quarta-feira, 21 de março de 2012

Thomas L. Cleave, M.D. e a "Doença Sacarina"

O Dr. Thomas Cleave (1906-1983) entrou na Marinha Real Britânica como tenente-cirurgião em 1927. Na sua longa carreira como médico e pesquisador, entrou em contato com muitas "tribos primitivas" e com médicos britânicos que trabalharam por muitas décadas em tais postos avançados do Império.

Foi nestas décadas de obervação cuidadosa dos "nativos" em sua condição de vida "primitiva", comparando-os com os seus pares que viviam em condições mais ocidentalizadas, que o Dr. Cleave cunhou o conceito de "Doença Sacarina", ou seja, o conjunto de doenças ligadas ao consumo de açúcar e farinha refinada. Seus livros datam das décadas de 1950 e 60. Há um livro mais recente, de 1973, que está diponível livremente na internet: THE SACCHARINE DISEASE: Conditions caused by the Taking of Refined Carbohydrates, such as Sugar and White Flour. Nesta obra fascinante, o Dr. Cleave desenvolve com brilhantismo e elegância a ideia de que a evolução darwiniana moldou a nossa saúde, e de que as doenças da civilização são consequência da exposição a uma dieta para a qual não estamos genetica e fisiologicamente preparados. Soa familiar? Se você achava que esta história de dieta paleolítica era um modismo recente, bem, reconsidere. A seguir, traduzo livremente o argumento do autor em seu capítulo inicial.

"Defeitos hereditários ou malformações congênitas. A seleção natural não é absoluta. Isto é, 3 bilhões de anos não levaram à perfeita adaptação de todos os organismos, e a evolução segue ocorrendo. Por isso, defeitos hereditários ocorrem. Normalmente a luta pela vida, com a sobrevivência dos mais fortes, torna estas falhas muito raras. É um fato trivial que, entre os animais selvagens, tais defeitos são extremamente raros. Nos humanos, entretanto, sob os efeitos da vida civilizada, tais defeitos tornam-se um pouco mais comuns. Não obstante, a seleção natural evitou que a taxa de quaquer defeito congênito superasse 5 casos em cada 1000 nascidos vivos.
Deriva daí que, antes de postular-se uma exceção à lei da adaptação para atribuir-se uma doença a um defeito hereditário, a frequência de sua ocorrência deve ser considerada. Se a incidência é muitas vezes maior do que a de outros defeitos congênitos sabidamente hereditários, então tal CAUSA para a doença torna-se extraordinariamente improvável. Esta abordagem baseada na incidência é de grande valor para decidir se uma doença é devida a um defeito hereditário, ou a um fator novo no meio-ambiente para o qual a adaptação ainda não foi possível. Em outras palvras, para decidir se o corpo está construído de forma errada, ou está sendo usado de forma errada.
Esta distinção é de grande valor para decidir-se a grande questão do tratamento. Pois se a doença é devida a um defeito hereditário, isto é, se o corpo está construído de forma defeituosa, o único tratamento possível será um tratamento cirúrgico ou de substituição; se, no entanto, a doença for devida a um novo fator ambiental, isto é, se o corpo estiver sendo usado de forma inapropriada, o tratamento é obviamente dirigido à remoção da causa."

"Outro assunto importante é a "Constituição Pessoal" ("Personal Make-up"). Este termo é usado para descrever as variações saudáveis que ocorrem em qualquer parte do organismo, incluindo até mesmo as menores estruturas. Este conceito é tão importante por que  a constituição pessoal saudável de uma pessoa pode interagir intensamente com algum fator ambiental novo, e qualquer doença resultante desta interação irá requerer uma diferenciação cuidadosa de defeitos hereditários, uma vez que, embora defeitos hereditários e constituição pessoal sejam coisas muito diferentes, ambos são hereditários.

Vejamos alguns exemplos: durante a primeira guerra mundial, os soldados altos eram atingidos nas trincheiras pelas metralhadoras com muito mais frequência do que os baixos. Contudo, ninguém que visse um homem alto morto desta forma consideraria que a morte se deu devido a um defeito hereditário na estrutura do corpo (muito embora a altura seja hereditária). Não, a causa da morte era claramente o novo fator ambiental (as rajadas de bala), fator para o qual obviamente não houvera tempo para adaptação evolutiva, e para o qual a Constituição Pessoal deste homem tornava-o particularmente vulnerável.

Daí conclue-se que a presença de aspectos hereditários, descobertos durante a busca das causas de uma doenças, tornam-se uma distração ou uma ilusão, devido ao fato de a Constituição Pessoal e os defeitos serem igualmente hereditários. E, se Constituição Pessoal é o que está envolvido, a hereditariedade é completamente irrelevante na busca da causa da doença. Por exemplo, no caso do homem alto morto pelas balas, que importância tem se o seu pai também era alto, e se morreu de forma similar numa guerra anterior? Neste caso, a discussão sobre a hereditariedade torna-se não apenas uma perda de tempo, mas também uma distração que dificulta a identificação da única coisa que realmente importa: a remoção da CAUSA, na forma de um novo fator ambiental"

Em posts futuros, comentarei sobre algumas das várias descobertas deste cientista extraordinário, que há mais de 50 anos deduziu, apenas pela observação atenta das tribos africanas, sem dispor de nossas modernas ferramentas científicas (talvez jutamente por isso!), que o consumo de carboidratos refinados estava por trás das doenças da civilização, que a inflamação era um mecanismo patogênico importante na doenças cardiovascular, e que estávamos adaptados não ao fator ambiental novo representado pela comida refinada, e sim a uma dieta paleolítica.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Vídeo LEGENDADO sobre low carb, colesterol e doença cardíaca

Esta é uma palestra longa (e excelente) sobre dieta Low-Carb e suas relações com colesterol e diabetes; excelente introdução ao método científico e ao pensamento crítico. Para variar, está disponível apenas em inglês. Tomei coragem e comecei a traduzi-la e legendá-la. São 5 partes, cada uma com duração de 15 minutos. Cada parte me tomou cerca de 3 horas de trabalho, mas acho que valeu cada minuto. Segue abaixo a primeira parte do vídeo "Big Fat Fiasco", de Tom Naughton.



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"Big Fat Fiasco" parte 2:




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"Big Fat Fiasco" parte 3



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"Big Fat Fiasco" parte 4!



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"Big Fat Fiasco" parte 5 (última parte):

domingo, 11 de março de 2012

Low carb explicada em 30 minutos - vídeo (em inglês)

A doutora Mary Vernon explica como chegou à conclusão de que a orientação nutricional tradicional não ajudava seus pacientes. Muito bom, duração de 30 minutos.

sábado, 10 de março de 2012

Paladar e evolução

Você já parou para pensar como ou por que os animais comem justamente os alimentos que lhes fazem bem? Você não precisa ensinar um lobo a gostar de carne, ou uma ovelha a gostar de grama. O paladar, como de resto todas as demais características de um animal, foi selecionado por milhões de anos de modo que animais que naturalmente gostassem mais daqueles alimentos que lhes mantivessem saudáveis teriam mais chances de sobreviver. Por que seria diferente com a espécie humana? Por que desejamos tanto consumir tudo o que nos leva à ruína, como açúcar e guloseimas, derivados de trigo e todo o tipo de alimento processado e industrializado?

John Yudkin (1910-1995) foi um fisiologista e cientista britânico que estudou profundamente a influência dos carboidratos (em especial a sacarose e a frutose) na gênese das doenças humanas. Era um homem muito à frente do seu tempo. Desde 1957 já afirmava que o açúcar era o maior responsável pela aterosclerose, doença coronariana, diabetes e obesidade, contrariando a teoria lipídica da doença cardiovascular, que acabou vencendo a guerra de relações públicas e propaganda, apoiada pela indústria de drogas anti-colesterol. Eu sem livro de 1972 denominado "Pure, white and deadly" (puro, branco e mortal), atualmente indisponível (ATUALIZAÇÃO: O LIVRO FOI REEDITADO!! Compre aqui: Pure, White, and Deadly: How Sugar Is Killing Us and What We Can Do to Stop It), mas do qual consegui uma cópia, já constava todo o conceito de síndrome metabólica, que só seria formalmente enunciado e adotado pela comunidade científica em 1988.

Neste livro fascinante (clique aqui para conhececer mais sobre este livro e sobre os efeitos deletérios do açúcar), há um trecho muito elucidativo (página 160), que traduzo de forma livre e transcrevo abaixo:
"O ser humano tornou-se cada vez mais hábil em separar desejo e necessidade, a tal ponto que a satisfação desenfreada do desejo tornou-se desastrosa para o indivíduo e para a espécie. As pessoas sempre desejaram alimentos doces porque gostavam dos mesmos. E, enquanto os únicos alimentos doces a que tinham acesso eram frutas, ao satisfazer seu desejo pelo sabor doce, as pessoas automaticamente satisfaziam a sua necessidade de vitamina C e outros tantos nutrientes. Porém, uma vez que o ser humano passou a fabricar a própria comida, especialmente após o desenvolvimento da tecnologia para o refino do açúcar e a manufatura dos alimentos, adquiriu a capacidade de separar a doçura e o conteúdo nutricional. O que as pessoas desejam desvinculou-se do que elas precisam."


O autor segue seu argumento de que o forte desejo evolutivo pelo doce, a forma como a evolução nos compeliu no passado a consumir frutas, foi sequestrado pela industrialização dos alimentos. Nunca comemos frutas por que eram saudáveis. Comíamos por que eram doces, temos desejo de comer doces, e os únicos alimentos doces existentes por 2 milhões de anos eram frutas. Subitamente, temos acesso ao açúcar refinado em quantidades ilimitadas, em "alimentos" sem nenhum valor nutricional. As pessoas então deixariam de comer pois faz mal? Claro que não, afinal, no caso das frutas, não comiam porque fazia bem, e sim porque era doce. A atração pelo doce é, como já dissemos, evolutiva. Uma característica intrinsicamente boa quando aplicada a comida de verdade, mas perniciosa quando aplicada ao mundo moderno.


A indústria alimentícia não se limita a acrescentar quantidades industriais (desculpe o trocadilho) de açúcar a todo o tipo de alimento (veja o rótulo das coisas, de ketchup a pepinos em conserva). Outras características de nosso paladar foram identificadas e introduzidas nos alimentos processados. Há um termo para isso, denominado hiperpalatabilidade, isto é, a característica de um produto de apresentar uma intensidade de sabor muito além daquela presente na comida de verdade. Uma vez que estejamos acostumados a consumir alimentos processados no nosso dia-a-dia, a comida de verdade começa a parecer sem gosto. Isto é muito perceptível nas crianças, que muitas vezes recusam os alimentos reais e só aceitam alimentos processados hiperpalatáveis como biscoitos recheados, salgadinhos, e guloseimas de todo o tipo. Há um excelente documentário (CBS - 60 minutes) sobre os cientistas contratados pela indústria com o objetivo explícito de tornar o sabor artificial dos produtos "irresistível".

A situação é análoga à das drogas. Nosso cérebro possui um "centro do prazer", que se ativa quando realizamos atividades fisicamente prazerosas, especialmente o sexo. Obviamente, a pressão evolutiva neste caso é imensa, pois está diretamente relacionado à capacidade de produzir descendentes. Drogas de abuso, como a heroína e o crack, ativam direta e intensamente o centro do prazer, desvinculado de qualquer atividade fisiologicamente útil (tal como a reprodução). Assim como no caso da hiperpalatabilidade, em que o desejo por certo sabor foi desvinculado da necessidade de obter nutrição, a hiperestimulação do centro do prazer pelas drogas leva à desvinculação entre prazer e sua utilidade biológica, com resultados desastrosos.

Se você tem dificuldade em largar o pão, a massa e os doces, há portanto bons motivos evolutivos para isso. Mas, como no caso das drogas, não há outro caminho a fim de restaurar a saúde. A boa notícia é que, após um período inicial de abstinência (como nas drogas), você vai cada vez mais redescobrindo o sabor da comida de verdade. Para algumas pessoas, bastam poucas semanas. Para outras, são necessários meses. O fato é que, ao alinhar o seu paladar com os alimentos com os quais evoluímos, manter uma dieta saudável torna-se um prazer, pois finalmente vinculamos novamente nossos desejos e nossas necessidades.