sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Saiu na revista Nature desta semana - açúcar deveria ser controlado como álcool e tabaco

Muito lentamente, os mais importantes veículos científicos começam a refletir os conceitos expostos neste blog. Aos poucos, a fobia relativa à gordura na dieta vai dando lugar ao reconhecimento do papel central que o açúcar em particular e os carboidratos em geral tem na epidemia de obesidade, síndrome metabólica e diabetes. O texto abaixo pode ser lido aqui. Resolvi traduzi-lo para o português, dada a sua relevância. Quando você ler "açúcar", abaixo, lembre-se de que o mesmo aplica-se à farinha (aliás, a farinha aumenta mais rapidamente o açúcar no sangue do que a própria sacarose, o açúcar de mesa).

"Especialistas afirmam: o controle do açúcar pela sociedade é essencial para aliviar o custo sobre o sistema de saúde

O Açúcar deveria ser controlado da mesma forma que o álcool e o cigarro a fim de proteger a saúde pública, de acordo com um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), que afirmam, em um novo relatório, que o açúcar está produzindo uma pandemia global de obesidade e contribuindo para 35 milhões de mortes anualmente por doenças não transmissíveis tais como diabetes, doença cardíaca e câncer.
As doenças não transmissíveis já representam, no mundo todo, um custo de saúde maior do que as doenças transmissíveis, de acordo com as Nações Unidas. Nos Estados Unidos, 75 % dos dólares destinados para a saúde são gastos tratando destas doenças e suas consequências.
Na edição de 2 de fevereiro da revista Nature, Robert Lustig MD, Laura Schmidt PhD, MSW, MPH e Claire Brindis, DPH, colegas na UCSF, argumentam que o açúcar, que apresenta potencial de abuso, juntamente com toxicidade e ampla disseminação na dieta ocidental, é o principal culpado desta crise mundial de saúde.
Esta parceria de cientistas treinados em endocrinologia, sociologia e saúde pública lançou um novo olhar sobre as evidências científicas que se acumulam sobre o açúcar. Tais colaborações interdisciplinares salientam o poder de instituições científicas de saúde como a UCSF.
Açúcar, eles argumentam, está longe de ser "apenas calorias vazias" que tornam as pessoas gordas. Nos níveis em que é consumido pela maioria dos americanos, o açúcar altera o metabolismo, aumenta a pressão sanguínea, altera significativamente os hormônios e causa dano significativo ao fígado - o menos compreendido destes danos. Estes problemas de saúde em muito lembram aqueles causados pelo consumo de álcool que, é bom lembrar, é destilado a partir do açúcar.
O consumo mundial de açúcar triplicou nos últimos 50 anos e é visto como a causa-chave da epidemia de obesidade. Mas a obesidade, Lustig, Schmidt e Brindis argumentam, pode ser apenas um marcador do dano causado pelos efeitos tóxicos do açúcar. Isto explicaria por que 40% dos pacientes com síndrome metabólica (as principais mudanças metabólicas que levam a diabetes, doenças cardíaca e câncer) não são clinicamente obesos.
"Enquanto o público pensar que o açúcar representa apenas `calorias vazias`, não temos chance de resolver este problema", disse Lustig, um professor de pediatria no Departamento de Endocrinologia no Hospital Infantil Benioff da UCSF e diretor do programa de manejo de peso de crianças e adolescentes daquela instituição.
"Há boas calorias e más calorias, assim como há boas gorduras e más gorduras, bons aminoácidos e e maus aminoácidos, bons carboidratos e maus carboidratos", disse Lustig. "Mas o açúcar é tóxico, além de suas calorias".
Limitar o consumo de açúcar apresenta desafios além de educar as pessoas sobre a sua toxicidade. "Nós reconhecemos que há aspectos culturais e celebratórios do açúcar", disse Brindis, diretora do Instituto de Políticas de Saúde da UCSF. "Mudar tais padrões é muito complicado".
De acordo com Brindis, intervenções efetivas não podem basear-se apenas na mudança individual, mas sim em soluções ambientais e comunitárias, semelhantes às que ocorreram com álcool e tabaco, para aumentar as chances de sucesso.
Os autores argumentam que, para que a sociedade afaste-se do alto consumo de açúcar, o público precisa primeiramente ser melhor informado sobre a ciência emergente sobre o açúcar.
"Há uma lacuna enorme entre o que nós sabemos pela ciência e o que praticamos na realidade", disse Schmidt, professora de políticas de saúde na UCSF e co-diretora do Programa de Engajamento Comunitário e Políticas de Saúde do Instituto de Ciências Clínicas da mesma instituição, que foca-se em pesquisas sobre álcool e dependência.
"A fim de melhorar o termômetro da saúde, este assunto [do açúcar] precisa ser reconhecido como uma preocupação fundamental em nível global", ela disse.
Muitas das intervenções que reduziram o consumo de álcool e tabaco podem ser modelos para abordar o problema do açúcar, tais como elevação de impostos, controlar o acesso ao produto, e dificultar o fornecimento de licensas para as máquinas de venda de guloseimas que ofereçam produtos ricos em açúcar em escolas e nos locais de trabalho.
"Não estamos propondo a proibição", disse Schmidt. "Não estamos advogando nenhuma grande intervenção do governo na vida das pessoas. Estamos falando em formas sutis de tornar o consumo do açúcar um pouco menos conveniente, afastando assim as pessoas das doses mais concentradas. O que nós queremos é, de fato, aumentar as escolhas disponíveis, tornando as comidas que não são carregadas de açúcar comparativamente mais fáceis de se obter e mais baratas."


  • É importante que você perceba que, uma vez engolidos, farinha, batata, arroz, maizena, enfim, qualquer tipo de amido tranforma-se em açúcar. Embora não sejam doces ao paladar, são compostos pela mesma glicose do artigo acima. Eu sei que sou repetitivo, mas a mensagem é muito importante: consumir pão (mesmo que seja pão preto) ou massa (mesmo que integral) é igual, do ponto de vista metabólico, a consumir açúcar puro.

16 comentários:

  1. Josivaldo Mendes da26 de janeiro de 2014 08:48

    Sendo assim,vamos comer o quer ?

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  2. Josivaldo Mendes da26 de janeiro de 2014 09:33

    Bom dia Dr
    Se pode comer carboidrato no Jantar ? se não o quer comer ? Verduras e peixes !

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  3. Julio Matsumura Filho18 de abril de 2014 16:12

    http://lowcarb-paleo.blogspot.com.br/2012/01/como-devo-comer-comida-de-verdade.html - muito boa matéria!!!! Explica direitinho o que podemos comer e o que não podemos. Parabéns Dr.J.C.Souto !!

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  4. Josivaldo Mendes da18 de abril de 2014 19:00

    Boa noite amigo.

    Tenho uma dúvida a Batata doce é Pobres em açúcar ou rica em açúcar ?

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  5. Rica

    Dr. Jose Carlos Souto, M.D.
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    Em 18/04/2014 19:00, "Disqus" escreveu:

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  6. hoje é meu segundo dia que apostei em um novo estilo de vida...mas tenho muitas duvidas: vegetais como cenoura, chuchu, brócolis, couve flor, beterraba são paleo???estou um pouco confusa! quero fazer tudo direitinho! e quanto a gordura posso comer á vontade, por que particularmente eu gosto muito...o trigo e o açúcar cortei! desculpe minha ignorância é tudo muito novo pra mim! Nesses dois dias comi ovos com bacon, café c/leite sem açucar pela manha e carne (não magra) com folhas, no almoço e jantar e nos intervalos queijo branco e/ou iorgute....estou no caminho certo????

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  7. Está TUDO certo.

    Em 30 de setembro de 2014 18:05, Disqus escreveu:

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  8. Olá Dr. Souto!
    Seria ótimo ter uma Geladeira igual a da Família Dinossauro ... com bichos vivos cobertos por verduras, um até segura um repolho... Todos pulando entre as prateleiras!! Kkkkkk
    Viva a comida Natural !
    Abraço

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  9. Rogério dos Santos1 de outubro de 2014 13:55

    Infelizmente ainda não consegui me livrar do vício de doces e chocolates. Como vocês lidam com isso quando sentem algum desejo por doce?

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  10. Eu como chocolate 85%

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    Em 01/10/2014 13:55, "Disqus" escreveu:

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  11. Rogério dos Santos1 de outubro de 2014 14:04

    E quanto a doces de confeitaria recheados com diversos tipos de creme (só de imaginar me dá água na boca...rsrs), nem de vez em quando pode? Ou bolo de aniversário?

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  12. Olá Rogério. Pode fumar de vez em quando? Exceto pelo fato de que um doce vai te trazer alguma energia - e o cigarro no máximo estimular - a questão é análoga. O doce é delicioso, muito muito gostoso? Coma. Não vais conseguir ficar sem comer toda a bandeja ou comer de novo amanhã? Não coma. Alternativas: batata-doce com nata, num purê; frutas, as mais diversas, com nata.

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  13. O Márcio disse tudo! Bem, tem que ver se esse 'de vez em quando' não vai desencadear um 'de vez em sempre'! pra mim funciona óleo de coco (ou nata, ou manteiga derretida) + cacau + adoçante + coco ralado = fatbomb.

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  14. Rogério dos Santos2 de outubro de 2014 13:06

    Valeu, Márcio. Obrigado pelas dicas.

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  15. Rogério dos Santos2 de outubro de 2014 13:07

    Valeu também, Patrícia. É necessária muita força de vontade, mas vou tentar...rsrs.

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