sexta-feira, 29 de março de 2013

Vídeo divertido sobre colesterol

Antes de assistir o vídeo abaixo, leia novamente a postagem denominada COLESTEROL IV.

E, depois, divirta-se:

Vídeo engraçado sobre low carb

Um vídeo muito engraçado sobre uma das experiências mais frustrantes - tentar explicar o estilo de vida páleo / lowcarb para alguém. O humor pode ser uma estratégia valiosa para disseminar informações.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Depoimento - mãe e filha

Todos os dias recebo depoimentos de resultados impressionantes. Resolvi dividir com vocês este depoimento de uma leitora que decidiu perder o medo e seguir o estilo de vida low carb / paleo, juntamente com sua filha. A história e as fotos abaixo falam por si:




"Em outubro/2012 eu estava com 91.9 Kg, com glicemia a 120 em jejum, sentindo muita indisposição, azia, dores de cabeça. Comecei a procurar uma dieta me que ajudasse a baixar a glicose no sangue, pois estava morrendo de medo de ter que tomar remédios para diabetes.

Na minha busca, encontrei o blog "Dieta Low Carb e Paleolítica" e fiquei lendo vários artigos e postagens sobre insulina, diabetes, etc.
Já tinha decidido cortar açúcar e pães, mas continuava comendo normalmente todos os outros alimentos.....até que encontrei no Facebook um Grupo sobre a Dieta Atkins.
Mas fiquei em dúvida...como assim, comer só proteína??...comer gordura??...comer manteiga?? E o meu colesterol? E os rins?

Enviei um email ao Dr. José Carlos Souto perguntando se a dieta realmente funcionava.
A resposta que obtive foi: "Funciona sim. Faça a dieta por 4 semanas, e depois refaça seus exames."
Então vamos lá...entrei no grupo e comecei a seguir à risca a dieta. Não satisfeita, voltei a enviar um email ao Dr. José Carlos sobre os possíveis efeitos prejudiciais da cetose, já que minhas filhas também iriam fazer a dieta comigo, estava preocupada com a saúde delas.

Mais uma vez ele me respondeu e me tranquilizou sobre o fato de cetose (um estado fisiológico normal) não ter nada a ver com cetoacidose (um estado de doença, que nunca acontece apenas por modificações na dieta).

Começamos a dieta comendo somente carnes, verduras, a gordura natural dos alimentos, 
gelatina diet, etc...

Foi fácil??...Não!!!
Um corpo viciado em carboidratos, na falta dele vai reclamar...nos primeiros 5 dias senti muita falta de um pãozinho, de um bombom, de um doce....mas isso sumiu como num passe de mágica logo
que meu corpo se adaptou.

A partir dai foi só alegria...a fome sumiu, minha disposição melhorou em 90% e comecei a emagrecer. Sou compulsiva com comida e nenhuma dieta tinha dado certo, pois eu não sei comer pouco, principalmente doces...mas com a dieta low carb essa compulsão sumiu e a quantidade de alimentos que eu precisei comer pra me sentir bem foi diminuindo e, quando tinha fome, podia comer a vontade!

Foi assim que hoje eu consegui emagrecer 15 quilos....sem sentir fome, comendo super bem, pois a gordura dos alimentos é gostosa... e um churrasco é sempre uma delicia!

O mais impressionante, foi a melhora no meu humor, senti minha pele melhorar muito, nunca mais tive azia, dor de cabeça ou indisposição - e meus exames estão normalizados.
Minha filha mais nova (foto, acima) me acompanha na dieta, e já tinha tentado emagrecer com um endocrinologista sem ter o resultado que teve com a dieta low carb. Com o endocrinologista, ela ficou 4 meses fazendo reeducação alimentar (basicamente aprender a comer pouco), e até conseguiu perder algum peso, mas reclamava de fome o tempo todo, pois ela adora carne, adora churrasco e ficava muito brava por não poder comer... Com low carb, não tem esse problema, ela "se esbalda" de comer o que gosta, e está muito feliz porque, além de perder muito peso, mudou completamente as medidas - teve que trocar todo o guarda-roupa!


Queria agradecer aos moderadores do grupo do Facebook que faço parte, principalmente a Thalita Lana, Anderson Luz e ao Eduardo Goy por disponibilizarem seu tempo, carinho em ajudar, apoiar, orientar todos que precisam conquistar um corpo mais bonito e saúde.

E ao Dr. José Carlos Souto pelo trabalho que faz com o blog e por ter respondido todas as minha dúvidas.

Hoje tenho 50 anos e muito mais disposição do que tinha aos 40!  Minha determinação é nunca mais comer açúcar, farinhas, etc..."

terça-feira, 12 de março de 2013

Gordura vegetal versus gordura animal

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Gordura vegetal versus gordura animal. O que diz a sabedoria convencional sobre o assunto? Pergunte para 10 pessoas, e provavelmente 10 lhe dirão que a gordura animal faz mal, e a gordura vegetal faz bem (ou não faz tão mal). Pergunte por quê? A resposta provável é que a gordura animal é saturada, e aumenta o seu colesterol, enquanto a gordura vegetal é monoinsaturada e melhora o seu colesterol "bom".

Olhem, como um exemplo de desinformação proposital, o que diz o site da margarina Becel:

Gorduras boas para a saúde
Gorduras insaturadas são o que chamamos de "gorduras boas" e há dois tipos: poliinsaturada e monoinsaturada.
Gorduras poliinsaturadas são encontradas, por exemplo, em:
Peixes oleosos como salmão, arenque, e cavala
Óleos vegetais como óleo de soja
Cremes Vegetais Becel

Gorduras monoinsaturadas são encontradas, por exemplo, em: 
Azeite
Algumas nozes como castanhas do Brasil
Abacate

Gorduras ruins
Gorduras saturadas e gorduras trans são o que chamamos de "gorduras ruins". O consumo de gorduras ruins em excesso na alimentação é uma das principais causas de colesterol elevado e outros problemas de saúde.

Gorduras saturadas são encontradas, por exemplo, em:
Manteiga
Carnes gordurosas
Queijos
Leite integral

Bem, você que acompanha este blog já sabe que as gorduras saturadas não são ruins para a sua saúde. Mas parece não haver nenhuma dúvida, mesmo para a sabedoria nutricional convencional, de que as gorduras monoinsaturadas são saudáveis, não é mesmo? 

O abacate, por exemplo, é tido como muito saudável. Veja o que diz esta nutricionista:
Artigo publicado em 2013 no Journal of Nutrition revelou, após avaliação da pesquisa nacional sobre saúde e nutrição nos EUA, que o consumo de abacate estava associado com melhor qualidade da dieta, menor peso corporal, menor circunferência da cintura, maior consumo de nutrientes fundamentais ao funcionamento do organismo e risco reduzido de síndrome metabólica. Os benefícios desta fruta devem-se ao seu conteúdo de gorduras monoinsaturadas (como as do azeite de oliva), fibras, beta-sitosterol, vitaminas do complexo B, vitamina E, potássio, magnésio e cobre. Quem consumia mais abacate também tendeu a consumir menos açúcar.
Veja o que diz a Revista Saúde:
(...)recentes pesquisas científicas são unânimes em afirmar que a gordura encontrada na fruta é monoinsaturada e essencial ao bom funcionamento do organismo. Estudos do Centro de Nutrição Humana da Califórnia (Ucla), nos EUA, comprovam que o consumo regular desse tipo de gordura é capaz de diminuir os níveis de LDL (mau colesterol) e aumentar os de HDL (o bom colesterol). Segundo Durval Ribas Filho, nutrólogo e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), "a presença da gordura monoinsaturada é sempre recomendada para qualquer dieta equilibrada (...)

Então, vejamos a composição de gorduras de alguns alimentos. Os três gráficos abaixo representam os tipos de gorduras presentes em 3 alimentos diferentes. Um deles é o abacate.


E então, estes alimentos são saudáveis ou não? Os três têm bem mais gorduras insaturadas do que saturadas, não é mesmo? Como dizem os nutricionistas, Os benefícios [do abacate] devem-se ao seu conteúdo de gorduras monoinsaturadas (como as do azeite de oliva). Assim, os 3 alimentos acima devem ser saudáveis, certo?

Sim, os 3 são saudáveis, e os três fazem parte da dieta recomendada neste blog.

Vamos revelar a identidade dos alimentos?

Alimento 1: abacate

Alimento 2: bacon frito

Alimento 3: castanhas de cajú

Não acredita? Verifique você mesmo. No site da USDA (United States Department of Agriculture - departamento americano de agricultura - os criadores da pirâmide alimentar), é possível verificar a composição detalhada de todos os alimentos.

Olhe novamente a composição de gorduras do bacon e do abacate. O abacate tem 60,2% de gorduras monoinsaturadas (ácido oleico, o mesmo tipo de gordura do azeite de oliva). E o bacon tem 50,4%. Se o abacate é saudável pelo seu conteúdo de ácido oleico, quero que me expliquem por que o bacon não seria.

O que nos traz de volta à pergunta original deste artigo. O que é exatamente gordura animal e gordura vegetal? Conheçam o ácido palmítico:



O ácido palmítico é uma gordura saturada com 16 carbonos. É o tipo mais comum de gordura saturada em plantas E animais. Este composto perfaz a maioria da gordura saturada do abacate. E do bacon. Veja bem, ele não vem em uma versão verde e outra vermelha. Ele é o mesmo, independentemente de sua origem ser vegetal ou animal. Se você der um frasco com ácido palmítico para um químico, ele NÃO TEM COMO saber se aquilo veio de uma planta ou de um animal.

Conheça agora o ácido oleico:


Este é o mocinho. Todos os carbonos estão saturados com hidrogênio, menos um menos os que circundam a única ligadura dupla. Por isso ele é MONO-insaturado.
De acordo com a sabedoria nutricional convencional, este é o motivo pelo qual o azeite de oliva faz bem. Pelo mesmo motivo, as nozes fazem bem (já vimos na postagem passada que o acréscimo de azeite de oliva ou nozes à dieta reduz a mortalidade em 30%). Pois o mesmo ácido oleico perfaz MAIS DA METADE da gordura do bacon. 
E eu sinto lhe dizer que suas células e suas mitocôndrias não diferenciam se o ácido oleico vem do bacon ou do abacate. Ele não vem em duas versões, uma animal e outra vegetal. CH3(CH2)7CH=CH(CH2)7COOH é acido oleico. Se faz bem no abacate, não pode fazer mal no bacon. Nem na gordura de galinhas e perus, em que chega a representar até 56% de toda a gordura.

Quanto mais você estuda, mas você se choca com a ignorância vigente. O chocolate é uma gordura saudável? Claro que é. E tem uma composição quase igual à da carne vermelha, no que diz respeito à gordura (cerca de 50% saturada em ambos casos) - seu corpo não diferencia se vem de um ou de outro - são as mesmas moléculas!!

Falar em gordura animal e gordura vegetal, do ponto de vista químico e biológico, simplesmente não faz NENHUM sentido! A proporção de diferentes gorduras, esta sim, pode ter efeitos fisiológicos específicos. Futuramente, abordaremos o fato de que as gorduras poliinsaturadas derivadas de sementes, ao contrário do que afirma a Becel, aumentam a mortalidade.

Por fim, se você achou tudo isso muito complicado, não se desespere: basta comer comida de verdade, e a gordura que ocorre naturalmente nos alimentos, e você estará comendo aquilo que seus genes esperam receber. E poderá fazê-lo sem culpa, agora que sabe que um ovo, uma porção de bacon, um abacate, um chocolate amargo ou nozes sortidas têm basicamente o mesmo tipo de gordura. Quem diz isso não sou eu. Estes dados são públicos, e estão disponíveis no site da USDA.

domingo, 10 de março de 2013

Dieta pobre em gorduras = mais derrames, mais doença cardíaca

Semana passada, fiz uma postagem sobre dois grandes estudos recém publicados. O primeiro dizia respeito à vinculação causal do consumo de açúcar com o desenvolvimento de diabetes. O segundo é o que trataremos hoje.

Todas as pessoas medianamente esclarecidas já compreendem, nos dias de hoje, que restringir os carboidratos é importante para a saúde e para a perda de peso (clique aqui para um exemplo de que ainda existem pessoas completamente sem noção). O grande entrave, no entanto, para a adoção de um estilo de vida páleo / low-carb é a dificuldade das pessoas em aceitar que a gordura natural dos alimentos é saudável, e não deve ser evitada.

O artigo em questão, um estudo prospectivo e randomizado, ou seja, o tipo mais convincente que há, foi publicado na prestigiosa revista The New England Journal of Medicine sob o título "Primary prevention of cardiovascular disease with a mediterranean diet" (Prevenção primária de doença cardiovascular com uma dieta mediterrânea).

Trata-se de um artigo importante, mas não pelo motivo que a maior parte da mídia entendeu. Afinal, já é senso comum entre as pessoas que têm alguma noção sobre saúde que uma dieta mediterrânea é saudável. Qual foi, então, a grande importância deste artigo?

Este estudo foi o prego final no caixão das dietas de restrição de gordura.

Vamos recapitular.

1) Em 1953, Ancel Keys publicou um estudo no qual selecionou a dedo 6 países nos quais o consumo de gordura se correlacionava com doença cardíaca. Descobriu-se depois que havia dados para muitos outros países. Hoje sabemos que a correlação é inversa, quanto mais gordura na dieta, menos mortalidade cardiovascular:

Como já comentamos em outras postagens, correlação não é o mesmo que causa e efeito, mas MESMO a correlação aponta no sentido inverso à crença nutricional vigente.

2) Previamente, dois GRANDES estudos prospectivos e randomizados foram conduzidos para tentar demonstrar que a redução de gordura na dieta pudesse ser benéfica: AMBOS falharam completamente. O primeiro foi o MRFIT (Multiple Risk Factor Intervention Trial), que tinha como objetivo testar a hipótese de que a modificação de vários fatores de risco, incluindo adotar uma dieta pobre em gorduras, fosse diminuir a mortalidade. O estudo recrutou 12866 homens considerados de alto risco cardiovascular e os sorteou para dois grupos: um grupo controle (dieta americana padrão) e outro com orientação para cessar o tabagismo, tratar a hipertensão e adotar uma dieta com menos de 8% de gordura, menos de 300mg de colesterol, e aumento das gorduras poliinsaturadas para 10% das calorias. Após 7 anos de seguimento, não houve nenhuma diferença estatisticamente significativa na mortalidade entre os grupos (o grupo controle morreu um pouco MENOS). Os fumantes, quando considerados isoladamente, morreram mais que os não fumantes. Pessoalmente, acho o que explica que o grupo que fumou menos e comeu menos gordura tenha morrido mais é que uma dieta pobre em gorduras e rica em carboidratos foi tão deletéria que contrabalançou os benefícios de parar de fumar e tratar a hipertensão, mas o FATO é que o estudo foi negativo.
O segundo foi o WHI (Women's Health Initiative) - este estudo incluiu apenas mulheres (o MRFIT tinha apenas homens), e foram 48835 mulheres! Tinha como objetivo avaliar o efeito de uma dieta pobre em gorduras na saúde cardiovascular e na incidência de câncer de mama. As mulheres foram orientadas a consumir menos gordura e mais frutas e vegetais. Depois de 8 anos de seguimento, a insossa dieta sem gordura não teve efeito significante em NENHUM dos desfechos: câncer de mama, todos os cânceres, doença coronariana, conjunto das maiores doenças crônicas ou mortalidade total.

3) Em 2001, foi publicada a metanálise (reunião de vários estudos científicos) definitiva, pela Cochrane Foundation. O resultado? Não há nenhuma diferença na mortalidade entre pessoas que restringiram a gordura na dieta e as que não restringiram. Eis os resultados originais:


A conclusão dos autores não deixa dúvida:


Traduzindo: Há pouco efeito sobre a mortalidade (na verdade, os números mostram que não há nenhum efeito).
Apesar de décadas de esforço e muitos milhares de pessoas estudadas, as evidências dos efeitos da modificação de gorduras na dieta sobre a mortalidade cardiovascular são inconclusivas.

4) Um bom resumo do assunto pode ser lido nesta postagem: Gordura Saturada - Revista Men's Health

Bem, no que consistiu o estudo do New England? 7500 pessoas sem doença cardíaca prévia, mas com risco aumentado, foram randomizados para uma dieta de baixa gordura, uma dieta mediterrânea com mais gordura na forma de nozes e sementes, e uma dieta mediterrânea com mais gordura na forma de mais azeite de oliva.
O resultado? O estudo teve de ser interrompido prematuramente, pois muito mais pessoas estavam morrendo no grupo "low fat" (de baixa gordura) do que nos outros dois.

Vou repetir, para sedimentar: o estudo foi interrompido antes do fim, com menos de 5 anos de seguimento, pois a dieta de redução de gorduras estava matando cerca de 30% a mais, e foi considerado anti-ético continuar o experimento.

Está chocado? Choque-se um pouco mais então:

As linhas coloridas representam a mortalidade cardiovascular nas dietas mediterrâneas, e a linha preta a mortalidade na dieta recomendada pelos nutricionistas, médicos, governo, amigos e vizinhos - a dieta sem gordura e com mais carboidratos.

Parafraseando Nietzsche: "A dieta de baixa gordura está morta".

Querem ver a receita para matar? A receita que levou diretamente à divergência das curvas acima, foi a seguinte (este o foi exatamente o panfleto entregue para o grupo low fat no estudo em questão):



Vou traduzir minhas partes preferidas:
 - pão, massa, arroz são parte de uma dieta saudável
 - Compre alimentos low-fat:

  • Pão
  • Cerais
  • Massa
  • Arroz
  • Batatas
  • Frutas
  • Feijões e lentilhas
  • Produtos low fat
  • Remova a pele das aves
Cozinhe com menos gordura:

  • Evite usar azeite, óleo ou molhos com gordura
  • Use o mínimo de azeite possível
  • Use o mínimo de gordura, apenas o necessário para evitar que o alimento grude na frigideira
Remova a gordura:
  • Não use manteiga ou outras gorduras para espalhar sobre os alimentos
  • Remova toda a gordura visível da carne antes mesmo de prepará-la
  • Remova toda a gordura liberada pela carne durante o preparo
  • Esfrie as sopas e remova a gordura sobrenadante antes de aquecê-la novamente
Evite os seguintes alimentos:
  • Óleos
  • Manteiga, banha
  • Laticínios com gordura, nata
  • Carnes gordas, linguiças, bacon
  • Fígado e outros órgãos
  • Alimentos fritos
  • Maionese
  • Nozes, sementes de girassol
Então está aí, sua receita para matar. Se você tem inimigos, imprima o panfleto acima, baseado na famigerada pirâmide alimentar, e lhes dê de presente:


É preciso que o leitor entenda. Este estudo não é um daqueles estudos observacionais, onde pessoas com estilos de vida completamente diferentes adotam dietas diferentes. Este é um estudo RANDOMIZADO, onde as pessoas foram SORTEADAS para cada grupo (todos os grupos têm, portanto, o mesmo número de sedentários, de fumantes, etc). A ÚNICA coisa que diferencia os grupos, foi, de fato, a orientação dietética. Ou seja, um estrago e tanto que a retirada das gorduras e o estímulo aos carboidratos é capaz de fazer em menos de 5 anos. Ah, se a bruxa da Branca de Neve soubesse disso... E ninguém poderia acusá-la, afinal ela apenas estaria seguindo a orientação nutricional vigente!

domingo, 3 de março de 2013

O açúcar causa diabetes

Intuitivamente, no fundo, todo mundo já sabia. Diabetes é definido por um excesso de açúcar no sangue. Obviamente, o primeiro culpado a ser considerado deveria ser o consumo de açúcar. Mas a intuição é falha. A gordura na dieta, por exemplo, leva a à perda de gordura, e à diminuição da gordura no sangue.

John Yudkin já havia conduzido grande quantidade de estudos desde a década de 1950 que apontavam para o açúcar como causador de diabetes, resistência à insulina e obesidade.

No entanto, o Lobby da indústria do açúcar fez de tudo para financiar estudos epidemiológicos que contradissessem esta mensagem. Para quem lê inglês, não deixe de ler este artigo de jornalismo investigativo sobre o Lobby do Açúcar.



Pois bem, nosso já conhecido Robert Lustig é um dos 4 co-autores de um novo estudo que caiu como uma bomba esta semana. O estudo mostra que as evidências implicando o açúcar na gênese do diabetes são tão fortes quanto as que implicam o cigarro na gênese do câncer de pulmão.

Ou seja, o mundo científico não pode mais negar que as calorias não são todas iguais. 100 calorias de açúcar (uma barra de cereal, por exemplo), não são a mesma coisa que 100 calorias de um ovo. A barrinha de cereal e outras coisas açucaradas causam diabetes.

Segue uma tradução de um artigo do New York Times:

http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/02/27/its-the-sugar-folks/

ny times

É o açúcar, pessoal.
MARK BITTMAN 


O açúcar é, de fato, tóxico. Não é o único defeito da dieta americana padrão, mas está rapidamente ficando claro que é um dos maiores problemas.

Um estudo publicado no dia 27 de fevereiro de 2013 na revista científica PLoS One liga o aumento no consumo de açúcar com o aumento das taxas de diabetes em 175 países na última década. E após levar em conta muitos fatores de confusão, os pesquisadores descobriram que um aumento na quantidade de açúcar na alimentação de uma população estava ligado a maiores taxas de diabetes independentemente das taxas de obesidade.

Em outras palavras, de acordo com o estudo, não é apenas a obesidade que leva ao diabetes: o açúcar pode causá-la também, independentemente da obesidade. E a obesidade, por sua vez, nem sempre leva ao diabetes.

O estudo demonstra isso com o mesmo grau de confiança que ligou o cigarro ao câncer de pulmão nos anos 1960. Como Robert Lustig, um dos autores do estudo e endocrinologista pediátrico na Universidade da Califórnia em San Francisco me disse, "é impossível realizar um estudo no mundo real que pudesse ser mais conclusivo do que este".

O estudo controlou variáveis tais como pobreza, urbanização, idade, obesidade e atividade física. E controlou também o consumo de outros alimentos e as calorias totais. Em suma, controlou tudo o que era controlável, e satisfez os clássicos "critérios de Badford Hill" para o que é conhecido como inferência médica de causalidade: dose (quanto mais açúcar, mais diabetes), duração (se o açúcar está disponível há mais tempo, há mais diabetes), direcionalidade (não apenas o diabetes aumenta com mais açúcar, ele diminui com menos açúcar), e precedência (os diabéticos não passam a consumir mais açúcar; pessoas que consomem mais açúcar é que têm mais chance de tornarem-se diabéticas).

O ponto-chave deste artigo é "Cada aumento de 150 kCal/pessoa/dia em calorias totais correlacionou-se a um aumento de 0,1% em diabetes (não significativo), enquanto aumento de 150 kCal/pessoa/dia de açúcar (1 lata de refrigerante) estava associada com um aumento de 1,1% na prevalência de diabetes". Assim, para cada lata de bebida adoçada com açúcar adicionada por pessoa, por dia, no sistema alimentar de um país, a taxa de diabetes sobe 1%.

Isto é tão bom (ou tão ruim) quanto é possível em um estudo, a coisa mais próxima de causa e efeito, o mais próximo de uma arma do crime que jamais veremos. (para "provar cientificamente" a causalidade, você teria que controlar completamente a dieta de milhares de pessoas por décadas. É, tecnicamente, tão impossível quanto "provar" o aquecimento global ou os danos cerebrais dos boxeadores ou, sob este aspecto, os cânceres provocados pelo tabaco). E, da mesma forma que as companhias de cigarro lutaram, ignoraram, mentiram e escamotearam na década de 1960 (e, de fato, até os anos 1990), os proponentes do açúcar farão o mesmo.

Mas, como diz Lustig, "este estudo é prova mais do que suficiente de que o açúcar é tóxico. Agora, é hora de fazer algo a respeito".

Os próximos passos são óbvios, lógicos, claros, e são tarefa do FDA (agência americana que regula medicamentos e alimentos). A fim de cumprir sua missão, o FDA precisa responder a esta informação reavaliando a toxicidade do açúcar, chegando a um valor diário - quanto açúcar adicionado é seguro? - e idealmente removendo a frutose (a molécula "doce" no açúcar e que causa o dano) da lista de produtos "geralmente reconhecidos como seguros", pois é isto que dá à indústria a licença para continuar contaminando nosso suprimento alimentar.

Em outro front, duas semanas atrás cientistas e defensores da saúde liderados pelo Centro para a Ciência em Prol do Interesse Público fizeram uma petição pública ao FDA para 1) estabelecer limites de segurança para o consumo de açúcar e 2) reconhecer que açúcares adicionados aos alimentos, ao invés de ainda permanecerem na lista de "geralmente considerados seguros", deveriam ser declarados perigosos nos níveis em que são tipicamente consumidos (o FDA ainda não respondeu à petição).

Permitam-me resumir algumas coisas que o estudo do PLoS One esclarece. Talvez o mais importante, como vários cientistas têm insistido nos últimos anos, todas as calorias não são criadas iguais. Por definição, todas as calorias liberam a mesma quantidade de energia quando queimadas, mas nosso corpo trata as calorias do açúcar diferentemente, e esta diferença é danosa.

E, como Lustig lucidamente escreveu em "Fat Chance", seu convincente livro de 2012 que trata das causas de nossa crise de saúde induzida pela dieta, está-se tornando claro que a obesidade em si não é a causa de nosso aumento dramático em doenças crônicas. Ao contrário, é a síndrome metabólica, que pode atingir pessoas de peso normal assim como obesos. A síndrome metabólica é o resultado da resistência à insulina, que parece resultar diretamente do consumo de açúcar adicionado. Isto explica o porquê da pouca discussão no mundo científico sobre os estudos que dizem que o sobrepeso não irá lhe matar. Tecnicamente, estes estudos estão corretos, pois a obesidade é um marcador de síndrome metabólica, e não a sua causa.

E suma: não é simplesmente comer demais que pode lhe fazer doente; é comer açúcar demais. Nós finalmente temos a prova que precisávamos para um veredito: o açúcar é tóxico.

Dois grandes estudos - introdução

Nesta semana que passou, dois estudos MUITO importantes lançaram luz sobre dois temas que nos são muito caros neste blog:

a) Uma dieta pobre em gordura mata mais;
b) O açúcar causa diabetes.

Antes de escrever sobre os estudos propriamente ditos, gostaria de explicar brevemente os tipos de estudos que existem, a fim de que vocês entendam a importância destes dois estudos, e por que eles têm mais valor do que o habitual.


  • Há estudos de maior impacto científico do que outros.
    • Os estudos epidemiológicos servem para levantar hipóteses, mas não estabelecem causa e efeito; eles estabelecem uma correlação.
    • Um exemplo conhecido de correlação foi demonstrada na Austrália, entre o consumo de sorvetes e o ataque por tubarões. Quanto maior o consumo de sorvetes, maior o número de ataques. Esta correlação é estatisticamente significativa.
      • Você acredita que o consumo de sorvete CAUSA os ataques? É, eu também não. E o estudo está errado? Não. O que acontece é que estudos epidemiológicos podem ignorar variáveis de confusão. No caso, a variável é o calor. Quanto mais quente, mais sorvetes, e mais banhos de mar. O sorvete é apenas um indicador de calor, e o calor causa a ida ao mar, que causa um aumento no número de ataques.
    • Estudos prospectivos randomizados ou ensaios clínicos. Este é o Santo Graal da pesquisa médica. Aqui, um grupo grande de pessoas é sorteado para dois grupos. Um grupo será o grupo controle, e o outro grupo receberá o tratamento/remédio/dieta. O sorteio assegura que, estatisticamente, quaisquer variáveis de confusão (conhecidas ou desconhecidas) estejam igualmente distribuídas entre os grupos.
    • Os estudos prospectivos randomizados são a base da medicina baseada em evidências. Quem conhece o blog sabe que uma dieta com redução de carboidratos é superior tanto em perda de peso quanto em marcadores de risco cardiovascular, em TODOS os ensaios clínicos na qual isto foi avaliado. Já as dietas de baixa gordura tem apoio apenas em estudos epidemiológicos (o mesmo tipo de estudo dos ataques de tubarão). Os únicos 2 grandes estudos randomizados de dieta de baixa gordura mostraram que elas não tinham nenhum impacto benéfico sobre mortalidade ou doenças.
    • Os outros estudos importantes na medicina baseada em evidências são as Metanálises e Revisões Sistemáticas, estudos que combinam os resultados de vários estudos menores. As metanálises realizadas até agora sobre low carb não deixam dúvidas de sua superioridade, ao menos nos prazos de duração dos estudos (ver aqui e aqui).
  • Os dois estudos de que trataremos nas próximas postagens são:
    • Um estudo prospectivo e randomizado que mostra que uma dieta com mais gordura preveniu derrames e infartos;
    • Uma grande revisão sistemática que chegou tão próximo quanto possível de provar o papel CAUSAL do açúcar no desenvolvimento do diabetes.