terça-feira, 4 de novembro de 2014

Editorial do Wall Street Journal - Os últimos cruzados contra a gordura

Quem me acompanha no twitter já leu o original deste editorial no tradicional e conservador Wall Street Journal, escrito por Nina Teicholz. Felizmente, podemos contar com Hilton Sousa para traduzir este e tantos outros textos em seu blog.

Segue a tradução, por Hilton Souza:


Por Nina Teicholz

Os principais cientistas que guiam as recomendações nutricionais do governo dos EUA fizeram, no mês passado, uma admissão que iria surpreender a maioria dos americanos. "Dietas pobres em gordura", disse Alice Lichtenstein, "provavelmente não são uma boa idéia". Foi um reconhecimento público raro, admitindo a derrota do princípio básico por trás de 35 anos do aconselhamento nutricional oficial americano.

E ainda assim, os especialistas que
estão atualmente projetando o próximo conjunto de recomendações dietéticas permanecem atolados na mesma tendência anti-gordura e na ciência frágil que nos trouxeram a dieta de baixa gordura em primeiro lugar. Isso está fazendo com que ignorem um grande conjunto de evidências científicas rigorosas, que representam nossa maior esperança em combater as epidemias de obesidade, diabetes e doença cardíaca.

As Diretrizes Dietéticas para os Americanos - publicada conjuntamente pelo Departamento Americano de Agricultura (USDA) e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) a cada 5 anos - teve uma influência profunda nos alimentos que os americanos produzem e consomem. Desde 1980, elas têm nos estimulado a cortar a gordura, especialmente a gordura saturada encontrada principalmente em produtos animais como carne vermelha, manteiga e queijo. Ao invés disso, disseram aos americanos que 60% de suas calorias deveriam vir de comidas ricas em carboidratos como massas, pão, frutas e batatas. E, no geral, nós acatamos obedientemente.

Por volta da virada do século XXI, entretanto, estudos clínicos financiados pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH) mostravam que uma dieta low-fat nem melhorava nossa saúde, e nem diminuía nossas cinturas. Consequentemente, em 2000, o comitê das Diretrizes Dietéticas começou a se afastar lentamente da dieta low-fat e, por volta de 2010, seus membros já tinham removido quaisquer menções de limite ao total de gorduras permitido.

E, ainda assim, a maioria dos americanos tenta ativamente evitar a gordura, de acordo com uma pesquisa recente do Gallup. Eles não estão cientes da reviravolta crucial do USDA, porque a agência não tornou públicas essas mudanças. Talvez ela não queira ser tida como responsável pelas consequências de 25 anos de aconselhamento errado, especialmente uma vez que muitos especialistas agora acreditam que o aumento dos carboidratos que as autoridades recomendaram, contribuiu para as nossas epidemias de obesidade e diabetes.

Uma reversão tão humilhante deveria ter levado o comitê de experts que prepara as Diretrizes 2015, que terá sua penúltima reunião pública nos dias 6 e 7 de novembro/2014, a repensar fundamentalmente o dogma anti-gordura. Mas, ao invés disso, o comitê focou sua ira anti-gordura exclusivamente nas gorduras saturadas. As últimas diretrizes vêm continuamente baixando as quantidades permitidas de tais gorduras na dieta, para 7% das calorias "ou menos", que é o nível mais baixo já pregado pelo governo, e que raramente - ou talvez nunca - foi documentado em populações humanas saudáveis.

A ciência mais atual e rigorosa sobre gordura saturada está movendo-se na direção oposta à do comitê da USDA. Uma histórica meta-análise de toda a evidência disponível, conduzida esse ano por cientistas de Cambridge e Harvard, entre outros, e publicada no periódico Annals of Internal Medicine, concluiu que gorduras aturadas não podem, no fim das contas, ser a causa da doença cardíaca. Embora as gorduras saturadas aumentem moderadamente o "colesterol ruim" (LDL), isso aparentemente não leva a resultados adversos sobre a saúde tais como infartos e morte. Outra meta-análise, publicada no respeitado American Journal of Clinical Nutrition em 2010, chegou à mesma conclusão. O comitê do USDA ignorou estas descobertas.

Sem dúvida, aceitá-las seria outra reviravolta embaraçante para os experts em nutrição. O USDA, o NIH e a Associação de Cardiologia Americana gastaram bilhões tentando provar e promover a ideia de que gorduras saturadas causam doença cardíaca.

Ao invés de gorduras saturadas, estas agências aconselharam os americanos a consumir quantidades cada vez maiores de gorduras insaturadas, que são encontradas principalmente na soja e outros óleos vegetais. Ainda que uma dieta rica nestes óleos tenha levado, em testes clínicos, a efeitos de saúde preocupantes incluindo taxas mais altas de câncer. E o USDA, que desposa um compromisso de encontrar "padrões dietéticos" saudáveis baseados na história, está agora na posição paradoxal de dizer aos americanos para obter a maioria das suas gorduras a partir destes óleos vegetais que virtualmente não eram consumidos na dieta humana antes de 1900.

O caminho mais esperançoso está em uma direção diferente: uma pletora de pesquisas feitas na última década mostrou que dietas low-carb consistentemente superam qualquer outra estratégia dietética na melhora da saúde. Diabéticos, por exemplo, podem mais efetivamente estabilizar a glicemia em uma dieta low-carb; vítimas de doença cardíaca são capazes de elevar seu "colesterol bom" (HDL) enquanto reduzem o triglicérides. E ao menos duas dúzias de estudos dietéticos bem controlados, envolvendo milhares de pessoas, mostraram que limitar os carboidratos leva a uma maior perda de peso do que cortar a gordura.

A ordem do comitê do USDA é "revisar o conhecimento médico e científico da época". Mas, apesar de 9 dias cheios de reuniões esse ano, o comitê não conseguiu dar o valor devido a qualquer destes estudos - que, indiscutivelmente, constituem o mais promissor corpo de literatura científica sobre dieta e doença em 50 anos. Ao invés disso, o comitê está focado em novas razões para condenar a carne vermelha, tais como a sua produção ameaçar o ambiente. Entretanto, essa é uma questão científica separada que está fora da foco do USDA sobre saúde.

As taxas de obesidade nos EUA começaram a subir dramaticamente por volta de 1980, o momento exato em que as Diretrizes Dietéticas foram introduzidas pela primeira vez. Mais de 3 décadas depois, só se poderia esperar que mais do mesmo aconselhamento produzisse resultados de saúde similarmente ruins. E o custo, em termos humanos e de dinheiro, vai continuar a ser catastrófico.

Estas são razões fortes para o Congresso pedir ao USDA e ao HHS para reconstituir o comitê de diretrizes dietéticas, de maneira que seus membros representem a gama completa de opiniões especializadas. O comitê deveria, então, ser ordenado a reavaliar fundamentalmente as premissas básicas das diretrizes, baseado na melhor e mais atual ciência. Tais medidas dariam a milhões de americanos uma chance de lutar suas batalhas contra a obesidade, diabetes e doença cardíaca - e finalmente começar a reverter os efeitos nocivos das nossas diretrizes dietéticas errôneas.

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