sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ganhar peso comendo menos?

Se você ainda pensa na obesidade do ponto de vista do balanço calórico, quem sabe a notícia abaixo lhe ajuda a reconsiderar (http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=473405).

Médicos extraem tumor de 28kg de mulher na Alemanha

Paciente havia sido diagnosticada de forma errada com obesidade influenciada pelo diabetes

Médicos extraem tumor de 28kg de mulher na Alemanha<br /><b>Crédito: </b> AFP
Médicos extraem tumor de 28kg de mulher na Alemanha
Crédito: AFP
Médicos da Clínica Universitária de Dresden, no leste da Alemanha, extraíram um tumor de 28 quilos do corpo de uma paciente que havia sido diagnosticada com obesidade. A intervenção, que foi realizada no início de outubro e levou sete horas, transcorreu sem problemas. O tumor de baixo potencial maligno media 60 por 50 centímetros e estava situado num ovário da paciente, que havia ganhado peso de maneira extremamente rápida.

Seu médico atribuiu este aumento de peso a uma diabetes e à falta de atividade e prescreveu tratamento contra obesidade. Quando a paciente não conseguia mais se manter em pé pelo peso, a filha resolveu pedir uma segunda opinião e um exame proporcionou o diagnóstico correto. A paciente perdeu um total de 40 quilos durante a operação. "Jamais poderei agradecer o bastante aos médicos, sou uma nova pessoa", destacou.

Observem o seguinte: a paciente estava sendo tratada para obesidade - lhe foi orientado gastar mais calorias com exercício e comer menos. Seu peso deveria ter diminuído, não?? Como então o tumor continuava crescendo? A resposta é: o tumor cresce, independentemente da situação nutricional ou do déficit calórico da paciente, pois há fatores de crescimento produzidos pelo próprio tumor que sustentam o seu crescimento. O corpo compensará as calorias sequestradas pelo tumor de alguma forma: aumento do apetite, cansaço/inatividade, etc. O paralelo é óbvio:

 - O tecido adiposo, na presença de fatores de crescimento (fundamentalmente insulina), não diminuirá de tamanho, mesmo que a pessoa esteja consumindo menos calorias do que gasta; as células adiposas não têm olhos nem ouvidos, elas só "enxergam" hormônios.

Se não fosse assim, seria fácil curar qualquer tumor: bastaria passar fome, e ele não cresceria, certo? Pense nisso.

Por fim, reflita sobre a seguinte pergunta: para ganhar 28 Kg de tumor, a paciente precisou comer mais calorias do que gastava (isso é inquestionável, é uma lei da termodinâmica). Mas você acha que o tumor cresceu por que ela comia demais, ou que ela comia demais por que o tumor estava crescendo?

Você dirá?: "é obvio que ela sentia mais fome pois havia um tumor enorme crescendo". Afinal, as calorias abduzidas pelo tumor faziam falta no resto do corpo. Se você substituir tumor por "gordura" nesta frase, terá entendido o fenômeno da obesidade - não engordamos por que comemos demais, engordamos pois estimulamos o tecido adiposo a crescer (pelo consumo de carboidratos que levam ao hiperinsulinismo, pelo consumo de trigo que leva à inflamação crônica, pelo consumo de porcarias que bagunçam a flora intestinal), e isto leva à necessidade COMPENSATÓRIA de comer mais.

Se comer demais não é a causa, comer de menos não é a cura.

sábado, 25 de maio de 2013

Nutricionista Pollyanna Esteves derruba mitos em rede nacional

A nutricionista Pollyanna Esteves participou do programa do Gugu, em rede nacional, e fez um um belo trabalho em desfazer uma série de mitos da nutrição, no pouco tempo que tinha disponível. Os tópicos foram:

Segue o vídeo na íntegra:



Ainda sobre canola, óleos e banha de porco, pequeno vídeo do Dr. Lair Ribeiro:




Ovários policísticos melhoram com Low Carb

Nada do que está escrito no artigo que vou traduzir mais abaixo é novidade. Já em 2005 Eric Westman e colaboradores publicavam um estudo sobre dieta low carb e ovários policísticos com resultados muito bons:


The effects of a low-carbohydrate, ketogenic diet on the polycystic ovary syndrome: A pilot study


Conclusion

In this pilot study, a LCKD led to significant improvement in weight, percent free testosterone, LH/FSH ratio, and fasting insulin in women with obesity and PCOS over a 24 week period.

Para os leitores leigos: síndrome dos ovários policísticos é uma das principais causas de infertilidade feminina. Como o nome diz, formam-se múltiplos cistos nos ovários, e perturba-se a ovulação. Além disso, há um aumento da testosterona (hormônio masculino) nestas mulheres, o que pode provocar o crescimento de pelos indesejáveis, e espinhas. Por fim, a síndrome está associada com obesidade, síndrome metabólica e diabetes.
O detalhe interessante é que todos os cientistas que trabalham com ovários policísticos sabem há MUITOS anos que o hiperinsulinismo está por trás desta patologia. Tanto é verdade que se prescreve metformina, uma droga que reduz a resistência à insulina, como tratamento. E você, leitor deste blog, sabe que NADA é melhor para o tratamento de hiperinsulinismo do que cortar os carboidratos - e isso deveria ser ÓBVIO, já que a glicose é o maior estímulo para a a secreção da insulina. É só pensar um pouco para ver que o que causa o excesso de peso não são os ovários policísticos ou vice-versa, e sim que é o excesso de insulina que causa ambos, excesso de peso e ovários policísticos.
O fato de low carb não ser (ainda) o tratamento padrão para ovários policísticos é no mínimo estranho. Imagine uma pessoa que não tolera lactose. O que você faz? Remove a lactose. Imagine uma pessoa que não tolera fenilalanina (fenilcetonúrico). O que você faz? Remove a fenilalanina. Imagine uma pessoa com hiperinsulinismo e que, portanto, não tolera a glicose. O que você faz? Remove a glicose? NÃO!!! Dá metformina, manda passar fome, manda fazer exercícios físicos, manda fazer fertilização assistida - QUALQUER coisa exceto remover a glicose que é a CAUSA do distúrbio... É, realmente não faz nenhum sentido.
Mas é muito bom ver que a ficha está finalmente caindo para a  mídia (norte-americana) de saúde:

General Endocrinology

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Low-Carb Diet's Effect on Insulin May Ease Ovarian Syndrome

terça-feira, 21 de maio de 2013

Reportagem sobre dieta paleolítica no Yahoo Brasil

Obrigado ao Rennan Caminhotto pela dica. Uma reportagem bem razoável, em se tratando de mídia, sobre dieta paleolítica:
http://yahoo.minhavida.com.br/alimentacao/galerias/16359-conheca-os-pros-e-contras-da-dieta-paleolitica-para-emagrecer

As partes errôneas eu corrigi riscando e comentando ao lado.





Conheça os prós e contras da Dieta Paleolítica para emagrecer

Jejum prolongado, carne à vontade e zero carboidrato são alguns dos pilares da dieta


POR NATHALIE AYRES



Há mais de 15 mil anos nossos ancestrais viviam em cavernas, não tinham cozinhas nem supermercados e obtinham sua comida principalmente da caça e coleta, ou seja, a alimentação era muito diferente da que temos hoje, com massas, produtos industrializados e uma infinidade de opções. Mas qual seria sua reação se alguém lhe dissesse que o melhor para sua saúde é voltar àquele estilo de vida do período Paleolítico?

Na verdade, isso foi feito pelo biólogo e ex-atleta norte-americano Mark Sisson. Ele prega um estilo de vida da Idade da Pedra, que inclui não só mudanças na dieta, como também no dia a dia, insistindo para as pessoas trabalharem em pé, se movimentarem mais e até mesmo andarem descalças por aí. Mas o que caiu mesmo na boca do povo foi a alimentação, e a chamada dieta paleolítica está sendo adotada por muitas pessoas com promessas de emagrecimento e também de um estilo de vida mais saudável e considerado naturalista. E o atrativo principal está justamente em seu lado mais inusitado, ao pregar jejum prolongado, o consumo de carne à vontade e a restrição de carboidratos no maior estilo homem das cavernas. Desvendamos, com ajuda de especialistas, os pilares desse cardápio e quais os prós e contras de cada um deles. Confira:
Vegetais e frutas - Foto: Getty Images



Carne à vontade

A carne proveniente de todos os tipos de animais era a base da alimentação no período Paleolítico, e de acordo com Sisson ela deve voltar a ter esse mesmo papel. Realmente, o consumo adequado delas é importante. "Elas são fontes de proteínas, nutrientes de extrema importância na nossa alimentação uma vez que fazem parte da composição muscular e recuperação dos tecidos, além de ser substrato para produção de hormônios, enzimas, anticorpos e outros agentes metabólicos", considera a nutricionista Paula Crook, da PB Consultoria em Nutrição. E é nas carnes que estão concentradas as maiores quantidade de aminoácidos essenciais, aqueles que não produzimos naturalmente em nosso organismo.

Por outro lado, é preciso tomar cuidado com esse "à vontade". Proteínas em excesso podem causar efeitos colaterais, como a retirada do cálcio dos ossos, a acidificação do sangue e uma sobrecarga nos rins. (TODA esta última frase está errada - veja aqui e aqui).O limite indicado pela OMS é o consumo de no máximo 30% das nossas calorias diárias corresponder à proteína. Uma conta mais fácil de adotar é consumir ao dia dois gramas de proteínas a cada quilo que você pese. Por exemplo, se você pesa 60 quilos, deve consumir 120 gramas desse macronutriente. E vale lembrar que a quantidade de proteína não equivale ao peso total do alimento. Um bife de contrafilé de 100 gramas possui 30 gramas do nutriente, por exemplo. 

Além disso, é preciso tomar cuidado com a carne escolhida. "Os peixes são ótimas escolhas, por terem gorduras importantes para o nosso corpo, já as carnes vermelhas tem um índice alto de gordura saturada, dependendo do corte, e estudos relacionam seu consumo com o aumento da incidência de câncer" (esta afirmação não é baseada em ciência; veja aqui), alerta o nutrólogo Roberto Navarro, membro da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). 


Nada de grãos e massas

Como não havia cozinha na época e os homens ainda não plantavam trigo, milho, arroz, por exemplo, que dirá moíam e misturavam grãos no período paleolítico, as massas não existiam e, portanto, são naturalmente excluídas da dieta. Por isso, as fontes de carboidratos se tornam as naturais, o que o nutrólogo Roberto Navarro considera uma vantagem. "Isso é bem mais interessante para a saúde, pois as fontes de carboidratos se tornam os legumes, verduras e frutas, que nos trazem a quantidade que precisamos desse macronutriente e uma boa quantidade de fibras, tendo um menor índice glicêmico do que as massas", explica o especialista.

Além disso, os carboidratos em alta podem atrapalhar o emagrecimento de diversas maneiras. Eles se convertem em glicose na digestão, que dá energia ao nosso corpo e é levada às células pela insulina. Quando a glicose está sobrando, ela é convertida em triglicérides, uma energia armazenada para mais tarde, mas que se não usada, se acumula na forma de gordura localizada, os famigerados "pneuzinhos". "Pesquisas mostram que a insulina também inibe a quebra da gordura dos adipócitos (lipólise), causando aumento de peso", explica a nutricionista Paula. Portanto essa é uma boa ideia para ser aplicada, desde que de forma correta, aumentando bastante o consumo de frutas e verduras para compensar, afinal a falta de carboidrato pode causar náuseas, dores de cabeça, tonturas e fraqueza. 


Abusar dos vegetais e frutas

E já que eles são a principal fonte de carboidratos nessa dieta, vale sim seguir essa recomendação e encher o prato com frutas e verduras, inclusive para equilibrar o seu consumo com as carnes. Mas fique de olho para não cometer abusos, seguindo esse pilar à risca demais: "a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo de no mínimo cinco porções (400g) de ambos os itens ao dia", ensina Paula. As frutas são mais perigosas, pois acabam sendo mais calóricas do que os vegetais. E os especialistas indicam o consumo cru desses alimentos, pois assim eles conservam suas propriedades e suas fibras, ajudando na saciedade e consequentemente causando a perda de peso pela menor ingestão de alimentos.

Vale lembrar que alguns desses alimentos têm mais carboidratos do que outros e fora desta dieta é preciso tomar cuidado com essa ingestão. Entre as frutas, as com maior quantidade deste nutriente são a banana, abacate (quase nada de carboidratos), melancia, melão(não é uma fruta muito rica em carbs)coco (quase nada de carboidratos). No caso dos vegetais, podemos listar batata, cebolas(quase nada de carboidratos)pimentão(quase nada de carboidratos)e abóbora. É importante equilibrá-las com os outros tipos de alimentos com menos carboidratos, não só para garantir uma quantidade que não seja exagerada desse nutriente como também para variar a quantidade de fitoquímicos e outras substâncias importantes para a saúde que são consumidas no nosso dia a dia. "Se você come até 30 alimentos diferentes por dia, garante uma oferta maior de nutrientes, por isso é bom comer frutas e vegetais variados", explica o nutrólogo Navarro.  


Não se preocupar com as gorduras

Na Idade da Pedra, ninguém estava muito preocupado com o tipo de gordura que estava sendo ingerido. E esses itens realmente são importantes para o organismo, por isso elas não devem ser cortadas totalmente da dieta. Mas trazer esse tipo de comportamento para os dias de hoje, como prega Mark Sisson, liga a luz vermelha de alerta de nossos especialistas. "A OMS preconiza que o consumo total de gorduras não ultrapasse 30% das calorias diárias, sendo no máximo 10% de saturada", frisa a nutricionista Paula. (Diretrizes sem NENHUMA base científica, veja aqui e aqui)

Entre elas, as gorduras mais importantes são as insaturadas, que trazem o efeito de reduzir o colesterol LDL, considerado ruim quando em grande quantidade, além de aumentar o HDL, conhecido como colesterol bom. "Temos basicamente as gorduras animais e vegetais, e precisamos equilibrar o consumo das gorduras monoinsaturadas (encontrada no azeite de oliva, castanhas e nos peixes), as poli-insaturadas (cuja principal fonte nessa dieta são os peixes) e a saturada (presente nas carnes). As últimas estão relacionadas ao aumento do colesterol, o que pode causar problemas cardiovasculares", divide o nutrólogo Navarro.(Ver novamente aqui e aqui)Por isso, se a ideia é comer como nossos ancestrais, é mais garantido sim ficar de olho nas gorduras e priorizar o consumo de peixes, principalmente os de águas profundas como sardinha, atum e bacalhau, e de oleaginosas, como castanhas, nozes, pistache, amêndoas e amendoim. 


Água e nada mais!

O Período Paleolítico foi a época em que os primeiros utensílios foram criados, e nenhum deles ajudava na cozinha. Portanto, a bebida principal era a água, a forma realmente mais natural de hidratação. Consumir apenas esse líquido não tem desvantagens segundo os especialistas, a maior dificuldade talvez seja gustativa, já que a água não tem sabor. Mas apenas ela já é o suficiente para a hidratação do nosso organismo, que precisa da água para diversas funções. E, do ponto de vista nutricional, acaba sendo uma vantagem consumi-la com mais frequência do que outros itens. "De uma maneira indireta, você reduz a quantidade de calorias que poderia ingerir numa bebida, por exemplo, algo que nem sempre é computado ao pensar no valor energético das refeições", explica Navarro.


Industrializados vetados na despensa

"A maioria dos alimentos industrializados possuem carboidratos refinados como farinha e açúcar branco na composição, considerados alimentos de alto índice glicêmico, e com baixo teor de fibras, ou seja, quando são ingeridos estes alimentos são rapidamente absorvidos pelo organismo através da ativação de grande quantidade de insulina", explica a nutricionista Paula. A desvantagem desse processo, além de evitar a quebra das gorduras, é que o organismo comece a ficar resistente a esse hormônio, e isso ocasione uma resistência à insulina, condição associada à pré-diabetes. Além disso, há a grande quantidade de compostos químicos presentes nesses produtos, como corantes, conservantes e estabilizantes, que em grandes quantidades intoxicam nosso corpo e podem causar alergias. Um detalhe importante: tudo isso vale não só para alimentos como para as bebidas também. "Sabemos que na sociedade em que vivemos é praticamente impossível abolir os industrializados do dia a dia e que também há produtos de ótima qualidade no mercado, mas também vale ponderar que o consumo em excesso pode ser nocivo ao organismo", avalia o nutrólogo Roberto Navarro. 


Jejuar de vez em quando

Por fim, a Mark Sisson prega o jejum, provavelmente inspirado na dificuldade que os homens do Paleolítico tinham de encontrar comida todos os dias. O indicado na dieta é ficar de 16 até 24 horas sem ingerir nenhum alimento. Nesse ponto, ambos os especialistas consultados por nós discordam desse método. "O ideal é mantermos índices estáveis de glicose para o corpo ficar bem. O jejum prolongado pode causar hipoglicemia, dificuldade de concentração, perda de massa muscular, entre outros males", lista Navarro. Normalmente nosso corpo tende a consumir os músculos para conseguir energia, o que causa ainda mais problemas para o organismo. "Temos como metabólitos finais da degradação muscular a formação de ácido úrico, ureia e amônia, compostos tóxicos ao organismo que podem levar a sobrecarga renal e hepática", considera Paula. Portanto, a prática não é tão indicada, até porque se nossos ancestrais tivessem a oferta de alimentos que temos hoje, dá para apostar que eles não ficariam sem comer! (Bullshit. Leia aqui e aqui)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Documentário sobre colesterol e estatinas - em inglês

Este fascinante documentário sobre colesterol e estatinas está finalmente disponível na íntegra no YouTube. Dura uma hora, de modo que não tenho condições de legendá-lo, mas não deixe de assistir se você entende inglês.

********* ATUALIZAÇÃO *********
Falei com o diretor do documentário - o mesmo foi retirado do Youtube por uma questão de direitos autorais (da distribuidora). Mas está disponível no site do Dr. Mercola até o dia 18/05/3013, ou seja, nos próximos 3 dias! Assistam e baixem o documentário (e leiam o artigo do Dr. Mercola):

http://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2013/05/11/statin-nation.aspx

domingo, 5 de maio de 2013

Como fazer low carb em viagem?

Fazer low carb em casa é fácil. Afinal, escolhemos o que compramos no supermercado, e escolhemos o que temos em nossas geladeiras e prateleiras. Mas e quando viajamos? E se for uma viagem para um local estranho?

Bem, pode não ser fácil, mas não é impossível. Basta ter um pouco de imaginação, força de vontade e andar prevenido.

Pois bem, esta postagem será um diário fotográfico de minha ida a San Diego, Califórnia, de onde lhes escrevo (em virtude da participação em um congresso de urologia).

03/05/13 - Sexta.
Bom almoço em casa (picadinho com vegetais, salada, nata com whey de sobremesa) - uma refeição assim assegura muitas horas sem fome, de modo que não há necessidade de se preocupar com o que comer no avião. Avião de Porto Alegre a São Paulo no meio da tarde.

O vôo para os EUA só sai de Guarulhos às 21h. Vou procurar alguma coisa para comer no aeroporto. Olha só o que encontrei (dica do colega Marcelo Bicca):
Olhem bem, o segundo de baixo para cima: um hamburger low carb!! Não é o máximo? Custa absurdamente caro, mas fiz questão de pagar apenas para prestigiar o restaurante "Carl's Jr." por esta ideia sensacional. Mas, se não quisesse comer isso, há um buffet no aeroporto onde pode-se comer peixe/frango/carne e salada.

Mas enfim, está aí, um hamburger completo, no qual o pão foi trocado por alface americana - precisa muitos guardanapos...

Ok, uma vez embarcado para um vôo de 9 horas e meia, não há mais solução, certo? Certo? Errado. Primeira regra de quem quer manter uma dieta low carb em viagem: não ficar com fome. Segunda regra: estar sempre preparado. Não embarco em avião sem um suprimento de castanhas, amêndoas ou nozes:

Não precisei das castanhas, pois já havia comido o hamburger low carb. Mas então, veio a janta do avião: salada mista, um pão, manteiga, carne assada, moranga, polenta e pudim. E aí, vamos jogar tudo pro alto e raspar o prato? Não, e o truque é que não estamos quase com fome - é preciso comer tanto das coisas boas que não sobre espaço para as coisas ruins.



Comi a carne assada, as morangas (com a manteiga!), e a salada. Água mineral com gelo para acompanhar.

04/05/13 - Sábado.
Mais de 9 horas depois, pouco antes das 5 da manhã, vem o café da manhã do avião. Eu não durmo em avião, passei a noite assistindo filmes, e estou moído. E eis o café da manhã:

E aí, estamos exaustos, o croissant está quentinho, vamos jogar tudo para o alto e rapar o prato? Não, pois mais uma vez não estamos com fome. Lá pelas 4 da manhã comi um saco de 100g de castanhas de cajú. Assim, comi apenas as frutas, bebi um café com leite e despejei todo o conteúdo do pacotinho de manteiga dentro do meu café, para desespero do americano que está sentado do meu lado (e que já me acha um maluco por fotografar minha comida). A propósito, 3a regra para manter low carb em viagem (e em qualquer outro lugar): os outros que se explodam.

Cheguei em Nova Iorque. Sol nascendo. Noite inteira sem dormir. Fila gigantesca na imigração. Uma hora de pé. Mais incontáveis minutos na fila da segurança para embarcar no próximo vôo, tira o cinto, tira o sapato, aquelas coisas... Em virtude dessa demora toda, morreram meus planos de tomar um café da manhã sentado em algum lugar que tenha um omelete. Tive que embarcar direto. Mas deu tempo de bater esta foto no portão de embarque do aeroporto de Nova Iorque:
Tem um monte de porcarias à venda, mas tem nozes, castanhas e frutas, ou seja, mesmo que você tenha esquecido de trazer de casa, sempre há onde comprar, é só ter boa vontade de procurar.

Vôo interminável para San Diego, saindo do Atlântico e indo até o Pacífico. Estava bem alimentado, zero de fome. Tomei café com um pouco de leite umas 2 ou 3 vezes.

Quase 24 horas depois do início da viagem, chego a San Diego, perto do meio-dia, hora local. Um pouco de fome. Nada decente para comer à vista. Tenho castanhas, mas não estou com vontade de comer castanhas. Resolvo não comer nada - afinal, isso não é difícil para que faz low carb (que diminui a fome) e para quem já teve alguma experiência de jejum intermitente.

Descobri que em qualquer lojinha de conveniência vende-se uma coisa que sempre escuto nos podcasts americanos - "Beef Jerky", uma carne seca, curada e bem temperada, um misto de bacon com charque, que não precisa refrigerar, e que é uma delícia (esse aí de baixo é com pimenta). 

Tinha pra vender até na loja de souvenires do hotel, junto com os chocolates! A marca que eu achei  tinha açúcar (5g pra cada porção de 30g de Jerky) - mas, enfim, estou sem carro aqui, não posso ir a um supermercado grande para escolher outras marcas - o bom é melhor que o ótimo, vai essa mesma - beef jerky e um copo de café do Starbucks (do tamanho de um balde) para substituir o almoço no centro de convenções.

Janta: Há quase 36 horas sem dormir, não quero ir a restaurantes com os amigos hoje - preciso apenas de um lanche low carb.  Vem aqui a dica: ao menos nos EUA, sempre que você quiser um hamburger sem o pão, basta pedir - "without the bun". Especialmente no Jack in the Box e Burger King. Pedi o maior cheeseburger de todos, pedi para colocar bacon extra, e pedi "without the bun" - a menina nem piscou, não me olhou diferente nem nada. Olha que legal o resultado:
Já vem num potinho especial para manter o formato de hamburger. Abaixo, o aspecto após eu levantar um pedaço da alface que substitui o pão:
Bem melhor e bem mais barato do que o hamburger low carb do Carl's de Guarulhos: este aqui custou apenas US$ 4,90.

Voltando para o hotel a pé (este fast food fica a 1 Km do hotel), encontrei um armazém. 95% porcarias industrializadas cheias de carbs, mas mesmo assim foi possível fazer um pequeno rancho para deixar no hotel:
Ovos, presunto, salsichas, beef Jerky. No quarto do hotel tem microondas. Mas e os ovos, não vão explodir? E a regra de estar preparado, já esqueceu? Trouxe junto do Brasil um dispositivo para preparar ovo cozido no microondas em menos de 2 minutos:
Enfim, não se passa fome, e é possível manter o controle nas situações mais adversas sem gastar muito - afinal, não dá para almoçar e jantar todos os dias nas maravilhosas e caríssimas "steakhouses" daqui. Amanhã continuo esta narrativa - vamos ver se consigo fazer isso até a minha volta, sexta que vem. Depois disso, não quero mais saber de gente dizendo que não consegue fazer a dieta... Em casa é TÃO mais fácil...

******* Domingo, 05/04/2013 *********
7:30 da manhã, boa noite de sono.
Café da manhã:
Omelete de 3 ovos recheado com Bacon e coberto com queijo cheddar (cheddar de verdade, não aquelas coisas processadas). As batatas fritas faziam parte do prato.

Estava delicioso - melhor ainda com esta vista:
Como eu já disse em uma postagem prévia, ninguém te obriga a comer alguma coisa apenas por estar no seu prato
Por exemplo:
E sim, eu comi algumas batatinhas. Porque algumas batatinhas não vão te matar - desde que você consiga comer apenas ALGUMAS.
Agora é meio-dia, e ainda estou completamente sem fome depois deste café da manhã. Se achar algo bom para comer no centro de convenções, OK, caso contrário, tenho castanhas e beef jerky aqui comigo, e posso muito bem pular esta refeição.

********

Durante a tarde, comi meus lanches (beef jerky, castanhas).

À noite, janta com os colegas, maravilhoso restaurante:
Uma salada Cesar é sempre uma boa pedida - apenas lembre-se de pedir para que venha sem os croutons (os pãezinhos). Para beber, qualquer restaurante nos EUA tem a opção de Ice Tea - lembre de pedir "unsweetened" (não-adoçado).


Filé com pimenta e molho de bluecheese + vegetais refogados e um cálice de vinho - alguém ainda acha que esta é uma dieta de provações?


******* Segunda, 06/05/13 ********
Fui dormir tarde, tinha que acordar muito cedo - comi no quarto do hotel mesmo, as coisas que havia comprado no outro dia:

Isso foi às 7h da manhã. Chegando no Centro de Convenções, tomei um café da Starbucks que deve ter quase meio litro. São 11h e nem sei o que é fome.

Hoje há dois eventos com comida de graça, um no almoço e outro na janta - será este o momento que capitularemos perante os carboidratos e o glúten? Haverá opções? Aguarde os próximos capítulos...

*********

O almoço grátis era uma porcaria, uma caixa com 2 sanduíches enormes, um saco de batatas fritas, um potinho de massa e um biscoito com pedaços de chocolate, além de uma coca diet. Bem, fazer o quê, era grátis...
E agora, quê fazer?
Simples, é só comer o recheio (peito de peru, queijo e alface):

Ok, deu uma vontade enorme de comer uma sobremesa. Bolos, doces e biscoitos estão em todo o lugar, mas não vejo nenhuma fruta nos arredores. Decidi então dar uma caminhada, e achei um lugar promissor:
Promoção: leve 5 chocolates e pague 4:
1 copo de leite tem mais açúcar do que uma barra inteira deste chocolate. E o sabor... sensacional. 

A janta foi uma agradável surpresa: só de olhar o salão, já era possível saber que tratava-se de coisa boa:
Observem que há uma pilha de pãezinhos no buffet, com uma pirâmide de bolinhas de manteiga ao lado:
Felizmente, os pães não se movem sozinhos, de modo que não há risco de pararem no seu prato inadvertidamente.

Havia ainda uma opção de talharim ao funghi. Mas, como sempre, havia muitas outras opções. Olhem, por exemplo, esta salada: não parece uma pintura?

1o prato que servi:

Segundo prato (que casou muito bem com o vinho tinto da Califórnia):

A propósito, repararam que até agora não comi nenhuma proteína nesta refeição? Eu já disse MIL vezes, mas não custa repetir: uma dieta páleo NÃO é uma "dieta da proteína", é simplesmente uma dieta da qual foram retirados os carboidratos processados e grãos. Uma verdadeira dieta páleo tem MAIS vegetais do que a dieta ocidental habitual.

Por fim, o prato principal: lombinho de porco com molho de pera e filé com molho de cogumelos:
Realmente, um sofrimento esta comida dietética, não é mesmo??

De sobremesa, 2 quadradinho do chocolate 86% cacau - e vou dormir feliz.

Um último pensamento para fechar este dia 06/05/13: observem, do início desta postagem até agora, que é possível manter-se na linha com orçamento baixo e orçamento alto, em situações informais e situações sociais formais, em terra e no ar, enfim, BASTA QUERER.

07/05/13
Café da manhã - frios e ovos no quarto do hotel, como ontem.

Vou aproveitar para responder aqui o questionamento de uma leitora, pois acho relevante para todos.
A leitora Marcela pergunta:
Doutor, gostei muito do seu relato, excelente para nos esclarecer mais, mas fiquei com algumas dúvidas:
1- A maioria das castanhas, nozes e congêneres são torradas com óleo vegetal, pode-se consumi-las ainda assim?
2- Sempre li que vinho contém carboidratos e, além disso, nossos ancestrais paleolíticos consumiam vinho? O vinho não seria uma invenção mais recente? Eu achava que sim.
3- Outra dúvida se refere a salsichas, linguiças, embutidos e afins, com certeza isso não existia no paleolítico, não?


Eu não sei se ficou claro, mas aparentemente não. Esta postagem não tem como objetivo relatar o que seria uma dieta ideal. O objetivo aqui é mostrar a vida como ela é, no mundo real, em uma viagem internacional na qual a)não estamos em nossa casa  b)não estamos em nosso país  c) participamos de eventos sociais em que há comida.
Assim, vou responder as questões uma a uma dentro desta perspectiva:
1) Sim, estas castanhas são torradas em óleo vegetal. Mas quando a alternativa são pães, biscoitos e bagels, isso torna-se irrelevante, pois a castanha mais industrializada é MUITO melhor do que o pão mais integral;
2) O vinho tinto seco tem alto grau de fermentação. Isso significa que as bactérias já transformaram quase todo o açúcar em álcool. De fato, 100 ml de vinho tinto seco contém 2g de açúcar, ou seja, nada (http://nutritiondata.self.com/facts/beverages/3847/2). É evidente que não havia vinho no paleolítico. Também não havia aviões, o que tornaria minha vinda à Califórnia mais difícil. Também não havia bananas, maçãs, alface, cenouras - essencialmente NADA do que comemos hoje existia no paleolítico. "Paleo" é um modelo, uma ideia geral no sentido de tentar emular no mundo moderno aqueles aspectos do estilo de vida com o qual evoluímos a fim de melhorar nossa saúde e bem estar. Seria tolice tentar viver exatamente como nossos antepassados. Quem me conhece sabe que eu praticamente não bebo, e isso sempre foi assim, desde muito antes de tomar conhecimento a respeito de dieta páleo ou low carb. Mas com certeza é melhor beber 1 cálice de um bom vinho tinto seco do que uma coca-cola.
3) evidentemente embutidos não existiam no paleolítico, mas o que eu deveria comer então, uma vez que eu tinha que sair do hotel antes da hora em que o café da manhã abria? Bagels? Doughnuts? Barras de cereal? Muffins? Entenda que é necessário fazer o possível com a aquilo que se dispõe, dentro das circunstâncias.

Eu já escrevi 1000 vezes isso neste blog, mas não custa repetir: o ótimo não pode ser o inimigo do bom. A busca da perfeição em um estilo de vida low carb / páleo está fadada ao fracasso (além de gerar stress, o que também não é bom). E a reação das pessoas ao "fracasso" é a frustração, que frequentemente é seguida de "vou jogar tudo pro ar e me esbaldar". É incrível, mas é assim que a psicologia humana tende a funcionar. Não consegui comer um filé de gado alimentado com pasto e verduras orgânicas? Então azar, vou comer uma pizza com massa Pan no Pizza Hut. Não consegui achar castanhas orgânicas assadas em manteiga de cacau? Então azar, vou comer uma rapadura.

O mundo não é preto e branco - há tons de cinza (50?). Uma carne de fast food aqui nos EUA, mesmo que eu saiba que vem de animais alimentados com grãos, é muito melhor do que uma pizza. Uma castanha Royale com um pouco de óleo de soja é muito melhor do que qualquer coisa que eu vá encontrar no centro de convenções ou dentro de um avião.


Ok, com isso em mente, vamos ao almoço de hoje, no qual os princípios acima foram colocados em prática. Afinal, eu estava com um grupo de amigos, e não podia ser o chato que iria dizer "aqui não posso comer". Fomos a um restaurante mexicano.

Entrada: 
Estes nachos são feitos de milho. Não são low carb, mas também não são de trigo (eu perguntei para ter certeza - menti para o garçom e disse que eu era celíaco). Como disse acima, não é necessário ser perfeito o tempo todo. Comi umas 4 ou 5 delas com os molhos.

Prato principal:
E agora? Simples, comi os tacos com carne, queijo e salada, incluindo as tortillas (feitas de milho, sem glúten). Experimentei um pouco do feijão, mas deixei o feijão e arroz no prato. Esta refeição inteira deve tido uns 50g de carbs, pelos meus cálculos. Mesmo que fossem 100g, ainda seriam muito menos do que a típica refeição americana. Como disse acima, o ótimo não pode ser o inimigo do bom, e devemos fazer o possível dentro do que as circunstâncias permitem. Diga-se de passagem, a comida estava ótima.

****** Dias 8 e 9 de maio
Final de viagem, andei comendo (muito bem) em um restaurante argentino, e esqueci de documentar.

Mais algumas fotos ilustrativas - janta de ontem:
Água na boca, hein? A foto acima foi no OutBack. Em Porto Alegre, este restaurante é muito caro. Mas nos EUA, o filé acima mais uma salada (que eu não fotografei) com bluecheese e nozes pecan (inimaginavelmente boa) custou 15 dólares! Um pouco mais do que se gastaria para comer lixo no McDonalds.

Almoço de hoje: uma salada Caesar com queijo frito em cima - e o onipresente chá gelado (que TODOS os restaurantes têm).

Está aí um prato para convencer crianças a comer brócolis - parece um desenho, não é mesmo?

Ah, sim, e um lembrete importante: as batatas e pães não se agarram aos seu talheres se você não deixar:

Escrevo do aeroporto em San Diego, e aproveito para encerrar esta longa e biográfica postagem. Nas próximas 24 horas vocês já sabem (basta voltar ao início da postagem): castanhas e chocolate amargo na bagagem de mão, aproveitar o pouco que dá da comida que vem no avião, e café. É possível comer bem e SEM CULPA até mesmo nas situações mais adversas. Por que não em casa, onde é bem mais fácil? Pense nisso.