sexta-feira, 8 de junho de 2012

Colesterol II

No post anterior, discutimos sobre a a origem da teoria lipídica da doença cardiovascular. Era 1957, e a American Heart Association publicava o seguinte artigo:


O seguinte trecho, na conclusão do artigo, é significativo pois demonstra que a teoria lipídica não passava disso, uma TEORIA, e que não se justificava mudar a dieta de um país inteiro baseado apenas em hipóteses frágeis:


Traduzindo: "Assim, as evidências atuais não autorizam nenhuma mudança drástica na dieta, especificamente na quantidade de ou no tipo de gordura na dieta da população em geral, sob a premissa de que tal mudança pudesse definitivamente diminuir a incidência de doença coronariana. Por outro lado, o fato de que a obesidade é um defeito nutricional causado por consumir mais calorias do que se gasta e o fato de que as gorduras são a fonte mais concentrada de calorias, provendo 40 a 45% das calorias diárias, sugere que muitas pessoas deveriam consumir menos calorias. Para a maioria delas, ist significa comer menos gordura."

A segunda parte deste parágrafo você, leitor deste blog, já sabe que está equivocada. Uma dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras leva à perda de peso, e não ao ganho.

Agora, compare a afirmação marcada em amarelo, acima, com o seguinte trecho, publicado apenas 4 anos após, em 1961, na revista Circulation:

Traduzindo: "A redução ou controle do consumo de gordura, sob supervisão médica, com substituição de gorduras saturadas por poli-insaturadas, é recomendada como um meio de prevenir a aterosclerose e reduzir o risco de ataques cardíacos e derrames. Esta recomendação é baseada na melhor evidência científica disponível no presente momento."

O que mudou nestes 4 anos? Novos estudos prospectivos? Grandes estudos epidemiológicos? Não. O que mudou foi apenas o balanço de poder no comitê de especialistas que emitiam suas opiniões nestes textos. Neste artigo de 1961, olhe quem passou a ser membro do comitê da AHA:


Este é o mesmo Ancel Keys que postulou a teoria lipídica da doença cardiovascular. Keys ganhava cada vez mais prestígio, e passava a apresentar um peso político cada vez maior nas disputas científicas dentro da American Heart Association (AHA).

Mas foi com o advento do United States Senate Select Committee on Nutrition and Human Needs, conhecido como Comissão McGovern  entre 1968 and 1977, que a recomendação de cortar a gordura saturada virou dogma. Baseado em ciência? Não, baseado na bola de neve iniciada por publicações como as acima, e pela influência de médicos como Ancel Keys. Em outras palavras, ninguém havia testado essa mudança radical (pegar um grande número de pessoas, dividir em dois grupos, e alimentar metade com baixa gordura e alto carboidrato, e outra metade com baixo carboidrato e alta gordura, e ver o que acontece), e um comitê de políticos, após ouvir a opinião destes "experts", decidiu recomendar que todos os americanos comessem menos gordura (e portanto mais carboidratos). Para uma excelente revisão deste período, assista o documentário (legendado) de Tom Naughton, em especial a parte II.

Finalmente, depois que toda a população já havia sido orientada a mudar a sua dieta radicalmente, foram conduzidos grandes estudos para avaliar o impacto da redução da gordura nos alimentos (repito, apenas DEPOIS que a gordura já havia sido demonizada). Os resultados foram muito diferentes do que se esperava, mas isto fica para o próximo post.

9 comentários:

  1. Professor, sigo a dieta comum recomendada pela nutricionista, priorizando grãos integrais e moderando a ingestão de proteínas. Até o momento eliminei percentual considerável de gordura e, como pratico musculação, obtive ganho de massa muscular. Ou seja, aparentemente, venho obtendo os resultados esperados. Mas, descobri a dieta low carb e tudo fez muito sentido pra mim. De fato, a ingestão de proteínas, gorduras e vegetais se mostrou mais saciadora do que a de pão integral e semelhantes. Ao reportar a gradual diminuição da ingestao de carboidratos para ela, poderá me repreender. É o que imagino. O que você recomendaria, continuar com a dieta da pirâmide, ou a transição para a low carb me traria benefícios ainda maiores e duradouros?

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    1. Prezado Caio. Em primeiro lugar, quero deixar claro que não tenho a intenção de mudar aquilo que está funcionando para as pessoas. Dieta low fat + exercício é uma combinação MUITO melhor do que dieta high-carb E high-fat + sedentarismo!

      Mas perguntaste o que EU penso. Bom, eu penso que a Pirâmide Alimentar é uma das causas da epidemia de obesidade e diabetes que assola o mundo moderno. A orientação de comer SEIS a OITO servidas de carboidratos por dia só poderia piorar se acrescentassem alguma tragadas de cigarro. Eu não tenho nenhuma dúvida que uma dieta low carb traz benefícios maiores e mais duradouros. O simples fato de poder comer à vontade, nunca passar fome, e ao mesmo tempo emular a dieta com a qual a nossa espécie evoluiu já deve servir de argumento.

      Se sua nutricionista lhe criticar, troque de nutricionista. Se vc mora em Porto Alegre, posso lhe indicar uma profissional que trabalha especificamente com dieta low-carb e dieta Páleo. Se vc lê inglês, compre o livro The Paleo Solution, de Robb Wolf. Se você vai embarcar nesta jornada, saiba que terá de ouvir de muita gente que vc está louco, que vai se matar, etc. Mas posso lhe garantir, por experiência própria, que em poucos meses a maré muda, e vão lhe perguntar "O quê vc está fazendo, que eu quero fazer também!".

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  2. Jose, existe algum estudo á respeito dos niveis hormonais? Tendo como exemplo a testosterona, o gh e o cortisol. Existe alguma aumento ou declinio nas taxas destes hormonios ao adotar a dieta low carb?

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    1. Prezado Lucas, não é uma pergunta fácil. O Exercício físico influencia estes hormônios bem mais do que a dieta, especialmente a testosterona e o GH. O Cortisol está mais relacionado ao stress e ao ciclo sono/vigília. A testosterona tende a ser mais baixa em pacientes obesos e com síndrome metabólica. Se isto é causa ou consequência, não se sabe. Mas é possível que a resolução da síndrome metabólica (e não há nenhuma estratégia melhor para isso do que uma dieta low carb) possa ajudar a normalizar os níveis de testosterona. O GH responde muito bem aos exercícios de resistência (com pesos). Desconheço a influência da dieta no GH. O cortisol elevado aumenta a glicemia e a resistência à insulina, e portanto é contra-producente. O stress elevado e a falta de sono podem produzir esta alteração. Exercício em excesso ("overtraining") também pode ser uma causa de stress que leva ao aumento do cortisol. Em resumo, estes hormônios dependem mais do estilo de vida do que da dieta. No entanto, níveis desregulados dos mesmos podem comprometer a eficiência de qualquer dieta de perda de peso. Espero ter esclarecido suas dúvidas.

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  3. Pode me indicar uma nutricionista aqui em Porto Alegre que trabalha com low carb? obrigada

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    1. Polyana Freitas - nutrirossi11@hotmail.com
      Ela está de férias, talvez demore para responder

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  4. Cyntia Et Luís KF21 de julho de 2013 19:46

    Olá, Dr. Souto, acredito que a tradução do trecho "with reasonable substitution of poly-unsaturated for saturated fats" seria "com razoável substituição de gorduras poli-insaturadas por saturadas" e não "com substituição de gorduras saturadas por poli-insaturadas" como você traduziu. Poderia conferir? Obrigado, Luís

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  5. Não Luís. Este é um erro comum que as pessoas comentem ao traduzir o inglês. No inglês, é AO CONTRÁRIO:


    Veja:http://www.teclasap.com.br/2010/04/02/como-traduzir-substitute/

    SUBSTITUTE (v.)

    As construções com substitute (for ou with) são muito capciosas, em geral opostas às de “substituir” em português. Muita atenção ao contexto!

    Hydrogen can be substituted for oil.

    O hidrogênio pode substituir o petróleo. (NÃO “ser substituído pelo petróleo…”!)

    I’ve got diabetes. The doctor told me to substitute saccharine forsugar.

    Estou com diabetes. O médico me mandou substituir o açúcarpela sacarina.

    substituir, introduzir; colocar, pôr, usar, utilizar em substituição, no lugar de, em vez de; trocar por; colocar no lugar de; tomar o lugar de; assumir o lugar de; entrar no lugar de

    You can substitute soy milk for cow’s milk.

    Você pode substituir o leite de vaca pelo leite de soja / usar leite de sojaem vez de leite de vaca.

    For a tastier cake, don’t substitute margarine for butter.

    Para o bolo ficar mais gostoso, não use margarina no lugar de manteiga.

    Behavior therapy tries to substitute new responses for undesirable ones.

    A terapia comportamental tenta substituir as reações indesejáveis pornovas / introduzir, colocar reações novas no lugar das indesejáveis.

    We made a cheaper copier by substituting a disposable cartridge for the complex mechanism used in other copiers.

    Fizemos uma copiadora mais barata introduzindo o cartucho descartávelem lugar do complexo mecanismo usado nas outras copiadoras.

    Construções OPOSTAS ao português!!!

    Technology is increasingly being substituted for human labor.

    Cada vez mais a tecnologia está substituindo o trabalho humano.

    Consumers are tightening their belts and substituting cheaper productsfor premium products.

    O consumidor está apertando o cinto e substituindo, trocando produtos sofisticados por outros mais baratos.

    Scientists are trying to substitute the sick cells with healthy ones.

    Os cientistas estão tentando substituir as células doentes por células saudáveis.

    To substitute opinion for fact is not acceptable in journalism.

    Não é aceitável no jornalismo dar opiniões em vez de fatos, substituir os fatos pelas opiniões.

    Construções equivalentes ao português:

    (Football) Smith substituted for Brown, who strained his ankle.

    Smith substituiu Brown, que torceu o tornozelo.

    These machines substitute for hundreds of workers.

    Estas máquinas substitutem centenas de operários.

    As construções com substitute em geral correspondem a replace:

    Electronic sensors may one day substitute for / replace human eyes.

    Sensores eletrônicos talvez venham a substituir os olhos humanos.

    Cf. Mais Erros Comuns

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