a gordura corporal, mas tendem a preservar a massa magra corporal. Não há evidência restante que suporte o aconselhamento de saúde pública sobre limitar o consumo de laticínios para evitar CVD e diabetes tipo 2. Queijo e outros laticínio são, na prática, comidas densas em nutrientes que dão a muitas pessoas prazer em suas refeições diárias.

O Departamento de Nutrição, Exercício e Esporte da Universidade de Copenhagem recebe fundos de pesquisa de numerosas companhias alimentícias dinamarquesas e internacionais, incluindo o Conselho Dinamarquês de Pesquisa de Laticínios, Arla Foods SA e a Plataforma Global de Laticínios (GDA). Arne Astrup atua como consultor/membro de comitês de aconselhamento para a GDA, EUA; McCain Foods Ltd., EUA; e McDonald’s, EUA. Ele recebe honorários e patrocínios para participações em congressos, como palestrante, para uma ampla série de assuntos dinamarqueses e internacionais.

Referências


  1. USDA; U.S. Department of Health and Human Services. Dietary guidelines for Americans, 2010. 7th ed. Washington: U.S. Government Printing Office; 2010.
  2. Astrup A, Dyerberg J, Elwood P, Hermansen K, Hu FB, Jakobsen MU, Kok FJ, Krauss RM, Lecerf JM, LeGrand P, et al. The role of reducing intake of SFA in the prevention of cardiovascular disease: where does the evidence stand in 2010? Am J Clin Nutr 2011;93:684–8.
  3. Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Meta-analysis of prospective cohort studies evaluating the association of saturated fat with cardiovascular disease. Am J Clin Nutr 2010;91:535–46.
  4. Chowdhury R, Warnakula S, Kunutsor S, Crowe F, Ward HA, Johnson L, Franco OH, Butterworth AS, Forouhi NG, Thompson SG, et al. Association of dietary, circulating, and supplement fatty acids with coronary risk: a systematic review and meta-analysis. Ann Intern Med 2014;160:398–406.
  5. Ramsden CE, Zamora D, Leelarthaepin B, Majchrzak-Hong SF, Faurot KR, Suchindran CM, Ringel A, Davis JM, Hibbeln JR. Use of dietary linoleic acid for secondary prevention of coronary heart disease and death: evaluation of recovered data from the Sydney Diet Heart Study and updated meta-analysis. BMJ 2013;346:e8707.
  6. Soedamah-Muthu SS, Ding EL, Al-Delaimy WK, Hu FB, Engberink MF, Willett WC, Geleijnse JM. Milk and dairy consumption and incidence of cardiovascular diseases and all-cause mortality: dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. Am J Clin Nutr 2011; 93:158–71.
  7. Yakoob MY, Shi P, Hu FB, Campos H, Rexrode KM, Orav EJ, Willett WC, Mozaffarian D. Circulating biomarkers of dairy fat and risk of incident stroke among US men and women in 2 large prospective cohorts. Am J Clin Nutr 2014;100:1437–47.
  8. Gao D, Ning N, Wang C, Li Q, Meng Z, Liu Y, Li Q. Dairy products consumption and risk of type 2 diabetes: systematic review and dose-response meta-analysis. PLoS ONE 2013;8:e73965.
  9. Aune D, Norat T, Romundstad P, Vatten LJ. Dairy products and the risk of type 2 diabetes: a systematic review and dose-response meta-analysis of cohort studies. Am J Clin Nutr 2013;98:1066–83.
  10. Forouhi NG, Koulman A, Sharp SJ, Imamura F, Kro¨ger J, Schulze MB, Crowe FL, Huerta JM, Guevara M, Beulens JWJ, et al. Differences in the prospective association between individual plasma phospholipid saturated fatty acids and incident type 2 diabetes: the EPIC-InterAct case-cohort study. Lancet Diabetes Endocrinol 2014 Aug 6 (Epub ahead of print; DOI: 10.1016/S2213-8587(14)70146-9).
  11. Santaren ID, Watkins SM, Liese AD, Wagenknecht LE, Rewers MJ, Haffner SM, Lorenzo C, Hanley AJ. Serum pentadecanoic acid (15:0), a short-term marker of dairy food intake, is inversely associated with incident type 2 diabetes and its underlying disorders. Am J Clin Nutr 2014;100:1532–40. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Dois pesos, duas medidas? O pensamento crítico precisa valer para todos.

Quando assistimos um show de mágica, desses realmente bons, nós vemos o improvável descortinar-se em frente aos nossos olhos. A moça é serrada ao meio, não dá nenhum grito, e depois é unida novamente - sem nenhum arranhão! O ilusionista é capaz de fazer uma pessoa levitar, e passa argolas ao redor do corpo da mesma, mostrando que não há fios invisíveis que a sustentem. Mágica!

Tirando aqueles dentre nós que são irremediavelmente crédulos, os adultos assistem a esse tipo de coisa com a chamada "suspensão voluntária da descrença". Ou seja, qualquer pessoa SABE que se trata de truques, o próprio artista se intitula "ILUSIONISTA", mas a graça é, por alguns momentos, abandonar ceticismo, abraçar a credulidade, e divertir-se com os pretensos poderes sobrenaturais do artista. Mas, quando o show acaba, deve também encerrar-se a suspensão voluntária da descrença. Se alguém, no mundo real, quiser me vender uma bicicleta voadora, eu preciso exercer o ceticismo, MESMO que a pessoa mostre que a bicicleta flutua - sob pena de ser vítima da própria credulidade, não posso adotar a mesma atitude que adotei no show de ilusionismo. Aquilo era diversão; isso é o mundo real.

Tema em pauta: as pessoas parecem ter uma certa NECESSIDADE de acreditar. Mais do que isso, de construir categorias, dividindo as coisas em um grupo do MAL ("nessas, eu não confio e não acredito") e de um grupo do BEM. No que se refere a este último grupo, aplica-se uma suspensão voluntária da descrença. Tudo aquilo que está no grupo do BEM, é bom, é salutar, etc. E isto é um ERRO. O que deve decidir se algo é válido ou inválido é a preponderância da evidência, e não o fato de ser algo que se enquadra na minha categoria de "coisas do bem" ou "do mal".

Então, onde quero chegar? Quero desfazer um equívoco. O de que eu pratico algum tipo de "medicina alternativa". Para mim, não existe medicina alternativa. Existe boa e má medicina. Quando eu ataco de forma sistemática as diretrizes nutricionais vigentes, eu não o faço porque eu sou contra a "medicina convencional". Não existe medicina convencional. Existe boa medicina, e má medicina.

O perigo dessa divisão simplista é a falsa categorização das práticas de saúde em "medicina convencional" versus "medicina alternativa". Ato contínuo, ao invés de avaliar o corpo de evidências que dá sustentação a uma determinada teoria ou intervenção, a pessoa aceita ou rejeita a teoria/intervenção baseado no GRUPO a que pertence. Se eu acredito em medicina alternativa, eu rejeito e desconfio de tudo o que for "convencional". Por outro lado, eu adoto uma atitude de SUSPENSÃO VOLUNTÁRIA DA DESCRENÇA no que diz respeito a QUALQUER coisa que esteja sob o guarda-chuva de "medicina alternativa".

Meses atrás, em virtude dos problemas ocorridos com o Facebook (que bloqueou, por várias semanas, o compartilhamento dos links do blog), andei frequentando (demais, eu diria) essa rede social. E fiquei muito preocupado. Pois dei-me conta de que uma boa parcela das pessoas que seguem esse blog o fazem porque o consideram como fazendo parte de sua visão de mundo de "medicina alternativa". E as mesmas pessoas que - pensava eu - teoricamente apreciavam meu tremendo esforço de mostrar as bases de evidência científica para esta abordagem nutricional, estão defendendo proposições que não resistiriam a uma fração de tal pensamento crítico.

Exemplo em pauta: o mito do pH.

Corre solta, no mundo da chamada "medicina alternativa", a ideia de que quase tudo em saúde, e em particular o câncer, tem a ver com o pH do corpo. Reza a lenda que o consumo de alimentos acidificantes (que são todos "do mal", processados, ligados a grandes conglomerados e, dependendo das crenças apriorísticas da pessoa, incluirão carne e/ou grãos) produzem câncer, que "só cresce em ambiente ácido". Da mesma forma, alimentos alcalinizantes (que são todos "do bem", incluindo frutas e vegetais, e uma entidade mitológica chamada de água alcalina) inibiriam o desenvolvimento do câncer (e sabe-se lá de quantas outras doenças).

Por onde começar?

1) O pH. Sim, um dia você já estudou isso. Água é H20. Mas a água está o tempo todo em constante reação de dissociação e reassociação. Assim, em qualquer dado momento, uma pequena porção de água está dissociada em OH- e H+. Quanto? 0,0000001 mol, ou 10-7. O pH nada mais é do que o logaritmo negativo dessa concentração, ou seja, água pura é sempre neutra, correspondendo a um pH de 7. Por que neutra? Porque acidez diz respeito à quantidade de H+ na solução, e alcalinidade diz respeito à quantidade de OH- na solução. Como a quantidade de H+ e OH- em água pura será sempre - obviamente - a mesma, é claro que a água não será ácida nem alcalina. Água é neutra por definição.

2) Quando misturamos uma substância na água - sódio, por exemplo - isso muda. Nesse exemplo, os íons negativos (OH-) ligam-se ao sódio, e a solução passa a ser alcalina. Passa a ser uma solução de NaOH  diluída, não "água alcalina". Água é neutra.

3) O pH do sangue é controlado de forma extremamente rígida, variando de 7,35 a 7,45. Diversas reações químicas dependem disso. Mais importante: a conformação tridimensional das proteínas e enzimas do corpo dependem da manutenção do pH nessa estreita faixa. Por esse motivo, o controle do pH do corpo é incrivelmente preciso.

4) Se você não sofre de insuficiência renal ou respiratória, NADA que você coma mudará o pH do sangue de forma significativa. Pode comer um pé de couve inteiro ou um rodízio de churrasco - o pH do sangue não muda. E ainda bem que não muda, pois tanto a alcalose metabólica quanto a acidose metabólica são situações muito graves, que você normalmente encontrará em pacientes muito doentes internados em CTI ou fazendo hemodiálise. O corpo tem mecanismos, chamados de sistema tampão, o mais importante sendo o do ácido carbônico/bicarbonato, que regulam essa função vegetativa básica.

5) O que muda é o pH da URINA. Alimentos com carga líquida ácida de fato acidificam a urina (os prótons são excretados pelo rim, que devolve o bicarbonato para o sangue para manter o sistema tampão funcionando) - exemplo: qualquer grão, integral ou não, e qualquer produto de origem animal. Alimentos com carga líquida alcalina alcalinizam a urina - exemplo: frutas cítricas, vegetais folhosos. O pH da urina muda, para que o pH do corpo não mude. A urina fica contida e isolada na bexiga, que é impermeável, a fim de manter essa diferença de pH. Releia esse parágrafo - a comida não altera o pH do sangue (aqui está uma explicação do site Brasil Escola, pois isso é matéria ensino médio - não é nenhuma bioquímica de nível universitário - todo o profissional de saúde tem obrigação de saber isso).

6) A carga ácida ou alcalina do que ingerimos depende das "cinzas" que seriam formadas por sua "queima". Cálcio alcaliniza (pois forma, por exemplo Ca(OH)2 - uma base); Fósforo acidifica, pois forma Ácido fosfórico; e assim por diante. Se consumimos muitos vegetais, por exemplo, a carga alcalina será grande, devido à grande quantidade de tais minerais formadores de base. Mesmo assim, o pH do corpo não irá mudar (o que é bom, pois alcalose metabólica é potencialmente fatal).

7) A água é neutra. Não existe água alcalina ou água ácida. Existem, isso sim, soluções diluídas de hidróxido de sódio, hidróxido de cálcio, etc, que chamamos popularmente de água mineral pois é uma água contendo minerais. O pH dessa solução será determinado pela concentração dos diferentes minerais. Faça um exercício. Pegue uma garrafa de água mineral, e leia o rótulo. Observe a quantidade MINÚSCULA de minerais contidos ali. São eles que alteram o pH da água. Agora, você acha que a CARGA ácida ou alcalina dessa solução é grande ou pequena?? Estou bebendo uma água mineral com gás enquanto escrevo essa linhas, e eis a composição.




Vejam, são valores de MILIGRAMAS por LITRO. Deixe eu lembrar o que é um miligrama.

Primeiro, a foto abaixo mostra, em colheres de chá, o que é 1 grama de sal:



Continuando: 1 g  = 1000 miligramas. Ou seja, 1 miligrama de sal, seria um milésimo da quantidade da foto acima. Eu disse um MILÉSIMO (imagine dividir essa quantidade entre MIL colheres de chá). 

Então vejamos: na água que eu estava bebendo, temos, por exemplo, 0,999 miligramas de magnésio. Ou seja, 1 miligrama por LITRO. Eu bebi meio litro, então eu bebi MEIO miligrama de magnésio

Para colocar em perspectiva: se eu comesse 1 xícara de couve refogada, eu estaria comendo 23 miligramas de magnésio. Ou seja, eu precisaria beber 23 litros dessa água para consumir o magnésio de uma xícara de couve... Então, você ainda acha que essa água irá me "alcalinizar" muito?

Quanto ao sódio, por exemplo: há 38 MILIGRAMAS por LITRO nessa marca de água, que é uma das marcas com mais sódio no mercado. Se eu bebesse 10 litros, eu estaria consumindo 380 miligramas. Quanto é isso? Um TERÇO da quantidade mostrada na colher de chá da foto acima. Então, POR QUE as pessoas se preocupam com a quantidade ridiculamente pequena de sódio na água mineral?? Falta total de pensamento crítico.

Juntando todos os sais minerais presentes nessa água (eu disse TODOS), teríamos 152 mg por LITRO. É uma pitadinha de pó quase invisível. Agora, imagine isso diluído em toda a quantidade de água de seu corpo (muitos litros!), e me diga se a carga alcalina da água mineral teria impacto significativo? Quer alcalinizar alguma coisa? Coma couve, e não água mineral! Ao menos a urina ficará mais alcalina.

Mas, e quanto ao gás da água mineral? Vai acidificar meu corpo? Causar celulite? Câncer?? Dissolver ossos? Eu não sei se já disse, mas o pH do corpo não muda, nem com comida, muito menos com o gás carbônico da água mineral. O gás da água mineral é CO2. CO2 é CO2, não importa a origem. Não há um CO2 natural, que vem dos seres vivos, e outro maligno, que vem do petróleo (dica: o petróleo também veio de seres vivos, digamos, um pouco mais antigos). É a MESMA molécula. E é a mesma que nosso corpo produz, em grande quantidade, durante toda a nossa vida. Um adulto em repouso produz, em media, 300 ml de gás carbônico por minuto. Ou cerca de um LITRO de CO2 a cada 3 minutos. Mas isso em repouso. Quando fazemos exercício, esta quantidade de CO2 pode aumentar até OITO vezes. Ou seja, pode chegar a 2400 ml por minuto. 

A quantidade de CO2 nas bebidas com gás é de cerca de 0,14 mol de CO2 por litro. Isso significaria, nas condições normais de temperatura e pressão, cerca de 1,5 litros de CO2 em uma garrafa de 500 ml de água mineral. Assim, mesmo que TODO o gás fosse diluído na corrente sanguínea, isto ainda estaria dentro de limites fisiológicos - nós apenas respiraríamos mais rápido para colocar esse CO2 para fora, assim como fazemos automaticamente no exercício. E nosso pH não mudaria. Ele não muda. Por fim, lembre-se que uma parte significativa desse CO2 retorna ao ambiente saindo diretamente do estômago, de forma nem sempre silenciosa. E o restante entra na circulação, MISTURA-SE ao CO2 endógeno, e é eliminado na respiração, como qualquer CO2. Simples assim.

Mas e o câncer? Não e verdade que ele cresce apenas em ambiente ácido?

1) O pH do sangue é estável entre 7,35 e 7,45. O que comemos não muda isso. O que bebemos não muda isso. Qualquer médico que trabalhe com medicina de verdade sabe isso. Assim, o câncer ocorre no mesmo pH que todo o resto dos fenômenos orgânicos.

2) O pH varia bastante em determinadas partes do corpo. Por exemplo, nos músculos. Quando fazemos um exercício vigoroso, não há tempo para a chegada de oxigênio em quantidade suficiente, e ocorre o exercício ANAERÓBICO, isto é, a glicose é oxidada por FERMENTAÇÃO, gerando ácido lático. O ácido lático é, como o nome diz, ácido. Assim, ocorre queda do pH localmente. Mas não confunda: isso é um fenômeno LOCALIZADO, que não tem nada a ver com o pH do resto do corpo (que oscila entre 7,35 e 7,45), e é CONSEQUÊNCIA da contração muscular anaeróbica, não causa. O fato de o pH no músculo ser frequentemente mais baixo do que o do resto do corpo não significa que o músculo só trabalha em pH baixo. É que a remoção do ácido lático pela circulação não é instantânea, o que provoca uma redução temporária do pH no local como CONSEQUÊNCIA da fermentação da glicose (glicólise anaeróbica).

3) A confusão com o câncer remonta ao início do século 20 e a um cientista brilhante chamado Otto Warburg. Otto Warburg descobriu que praticamente TODAS as células cancerígenas fermentam glicose, mesmo na presença de oxigênio. Isso ocorre em contraste com as células normais do corpo, que realizam RESPIRAÇÃO celular, na qual a glicose é completamente metabolizada até CO2 e água. A fermentação, ao contrário, gera ácido lático, e só ocorre na ausência de oxigênio (fermentação anaeróbica). Mas as células de câncer realizam fermentação aeróbica, ou seja, elas fermentam glicose e produzem ácido lático mesmo na presença de oxigênio (o chamado EFEITO WARBURG). Por conseguinte, o pH nas vizinhanças de um tumor tende a ser ácido, pelo mesmo motivo que no músculo: por acúmulo de ácido lático. A diferença é que no músculo a fermentação é facultativa, e ocorre na ausência temporária de oxigênio (exercício intenso e súbito). Já no câncer, ela ocorre mesmo com oxigênio presente, provavelmente devido à deficiência no funcionamento das mitocôndrias.
Otto Warburg em seu laboratório


4) Assim, se por um lado é verdade que o pH nos arredores das células tumorais tende a ser baixo, isso é CONSEQUÊNCIA do efeito Warburg, e não causa! Ou seja, já sabemos que nenhum alimento é capaz de alterar o pH do corpo de pessoas normais, mas MESMO que isso acontecesse, o pH baixo não tem NADA a ver com causa de tumores. O mais incrível é que o Dr Warburg, um gênio, que foi agraciado com o prêmio Nobel, sabia muito bem disso. Foram pessoas sem noção de bioquímica e desprovidas de pensamento crítico que, décadas mais tarde, entenderam ERRADO os experimentos de Warburg e chegaram à conclusão de que a acidez provocada (em suas férteis imaginações) pelos alimentos provocaria câncer.

5) A afirmação de que as células cancerígenas não se desenvolvem em pH alcalino procede, porque NENHUMA célula humana se desenvolve em pH alcalino, visto que a alcalose metabólica é um estado de doença, potencialmente fatal. É uma afirmação, portanto, pueril.


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Finalmente eu cheguei no ponto onde queria chegar. O que faz com que as pessoas sejam extremamente críticas no que diz respeito, por exemplo, às estatinas para tratamento do colesterol, mas sejam COMPLETAMENTE ingênuas no que tange a esse assunto do pH, da água alcalina e do câncer?

Veja, no que diz respeito a estatinas e colesterol, podemos questionar as indicações de tratamento, podemos questionar a magnitude dos riscos bem como o pequeno impacto da sua redução. Mas estamos falando de um fenômeno REAL, baseado em ciência sólida, com dezenas de ensaios clínicos randomizados. O fenômeno é REAL. A estatinas REDUZEM o risco cardiovascular. Só que pouco. O colesterol AUMENTA o risco cardiovascular. Só que pouco. A gordura da dieta NÃO TEM RELAÇÃO com mortalidade. Isso são fatos. E aqueles de nós que adotam uma abordagem crítica em relação às diretrizes vigentes interpretam com grande rigor estes estudos, procurando e criticando CADA PEQUENA FALHA METODOLÓGICA dos mesmos.

E, contudo, quando alguém diz que água alcalina previne o câncer pois o câncer se forma por causa da acidez, apertamos CURTIR no Facebook??? Vocês conseguem vislumbrar o ABISMO que separa essas duas coisas? A primeira é uma análise avançada e cheia de nuances sobre riscos relativos e absolutos de coisas REAIS, a outra é pura fantasia, pensamento mágico, quase infantil. O nível de pensamento científico necessário para refutar algumas dessas coisas é de ensino médio, coisas como química inorgânica, regra de três. Pessoal, isso poderia ser pergunta de vestibular. Ou de ENEM. Sabendo-se que a composição da couve é X e a da água mineral é Y, se eu comer uma xícara de couve ou beber 5 litros de água, qual terá mais impacto sobre o equilíbrio ácido-básico do corpo? É serio - ensino médio basta.

Não podemos acreditar que vamos curar o câncer chupando limão ou bebendo bicarbonato, e ao mesmo tempo criticar o estudo da rosuvastatina porque a redução do risco relativo foi pouco significativa e a população estudada não representa a média das pessoas que atendemos. Há uma assimetria fundamental entre uma atitude intelectualmente primitiva (para os conceitos "amigos") e outra complexa (para os conceitos "inimigos").

Isso me faz voltar ao início dessa postagem. Num show de mágica, temos por hábito a prática da suspensão voluntária da descrença. Mas, no dia a dia, para coisas que realmente importam (compra de um carro usado, nossa saúde), temos que ligar o botão do ceticismo. Não podemos "ligar" nossas faculdades críticas ao examinar um estudo que questiona a "Medicina Convencional", mas aceitar sem crítica afrontas diretas ao bom senso apenas por que foram proferidas de acordo com uma "Medicina Alternativa". Não existe medicina alternativa. Há apenas boa medicina, e má medicina. O MESMO rigor científico e crítico precisa ser exercido para AMBOS lados.


***

Eu tinha 16 anos, recém tinha entrado na faculdade de medicina, quando li o livro mais importante da minha vida - e não era sobre dieta:



Se é que pensamento crítico pode ser ensinado, comece lendo esse livro (e depois o do Taubes!).

É neste livro que está a lista de falácias lógicas a que eu recorro com tanta frequência (como a do espantalho)

Segue a lista de falácias:

  • ad hominem — expressão latina que significa “ao homem”, quando atacamos o argumentador e não o argumento (por exemplo: A reverenda dra. Smith é uma conhecida fundamentalista bíblica, por isso não precisamos levar a sério suas objeções à evolução);
  • argumento de autoridade (por exemplo: O presidente Richard Nixon deve ser reeleito porque ele tem um plano secreto para pôr fim à guerra no Sudeste da Ásia — mas, como era secreto, o eleitorado não tinha meios de avaliar os méritos do plano; o argumento se reduzia a confiar em Nixon porque ele era o presidente: um erro, como se veio a saber);
  • argumento das consequências adversas (por exemplo: Deve existir um Deus que confere castigo e recompensa, porque, se não existisse, a sociedade seria muito mais desordenada e perigosa talvez até ingovernável *2. Ou: O réu de um caso de homicídio amplamente divulgado pelos meios de comunicação deve ser julgado culpado; do contrário, será um estímulo para os outros homens matarem as suas mulheres);
  • apelo à ignorância — a afirmação de que qualquer coisa que não provou ser falsa deve ser verdade, e vice-versa (por exemplo: Não há evidência convincente de que os UFOs não estejam visitando a Terra; portanto, os UFOs existem — e há vida inteligente em outros lugares no Universo. Ou: Talvez haja setenta quasilhões de outros mundos, mas não se conhece nenhum que tenha o progresso moral da Terra, por isso ainda somos o centro do Universo). Essa impaciência com a ambiguidade pode ser criticada pela expressão: a ausência de evidência não é evidência da ausência;
  • alegação especial, frequentemente para salvar uma proposição em profunda dificuldade teórica (por exemplo:Como um Deus misericordioso pode condenar as gerações futuras a um tormento interminável, só porque, contra as suas ordens, uma mulher induziu um homem a comer uma maçã? Alegação especial: Você não compreende a doutrina sutil do livre-arbítrio. Ou: Como pode haver um Pai, um Filho e um Espírito Santo igualmente divinos na mesma Pessoa? Alegação especial: Você não compreende o mistério da Santíssima Trindade. Ou: Como Deus permitiu que os seguidores do judaísmo, cristianismo e islamismo — cada um comprometido a seu modo com medidas heróicas de bondade e compaixão — tenham perpetrado tanta crueldade durante tanto tempo? Alegação especial: Mais uma vez você não compreende o livre-arbítrio. E, de qualquer modo, os movimentos de Deus são misteriosos);
  • petição de princípio, também chamada de supor a resposta (por exemplo: Devemos instituir a pena de morte para desencorajar o crime violento. Mas a taxa de crimes violentos realmente cai quando é imposta a pena de morte? Ou: A bolsa de valores caiu ontem por causa de um ajuste técnico e da realização de lucros por parte dos investidores. Mas há alguma evidência independente do papel causal do “ajuste” e da realização de lucros? Aprendemos realmente alguma coisa com essa pretensa explicação?);
  • seleção das observações, também chamada de enumeração das circunstâncias favoráveis, ou, segundo a descrição do filósofo Francis Bacon, contar os acertos e esquecer os fracassos *3 (por exemplo: Um Estado se vangloria do presidente que gerou, mas se cala sobre os seus assassinos que matam em série);
  • estatística dos números pequenos — falácia aparentada com a seleção das observações (por exemplo: ” Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa. Atenciosamente “. Ou: Tirei três setes seguidos. Hoje à noite não tenho como perder).
  • compreensão errônea da natureza da estatística (por exemplo: O presidente Dwight Eisenhower expressando espanto e apreensão ao descobrir que metade de todos os norte-americanos tem inteligência abaixo da média);
  • incoerência (por exemplo: Prepare-se prudentemente para enfrentar o pior na luta com um potencial adversário militar, mas ignore parcimoniosamente projeções científicas sobre perigos ambientais, porque elas não são “comprovadas”. Ou: Atribua a diminuição da expectativa de vida na antiga União Soviética aos fracassos do comunismo há muitos anos, mas nunca atribua a alta taxa de mortalidade infantil nos Estados Unidos (no momento, a taxa mais alta das principais nações industriais) aos fracassos do capitalismo. Ou: Considere razoável que o Universo continue a existir para sempre no futuro, mas julgue absurda a possibilidade de que ele tenha duração infinita no passado);
  • non sequitur — expressão latina que significa “não se segue” (por exemplo: A nossa nação prevalecerá, porque Deus é grande. Mas quase todas as nações querem que isso seja verdade; a formulação alemã era “Gott mit uns”). Com frequência, os que caem na falácia non sequitur deixaram simplesmente de reconhecer as possibilidades alternativas;
  • post hoc, ergo propter hoc — expressão latina que significa “aconteceu após um fato, logo foi por ele causado” (por exemplo, Jaime Cardinal Sin, arcebispo de Manila: ” Conheço [...] uma moça de 26 anos que aparenta sessenta porque ela toma a pílula [anticoncepcional] “. Ou: Antes de as mulheres terem o direito de votar, não havia armas nucleares);
  • pergunta sem sentido (por exemplo: O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto imóvel? Mas se existe uma força irresistível, não pode haver objetos imóveis, e vice-versa);
  • exclusão do meio-termo, ou dicotomia falsa — considerando apenas os dois extremos num continuum de possibilidades intermediárias (por exemplo: Claro, tome o partido dele; meu marido é perfeito; eu estou sempre errada. Ou: Ame o seu país ou odeie-o. Ou: Se você não é parte da solução, é parte do problema);
  • curto prazo versus longo prazo — um subconjunto da exclusão do meio-termo, mas tão importante que o separei para lhe dar atenção especial (por exemplo: Não temos dinheiro para financiar programas que alimentem crianças mal nutridas e eduquem garotos em idade pré-escolar. Precisamos urgentemente tratar do crime nas ruas. Ou: Por que explorar o espaço ou fazer pesquisa de ciência básica, quando temos tantas pessoas sem teto?);
  • declive escorregadio, relacionado à exclusão do meio-termo (por exemplo: Se permitirmos o aborto nas primeiras semanas da gravidez, será impossível evitar o assassinato de um bebê no final da gravidez. Ou, inversamente: Se o Estado proíbe o aborto até no nono mês, logo estará nos dizendo o que fazer com os nossos corpos no momento da concepção);
  • confusão de correlação e causa (por exemplo: Um levantamento mostra que é maior o número de homossexuais entre os que têm curso superior do que entre os que não o possuem; portanto, a educação torna as pessoas homossexuais. Ou: Os terremotos andinos estão correlacionados com as maiores aproximações do planeta Urano; portanto — apesar da ausência de uma correlação desse tipo com respeito ao planeta Júpiter, mais próximo e mais volumoso — o planeta Urano é a causa dos terremotos); *4
  • espantalho — caricaturar uma posição para tornar mais fácil o ataque (por exemplo: Os cientistas supõem que os seres vivos simplesmente se reuniram por acaso — uma formulação que ignora propositadamente a ideia darwiniana central, de que a natureza se constrói guardando o que funciona e jogando fora o que não funciona. Ou isso é também uma falácia de curto prazo/longo prazo — os ambientalistas se importam mais com anhingas e corujas pintadas do que com gente);
  • evidência suprimida, ou meia verdade (por exemplo: Uma “profecia” espantosamente exata e muito citada do atentado contra o presidente Reagan é apresentada na televisão; mas — detalhe importante — foi gravada antes ou depois do evento? Ou: Esses abusos do governo pedem uma revolução, mesmo que não se possa fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos. Sim, mas será uma revolução que causará muito mais mortes do que o regime anterior? O que sugere a experiência de outras revoluções? Todas as revoluções contra regimes opressivos são desejáveis e vantajosas para o povo?);
  • palavras equívocas (por exemplo, a separação dos poderes na Constituição norte-americana especifica que os Estados Unidos não podem travar guerra sem uma declaração do Congresso. Por outro lado, os presidentes detêm o controle da política externa e o comando das guerras, que são potencialmente ferramentas poderosas para que sejam reeleitos. Portanto, os presidentes de qualquer partido político podem ficar tentados a arrumar disputas, enquanto desfraldam a bandeira e dão outros nomes às guerras — “ações policiais”, “incursões armadas”, “ataques de reação protetores”, “pacificação”, “salvaguarda dos interesses norte-americanos” e uma enorme variedade de “operações”, como a “Operação da Causa Justa”. Os eufemismos para a guerra são um dos itens de uma ampla categoria de reinvenções da linguagem para fins políticos. Talleyrand disse: “Uma arte importante dos políticos é encontrar novos nomes para instituições que com seus nomes antigos se tornaram odiosas para o público”).
Segue uma boa resenha do livro:

O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro
Carl Sagan
Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

por Roberto Belisário
Seqüestros por alienígenas, anjos e gnomos, feitiçarias e maus-olhados, curas quânticas e o poder extraordinário das pirâmides. Um dos muitos paradoxos do mundo moderno é a convivência entre o enorme sucesso da ciência e da tecnologia e a disseminação de crenças não-científicas ou pseudo-científicas nas sociedades.
Mitos sempre existiram. A novidade é que, no seio de nossa cultura "científica", vários deles assumem formas "modernas" e procuram na própria ciência respaldo para se sustentar - apesar de atropelarem sistematicamente os métodos científicos -, produzindo as chamadas "pseudociências". Ironicamente, sua difusão é enormemente facilitada pelos mesmos meios de comunicação de massa que a ciência ajudou a criar. A ciência é "filtrada" por uma mídia em grande parte acrítica e sua parte mais importante, o seu método crítico, não chega à população em geral.
Poucos cientistas se arriscam nesse debate. O astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan (1934-1996), autor da série de TV Cosmos e um dos maiores divulgadores científicos de nossa época, é uma exceção. Em O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, ele ergue o estandarte da ciência para mostrar as origens das teorias pseudocientíficas e usa-o para rebater inúmeros casos específicos, desde histórias famosas sobre raptos por alienígenas até "superstições estatísticas" em loterias e jogos de roleta.
A tese central de Sagan é que o antídoto do cidadão comum para não tomar gato por lebre - ou ciência por pseudociência - é a aliança equilibrada entre a postura cética e a abertura da mente para idéias novas. A importância dessa atitude, diz o autor, é que "as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior" (pág. 21), devido aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida cotidiana, quando mau usados. Desde 1996, ano da publicação do livro, os acontecimentos confirmaram e aprofundaram essa idéia: avanços recentes como os medicamentos genéricos, alimentos transgênicos e a engenharia genética, além de fatores mais antigos, como usinas nucleares, armas nucleares, antibióticos usados indiscriminadamente e produtos que destróem a camada de ozônio exigem modificações na legislação e a participação de toda a sociedade para evitar efeitos nocivos. [1]
Boa parte do livro contém uma coleção preciosa de desmistificações de uma série de fenômenos "inexplicáveis", incluindo previsões astrológicas, visões e raptos por discos voadores e bruxarias. Mas a obra não se resume a um compêndio de desmentidos. Trata-se de um livro vasto, que cobre uma série de aspectos das origens das pseudociências e das relações entre a ciência e a sociedade.
Pode-se distinguir, entre os 25 capítulos, cinco partes principais. Nos dois primeiros, discute-se a importância da ciência e suas características principais. A seguir, passa-se a discutir os principais fatores responsáveis pela permanência das crenças não-científicas na sociedade. As razões são certas características culturais e biológicas herdadas de nossos antepassados longínquos, fundamentais para a sobrevivência de nossa espécie, mas que podem funcionar como armadilhas para o discernimento quando não reconhecidas. Cada capítulo versa sobre um aspecto dessas armadilhas, ilustrado por vários exemplos concretos.

Foto da "Face de Marte" , tirada pela sondanorte-americana Viking Orbiter 1,após tratamento digital. "A Face"
guarda surpreendente semelhança
com o rosto de Cristo.
Fonte: Nasa
Por exemplo,a capacidade de reconhecer padrões, inata no ser humano e que nos faz abstrair formas em nuvens e em conjuntos de estrelas (constelações), é responsável pelas visões de canais em Marte e da face de Cristo no mesmo planeta. Alucinações, coletivas ou não, são ilustradas por visões de OVNIs e da Virgem Maria. Reconhecimento de padrões também aparecem na falsa identificação de regularidades em fenômenos aleatórios, como em especulações em jogos de loteria e de roleta.
Sendo o autor astrônomo, boa parte desses primeiros capítulos dedica-se a desmentir histórias sobre visões e raptos por seres extraterrestres, incluindo falsificações propositais - como os círculos perfeitos nas plantações da Inglaterra -, teorias conspiracionistas, como os casos Roswell e da Área 51 [2] e disseminações de histórias através de uma mídia quase acrítica.
A maior parte dos outros assuntos é abordada em função das histórias sobre ETs. Por exemplo, são identificados alguns paralelos entre histórias de raptos por OVNIs e histórias de bruxas e de rituais satânicos - a maioria dos elementos centrais das histórias de rapto por alienígenas está, segundo o autor, presente na paranóia que queimou inúmeras mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média. Sagan pretende mostrar com isso que os relatos de raptos por alienígenas são apenas mais um tipo de representação mítica dos medos e desejos humanos: os ETs seriam as versões modernas das bruxas, gnomos e duendes (curiosamente, o Brasil está experimentando um novo "surto" de duendes e anjos povoando o mundo, responsável pela repercussão de obras como as da escritora Mônica Buonfiglio). Alguns casos de raptos por alienígenas e de rituais satânicos são explicados a partir da memória recuperada de abusos sexuais na infância.

A mesma foto da Face de Marte tirada pela sonda norte-americana Mars Global Surveyor, em 1998. As sombras, mais detalhadas, já não sugerem face alguma.Fonte: Nasa
A obra não é um texto de filosofia da ciência ou de epistemologia e Sagan não se aprofunda nas relações entre pseudociências, mitos, medos e desejos. Essas relações são visíveis, porém, numa leitura atenciosa do livro. O maior valor dessa parte da obra está em mostrar como as diversas pseudociências não resistem a uma análise mais apurada.
A partir do capítulo 12, a abordagem muda e o autor passa a complementar os doisprimeiros capítulos com a descrição das características da ciência, as razões pelas quais a abordagem científica é a mais apropriada e a comparação com as pseudociências. Novamente Sagan não mergulha em teorias epistemológicas, mas descreve o lado prático do pensamento cético, baseado em sua experiência como cientista. Sagan apresenta o que chama de "kit de detecção de mentiras", uma exposição bem elaborada da essência do pensamento cético e seus instrumentos. Esta parte da obra inclui uma interessantíssima lista de cerca de 20 falácias de argumentação mais comuns (páginas 210-215), ilustradas por numerosos exemplos afinados com o cotidiano das pessoas. Por exemplo, o argumento ad hominem, "quando atacamos o argumentador e não o argumento", ou o post hocergo propter hoc ("aconteceu após um fato, logo foi por ele causado").
Nos oito capítulos finais, Sagan afasta-se do combate direto à pseudociência e passa a descrever as relações entre a ciência e a sociedade. Os problemas na educação e na divulgação científica são abordados nos primeiros três. Os últimos são dedicados às relações entre ciência e política, incluindo a importância da cultura científica na formação da cidadania (o autor tem uma experiência pessoal a contar sobre isso), a relação entre instrução e liberdade, a importância da pesquisa básica e o problema das verbas para pesquisas.
Uma agradável surpresa aparece nas páginas 324-327, quando o autor tenta passar sua enorme experiência em divulgação científica e explica ao leitor como ela deve ser feita. Qual o segredo da vulgarização científica de sucesso? Sagan é direto: "não falar para o público em geral como falaríamos com nossos colegas do ramo" é o único segredo. Entre as "armadilhas potenciais" no trabalho de divulgação, Sagan cita "a simplificação exagerada, a necessidade de ser econômico com as qualificações (e quantificações), o crédito inadequado dado aos muitos cientistas envolvidos e as distinções insuficientes traçadas entre as analogias úteis e a realidade". Entre os bons exemplos de divulgadores, são citados os biólogos Stephen Jay Gould e Richard Dawkins, os físicos Steven Weinberg e Kip Thorne, o químico Roald Hoffmann e os astrônomos Fred Hoyle e Isaac Asimov.
[1] O caso da África do Sul é um exemplo concreto de o quanto o analfabetismo científico pode ser trágico: o presidente Thako Mbeki recusa-se a aceitar as inúmeras pesquisas que apontam o vírus HIV como o causador da AIDS (vide a Decração de Durban) e proibiu a administração de medicamentos à população, inclusive às gestantes, cujos filhos teriam muito mais chances de serem salvos se fossem medicadas (cf. Folha de S. Paulo de 17/12/00, pág. A25). A África do Sul é um dos países mais atingidos pela AIDS, com cerca de 10% da população contaminada pelo HIV. Outro caso famoso é o da cantora Nara Leão, que tentou curar um tumor no cérebro através de medicinas alternativas que não fizeram mais do que fazer desaparecer os sintomas (um efeito perigosíssimo!). Nara morreu por causa do tumor pouco depois, em 1989.
[2] O leitor pode tentar desvendar com seus próprios olhos os "mistérios" da ex-secretíssima base militar norte-americana conhecida como "Área 51" nas fotos de satélite disponíveis desde 1998 no site da Terraserver .