sábado, 26 de janeiro de 2013

Scientific American: Carboidratos, e não gorduras, prejudicam seu coração

Este artigo foi publicado ainda em 2010 pela Scientific American (dos EUA). Ou seja, como eu sempre digo, a ciência está aí, disponível - e não é de hoje - para quem QUISER ver.
http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=carbs-against-cardio

Science News

Edição de Maio de 2010
Carbs e o coração: MAIS evidências de que os carboidratos refinados, e NÃO as gorduras, ameaçam o coração.
Ainda permanece incerto se o novo pensamento será refletido na revisão deste ano das diretrizes federais para alimentação dos EUA (nota do tradutor: não, as diretrizes de 2010 seguem tão obtusas como as anteriores)
Por Melinda Wenner Moyer

Coma menos gordura saturada. Esta tem sido a mensagem do governo norte-americano nos últimos 30 anos. Mas enquanto os americanos têm obedientemente reduzido o percentual de calorias de gordura saturada desde os anos 1970, as taxas de obesidade mais que dobraram, o diabetes triplicou, e a doença cardíaca segue sendo a que mais mata no país. Agora, uma enxurrada de novas pesquisas, incluindo uma metanálise de cerca de duas dúzias de estudos científicos, sugere o motivo: os cientistas podem ter escolhido o culpado errado. Os carboidratos refinados, que muitos americanos consomem hoje no lugar da gordura, podem aumentar o risco de obesidade, diabetes e doença cardíaca bem mais do que a gordura - um achado que tem sérias implicações para as novas diretrizes sobre dieta esperadas para este ano. (Nota do tradutor: as diretrizes de 2010 continuaram demonizando a gordura, contra a evidência científica, mas isto é esperado, pois a nutrição virou uma religião, com mandamentos imutáveis escritos em pedra. Ciência é OUTRA COISA, que evolui na medida em que postulados antigos são superados por novas evidências experimentais)

Em março o American Journal of Clinical Nutrition publicou uma metanálise - que combina os dados de vários estudos - que comparou o consumo de alimentos relatados por cerca de 350.000 pessoas com seu risco de desenvolver doenças cardiovasculares em um período de 5 a 23 anos. A análise, supervisionada por Ronald M. Krauss, diretor de pesquisas de aterosclerose no Instituto de Pesquisas do Hospital Infantil de Oakland, não achou nenhuma associação entre o consumo de gordura saturada e o risco de doenças do coração.

Os achados juntam-se a outras conclusões dos últimos anos que vão contra a sabedoria convencional (senso comum) de que a gordura saturada faz mal ao coração porque aumentaria os níveis de colesterol total. Esta ideia "é baseada em grande parte em extrapolações, que não são sustentadas pelas pesquisas", diz Krauss.

Um dos problemas com esta velha lógica é que "o colesterol total não é um bom preditor de risco", diz Meir Stampfer, um professor de nutrição e epidemiologia da Escola de Saúde Pública de Harvard. Embora a gordura saturada possa aumentar os níveis de colesterol LDL ("ruim"), ela também aumenta os níveis de HDL ("bom"). Em 2008, Stampfer foi co-autor de um estudo publicado no New England Journal of Medicine que acompanhou 322 mulheres moderadamente obesas por 2 anos enquanto elas seguiam uma dentre 3 dietas: uma dieta de baixa gordura ("low fat") restrita em calorias, baseada nas orientações da Sociedade Americana de Cardiologia; uma dieta mediterrânea restrita em calorias, rica em vegetais e pobre em carne vermelha; e uma dieta de baixo carboidrato ("low carb") com calorias liberadas. Embora as mulheres do grupo low carb tenham comido a maior quantidade de gordura saturada e não tenham contado calorias, elas terminaram o estudo com a melhor proporção de colesterol LDL/HDL além de terem perdido o dobro do peso das que comeram uma dieta restrita em gorduras e em calorias.

Os achados de Stampfer não apenas sugerem que as gorduras saturadas não são tão ruins; eles indicam que os carboidratos podem ser muito piores. Um estudo de 1997, do qual ele foi co-autor, no Journal of The American Medical Association (JAMA),  avaliou 65.000 mulheres e identificou que o quintil (a quinta parte) de mulheres que consumiam mais carboidratos de fácil absorção - isto é, aqueles com maior índice glicêmico - tinham 47 % mais chance de desenvolver diabetes tipo II do que o quintil que consumia o menor índice glicêmico (já a quantidade de gordura que as mulheres consumiam não teve nenhuma relação com o risco de diabetes). E um estudo holandês de 2007 sobre 15.000 mulheres publicado no Journal of The American College of Cardiology descobriu que mulheres com sobrepeso e que encontravam-se no quartil que consumia refeições com carga glicêmica média maior (uma medida que incorpora o tamanho das porções, além do índice glicêmico das mesmas), tinham 79% mais chance de desenvolver doença coronariana do que mulheres com sobrepeso no quartil mais de mais baixa carga glicêmica. Estes efeitos podem ser explicados em parte pelo efeito io-iô que os carboidratos de alto índice glicêmico têm nos níveis de glicose do sangue, o que estimula a produção de gordura, a inflamação, aumenta o consumo calórico e a resistência à insulina, diz David Ludwig, diretor do programa para obesidade no Hospital Infantil de Boston.

Será que o pensamento mais moderno sobre gorduras e carboidratos estará refletido nas Diretrizes Dietéticas para os Americanos de 2010, atualizadas a cada 5 anos? (nota do tradutor: não, pois não há quantidade de evidências que mude a FÉ de alguém - e a nutrição deixou de ser uma ciência há muito tempo para tornar-se uma religião dogmática). Depende da força das evidências, explica Robert C. Post, vice diretor do Centro de Política Nutricional do Departamento de Agricultura dos EUA (nota do tradutor: departamento de quê? De saúde? Não, de AGRICULTURA. Cuja função é vender o quê? Grãos...). Achados que têm menos suporte são colocados na lista de assuntos que necessitam de mais pesquisas. No momento, explica Post, a principal mensagem da Agência para os americanos é limitar as calorias, independentemente da origem das mesmas. "Nós achamos que as mensagens para os consumidores têm que ser simples, curtas e diretas", diz ele. Outro problema em relação às agências regulatórias, diz Stampfer, de Harvard,  é que as indústrias de bebidas com açúcar estão fazendo um lobby muito forte, tentado desacreditar os estudos científicos. 

Ninguém está sugerindo que as pessoas devam se atolar em gordura saturada (por mais tentador que isso possa parecer). Algumas gorduras monoinsaturadas e poliinsaturadas, como as encontradas no óleo de peixe e no azeite de oliva, podem proteger contra doenças cardíacas. Além disso, alguns carboidratos ricos em fibras (nota do tradutor: salada) são inquestionavelmente bons para o corpo. Mas as gorduras saturadas parecem ser neutras, comparadas aos efeitos deletérios dos carboidratos refinados e açúcares tais como os encontrados em cereais, pães, massas e biscoitos.

"Se você reduz a gordura saturada e a substitui por carboidratos de alto índice glicêmico, você não apenas não terá benefícios - você poderá na verdade produzir malefícios", explica Ludwig. Na próxima vez em que você comer uma torrada com manteiga, ele diz, saiba que "a manteiga é o componente mais saudável".

12 comentários:

  1. Dr Souto, acompanho seu blog há um mês e não perco seus posts nunca, e adoro ler os comentários sempre me ajudam muito! Se a nutrição é uma religião ou ceita não sei, mas já me converti a low carb há 16 meses: emagreci 20 quilos, ainda faltam 10, mas adotei a dieta como estilo de vida e hoje pelos resultados de meus exames, com risco cardíaco zero! Hoje comprei meu primeiro pacote de banha, meu marido q ainda não é adepto a low carb, se assustou e disse 'mas o que é isto agora?' E eu: sim mudou tudo, manteiga, banha e carne não fazem mais mal, o vilão são carbos refinados mesmo! Abraço.

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  2. Um grande problema do ser-humano, é o pré-conceito, especialmente aquele baseado no que dizem por aí, ou mesmo acreditando cegamente em dogmas como os originados no setor alimentício, sem se dar ao trabalho de buscar outras fontes e outras opiniões para abalizar racionalmente a formação da opinião própria.

    Eu mesmo, há muitos anos atrás, ouví falar da dieta do Atkins, e lembro-me de que na época achei um absurdo (pois é realmente chocante de repente alguém dizer que a gordura é bôa e os cereais e as massas são os vilões, como disse a amiga acima), e as matérias jornalísticas eram contra (aliás, a maioria é até hoje, pelo que parece), e não havia acesso a informações atualizadas como hoje em dia pela internet. Uma pena, pois as pessoas pagam um preço alto pela desinformação... Ainda bem que isso mudou, e os mais velhos tem a chance de reverter a situação, e os mais novos a chance de não cair nas mesmas armadilhas.

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    1. Carl Sagan, meu grande herói intelectual, tem várias frases que se aplicam aqui:

      "Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar."

      "Queremos buscar a verdade, não importa aonde ela nos leve. Mas para encontrá-la, precisaremos tanto de imaginação quanto de ceticismo. Não teremos medo de fazer especulações, mas teremos o cuidado de distinguir a especulação do fato."

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    2. Perfeito!
      A série Cosmos, principalmente na época, onde as primeiras fotos das sondas americanas enviadas aos planetas e ao espaço profundo começavam a chegar, mesclada com as histórias dos grandes cientistas do passado (em especial no que se relaciona ao Universo), foi revolucionária, e emocionante...
      À esse respeito, e se me permite esse breve "off-topic", gostaria de lhe deixar um outro vídeo, Dr. José Carlos,
      trata-se de uma visão poética e tocante da missão Voyager 2, lançada em 1977 (e ainda funcionando), da qual o Carl Sagan participou, lembrando que em algum momento dos próximos meses sairá definitivamente do Sistema Solar:
      http://www.youtube.com/watch?v=7Ndy7YJqT2E
      Jr.

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  3. "O humilde de espírito é o ensinável..." (Caio Fabio)

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  4. Dr. José Carlos, lamento pelo ocorrido em seu Estado, alí em Santa Maria...
    Se achar por bem repassar, deixo esse vídeo, espero que seja útil de alguma forma:
    http://vimeo.com/13821392
    É isso...

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  5. Quando vejo matérias criticando o consumo alto de carboidratos, sempre me pergunto: será que o problema não seria o alto consumo desses açucares?

    Ou seja, talvez não exista problema em ingerir muito carboidrato, desde que 70%, 80% ou mais deste seja de "baixo índice glicêmico".

    Será que não se está escolhendo o lado ruim dos "carbos" para ficar mais fácil de bater? Tipo um pesquisador que ataca a gordura referindo-se principalmente a "trans".

    Qual o problema em consumir carboidratos de baixo IG como "espaguete de semola (37)" ou mesmo aqueles cereais tipo all bran (baixo indice também)?

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    1. Há uma gradação, sem dúvida.

      1) A pior coisa é a frutose - causadora direta de resistência à insulina, gordura no fígado e síndrome metabólica. A grande fonte de frutose é o açúcar de mesa (sacarose).

      2) Em seguida vem o açúcar - sacarose - a terrível combinação de glicose + frutose

      3) O trigo. O tipo de amido presente no trigo eleva a glicose no sangue de forma mais rápida do que comer açúcar puro. Além disso, o glúten pode provocar uma série de patologias auto-imunes, o trigo contém exorfinas que por si só aumentam o apetite, o trigo altera a flora intestinal para um padrão pró-inflamatório que favorece o ganho de peso. Veja http://lowcarb-paleo.blogspot.com.br/2012/01/trigo-nosso-maior-inimigo.html

      4) Os amidos de fácil digestão: batatas, amido de milho, etc.

      5) Frutas com muito açúcar (bananas, abacaxi, uva, etc)

      6) Carboidratos páleo-friendly: batata doce, mandioca, inhame, etc.

      O consumo dos números 1 a 3 é deletério para a saúde de qualquer ser humano. De 4 em diante, bem, depende da sensibilidade aos carboidratos de cada um. Para quem tem peso adequado e não tem síndrome metabólica, não há NENHUMA restrição aos itens de 4 em diante.

      Se você lê inglês, compre o livro Wheat Belly (http://www.amazon.com/Wheat-Belly-Weight-Health-ebook/dp/B00571F26Y/ref=tmm_kin_title_0)

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    2. Otimo esclarecimento! Valeu mesmo! Vou pesquisar sobre esse grupo seis. Meu peso está normal, mesmo assim procuro não passar dos 50% de HC. No entanto, quero que 100% destes sejam saudáveis. Vou centrar no grupo seis.

      Ainda como muito aqueles pães integrais "plus vita". vou diminuir ou mesmo extinguir (e me informar sobre esse assunto "trigo" também). Obrigado pelos links.

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  6. Ahá! Bem que eu reconheci aquela timeline do ser humano!


    ______
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  7. Nada se cria, tudo se transforma :-)
    Em 18/08/2013 21:19, "Disqus" escreveu:

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