quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Colesterol VI - Não há correlação populacional entre colesterol e doença cardíaca

Em Colesterol I, eu expliquei como surgiu a ideia de que colestrol pudesse ser algo ruim: uma combinação de má ciência básica e de um estudo epidemiológico mal feito da década de 1950.

Em colestrol II, eu mostrei que até 1957 nem mesmo a Associação Americana de Cardiologia estava convencida de que se deveria mudar a dieta das pessoas por causa de colesterol. No entanto, apenas 4 anos após, a maré começava a mudar, por motivos políticos, e não científicos.

Em colesterol III, eu detalhei os grandes estudos prospectivos e randomizados que demonstraram que reduzir a gordura na dieta não tem NENHUM impacto na mortalidade em homens e mulheres. Além disso, que estudos epidemiológico mais bem feitos sugerem que quanto maior o consumo de gordura per capita, menor a incidência de doenças cardiovasculares.

Em colesterol IV, vimos como o colesterol é um marcador de risco sofrível, como a redução de colesterol não traz benefício para a maior parte das pessoas, como a indústria manipula as estatísticas para nos convencer de que intervenções que têm o potencial de ajudar apenas 1 em cada 250 pessoas seriam "essenciais", e como modificações de estilo de vida podem ter impacto superior ao das drogas, sem o custo e efeitos colaterais.


Em colesterol V, vimos como o reducionismo feriu de morte o pensamento científico, levando-nos à crença ingênua de que podemos efetivamente dominar a complexa teia de causas e efeitos que compõem sistemas infinitamente complexos como o organismo humano. E citamos o ilustrativo exemplo da droga torcetrapib, que aumentava o HDL (colesterol "bom") e diminuía o LDL (colesterol "ruim"). E, no entanto, os pacientes morreram MAIS com esta droga - estes exames de sangue são apenas isso: exames de sangue, e o que queremos é viver mais e MELHOR, e não apenas mudar os números impressos no papel, apenas para morrermos com resultados "normais".

Na postagem denominada Conflitos de Interesse, abordamos o grau extremo com que os vultuosos interesses financeiros contaminam de forma decisiva (e infundada) as diretrizes que estabelecem que o colesterol "normal" seja abaixo de 200 e o LDL abaixo de 130.

Hoje, a postagem será bem curta. Trata-se de um vídeo, legendado por mim, com menos de 2 minutos, do Dr. Malcolm Kendrik, médico escocês, autor do (excelente) livro The Great Cholesterol Con: The Truth About What Really Causes Heart Disease and How to Avoid It ("A grande farsa do colesterol: a verdade sobre o que realmente causa doença cardíaca").

Já discuti em outras postagens que estudos epidemiológicos não estabelecem relações de causa e efeito (veja a postagem Colesterol I e esta outra); ainda assim, não custa dar uma olhada nos dados obtidos diretamente da Organização Mundial da Saúdem mostrados pelo Dr. Kendrick, abaixo. Tirem suas próprias conclusões.


O café que mata a fome

Quase todo mundo gosta de um bom café. Muitos em nosso meio gostam de café com leite. Nos EUA, é muito comum tomar café com "creme". O tal creme costuma ser nata e leite, em proporção de 50% cada um - uma delícia (costumava, pois agora eles têm "creme low fat", uma abominação feita de produtos químicos e soja).

Pois bem, vai aí mais uma dica: café com nata.

1) coloque uma quantidade GENEROSA de nata em uma xícara;

2) pré-aqueça a nata, para não beber café frio; vai ficar bem líquida, como se fosse leite;
3) Despeje o café por cima da nata derretida
4) Pronto: fica espumoso, encorpado, cremoso...


O café com nata é uma iguaria, mas pode cumprir outra funções além de ser gostoso.

Se você beber um ou dois destes de manhã cedo, pode tranquilamente pular o café da manhã e ficar sem NENHUMA fome até o almoço.

E para vocês, brasileiros sem nata (desnatados)? O café pode ser feito com manteiga - sim, manteiga! Para isso, basta derreter a manteiga completamente, e misturar com o café. Agora, para a manteiga produza um resultado espumoso como a foto acima, precisa bater no liquidificador. Um pouco mais de sujeira, mas é por uma boa causa.

A ideia do café com manteiga não é minha. Quem divulgou isso foi o David Asprey - que recomenda derreter mais da metade do tablete de manteiga no processo. Eu, quando uso manteiga, uso "apenas" 1/4 do tablete. O Asprey sugere esta estratégia dentro do contexto do jejum intermitente - ao invés de ficar completamente em jejum, bebendo apenas líquidos não calóricos, a pessoa beberia o café com manteiga, mataria a fome e, como a gordura é absolutamente neutra do ponto de vista hormonal (não altera a insulina, ao contrário dos carboidratos e das proteínas), manteria a cetose do jejum noturno. Bem, o interessante é que a ideia original também não é dele! No livro do Dr. Atkins, há um capítulo sobre o que fazer em caso de platôs de perda de peso. A sugestão do Dr. Atkins? "Fat Fast", ou "jejum com gordura". O sujeito realmente estava a frente do seu tempo!

Obviamente, o resultado gastronômico será melhor quanto melhor forem os ingredientes. Dá para fazer com manteiga genérica e café solúvel? Claro que dá. Mas com nata derretida e café expresso - vira a alegria da sua manhã (ou tarde!).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Creme de mamão papaya

Este não é um site de receitas. Bem, ao menos não era. Afinal, no canto direito há uma lista de blogs que se dedicam à arte culinária - e com muito mais competência do que eu jamais poderia.

Dito isso, minha inépcia culinária tem uma - e apenas uma - vantagem: na cozinha, só faço coisas muito simples e muito rápidas.

Assim, de vez em quando, vou deixar aqui algumas dicas de coisas que faço no meu dia-a-dia - podem ser úteis para quem está recém engatinhando neste estilo de vida.

Creme de Papaya.

Ingredientes:


  • 1/2 Papaya
  • 2 ou 3 colheres de sopa de nata (ou creme de leite, para vocês não-gaúchos)
  • 1 copo com gelo e água
  • Adoçante: a gosto (nenhum, para quem já descostumou o paladar ao açúcar)

Bata tudo no liquidificador e pronto: um creme de Papaya com textura de sorvete, e baixo índice glicêmico devido à nata. Se quiserem fazer de conta que estão em um restaurante, podem colocar um pouco de licor de cassis (sim, eu sei que tem açúcar, mas é pouca quantidade):


Simples, rápido, e delicioso.

P.S.: eu não sei se fica tão bom com creme de leite, pois eu não uso creme de leite, uso NATA. Eu imaginava que nata era acessível para todo mundo, pois em Porto Alegre a seção de natas no supermercado é assim:


Talvez seja mesmo mais fácil viver um estilo de vida low carb no Rio Grande do Sul :-) 

A nata tem menos proteínas do leite (caseína, etc) e mais gordura do que o creme de leite, sendo mais próxima da manteiga (50% de gordura versus 25% de gordura):


Outra coisa importante: a única marca de creme de leite (da qual eu tenho conhecimento) que contém apenas creme de leite em sua composição, é o Nestlé DE LATA. Mesmo o Nestlé de caixinha contém grande quantidade de aditivos (carragena, gomas, etc).

Experimente, e deixe aqui sua impressão.

domingo, 25 de agosto de 2013

Manteiga sim, margarina nunca

Já comentamos aqui o fato de que devemos evitar as gorduras poliinsaturadas derivadas de sementes (óleos de soja, canola, milho, etc). Margarina significa pegar estas gorduras, que já são ruins, e torná-las muito piores.

Eis um belo artigo em português, da revista Superinteressante:
(dica do leitor Carlos Teixeira)

Você sabe como é fabricada a margarina?

 10 de maio de 2013
Nas prateleiras dos supermercados, a grande dúvida: o que passar no pão, manteiga ou margarina? A diferença básica entre as duas poderia ser resumida no fato de que a primeira é de origem animal e a segunda de origem vegetal. Mas todo resumo pode esconder detalhes importantes…
Origem vegetal ou industrial?Tudo começa com um processo químico chamado hidrogenação. De forma simplificada, é  o acréscimo de hidrogênio ao óleo vegetal, matéria-prima usada na fabricação da margarina. De óleo, ele passa a ser gordura, com ponto de fusão em temperatura mais alta e com maior estabilidade no processo de oxidação.
Em resumo, a partir da hidrogenação os óleos se solidificam, dando origem à gordura hidrogenada, base da margarina. O problema é que o processo de hidrogenação dos óleos forma isômeros trans dos ácidos insaturados. A famosa gordura trans, conhecida por reduzir o bom colesterol (HDL) e elevar o mau colesterol (LDL).
A gordura trans também é encontrada em quantidades pequenas em animais como bois, cabras, ovelhas e búfalos (de 2 a 5% da gordura total desses animais). Mas, no caso dos óleos vegetais parcialmente hidrogenados, representam de 50 a 60% da gordura total.
E qual a diferença?Um detalhe importante é que o tipo de gordura trans predominante nos animais (carne, leite e derivados) é diferente daquele predominante em margarinas, gorduras vegetais hidrogenadas e óleos comerciais parcialmente hidrogenados.
A preocupação dos especialistas com relação às gorduras trans está concentrada especialmente nos produtos industrializados e não na gordura presente na carne e no leite naturais e integrais.
Além disso, o organismo reconhece a gordura da manteiga como natural e consegue metabolizá-la, o que não acontece com a margarina, que é recebida pelo organismo como uma gordura “estranha”.
Mas… e as margarinas sem gordura trans?A partir da década de 50, estudos demonstraram efeitos adversos relacionados a esse tipo de gordura, como ataques cardíacos, alguns tipos de câncer, diabetes, disfunção imunológica e obesidade.
Com a descoberta de tantos malefícios, muitas indústrias passaram a lançar no mercadomargarinas livres do “problema”. O que não quer dizer que elas tenham se tornado mais saudáveis.
Uma das saídas encontradas pelos fabricantes foi acrescentar à fabricação o processo deinteresterificação, que não gera gordura trans e mantém a textura cremosa do produto. Todas as margarinas com zero trans têm gordura interesterificada, que nada mais é que um óleo vegetal modificado quimicamente.
Há também a margarina light, que contém alto teor de água e por isso é reduzida em gorduras e calorias quando comparada em um mesmo volume com as margarinas tradicionais.
Mesmo com as novas alternativas industriais, a qualidade do produto alimentício não mudou. Vale lembrar que a margarina é artificial, cuja base, um óleo vegetal produzido sob alta pressão e temperatura, é totalmente modificado pela hidrogenação química.
Após a hidrogenação, branqueadores modificam a cor acinzentada e retiram o odor desagradávelque fica na gordura. Ao produto são adicionados pelo menos sete aditivos químicos sintéticosentre corantes, aromatizantes, espessantes e vitaminas A sintéticas. A margarina vai então para os mercados com o rótulo de “alimento saudável”.
Ah, o marketing…A conhecida propaganda de margarina, que relaciona o consumo do produto a ambientes saudáveis e alegres, é em geral estrelada por atores bonitos que formam a clássica “família feliz”. Uma forma bastante convincente para arrebanhar um número crescente de consumidores ao longo dos anos. Entre 1910 a 1970, o consumo de gordura animal entre os norte-americanos baixou de 83% para 62% e o consumo de óleos vegetais e margarina aumentou 400%.
A história do seu surgimento está relacionada a uma grave crise econômica na França, no final do século XIX, quando produtos como a manteiga aumentavam de preço e o país necessitava de gêneros alimentícios que tivessem fácil conservação e um preço razoável.
Após vários experimentos, o químico Mége Mouriés conseguiu produzir uma nova gordura que seria a base da margarina. A palavra vem do “margaron”, que significa “pérola”, devido à aparência perolada que conhecemos.
Até hoje, o apelo financeiro é determinante. Muitos produtos industrializados têm como base a gordura hidrogenada por seu baixo custo industrial – e um alto custo para a saúde.
Fontes:
- Livro “Alimentos Orgânicos – Ampliando os conceitos de saúde humana, ambiental e social”
, de Elaine de Azevedo. Ed. Senac, 2012.Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do SulO GloboBrasil Escola
- Vídeo: 
Série Conhecimento Manteiga ou Margarina, da TV Universitária Lavras 
Imagens:
Wikimedia Commons/BMK
Caríssimas Catrevagens 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Doce Vício - reportagem sobre açúcar na National Geographic

De tempos em tempos, alguma reportagem realmente diferenciada sai publicada em Português. Exemplos notáveis foram a reportagem da revista GQ sobre o fato de que os carboidratos viciam, uma sensacional reportagem da Revista Istoé sobre dietas sem glúten, outra reportagem da VEJA Rio sobre uma moça que perdeu 45 Kg com low carb, e a recente reportagem da revista O2 com entrevista exclusiva de Gary Taubes.

Há várias semanas li uma matéria excelente na National Geographic americana, mas era muito longa para traduzir. Mas hoje a leitora Camila Marquetto fez a gentileza de me trazer pessoalmente a National Geographic brasileira - um primor de reportagem, capa da edição de agosto - que reproduzo abaixo (se a letra ficar pequena para ler, basta clicar com o botão direito sobre a imagem e abri-la em outra página ou copiá-la e abri-la no seu computador):

P.S.: está também na íntegra aqui: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/acucar-doce-vicio-crise-de-saude#8












segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Comida de gente grande.

Quando eu era pequeno, não existiam essas casas de festas que inflacionam os aniversários de nossos filhos. Aniversário de criança era algo que se fazia em casa. Servia-se todo o tipo de guloseima, regada a refrigerante. E todas essas coisas eram vistas como o que eram: guloseimas, para consumo APENAS naquele dia, e naquela circunstância. Afinal, era o aniversário do júnior. E mesmo assim, isso era na mesa das crianças. Porque a mesa dos adultos era diferente, mas sofisticada. Havia água e bebidas alcoólicas, petiscos característicos de um coquetel, torta fria, etc. As pessoas bebiam, fumavam e beliscavam estes petiscos. Era o mundo dos adultos, nos anos 1970.

*****

Algum tempo atrás, registrei o lanche que é servido na sala dos médicos no bloco cirúrgico de um grande hospital da cidade. Vejam: isto é o que é considerado um lanche saudável, em um ambiente frequentado exclusivamente por cirurgiões e anestesistas:



É o pesadelo nutricional. Exclusivamente carboidratos, e dos piores tipos: farinha de trigo refinada, açúcar adicionado, recheios com gordura vegetal hidrogenada (gordura trans) - se os americanos tivessem jogado isso no Vietnam, teriam ganho a guerra.

Não há esperança de que isso mude num futuro próximo, em um ambiente frequentado por centenas de médicos com grande fé na pirâmide alimentar. O segredo é tentarmos influenciar as pessoas uma a uma, em círculos mais restritos (amigos, família, ambientes de trabalho menores). À medida que os resultados tornam-se evidentes, a ideia vai-se espalhando.

Há locais em que podemos exercer uma influência positiva. Locais menores, nos quais o número de colegas é suficientemente pequeno para que possamos produzir uma mudança de hábitos.

A foto abaixo é de uma clínica de diagnóstico na qual trabalho fazendo exames. O lanche dos funcionários era algo semelhante à foto acima. Após uma palestra que dei na semana passada para os colegas interessados, qual não foi minha surpresa com o lanche da tarde de hoje?


O pessoal acabou com esse prato em questão de 15 minutos - e todos ficaram com a maravilhosa sensação de saciedade e paladar que comida de verdade proporciona. E alguns colegas que não haviam participado da palestra também se interessaram - nada como um exemplo prático para despertar a curiosidade.

Comparando as duas fotos, me ocorreu uma coisa: a indústria alimentícia conseguiu dois grandes feitos:

1) conseguiu estabelecer na cabeça das pessoas que crianças podem e devem comer porcarias totais, todos os dias. Biscoitos recheados, por exemplo. Não daríamos isso ao nosso cachorro, por receio de que lhe fizesse mal. Mas damos às crianças. Provavelmente, nossas crianças estariam bem mais seguras comendo a ração do cachorro;

2) conseguiu convencer os ADULTOS a comer comida de criança. Sim, pois quando eu era pequeno, as guloseimas mostradas na primeira foto eram consumidas apenas em festas de aniversário. Ninguém comia isso todos os dias. E foi isso que pensei, quando vi o prato da foto de baixo: "isto é comida de gente grande", poderia ser servida em um coquetel com um bom espumante.

A indústria alimentícia conseguiu transformar a alimentação das crianças em uma eterna festa de aniversário, para em seguida infantilizar a todos nós - todos estão liberados para beber refrigerante todos os dias, comer biscoitos recheados, barras de chocolate e pacotes de balas no ambiente de trabalho sem nenhum constrangimento - isto causaria estranhamento até um passado recente.

Talvez nos falte, no fundo, apenas isso: crescer. Comer comida de adulto, comer como "gente grande" - comida de verdade.

sábado, 17 de agosto de 2013

27Kg e 31cm de barriga a menos com low carb



Faz tempo que não posto aqui um exemplo de sucesso de algum dos leitores (clique aqui). Afinal, o blog tem um viés mais científico, pois esta é a maior lacuna a ser preenchida em nosso meio e em nosso idioma. Não obstante, não dá para ignorar o grande estímulo que as pessoas obtém de exemplos incríveis como este: 

Arimatéia Jr., 29 anos, morador de Teresina, Piaui.


"Eu cheguei aos 102kg com 1,77m de altura no início de dezembro de 2012, quando resolvi que tinha que fazer alguma coisa para mudar isso. Eu não podia passar o resto da minha vida assim. Então, procurei a ajuda de uma nutricionista, que me passou uma dieta hipocalórica. De início já percebi que não iria dar muito certo, pois já tinha tentando esse tipo de dieta algumas vezes e nunca obtive sucesso. Eu estava passando fome e vi que isso não iria se sustentar a longo prazo. Até o final do mês de dezembro consegui perder uns 3kg com essa restrição calórica e à custa de muito sofrimento. Foi então que comecei a pesquisar sobre o assunto e encontrei o seu blog. Li praticamente tudo. A fome que eu tinha de comida fui matando com a leitura dos artigos!

Todas as informações e quebras de paradigmas foram me deixando muito confuso. Resolvi testar. No início foi muito estranho. Era uma sensação de medo. Eu pensava: será se eu estou acabando com a minha saúde comendo toda essa gordura que o mundo diz que faz mal? Será se eu vou desmaiar de fraqueza se deixar de comer esses carboidratos que todos dizem que eu tenho que comer? Bom, aconteceu justamente o contrário. Eu fiquei com muito mais energia e disposição. Passei a frequentar a academia fazendo musculação todos os dias. Aquela sonolência do início da tarde foi acabando. Passei a praticar atividades físicas que antes não tinha motivação alguma.

Em pouco mais de 3 meses, tive que trocar TODO o meu guarda-roupas. Não estou exagerando, todas as minhas roupas não mais me serviam. Foi muito gratificante ver os resultados aparecendo, as pessoas do meu círculo social notando a diferença e perguntando o que tinha acontecido (cenas muito parecidas com uma vídeo-animação que vc postou no seu blog).

Logo que perdi uns 18kg de peso comecei a focar na hipertrofia. Aí já foi confusão também, pois quando eu falava para o meu personal que tinha uma dieta low-carb ele ia à loucura. Dizia que eu poderia ter tonturas, fraqueza, hipoglicemia, etc. Como uma dieta em que eu não passo fome, que é gostosa, que eleva a minha disposição, que dá resultados e que é totalmente natural poderia ser ruim? Continuei firme na dieta. No início eu até cheguei a ter alguns episódios de tonturas e ânsia de vômitos, mas acho que eram sempre em dias de treino bem pesado. Meu corpo logo se adaptou e hoje treino sem problemas. Treino sempre no início da noite e muitas vezes vou alimentado só com o almoço e nunca mais tive problemas.

Nesse período, sempre que alguém me perguntava o que eu estava fazendo para emagrecer eu não queria mais responder, pois sempre eles não acreditavam ou ficavam dizendo que eu estava acabando com a minha saúde (lembro sempre da vídeo-animação do seu blog… kkk).

Vou focar agora um pouco nos aspectos mais objetivos.

Medidas:
Peso antes: 102kg
Peso atual: 75kg


Abdômen antes: 108cm
Abdômen atual: 77cm


Alimentação:

  • Cortei completamente o trigo (massas, bolos, etc) e o arroz.
  • Cortei refrigerantes, bebidas alcoólicas, sucos, cajuínas, etc. A única bebida que tomo é a água, com exceção do whey protein que tomo no pós-treino.
  • Priorizo as gorduras naturais dos alimentos. Como carnes sem restrição (sempre evitava o porco, pois fui criado com essa aversão à gordura do porco e colesterol. Hoje não consigo mais viver sem essa maravilha gastronômica).
  • Como bastante salada todos os dias com azeite de olívia.
  • Como castanhas e amêndoas.
  • Como bastantes ovos inteiros todos os dias. Só no café da manhã já vão 4.
  • Cortei o leite. Eu não tinha muitos problemas de intolerância, mas percebi que vivo melhor sem ele (O Dr. Lair Ribeiro ajudou um pouco nessa parte). O queijo aqui é uma exceção, pois quase sempre como queijo frito juntos com os ovos.
  • Cortei gorduras vegetais. Faço tudo com manteiga ou óleo de côco.
  • Como sempre que tenho fome.

Não tenho muitas 
fotos de quando estava obeso, pois não gostava da minha aparência, nem imaginava que estava prestes a sofrer uma revolução na minha vida.

ANTES:

DEPOIS:

Quando alguém lhe disser que "com low carb se perde somente e água", lembre-se deste caso (além deste artigo).

E, se você ainda tem dúvidas de que nosso amigo perdeu gordura, veja a evolução de sua composição corporal:


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Tratamentos e causas

Falácias lógicas: comuns entre pinguins e profissionais de saúde

É bastante comum ouvir das pessoas um questionamento que soa mais ou menos assim: "se os carboidratos engordam, por que os japoneses, que comem tanto arroz, são magros?"; Ou "se o pão e o trigo são problemáticos, por que as pessoas eram bem mais magras antes de 1977, se naquela época já se comia pão?"; Ou ainda "os franceses comem mais gordura e têm menos doenças cardíacas e são mais magros (o chamado "paradoxo francês), mas eles comem pão - por que então não são gordos"?


1977 - o ano em que a pirâmide alimentar foi introduzida; marca o início da epidemia de obesidade e diabetes, na medida em que as pessoas começaram a comer menos gordura e mais carboidratos. Reproduzido de The Smarter Science of Slim, Jonathan Bailor.

O problema com este tipo de raciocínio é uma falácia lógica (non sequitur). Observem o seguinte exemplo:


Quando uma pessoa está com dor de cabeça, esta dor costuma passar com Aspirina. Isto significa que a CAUSA da dor de cabeça é FALTA de Aspirina no corpo?
Cuidado - lógica falha pode ser mortal

Pense um pouco - a conclusão da frase acima é absurda. Afinal, ninguém sofre de falta de aspirina, pois aspirina não existe normalmente no corpo de ninguém. No entanto, este pensamento falacioso está por trás dos sofismas do primeiro parágrafo desta postagem.
Lógica da maioria dos médicos e nutricionistas
Vejamos este exemplo:


Quando uma pessoa está obesa, restringir carboidratos costuma resolver o problema. Japoneses comem arroz, que é um carboidrato, mas não são gordos. Isto significa que não é necessário restringir arroz para perder peso.

Percebem a falácia lógica? Aquilo que usamos para resolver um problema não precisa ser, necessariamente, a causa do problema!

Veja, a causa da dor de cabeça não é falta de aspirina; não obstante, a aspirina é eficaz para aliviar a dor de cabeça. A dor de cabeça pode ser causada, por exemplo, por ter bebido muito vinho na véspera. Mas agora que você já bebeu, e a dor já está aí, a aspirina pode ajudar.

O consumo de arroz, por si só, não causa obesidade na maioria das pessoas. A obesidade pode ter sido causada, por exemplo, pelo consumo excessivo de farináceos e açúcar por vários anos. Mas, agora que você já engordou, e a obesidade já está instalada, a restrição de carboidratos (inclusive de arroz) pode ajudar.

Muito da confusão que recai sobre as discussões a respeito de nutrição e saúde advém destes erros elementares de argumentação e lógica.


Assim, mais uma vez eu insisto - tudo depende da situação e dos objetivos. As pessoas não engordaram porque comeram muitas frutas, muito arroz, muita batata doce. Elas engordaram depois de anos de abuso de açúcar e farináceos (pães, macarronadas, bolos, tortas, refrigerantes e doces diversos) no contexto de uma genética desfavorável. AGORA, depois que você atingiu um grau elevado de dano metabólico, com obesidade, pré-diabetes ou diabetes e síndrome metabólica, apenas restringir os doces e pão branco pode ser insuficiente, e pode ser necessário restringir severamente os carboidratos de uma forma geral para ter resultados realmente bons. Fazendo um paralelo com o exemplo da aspirina, você não engordou por FALTA DE LOW CARB na juventude. Mas uma vez que você tenha engordado, LOW CARB é a melhor solução terapêutica.

De uma forma geral, pessoas não engordam mesmo que comam um monte de carboidratos, desde que sejam carboidratos mais próximos àqueles com os quais evoluímos - frutas e raízes, até mesmo grãos integrais (embora estes últimos possam ter outras implicações para a saúde que vão além de gordura). Mas depois de feito o estrago, a intervenção (restrição de carboidratos) passa a ser terapêutica.

Ou seja: uma dieta de baixo índice glicêmico, rica em hortaliças e frutas, e com maior quantidade de proteínas e gorduras, sem açúcar adicionado aos alimentos e sem farináceos refinados seria extremamente saudável e evitaria que as pessoas adoecessem - mas isto é praticamente a definição de uma dieta paleolítica (fora os grãos). E esta é a dieta adequada para pessoas saudáveis. Mas para pessoas doentes devido ao hiperinsulinismo crônico, o que funciona mesmo é cortar os carboidratos, e a ciência é absolutamente cristalina no que diz respeito a 1) eficácia da intervenção e 2) segurança da intervenção, conforme demonstra ampla literatura baseada em estudos de nível de evidência 1.

Não quero jamais deixar implícito que uma dieta cetogênica é a dieta que deveria ser adotada por jovens atletas saudáveis e magros - isso seria tolice (já dieta paleolítica, descrita no parágrafo acima, é a ideal, penso). Mas as críticas feitas por alguns profissionais de saúde ("faz mal para os rins", ou "faz mal para os ossos", faz "perder massa muscular", etc) são coisas ridículas e pueris, algo que se esperaria de uma conversa de bar, e não de pessoas que cursaram uma universidade em áreas afins à saúde e fisiologia humanas.



sábado, 10 de agosto de 2013

Revista Época - reportagem sobre o livro Barriga de Trigo

Recentemente divulguei o lançamento do livro Barriga de Trigo no Brasil.

A revista Época desta semana traz reportagem sobre o livro, incluindo a história de um paciente meu, que perdeu 19 Kg, e de seu filho que perdeu 25 Kg apenas seguindo a dieta do pai!

Mais um passo na divulgação das ideias deste blog (e do próprio blog, já que cita o meu nome).

Acabei de comprar a revista, que já está nas bancas. Comprem seus exemplares, e escrevam para a seção de cartas elogiando a reportagem (e a jornalista responsável, Natália Spinacé) e, por que não, contando suas histórias de sucesso com dieta sem grãos e sem açúcar para que sejam publicadas na semana que vem.







sábado, 3 de agosto de 2013

Conflitos de interesse

Copiei este anúncio de um site de classificados na internet:


Gol Plus 1000i 96\97 completo, vidros e travas elétricas, limpador e desembaçador traseiro, banco com regulagem de altura, DVD, pneus novos zerado, ótimo estado, mecânica e suspensão novos, tudo ok! Único dono, apenas 55.000 Km, ano 1996.

Você compraria este carro? Ou você teria alguma dúvida?

  • O carro é de 1996. São 17 anos. Isso dá 3.235 Km por ano. Possível, mas improvável, não é mesmo?
  • Mecânica e suspensão novos. Será?
A maioria das pessoas leigas em carro levaria o veículo para ser revisado pelo seu mecânico de confiança. Por quê? Porque as informações do vendedor nunca são completamente confiáveis, é claro. Mas por que elas não são confiáveis? Por causa do conflito de interesses. O interesse do proprietário é vender o veículo. Ele precisa prestar informações sobre o mesmo. Tais informações podem eventualmente prejudicar o negócio. Assim, por definição, o interesse do proprietário em vender entra em conflito com seu interesse de dizer a verdade. Neste conflito, sabemos quem costuma sair perdendo.

Veja, o vendedor pode recorrer a várias estratégias, com maior ou menor grau de honestidade.

Ele pode mentir. Ano 1996 com 55.000 Km? É, pode ser. Mas pode ser 155.000 Km, mudados com ajuda de um expert em velocímetros. Mas ele também pode OMITIR. O carro poderia ter sido consertado depois de um acidente. O carro poderia ter a embreagem no fim da vida, as pastilhas de freio gastas, a caixa de câmbio arranhando, o motor com folga, queimando óleo, enfim, poderia ser um desastre ambulante e o anúncio poderia permanecer o mesmo, sem que houvesse nenhuma afirmação falsa. O anúncio pode ser "maquiado" sem que se recorra à mentira.

Você compraria às cegas, sem questionar? Claro que não.

O ceticismo é uma ferramenta saudável e imprescindível. É a faculdade de suspender provisoriamente nossa tendência de acreditar. E quase todos nós fazemos uso do ceticismo diariamente, quando falamos com um vendedor de carros usados, quando ouvimos um político fazer promessas, quando recebemos um email dizendo que fomos sorteados para receber 1 milhão de dólares, bastando clicar no link sublinhado...

No entanto, quando a informação é proveniente de figuras de autoridade, muitas pessoas simplesmente abandonam completamente o ceticismo, como se médicos, cientistas e suas organizações fossem imunes aos conflitos de interesse. Não são.

Se você comprasse o carro acima sem questionar nada, estaria sendo no mínimo ingênuo. Pois você é ingênuo se não questionar as diretrizes das sociedades médicas, e pelos mesmos motivos.

O painel de especialistas que estabeleceu que o colesterol normal não deveria ser mais 240, e sim 200, era composto de 9 pesquisadores. Dos 9, oito recebiam dinheiro da indústria farmacêutica (dizem que um deles recebeu mais de 1 milhão de dólares). Segue, abaixo, os nomes de cada um deles, e de quem recebiam valores (são dados públicos, que podem ser conferidos aqui):

ATP III Update 2004:  Financial Disclosure

Dr. Grundy recebeu honorários de Merck, Pfizer, Sankyo, Bayer, Merck/Schering-Plough, Kos, Abbott, Bristol-Myers Squibb, and AstraZeneca; recebeu dinheiro para pesquisas de Merck, Abbott, and Glaxo Smith Kline.

Dr. Cleeman não tem relações financeiras para revelar.

Dr. Bairey Merz recebeu honorários de Pfizer, Merck, and Kos; serviu como consultora para Pfizer, Bayer, and EHC (Merck); recebeu dinheiro para pesquisas de Pfizer, Procter & Gamble, Novartis, Wyeth, AstraZeneca, and Bristol-Myers Squibb Medical Imaging, Merck; ela possui ações da Boston Scientific, IVAX, Eli Lilly, Medtronic, Johnson & Johnson, SCIPIE Insurance, ATS Medical, and Biosite.

Dr. Brewer recebeu honorários de AstraZeneca, Pfizer, Lipid Sciences, Merck, Merck/Schering-Plough, Fournier, Tularik, Esperion, and Novartis;  serviu como consultor para AstraZeneca, Pfizer, Lipid Sciences, Merck, Merck/Schering-Plough, Fournier, Tularik, Sankyo, and Novartis.

Dr. Clark recebeu honorários de Abbott, AstraZeneca, Bristol-Myers Squibb, Merck, and Pfizer; recebeu dinheiro para pesquisas de Abbott, AstraZeneca, Bristol-Myers Squibb, Merck, and Pfizer.

Dr. Hunninghake recebeu honorários de AstraZeneca, Merck, Merck/Schering-Plough, and Pfizer, and for consulting from Kos; recebeu dinheiro para pesquisas de AstraZeneca, Bristol-Myers Squibb, Kos, Merck, Merck/Schering-Plough, Novartis, and Pfizer.

Dr. Pasternak foi contratado para dar palestras em nome de Pfizer, Merck, Merck/Schering-Plough, Takeda, Kos, BMS-Sanofi, and Novartis; serviu como consultor de Merck, Merck/Schering-Plough, Sanofi, Pfizer Health Solutions, Johnson & Johnson-Merck, and AstraZeneca.

Dr. Smith recebeu dinheiro para pesquisas institucionais de Merck; possui ações da Medtronic e da Johnson & Johnson.

Dr. Stone recebeu honorários de Abbott, AstraZeneca, Bristol-Myers Squibb, Kos, Merck, Merck/Schering-Plough, Novartis, Pfizer, Reliant, and Sankyo; serviu como consultor de Abbott, Merck, Merck/Schering-Plough, Pfizer, and Reliant.

Não estou de forma alguma propondo que estes senhores estejam mentindo. Mas, para vender meu Gol 1996, eu posso polir um pouco a pintura, trocar as calotas das rodas, e omitir alguns probleminhas para, enfim, salientar suas qualidades, não é mesmo?

Vou dar um exemplo mais caricato, para ver se fica mais claro. Imaginem que estes pesquisadores investigassem o cigarro, e tivessem o seguinte conflito de interesses:

Dr. Grundy recebeu honorários da Souza Cruz; recebeu dinheiro para pesquisas da Souza Cruz.

Dr. Cleeman não tem relações financeiras para revelar.

Dr. Bairey Merz recebeu honorários da Souza Cruz; serviu como consultora para da Souza Cruz;  recebeu dinheiro para pesquisas da Souza Cruz;  ela possui ações da da Souza Cruz.

Dr. Brewer recebeu honorários da Souza Cruz; serviu como consultor para da Souza Cruz.

Dr. Clark recebeu honorários da Souza Cruz; recebeu dinheiro para pesquisas da Souza Cruz.

Dr. Hunninghake recebeu honorários da Souza Cruz; recebeu dinheiro para pesquisas da Souza Cruz.

Dr. Pasternak foi contratado para dar palestras em nome da Souza Cruz; serviu como consultor da Souza Cruz.

Dr. Smith recebeu dinheiro para pesquisas institucionais da Souza Cruz;  possui ações da Souza Cruz.

Dr. Stone recebeu honorários da Souza Cruz;  serviu como consultor da Souza Cruz.

Minha pergunta é simples: você confiaria, sem nenhum ceticismo, cegamente, em um documento escrito por estes pesquisadores sobre tabagismo? Pois é... Dê uma olhada novamente na verdadeira lista de conflitos de interesse destas pessoas, e pense se um pouco menos de ingenuidade não vem bem.


O que estou sugerindo aqui é que você tenha, com relação à vida em geral e às diretrizes produzidas por sociedades médicas e governos em particular, o mesmo grau de ceticismo que você teria ao comprar um veículo usado.


É preciso entender que isso não é nenhuma teoria de conspiração. É um fato. Vejam, por exemplo, este estudo:


Pharmaceutical industry sponsorship and research outcome and quality: systematic review
BMJ 2003; 326 doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.326.7400.1167 (Published 29 May 2003)
Cite this as: BMJ 2003;326:1167

Este estudo, publicado há 10 anos, mostrava que os estudos patrocinados pela indústria tinham 4 vezes mais chance de favorecer o produto sendo pesquisado, do que se a fonte patrocinadora do estudo fosse governamental. Você vê aqui algum conflito de interesses?


Em 2007, pesquisadores fizeram um levantamento de 192 estudos sobre estatinas, as lucrativas drogas para reduzir o colesterol:

PLoS Med. 2007 June; 4(6): e184.
Published online 2007 June 5. doi: 10.1371/journal.pmed.0040184, PMCID: PMC188545
Factors Associated with Findings of Published Trials of Drug–Drug Comparisons: Why Some Statins Appear More Efficacious than Others

Vários destes 192 estudos tinham como seus autores as figuras citadas acima, no painel que definiu os valores desejáveis para o colesterol. O resultado desta análise, mais uma vez, indicou que os estudos tinham uma chance maior de mostrar que as estatinas eram benéficas se fossem patrocinados pela indústria do que se fossem patrocinados pelo governo. Isso não é surpresa. A surpresa é a magnitude do efeito. Os estudos patrocinados pela indústria farmacêutica tinham VINTE vezes mais chance de indicar resultados positivos do uso de estatinas do que os estudos patrocinados pelo governo! VINTE vezes!!

John P. A. Ioannidis é um famoso professor e chefe do departamento de bioestatística da Universidade de Stanford. Em 2005, ele publicou um artigo que marcou época para aqueles de nós que gostam de fazer uma leitura crítica da literatura científica:


 2005 Aug;2(8):e124. Epub 2005 Aug 30.

Why most published research findings arefalse.

Traduzindo:
Por que a maioria dos resultados publicados de pesquisas é falso?

Ioannidis faz uma sublime análise do assunto, em muito maior profundidade do que eu poderia abordar aqui.

Mas algumas das conclusões merecem ser traduzidas:

- The greater the financial and other interests and prejudices in a scientific field, the less likely the research findings are to be true.
"Quanto maiores os interesses (financeiros ou outros) e preconceitos em uma área da ciência, menor a chance de que os resultados das pesquisas sejam verdadeiros".

- The hotter a scientific field (with more scientific teams involved), the less likely the research findings are to be true.
"Quanto mais quente for uma área de pesquisa científica (com mais grupos de cientistas envolvidos), menor a chance de que os resultados das pesquisas sejam verdadeiros".

COMO ANUNCIAR SEU CARRO USADO?
Vamos a um exemplo concreto.

Em 2003, foi publicado o famoso estudo em que o Lipitor provou reduzir em 36% o número de infartos fatais e não-fatais após 3,3 anos de uso. Este estudo foi financiado pela Pfizer. Baseado em estudos como este, todas as pessoas com colesterol "elevado" devem receber estatinas.

Ok, este é o anúncio do vendedor. Vamos levar o carro usado no mecânico e perguntar a sua opinião?

Muito bem, eis o que descobrimos:

Todos os pacientes tinham pelo menos 3 dos seguintes fatores de risco: sexo masculino (81.1%), idade > 55 anos (84.5%), tabagismo (33.2%), diabetes (24.3%), história de doença coronariana em parentes de primeiro grau (26%), Triglicerídeos:HDL > 6 (14.3%), doença vascular periférica (5.1%), hipertrofia ventricular esquerda (14.4%), AVC prévio (9.8%), anormalidades específicas do ECG, (14.3%), proteinúria/albuminúria (62.4%).

Ou seja, o nosso carro usado era meio detonado.

Quando olhamos os números, contudo, é que descobrimos o quão esperto é o vendedor.

  • De cada 100 pessoas usando placebo, 3 morreram em 3,3 anos
  • De cada 100 pessoas usando Lípitor, 1,9 morreram em 3,3 anos
  • O número de pessoas vivas no final do estudo foi igual nos dois grupos, já que quem não morreu do coração morreu de outras causas.

O que o nosso mecânico nos diz?
"Em um grupo de pessoas de alto risco, 100 pessoas precisariam tomar o remédio por 3,3 anos para que uma pessoa não morra de infarto OU não tenha um infarto não-fatal. Mas, mesmo assim, essa pessoa irá morrer, só que de outra coisa, tipo câncer"

O mais incrível é que nosso vendedor NÃO está mentindo!! Mas COMO???

É simples: a mortalidade no no grupo placebo foi 3%, e no grupo Lípitor foi 1,9%. Embora a forma honesta de relatar este resultado seja dizer que houve uma redução de 3 - 1,9 = 1,1%, a foma ESPERTA de relatar o resultado é dizer que houve uma redução de 1,9 / 3 = 0,36 = 36%!

Vamos repetir, caso não tenha ficado claro: 1,9% é 36% a menos do que 3%. Assim, a redução de 1,1% entre os tratados e não tratados é uma redução de 36%.

Se você for o anunciante (Pfizer), você dirá isso:



Mas se você ler os dados do estudo original, você dirá isso:

Se você tiver sérios riscos cardiovasculares, vários dos quais podem ser eliminados (como cigarro e triglicerídeos altos), e tomar este remédio por 3,3 anos, você será 1% de chance a menos de ter um infarto OU de morrer do coração, embora você tenha 1% de chance a mais de morrer de câncer ou outras causas neste período.

As duas explicações estão corretas, e nenhuma está mentindo. 

Qual das duas você escolheria se você fosse um daqueles especialistas do painel que estabeleceu as diretrizes do colesterol? Antes de responder, dê, novamente, uma boa olhada na lista de conflitos de interesses dos mesmos.

Se você quiser comprar o carro usado baseado na descrição do vendedor, tudo bem. Eu prefiro ouvir a opinião do meu mecânico.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Entrevista em vídeo com Dr. Andreas Eenfeldt

O Rodrigo, do emagrecerdevez.com, conseguiu organizar um bate-papo de uma hora com o Dr. Andreas Eenfeldt, o médico sueco que mais se notabilizou naquele país pela divulgação das dietas low carb / high fat (LCHF), e autor do conhecidíssimo blog dietdoctor.com. Eenfeldt é um de meus ídolos, e sou muito grato por ter tido essa oportunidade de conversar diretamente com ele. O Rodrigo fez ainda o favor de legendar a entrevista!

Segue o vídeo: