terça-feira, 3 de julho de 2012

A dieta Atkins aumenta o risco cardiovascular?

Inúmeros sites e jornais publicam hoje uma notícia que já vem sendo publicada desde a semana passada na mídia internacional, com a seguinte mensagem "A dieta Atkins pode aumentar o risco de AVC e doença cardíaca".  A notícia refere-se a um artigo publicado pelo British Medical Journal.
Desde a semana passada, há uma enxurrada de textos comentando a péssima qualidade do referido artigo, mas nossa mídia apenas traduziu a notícia como ela veio das agências internacionais, sem NENHUMA crítica. Denise Minger faz uma fantástica desconstrução do artigo, mas trata-se de um post longo em inglês, e não tenho como traduzi-lo todo. Clique aqui para ler o original.

Assim, opto por traduzir aqui um texto mais curto, do professor canadense Dr.Yoni Freedhoff, que disseca de forma crítica o referido artigo.

O que a leitura daquele artigo que afirma que Low Carb produz doença cardíaca realmente me diz?


A versão curta é que, neste caso, o British Medical Journal, e possivelmente, os autores e revisores deste estudo valorizam mais a publicação de propaganda exagerada e alarmista com grande apelo à mídia do que a verdadeira integridade jornalística e científica.

Deixe-me começar a versão mais longa com uma pergunta. O seu estilo de comer - seu repertório alimentar se quiserem - é o mesmo hoje como era há 15 anos? O meu certamente não é. 15 anos atrás eu era um médico residente solteiro. Minha dieta era composta de hambúrgueres, bifes, salsichas, pizzas, asas de frango, batatas fritas, restaurantes, comida pronta para levar, montes de xícaras de café e refeitórios de hospital horríveis. O fato é que, seja devido às mudanças de vida, problemas de saúde, modismos alimentares, novas relações, novos empregos - o tipo de alimentação varia muito com o tempo e as circunstâncias para muitas pessoas.

No entanto, os pesquisadores deste trabalho , que analisou o impacto que a dieta teria sobre risco cardiovascular entre 43,396 mulheres suecas, e que concluiu que as mulheres que seguiram dietas de baixo carboidrato tiveram um risco aumentado de doença cardíaca, usou apenas uma única entrevista de hábitos dietéticos, na qual baseou seu estudo de 15 anos duração e as suas conclusões.

E quanto a esse único e isolado conjunto de dados? Ele consistia em um questionário de freqüência alimentar em que as pessoas foram solicitadas a identificar a freqüência com que consumiam 80 itens diferentes, entre alimentos e bebidas, ao longo dos últimos 6 meses.

Você acha que isto é confiável? Você consegue se lembrar o quanto de qualquer coisa, quanto mais de 80 coisas, você comeu nos últimos 6 meses? E se você comeu e bebeu outros itens além destes 80?

Mas não vamos apenas imaginar o quão falho é este questionário, vamos analisar diretamente o artigo. Ao observar a ingestão calórica média relatada pelas mulheres a partir dos questionários, é imediatamente evidente a imprecisão dos mesmos, quando os autores relatam um consumo calórico diário médio de apenas 1.561 calorias. É um número incrivelmente pequeno, uma piada frente ao consumo calórico médio per capita de 2.990 calorias das suecas nesta mesma época, segundo dados da Organização para a Alimentação e Agricultura da ONU (FAO).

Mas vamos fingir por um momento que os dados fossem de fato corretos, e que você pudesse realmente  afirmar que o seu tipo de alimentação hoje continuará a ser o mesmo nos próximos 15 anos. Minha próxima pergunta seria: você acha que a qualidade das várias proteínas, carboidratos e gorduras da sua dieta pode ter alguma influência sobre o risco de desenvolver doença cardiovascular nos próximos 15 anos? Será que comer uma dieta rica em gorduras trans confere um grau de risco diferente do que uma dieta rica em gorduras insaturadas? Será que comer uma dieta rica em grãos integrais confere um risco diferente do que uma dieta rica em ​​farinhas pulverizadas e ultra-processadas? Que tal comer fora regularmente versus preparar sua própria comida a partir de ingredientes básicos? Fritura de imersão versus assado? Salsichas versus salmão? Quinoa versus arroz branco? Couve versus batatas? Claro que seria importante, até crianças de 10 anos sabem disso.

Mas não os pesquisadores deste artigo. Veja, eles simplesmente relataram e analisaram ​​os dados de um questionário único, em um único ponto no tempo, por meio de 10 diferentes percentis de consumo de carboidratos. Eles não prestaram nenhuma atenção à qualidade dos macronutrientes sendo consumidos, apenas suas quantidades totais. A única consideração dada quanto à qualidade dos macronutrientes foi diferenciar entre "proteína animal" versus “fontes vegetais”. Nenhuma consideração foi dada à qualidade das gorduras (isto apesar do impacto bem estabelecida das gorduras trans no aumento dos riscos cardiovasculares e das gorduras insaturadas na diminuição dos mesmos), ou dos carboidratos (mais uma vez apesar dos dados sugerindo benefícios cárdio-protetores de grãos integrais e risco cardiovascular dos refinados).

Mas ok, vamos mais uma vez fingir por um momento que os dados foram, de fato, bem controlados para os fatores dietéticos de conhecido impacto na doença cardiovascular. Ainda assim, o risco relatado aqui é digno da preocupação e da repercução obtida na mídia? Aqui, o aumento do risco relativo de 5%  significa 4 a 5 casos adicionais de doença cardiovascular para cada 10.000 mulheres na faixa mais baixa de consumo de carboidratos. Devemos parar as prensas? Dado o tamanho incrivelmente pequeno do efeito observado, e dada a tarefa incrivelmente complicada de controlar variáveis ​​de confusão (e aqui não estou falando apenas sobre as variáveis ​​de confusão alimentares incrivelmente gritantes que foram explicitamente ignoradas pelos pesquisadores, mas também sobre as variáveis ​​não-alimentares e de estilo de vida que foram muito pouco exploradas neste estudo) poderiam ou deveriam ser feitas (e, pior ainda, divulgadas) recomendações de cautela quanto à dieta?

Finalmente vamos fingir por um momento que os dados são, de fato conclusivos, e que o risco é real e assustador o suficiente para gritar aos quatro ventos. Você acha então que importaria saber que as dietas estudadas e que foram relatadas como de risco não eram de fato "low-carb", dado que o que foi anunciado aos quatro ventos é que a dieta low-carb aumenta o risco de doença cardíaca? Olhando para os dados, o 1 º quartil de menor consumo de carboidratos é na verdade uma dieta onde os 154.7g de carboidratos correspondiam a 40% das calorias. Simplificando, isso não é uma dieta low-carb! A dieta Atkins, por exemplo, começa em apenas 20g e, em seguida, ao longo do tempo as pessoas tendem a aumentar progressivamente até 50 a 100g. 154.7g? ISTO NÃO É LOW CARB. Nem mesmo o percentil 10%, o de mais baixo consumo, em que as mulheres consumiam 123.7g ou 32% das calorias em carboidratos.

Então, para revisar: O artigo está baseando todos os seus 15 anos de conclusões no resultado de um único, solitário, e claramente impreciso questionário de freqüência alimentar aplicado no início do estudo, não controlou fatores de confusão gritantes e claramente conhecidos, encontrou um aumento minúsculo de risco absoluto, e a dieta relatada não pode sequer ser referida como uma dieta realmente pobre em carboidratos, muito menos Atkins.

Útil? Conclusivo? Digno de manchete?

E fica ainda pior.

O BMJ não apenas publicou um trabalho completamente inútil, eles deram um conselho bem claro, ainda que completamente não baseado em evidências, para os clínicos em seu editorial que acompanhava o artigo:

"Apesar da popularidade destas dietas, os médicos devem, provavelmente, desaconselhar o seu uso para controle a longo prazo do peso corporal"
Pior ainda, fontes altamente respeitável de informação médica twitaram as matérias resultantes da mídia como relevantes, e até mesmo o Jornal Watch, uma publicação do New England Journal of Medicine reportou este estudo como sendo válido para milhares de assinantes que confiam no Jornal Watch para mantê-los a par dos últimos e mais importante estudos publicados.

Quanto ao verdadeiro estado das evidências sobre os riscos e benefícios a longo prazo de dietas de baixo carboidrato, este artigo, e as conclusões editoriais do BMJ, não acrescentam absolutamente nada. Dadas as falhas cientificamente bizarras deste artigo e as conclusões completamente descabidas do editorial, eles constituem-se em contribuições completamente inúteis para a literatura médica. Na verdade eu os descreveria como piores do que inúteis, na medida em que são imperdoável, irresponsável, vergonhosa e conscientemente desinformativos - algo que o nosso mundo nutricionalmente já incrivelmente confuso realmente não precisa.

17 comentários:

  1. É revoltante uma divulgação desse tipo... Deixa as pessoas mais confusas sobre o que comer e o que realmente é mais certo nutricionalmente.
    Todos os argumentos desse blog e os incríveis resultados em consultório aplicando a dieta low carb me fazem não só aderir o consumo de comida de verdade, mas também rejeitar qualquer outro tipo de prescrição dietética.Polyana

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    1. A Polyana, para quem não sabe, é a super-nutricionais low carb de Porto Alegre! Concordo plenamente. Depois de ver o efeito (em nós mesmos e nos nossos pacientes), não é mais possível voltar atrás.

      Por outro lado, o fato de que artigos como esse sejam publicados mostra que o movimento lowcarb / plaeo está crescendo. Não fosse isso, se fôssemos absolutamente insignificantes, o BMJ não se daria ao trabalho de REAGIR. Temos que continuar fazendo barulho!

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  2. Opa, Totalmente off-topic quanto ao assunto do post, só passando para registrar como foi o meu início. Consegui passar pelos primeiros dias. Senti fome (apesar de ter me alimentado bem) neles, creio que pelo fato de minha dieta ser completamente baseada em carbs. Estou a 7 dias na dieta e 2,5 kg menos pesado (sou alto e estava com IMC 30, as portas da obesidade), Estou hoje me sentindo bem. Estou com consulta marcada para um check-up completo na próxima quinta. Acabei por comprar os keto sticks, para descobrir como estou conduzindo a minha reeducação alimentar e estou muito satisfeito com o resultado, segue: (http://img33.imageshack.us/img33/4982/testeeo.jpg)
    Para quem não conhece, são dois indicadores, o 1o que deve ser verificado no 1o minuto é o de ketones, quanto mais roxo melhor, o 2o verificado aos dois minutos é o de glicose, que deve ser mínimo, portanto, quando mais amarelo melhor.
    Vou agora aguardar e ver até onde chegarei. O objetivo são 85 Kg para um IMC de 24,6. O IMC não é uma medida perfeita, mas é algo em que se basear.

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    1. Com esta cetose toda, em 3 meses já terás perdido todo o peso que pretendes! Para quem não sabe, os corpos cetônicos são um indicador de forte queima de gordura pelo corpo. Isso acontece com consumo de menos de 50 (para algumas pessoas, menos do que 30 ou 20) gramas de carboidratos por 24h. Para quem quer ter certeza de que está fazendo uma dieta realmente low carb, é possível medi-los na urina, como nosso amigo aqui fez.
      Parabéns. Estar em cetose é uma das melhores sensações que existe: ausência de fome, energia de sobra, peso caindo diariamente, chego a ter saudades.
      P.S.: onde vc encontrou os Ketosticks?

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    2. Farmadelivery.com.br. Procura por "keto-diabur" a entrega foi bem rápida.

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  3. Que decepçao com o BMJ... E pensar que anos a gente estuda estatística e epidemiologia na faculdade só para ver o lixo que anda sendo publicado em jornais que eram para ser A referência no meio científico... O conteúdo não me surpreende, parece o grito desesperado de uma corrente que já não tem mais o que argumentar a seu favor e que está literalmente vendo "a casa cair"...

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    1. Tens toda a razão. Os critérios editoriais são rapidamente esquecidos quando o objetivo é publicar qualquer coisa que ajude a manter o mito de que uma diet alow carb não é saudável, quando TODA a evidência aponta no sentido contrário.

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  4. Essa galera aqui tá mexendo os pauzinhos rs: http://www.foodprocessing.com/top100/

    Sem contar que eles contam com o apoio incondicional do governo mundial, que teme uma "revolução" no mercado de alimentos e alterações de preços que podem culminar em desastres eleitorais rs.

    O grande preditor das eleições e da estabilidade politica pelo mundo afora é o % da renda gasto com comida rs. Se vocês lembram do video do Lustig, os países em guerra civil são aquleles onde em média a comida custa mais de 30% da renda.

    Entao se deixar como tá, a comunidade low-carb vai continuar por um bom tempo aos olhos da opinião pública como bando de malucos que entopem as artérias por vontade própria. rsrs.

    Sendo bem fdp, talvez seja melhor. Quando a dieta low-carb paleo virar mainstream, creio eu não sei, capaz de ficar dificil você achar pra comprar fraldinha a 8 reais o quilo, bacon a 9 reais o quilo rs.

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    1. Eu também já pensei nisso. Mas eu acho que podem querer aumenter a taxação das gorduras saturadas. Imaginem um tablete de manteiga de 200g custando quase R$10,00? Espero que isto NUNCA aconteça, mas devido ao que as "autoridades" de saúde no Brasil vêm dizendo, se não taxarem as gorduras saturadas, vão continuar criminalizando-as, como faz o "Bem Estar" da Rede Globo.

      A propósito, neste mesmo programa, o tal endocrinologista que participa regularmente dele declarou que esta pesquisa do BMJ prova "de forma definitiva" (ou algo assim) que não se deve fazer uma dieta low-carb, mas sim, aquele papo de da maioria dos nutricionistas de "equilíbrio", "dieta balanceada", "prato colorido", "um pouco de cada coisa"... e sempre, SEMPRE a mesma recomendação: seis porções de carboidratos por dia (um pouco de cada coisa??). Eu posso com isso?

      Dr. José, gostaria de saber se existe algum médico low-carb que atenda em Curitiba... pois aqui na minha cidade (no litoral do PR, bem próximo da capital) eu creio que não exista nenhum. Tem como passar essa informação? Abraços.

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    2. Olá. Infelizmente, não conheço médicos com esta abordagem em outros estados/cidades. Aliás, talvez devêssemos compilar uma lista! Sugiro procurar no Facebook, no grupo "Revolução Paleo".

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  5. Que bom ver que existem médicos brasileiros percebendo que as dietas ancestrais e low carb são muito benéficas. Minha experiência pessoal com um estilo de vida "primal", depois de 12 anos de vegetarianismo, tem sido muito gratificante. Seu texto me lembra deste artigo: http://www.guardian.co.uk/business/2012/jun/11/why-our-food-is-making-us-fat É uma pena que nossa alimentação e saúde ainda seja controlada tão descaradamente por empresas e governos com fins lucrativos.

    http://paleobrasil.wordpress.com/

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    1. Marcela, gostei muito do seu site! Já coloquei nos links (acima, à direita). Dê sempre uma conferida no meu twitter - o artigo que vc referiu acima é um dos vários que já citei no twitter (deixo para postar em português aqui, e em inglês lá).

      Cada um de nós, ao escrever, é um multiplicador. Chegaremos lá.

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  6. muito boa, toda esta matéria
    obrigada pela partilha
    voltarei sempre
    BEM HAJA
    Maria

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  7. Dr Jose, Adorei seu blog. Gostaria de pedir uma ajuda. Estou conhecendo e seguindo um estilo de paleo há alguns meses (ainda me adaptando). Voltei de 2 anos nos EUA agora e procuro algum endocrinologista em SP para me acompanhar e fazer um check-up inicial. Conhece algum bom endocrinologista em SP que não se contenta em propagar as orientações tradicionais? Obrigado, Thiago

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  8. Só para registrar. Alëm da melhora nas taxas, 7,5 kg a menos em um mês.

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  9. Dr. Jose Carlos na minha modesta opinião penso q tudo isso é propaganda contrária, eu me pergunto, qtas. são as empresas q literalmente iriam falir se a grande massa populacional americana aderisse a uma alimentação low carb?
    Sou adepta da dieta Atkins, tenho uma disposição, um vigor, uma energia q nunca tive antes e msm hj com 35 anos me sinto muito mais jovem do q qdo. comecei em 2003, meus exames estão maravilhosos, o ultimo peguei o resultado dia 28 de julho constou colesterol total 197 e HDL 68.2 fiz um chek-up cardio. e minha pressão msm na esteira tá perfeita, (11/7) e no pico da esteira foi a 15/9
    Msm tendo pelo menos 2 x ao ano alguns cristais na urina e cálculo msm assim pretendo não parar com esse estilo de vida.
    Enfim quero agradecer a sua seriedade e é muito bom saber q tem médicos aqui no Brasil q se comprometem com esse estilo de vida e assim como Atkins perseguem a verdade qto ao assunto!
    Obrigada.

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    1. Sensacional! Já são quase 10 anos de Atkins - e você está viva! (risos).
      Concordo, a pressão das evidências está subindo, mais e mais notícias pró-low-carb surgem a cada dia, e a única explicação para uma revista séria publicar um artigo de tão baixo nível é o desespero.
      Dê uma olhada no meu twitter (no canto direito desta página), todos os dias posto ali notícias - acho que veremos uma grande virada nos próximos 10 anos.

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