terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O ranking das dietas

Todos os anos a revista americana US News and World Report faz um ranking das dietas. Não é um trabalho científico. Não é uma pesquisa. Não é um estudo. É apenas uma reportagem de uma revista leiga, que pergunta a um painel de "experts" suas opiniões sobre as várias dietas. Tais experts são pessoas proeminentes no mundo da nutrição dos EUA, e portanto alinham-se majoritariamente às diretrizes nutricionais vigentes. Ou seja, não se trata de uma metanálise, na qual estudo científicos originais são comparados de forma rigorosa e matemática (esses estudos foram feitos, e os resultados foram MUITO diferentes, mostrando que low carb é superior na perda de peso e em vários fatores de risco cardiovascular). Trata-se de uma peça de OPINIÃO. Pior ainda, um dos critérios utilizados para julgar se a dieta era boa ou não era seu grau de alinhamento com as diretrizes! Em outras palavras, uma dieta altamente eficaz e segura de acordo com os estudos científicos publicados, mas que seja oposta às diretrizes, será necessariamente colocada em último lugar.

Traçando uma analogia, seria como um concurso de miss no qual os critérios de julgamento incluíssem o fato de que loiras de olhos claros têm preferência. A mais bela morena não teria nenhuma chance, posto que o alinhamento com as diretrizes teria precedência sobre quaisquer outras qualidades!

Pois foi essa peça de opinião, não científica, que caiu nas agências de notícias e produziu manchetes pelo mundo afora - e vários de vocês me escreveram sobre isso.

Nosso amigo Hilton Souza, do blog PALEODIARIO, me fez um grande favor traduzindo um texto de Robb Wolf sobre o assunto, (que reproduzo parcialmente abaixo), além de maravilhosa refutação do Dr. Loren Cordain (leia mais abaixo).


US News & World Report classifica a paleodieta: 2014. Déjà vu de novo!

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Robb Wolf

Ano novo, noticías novas mesma baboseira

Meu Twitter e Facebook tem estado mais cheios que nunca. O tópico ? O ranking 2014 da US News das "Melhores Dietas", que coloca a velha, fossilizada e caduca paleodieta... em ÚLTIMO. A paleodieta não foi apenas a última, mas também figura depois de concorrentes "científicos" tais como a Slim Fast e a Medifast! (Essas são dietas baseadas em shakes, pessoal...)

Se você está tentando descobrir o que está acontecendo, esse é o relatório anual de bajulação que a US News & World Reports (USNWR) fornece para coisas tais como os planos de shakes mencionados anteriormente, bem como a "competidores" fortes como a dieta do "Biggest Loser". Para usar uma linha de Battlestar Galactica (N.T.: seriado de TV): Tudo isso já aconteceu antes, e vai acontecer novamente. Esse link é para a conversa anterior sobre esse ponto, na qual a USNWR afirmava que um grupo de experts classificou a dieta paleo em último, mas que quando colegas desses experts os questionaram sobre a classificação dada, pareceu que a USNWR poderia ter aplicado alguma "licença poética" às notas. Já se vai um longo tempo desde que o jornalismo era sobre acurácia e não hipérbole. Por favor leia o que escreve meu mentor, Prof. Loren Cordain, e os seus pensamentos sobre a classificação 2014. Cada vinheta de notícia, da CNN ao observatório de radiação de Chernobyl, proclamou: "A dieta paleo já era!".

Bem, não estamos mortos ainda. E pelo menos a USNWR consegue soletrar "Dieta Paleo" corretamente, o que ajuda com as tendências do Google (google trends) - chego lá num instante.

Para onde vamos agora ?


As refutações mencionadas são bastante técnicas e detalhadas, não vou revisar esse material, mas quero prestar atenção em algumas das afirmações jogadas na listagem da USNWR:

1 - A dieta paleo provê nutrição inadequada

Esse não é um errinho, é um erro crasso. Por favor, veja o artigo anterior do Prof. Cordain e o trabalho do Dr. Mat Lalonde sobre densidade de nutrientes. Não tenho certeza sobre o que dizer sobre isso a não ser que as pessoas que tem essa opinião não se mantém atualizados com a literatura OU são péssimos em matemática. Assista o vídeo e confira você mesmo:


2 - A dieta paleo é difícil

Algumas pessoas fazem mudanças de dieta e de estilo de vida facilmente, outras preferem fumar através de um tubo de traqueostomia e assustar criancinhas com suas vozes sintetizadas, ao invés de mudar de comportamento. Para mim (opinião, pura e simples) o que é difícil é me sentir consistentemente horrível e viver uma vida sub-ótima. Já fiquei muito doente e não gostei realmente da experiência, mas talvez outros sejam diferentes. Tudo isso posto de lado, se alguém como a USNWR está afirmando que a paleodieta é "muito difícil", pode ser bacana ter algo que justifique tal posição. Eu até discutiria que se o programa fosse realmente difícil ou não-efetivo para uma série objetivos (perda de peso, questões de saúde), então veríamos um interesse inicial e subsequente declínio. Você sabe, como aconteceu com a dieta "The Zone"

Talvez possamos usar o Google Trends para mudar essa informação claramente errônea ?

Zone diet - popularidade morrendo; Paleo Diet - popularidade aumentando de forma exponencial: se fosse tão difícil e não fosse eficaz, porque a popularidade só aumenta?


3 - Não há ciência suportando a Dieta Paleo

Essa acaba comigo... é demais pedir que as pessoas acessem o PubMed e pesquisem por "Paleo Diet" ? Acredito que eu deveria encarar isso não como incômodo, mas como estabilidade de emprego. Bem, as refutações são uma boa fonte de recursos para literatura revisada por pares sobre esse assunto, mas aqui está um trecho de um email que recebi do Prof. Cordain:

Já houve 8 estudos clínicos randomizados controlados da dieta paleo. Os assuntos abordados, incluindo riscos de doença cardiovascular, saciedade e perda de peso, indicam que paleo é superior à dietas convencionais para diabetes, dieta mediterrânea e mais rica em nutrientes que a pirâmide alimentar tradicional. As referências estão abaixo:

1. Frassetto LA, Schloetter M, Mietus-Synder M, Morris RC, Jr., Sebastian A: Melhorias metabólicas e fisiológicas ao consumir uma dieta paleolítica. Eur J Clin Nutr 2009.

2. Jönsson T, Granfeldt Y, Ahrén B, Branell UC, Pålsson G, Hansson A, Söderström M, Lindeberg S. Efeitos benéficos de uma dieta paleolítica em fatores de risco cardiovasculares na diabetes tipo 2: um estudo piloto cruzado e randomizado. Cardiovasc Diabetol. 2009;8:35

3. Jonsson T, Ahren B, Pacini G, Sundler F, Wierup N, Steen S, Sjoberg T, Ugander M, Frostegard J, Goransson Lindeberg S: Uma dieta paleolítica confere sensibilidade mais alta à insulina, proteína C-reativa mais baixa e menor pressão sanguínea que uma dieta baseada em cereais em porcos domésticos. Nutr Metab (Lond) 2006, 3:39. 

4. Jonsson T, Granfeldt Y, Erlanson-Albertsson C, Ahren B, Lindeberg S. Uma dieta paleolítica é mais saciante por caloria do que uma dieta tipo mediterrânea em indivíduos com doença cardíaca isquêmica. Nutr Metab (Lond). 2010 Nov 30;7(1):85

5. Lindeberg S, Jonsson T, Granfeldt Y, Borgstrand E, Soffman J, Sjostrom K, Ahren B: Uma dieta paleolítica melhora a tolerância à glicose mais que uma dieta tipo mediterrânea em indivíduos com doença cardíaca isquêmica. Diabetologia 2007, 50(9):1795-1807.

6. O’Dea K: Melhora pronunciada no metabolismo de carboidratos e lipídios em aborígines australianos após reversão para estilo de vida tradicional. Diabetes 1984, 33(6):596-603.

7. Osterdahl M, Kocturk T, Koochek A, Wandell PE: Efeitos de uma intervenção de curto prazo com dieta paleolítica em voluntários saudáveis. Eur J Clin Nutr 2008, 62(5):682-685.

8. Ryberg M, Sandberg S, Mellberg C, Stegle O, Lindahl B, Larsson C, Hauksson J, Olsson T. Uma dieta tipo paleolítica causa fortes efeitos específicos em tecidos em depósitos de gordura ectópicos de mulheres obesas pós-menopausa. J Intern Med. 2013 Jul;274(1):67-76

Então nós provemos material como esses aos detratores e ganhamos como resposa "Isso não é muita pesquisa, não podemos tirar conclusão ALGUMA disso". Hummm, ok. Então continuamos a fazer o que não está funcionando? Outra dissidência comum nessa história é que muito do que falamos na paleolândia é anedótico. Sim, a maioria das descobertas clínicas é observacional. A maioria de todas as descobertas científicas COMEÇA observacionalmente, ao fazer com que alguém diga algo do tipo "Hum... o que diabos está acontecendo aqui? Me pergunto se é isso o que está acontecendo". Observação leva à Hipótese que leva ao Teste que leva a Aceitar/Rejeitar/ou Refinar. O pessoal da Medicina Baseada em Evidências de alguma forma esquece desse processo... mas de uma maneira inteiramente seletiva e que serve a seus propósitos.  Por hora, temos o que já foi feito e mais algumas coisas na linha de produção:


Esse estudo vai tapar alguns dos buracos no estudo original do Prof. Lindenberg da dieta paleo em humanos. O Prof. Cordain tem um estudo extenso que examina a eficácia da dieta paleolítica para várias condições auto-imunes, para as quais os dados preliminares são muito excitantes.

4 - Mas é uma estudo retrospectivo! Cientistas maus! Sem estudos prospectivos randomizados!

Bem, para os  que querem dados, esse é o processo para consegui-los. Observacionalmente, PARECEMOS ter benefícios notáveis para pessoas com auto-imunidade (e várias outros problemas). Dado que o nosso sucesso atual com terapias convencionais para auto-imunidade varia entre "não funciona" e "é pior que a doença", parece interessante investigar isso mais a fundo, certo? Talvez a dieta paleo funcione melhor para auto-imunidade e outras condições  que uma dieta convencional, talvez não - mas novamente, esse é o processo que vai ajudar a responder a questão. Eu acho que muito do crescimento que vemos com paleodieta nasce do resultado que as pessoas tem.

Muitas ironias existem no caso, entre o surgimento forte da saúde ancestral na mídia e a reação violenta típica da mídia. A maioria dos quais eu consigo ligar à ignorância, inércia e, bem, mais ignorância - mas uma pequena ironia que certamente faz cócegas no meu "osso da risada" calcificado é que muitas pessoas que participam da cena paleo recentemente participaram em um chat do Twitter promovido pela... US News & World Reports Health. A conversa acabou sendo uma dos assuntos fortes no Twitter.



Então, tudo isso incomoda ? Sim, mais ou menos. Vai afetar o crescimento e o sucesso do modelo de saúde ancestral ? Não, nenhum um pouquinho. Nós conseguimos compartilhar informação muito rapidamente, as pessoas podem experimentar e compartilhar experiências e de uma maneira muito baseada em mercado, a coisa que funciona melhor VAI se tornar o paradigma vigente.

Para uma resposta mais aprofundada e científica à mesma reportagem em 2011 (sim, o assunto é velho), segue a reposta original de do Dr. Cordain à época:
-> Obrigado mais uma vez ao Hilton Sousa por traduzir o texto:

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Loren Cordain(i), Ph.D., Maelán Fontes Villalba(ii) e Pedro Carrera Bastos(ii)

i. Departamento de Saúde e Ciência do Exercício, Universidade Estadual do Colorado, Fort Collins, EUA
ii. Centro de Pesquisa de Cuidados de Saúde Primária, Faculdade de Medicina, Universidade Lund, Malmö, Suécia

O autor desse artigo (da revista US News and World Report) sugere que a dieta pelo só foi cientificamente testada em "um pequeno estudo". Essa citação é incorreta, dado que cinco estudos (1-7), sendo quatro desde 2007, testaram experimentalmente versões contemporâneas de dietas humanas ancestrais e constataram ser estas superiores às dietas mediterrânea, dietas convencionais para diabéticos e a dieta ocidental típica no que diz respeito à perda de peso, fatores de risco para doenças cardiovasculares e fatores de risco para diabetes tipo 2.

O primeiro estudo a testar experimentalmente dietas desprovidas de grãos, laticínios e comidas processadas, foi feit pelo Dr. Kerin O'Dea na Universidade de Melbourne e publicado no periódico "Diabetes" em 1986 (6). Nesse estudo, o Dr. O'Dea reuniu 10 aborígines australianos de meia-idade que haviam nascido no "Outback" (N.T.: o "sertão" australiano). Eles haviam vivido suas juventudes como caçadores-coletores até não terem escolha a não ser finalmente se estabelecerem em uma comunidade rural com acesso a produtos ocidentais. Previsivelmente, todos os 10 sujeitos eventualmente tornaram-se obesos e desenvolveram diabetes tipo 2 ao adotarem o estilo de vida ocidental sedentário na comunidade de Mowwanjum, na região de Kimberly, norte da Austrália Ocidental. Entretanto, inerente em suas criações estava o conhecimento de como viver e sobreviver nessa terra aparentemente desolada, sem nenhuma das armadilhas do mundo moderno.

O Dr. O'Dea pediu que esses 10 sujeitos de meia-idade revertessem ao seu modo de  vida anteriore como caçadores-coletores, por um período de 7 semanas. Todos concordaram e viajaram de volta à terra isolada na qual nasceram. Seu sustento diário veio apenas de comidas nativas que puderssem ser coletadas ou caçadas. Ao invés de pão branco, milho, acúcar, leite em pó e comidas enlatadas, eles começaram a comer as comidas tradicionais de seu passado ancestral: cangurus, pássaros, crocodilos, tartarugas, mariscos, inhames, figos, yabbies (lagostas de água doce), peixes e mel silvestre. Na conclusão do experimetno, os resultados foram espetaculares, mas não inesperados dado o que se sabia sobre dieta paleo, mesmo na época. A média de perda de peso no grupo foi de 7.5kg; o colesterol sanguíneo diminuiu 12% e os triglicérides foram reduzidos em impressionantes 72%. Insulina e metabolismo de glicose voltaram ao normal, e suas diabetes efetivamente desapareceram.

O primeiro estudo recente a testar experimentalmente dietas paleolíticas foi publicado em 2007 (5). O Dr. Lindberg e associados colocaram 29 pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardíaca em dieta paleo ou dieta mediterrânea baseada em grãos integrais, laticínios desnatados, verduras, frutas peixes, óleos e margarinas. Note que a dieta paleo exclui grãos, laticínios e margarinas enquanto encoraja um maior consumo de carne e peixe. Após 12 semanas em cada uma das dietas a tolerância à glicose sanguínea (um fator de risco para doença cardíaca) melhorou em ambos os grupos, mas ficou melhor nos que seguiram paleo. A repetição do mesmo experimento em 2010 mostrou que a dieta paleo era mais saciante, comparando-se caloria a caloria, que a dieta mediterrânea, porque causava maiores alterações na leptina, -um hormônio que regula o apetite e o peso corporal.

No segundo estudo moderno (2008) sobre dieta paleo, o Dr. Osterdahl e co-autores (7) colocaram 16 sujeitos saudáveis numa dieta paleo. Após apenas 3 semanas os sujeitos perderam peso, reduziram o diâmetro da cintura e experienciaram reduções significativas na pressão sanguínea e no inibidor do ativador do plasminogênio (uma substância do sangue que promove a coagulação e acelera o entupimento arterial). Como não foi usado grupo de controle nesse estudo, alguns cientistas argumentam que as mudanças benéficas podem não ter sido necessariamente causadas pela dieta paleo. Entretanto, expermimentos mais recentes e melhor controlados mostraram resultados similares.

Em 2009, o Dr. Frasetto e co-autores (1) pôs 9 sujeitos sedentários em uma dieta paleo por apenas 10 dias. Nesse experimento, a dieta paleo foi controlada para oferecer exatamente a mesma quantidade de calorias que a dieta típica dos sujeitos. Sempre que as pessoas comem dietas reduzidas em calorias, não importa quais comidas estejam envolvidas, elas exibem efeitos benéficos sobre a saúde. Então a beleza desse experimento foi que quais mudanças terapêuticas na saúde dos sujeitos não podia ser atribuída à redução d ecalorias, e sim às mudanças nos tipos de comidas ingeridos. Enquanto na dieta paleo, 8 ou todos os 9 participantes tiveram melhorias na pressão sanguínea, função arterial, insulina, colesterol total, LDL, colesterol e triglicérides. O que é impressionante nesse experimento é o quão rápido tantos marcadores de saúde melhoraram, e que isso ocorreu em cada um dos pacientes.

Em um estudo recente (2009) ainda mais convincente, o Dr. Lindeberg e colegas (2) compararam os efeitos da dieta paleo com os da dieta geralmente recomendada para pacientes com diabetes tipo 2. O dieta para diabéticos é voltada à redução da gordura total ao aumentar o volume de pães integrais e cereais, laticínios desnatados, frutas e verduras enquanto restringe comidas de origem animal. Em contraste, a dieta paleo era mais pobre em cereais, laticínios, batatas, feijões e produtos de padaria, mas mais rica em frutas, vegetais carne e ovos comparada à dieta para diabetes. A força desse experimento estava em seu desenho cruzado, no qual todos os 13 pacientes comeram uma dieta por 3 meses e depois mudaram para a outra dieta por 3 meses. Comparada à dieta para diabetes, a dieta paleo resultou em maior perda de peso, diminuição do diâmetro da cintura, pressão sanguínea, HDL, triglicérides, glicemia e hemoglobina A1c (um marcador para controle de glicose sanguínea a longo prazo). Esse experimento representa o mais poderoso exemplo, até hoje, da efetividade da deita paleo em tratar pessoas com problemas de saúde sérios.

Então, agora que sumarizei a evidência experimental suportando os benefícios de saúde e perda de peso da dieta paleo, gostaria de respoder diretamente aos erros no artigo do US News and World Report

1. "Você vai perder peso ? Não há como afirmar.” 


Obviamente, o autor desse artigo não leu o estudo feito por O'Dea (6)  e nem o estudo cruzado de três meses feito por Jonsson e colegas (9), que demonstraram o potencial superior para perda de peso de dietas paleo ricas em proteína e com baixa carga glicêmica. Resultados similares de muita proteína e baixa carga glicêmica foram recentemente reportados nos maiores estudos randomizados controlados já feitos tanto em adultos quanto em crianças.

Um estudo randomizado feito em 2010, envolvendo 773 sujeitos e publicado no Journal of Medicine da Nova Inglaterra (8) confirmou que dietas com alta proteína e baixo índice glicêmico eram a estratégia mais efetiva para manter o peso baixo. Os mesmos efeitos benéficos de muita proteína e baixo índice glicêmico foram dramaticamente demonstrados no maior experimento nutricional já conduzido, o Estudo DiOGenes  (9), em um conjunto de 827 crianças. Crianças seguindo dietas com pouca proteína e alto índice glicêmico tornaram-se significativamente mais gordas nos 6 meses do experimento, enquanto as crianças obesas e com sobrepeso que seguiram um plano nutricional rico em proteínas e pobre em glicemia perderam peso significativamente.

2. “Ela tem benefícios cardiovasculares ? Desconhecidos.” 


Esse comentário mostra o quão desinformado o autor realmente está. Claramente, essa pessoa não leu os artigos (1-6), que inequivocamente mostram os efeitos terapêuticos de dietas paleo sobre fatores de risco cardiovasculares. Mais ainda, como já revisamos em outros lugares (10-12), dietas com alta proteína comprovadamente aumentam a dislipidemia e a sensibilidade à insulina, e são estratégias potencialmente efetivas para melhorar a síndrome metabólica. Ainda mais, evidências acumuladas sugerem que uma dieta pobre em carboidratos (que é obviamente pobre em açúcar e cereais) pode ser superior a uma dieta ocidental pobre em gorduras e rica em carboidratos, especialmente em pacientes com síndrome metabólica - porque ela pod elevar a melhorias na resistência à insulina, lipemia pós-prandial, triglicérides e HDL-C séricos em jejum, razão entre colesterol total e HDL-C, distribuição de partículas de LDL, proporção apoB/apoA-1, função vascular pós-prandial, e vários biomarcadores inflamatórios (13, 14).

Finalmente, a evidência para recomendar grãos integrais para reduzir risco de doença cardiovascular é baseada em estudos epidemiológicos ou experimentos de intervenção com parâmetros de medição (endpoints) flexíveis, que estudos controlados randomizados com parâmetros inflexíveis não parecem suportar. Por exemplo, o estudo DART encontrou uma tendência à mortalidade por doença cardiovascular no grupo aconselhado a comer mais fibra, a maioria da qual é derivada de cereais (15). E de relevância, esse efeito não-significativo tornou-se estatisticamente significativo, depois de ajustes para possíveis fatores de confusão, tais como medicação e estado de saúde (16).

“E toda aquela gordura preocuparia a maioria dos experts.” 


Essa afirmação representa uma "tática de medo", não substanciada por dados. Como eu, e quase a maioria da comunidade nutricional, já apontamos anteriormente, não é a quantidade de gordura que aumenta o risco de doença cardiovascular ou câncer, ou qualquer outro problema de saúde, e sim a qualidade. Dietas paleo contemporâneas contêm altas concentrações de saudáveis ácidos graxos ômega-3 e ácidos graxos monoinsaturados que na verdade diminuem o risco de doença crônica (10-12, 17-22). 


3. “Ela pode evitar ou controlar a diabetes ? Desconhecido.” 


Aqui está outro exemplo de jornalismo irresponsável e tendencioso, que não deixa os fatos falarem por si. Obviamente, o autor não leu o estudo de O'Dea (6) ou Jonsson et al. (2), que mostraram melhoras dramáticas na diabetes tipo 2 ao se consumir dietas paleo. 

“Mas a maioria dos experts em diabetes recomenda uma dieta que inclua grãos integrais e laticínios.”


Verdade seja dita, em um estudo randomizado controlado, 24 garotos de 8 anos de idade foram orientados a ingerir 53g de proteína sob forma de leite ou carne diariamente (23). Após apenas 7 dias na dieta rica em leite, os garotos se tornaram resistentes à insulina. Essa é uma condição que precede o desenvolvimento da diabetes tipo 2. Em contraste, no grupo da carne, não houve aumento na insulina ou na resistência à insulina. Além disso, no estudo de Jonsson et al. (2), dietas livres de leite e grãos mostraram ter resultados superiores na melhora de sintomas de doenças em diabéticos tipo 2. 

Finalmente, em um estudo intervencional incluindo 2263 mulheres pós-menopausa, as participantes foram aconselhadas a seguir uma dieta pobre em gorduras (< 20% da energia), rica em fibra de grãos integrais (> 6 porções ao dia), rica em frutas (> 5 por dia) e rica em vegetais (> 5 porções por dia) ou em um grupo de comparação sem aconselhamento. Após 6 anos de acompanhamento, as mulheres com diabetes que tinham diabetes no início do estudo e foram alocadas com a dieta pobre em gorduras e rica em fibra de grãos integrais, pioraram seu controle glicêmico (24). Não obstante, a maioria das evidências suporta os efeitos benéficos da fibra solúvel, encontrada principalemente em verduras e frutas, enquanto a evidência suportando os efeitos benéficos da fibra insolúvel, encontrada em grãos integrais, parece menos evidente (25-28). 

4. “Há riscos de saúde ? Possivelmente. Ao descartar laticínios e grãos, você corre o risco de perder um monte de nutrientes.” 


Mais uma vez, essa afirmação mostra a ignorância do autor e ruidoso desprezo pelos fatos. Porque as dietas ancestrais contemporâneas excluem comidas processadas, laticínios e grãos, elas são na prática mais densas em nutrientes (vitaminas, minerais e fitoquímicos) do que as dietas recomendadas pelo governo, como a pirâmide alimentar. Eu já apontei esses fatos em um artigo publicado no Jornal Americano de Nutrição Clínica em 2005 (11), jutno com outro artigo no qual analisei o conteúdo nutricional de dietas paleo modernas (19). Além disso, a análise de micronutrientes derivada dos dois estudos feitos por Lindebert et al. (5) e Jonsson et al. (2) mostra que, excetuando-se o cálcio, uma dieta tipo paleolítica não apenas atende a ingesta diária recomendada de micronutrientes, mas em alguns casos ultrapassa a quantidade provida pelas dietas com grãos e laticínios. No que diz respeito à vitamina D, como já mostramos em um artigo recente (12), exceto pelos peixes oceânicos gordos, há pouca vitamina D em qualquer produto alimentício natural (ou seja, não-fortificado artificialmente) comumente consumido - e através da história, quase todos os hominídeos (exceto por aqueles vivendo no extremo norte, tais como os inuit) dependiam do sol para satisfazer suas necessidades de vitamina D.
Ainda mais, a maioria dos nutricionistas está consciente de que comidas processadas feitas com grãos refinados, açúcares e óleos vegetais tem baixas concentrações de vitaminas e minerais, mas nem todos perceberam que laticínios e grãos integrais contém concentrações significativamente mais baixas das 13 vitaminas e minerais que mais fazem falta na dieta americana padrão, quando comparados com carnes magras, peixes, frutas e vegetais frescos (11, 19). Curiosamente, apesar da ingesta de micronutrientes ser importante, a absorção intestinal é ainda mais impactante. Sabe-se que alguns antinutrientes contidos em cereais, tais como o fitato, juntam-se a minerais divalentes (por exemplo, zinco, ferro, cálcio e magnésio) comprometendo a sua absorção (29)

“Também, se você não for cuidadoso e escolher carnes magras, vai rapidamente elevar seu risco de problemas cardíacos . 


Na verdade, as mais extensas e recentes meta-análises e revisões não mostram que o consumo de carne fresca, gorda ou magra, seja um fator de risco para doença cardiovascular - somente o de carnes processadas tais como salame, mortadela, bacon e salsichas (30). 


References

1. Frassetto LA, Schloetter M, Mietus-Synder M, Morris RC, Jr., Sebastian A: Melhorias metabólicas e fisiológicas ao consumir uma dieta paleolítica de caçadores-coletores. Eur J Clin Nutr 2009.

2. Jönsson T, Granfeldt Y, Ahrén B, Branell UC, Pålsson G, Hansson A, Söderström M, Lindeberg S. Efeitos benéficos de uma dieta paleolítica em fatores de riscos cardiovasculares na diabetes tipo 2: um estudo piloto cruzado randomizado. Cardiovasc Diabetol. 2009;8:35

3. Jonsson T, Granfeldt Y, Erlanson-Albertsson C, Ahren B, Lindeberg S. Uma dieta paleolítica é mais saciante por caloria do que uma dieta tipo mediterrânea em indivíduos com doença cardíaca isquêmica. Nutr Metab (Lond). 2010 Nov 30;7(1):85

4. Jonsson T, Ahren B, Pacini G, Sundler F, Wierup N, Steen S, Sjoberg T, Ugander M, Frostegard J, Goransson Lindeberg S: Uma dieta paleolítica confere maior sensibilidade à insulina, proteína C-reativa e pressão sanguínea mais baixas do que uma dieta baseada em cereais, em porcos domésticos. Nutr Metab (Lond) 2006, 3:39. 

5. Lindeberg S, Jonsson T, Granfeldt Y, Borgstrand E, Soffman J, Sjostrom K, Ahren B: Uma dieta paleolítica melhora a tolerência à glicose mais que uma dieta tipo mediterrânea em indivíduos com doença cardíaca isquêmica. Diabetologia 2007, 50(9):1795-1807.

6. O'Dea K: Melhora pronunciada no metabolismo de carboidratos e lipídios em aborígines australianos após reversão temporária ao estilo de vida tradicional. Diabetes 1984, 33(6):596-603. 

7. Osterdahl M, Kocturk T, Koochek A, Wandell PE: Efeitos de uma intervenção de curto prazo com dieta paleolítica em pacientes voluntários saudáveis. Eur J Clin Nutr 2008, 62(5):682-685.

8. Larsen TM, Dalskov SM, van Baak M, Jebb SA, Papadaki A, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunešová M, Pihlsgård M, Stender S, Holst C, Saris WH, Astrup A; Projeto Dieta, Obesidade, and Genes (Diogenes). Dietas com conteúdos altos e baixos de proteínas e índice glicêmico para manutenção da perda de peso. N Engl J Med. 2010 Nov 25;363(22):2102-13

9. Papadaki A, Linardakis M, Larsen TM, van Baak MA, Lindroos AK, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunesová M, Holst C, Astrup A, Saris WH, Kafatos A; DiOGenes Study Group. O efeito da proteína e índice glicêmico na composição corporal de crianças: o estudo randomizado DiOGenes. Pediatrics. 2010 Nov;126(5):e1143-52

10. Cordain L, Eaton SB, Miller JB, Mann N, Hill K. A natureza paradoxal das dietas de caçadores-coletores: baseadas em carnes, e ainda assim não aterogênicas. Eur J Clin Nutr. 2002 Mar;56 Suppl 1:S42-52

11. Cordain L, Eaton SB, Sebastian A, Mann N, Lindeberg S, Watkins BA, O'Keefe JH, Brand-Miller J. Origens e evolução da dieta ocidental: implicações de saúde para o século XXI. Am J Clin Nutr. 2005 Feb;81(2):341-54.

12. Carrera-Bastos P, Fontes Villalba M, O’Keefe JH, Lindeberg S, Cordain L. A dieta ocidental e os estilos de vida e doenças da civilização. Res Rep Clin Cardiol 2011; 2: 215-235.

13. Westman EC, Feinman RD, Mavropoulos JC, et al. Nutrição de baixo-carboidrato e metabolismo. Am J Clin Nutr. 2007 Aug;86(2):276-84.
14. Volek JS, Fernandez ML, Feinman RD, et al. Restrição de carboidratos dietários induz um estado metabólico único, afetando dislipidemia aterogênica, particionamento de ácidos graxos, e síndrome metabólica. Prog Lipid Res. 2008; 47, 307–318.

15. Peixe e o coração. Lancet. 1989 Dec 16;2(8677):1450-2

16. Ness AR, Hughes J, Elwood PC, Whitley E, Smith GD, Burr ML. O efeito de longo prazo do aconselhamento nutricional  em homens com doença coronariana: acompanhamento do experimento "Dieta e Reinfarto" (DART). Eur J Clin Nutr. 2002 Jun;56(6):512-8

17. Cordain L. Consumo de gordura saturada em dietas humanas ancestrais: implicações para a ingesta contemporânea. In: Phytochemicals, Nutrient-Gene Interactions, Meskin MS, Bidlack WR, Randolph RK (Eds.), CRC Press (Taylor & Francis Group), 2006, pp. 115-126.

18. Cordain L, Miller JB, Eaton SB, Mann N, Holt SH, Speth JD. Proporções de subsistência vegetal-animal e estimativas de energia de macronutrientes em dietas de caçadores-coletores no mundo. Am J Clin Nutr. 2000 Mar;71(3):682-92.

19. Cordain L. As características nutricionais de uma dieta contemporânea baseada em grupos de comida paleolíticos. J Am Nutraceut Assoc 2002; 5:15-24.

20. Kuipers RS, Luxwolda MF, Dijck-Brouwer DA, Eaton SB, Crawford MA, Cordain L, Muskiet FA. Estimativa de ingesta de macronutrientes e ácidos graxos de ma dieta paleolítica do leste africano. Br J Nutr. 2010 Dec;104(11):1666-87.

21. Ramsden CE, Faurot KR, Carrera-Bastos P, Cordain L, De Lorgeril M, Sperling LS. Quantidade de gordura dietária e prevenção de doença coronariana: uma teoria unificada baseada em perspectivas evolucionárias, históricas, globais e modernas. Curr Treat Options Cardiovasc Med. 2009 Aug;11(4):289-301.

22. Cordain L, Watkins BA, Florant GL, Kelher M, Rogers L, Li Y. Análise de ácidos graxos de tecidos de ruminantes selvagens: implicações evolucionárias para reduzir doenças crônicas ligadas à dieta. Eur J Clin Nutr. 2002 Mar;56(3):181-91

23. Hoppe C, Mølgaard C, Vaag A, Barkholt V, Michaelsen KF. Alta ingesta de leite, mas não de carne, aumenta a S-insulina e a resistência à insulina em meninos de 8 anos. Eur J Clin Nutr. 2005 Mar;59(3):393-8.

24. Shikany JM, Margolis KL, Pettinger M, Jackson RD, Limacher MC, Liu S, et al. Efeitos de uma intervenção dietária de baixa gordura na glicose, insulina e resistência à insulina no estudo de modificação dietária da Iniciativa de Saúde da Mulher. Am J Clin Nutr. 2011 May 11 [Epub ahead of print]

25. Mann JI, De Leeuw I, Hermansen K, Karamanos B, Karlström B, Katsilambros N, et al. Abordagens nutricionais baseadas em evidências para o tratamento e prevenção da diabetes mellitus. Nutr Metab Cardiovasc Dis. 2004 Dec.;14(6):373–394. 

26. Robertson MD, Bickerton AS, Dennis AL, Vidal H, Frayn KN. Efeitos de sensibilização à insulina do amido resistente dietário, e efeitos no no metabolismo músculo-esqueletal e do tecido adiposo. Am. J. Clin. Nutr. 2005 Sep.;82(3):559–567. 

27. Erkkilä AT, Lichtenstein AH. Fibra e risco de doença cardiovascular: quão forte é a evidência ? J Cardiovasc Nurs. 2006;21(1):3–8. 

28. Chandalia M, Garg A, Lutjohann D, Bergmann von K, Grundy SM, Brinkley LJ. Efeitos benéficos da alta ingesta de fibras em pacientes com diabetes mellitus tipo 2. N. Engl. J. Med. 2000 May 11;342(19):1392–1398.

29. Cordain L. Grãos cerais: a espada de dois gumes da humanidade. World Rev Nutr Diet. 1999;84:19-73.

30. Micha R, Wallace SK, Mozaffarian D. Consumo de carne vermelha e processada e o risco de inciddência de doença coronariana, infarto e diabetes mellitus: uma revisão sistemática e meta-análise. Circulation. 2010 Jun 1;121(21):2271-83

31. Micha R, Mozaffarian D. Gordura saturada e fatores riscos cardiometabólicos, doença coronariana, infarto e diabetes mellitus: um novo olhar sobre as evidências. Lipids. 2010 Oct;45(10):893-905. Epub 2010 Mar 31.

32. Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Ácidos graxos saturados e risco de doença coronariana: modulação pela substituição de nutrientes. Curr Atheroscler Rep. 2010 Nov;12(6):384-90.

33. Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Gordura saturada, carboidrato e doença cardiovascular. Am J Clin Nutr. 2010 Mar;91(3):502-9

34. Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Meta-análise de grupo de estudos prospectivos avaliando a associação de gordura saturada com doença cardiovascular. Am J Clin Nutr. 2010 Mar;91(3):535-4646

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Entrevista - podcast "Mojo Já"

Entrevista que serve de boa introdução aos assuntos desse blog.


O QUE VOCÊ VAI OUVIR:

- As diretrizes nutricionais não são baseadas em evidência;

- A obesidade é causada principalmente pela resposta hormonal devido à ingestão de calorias de baixa qualidade e não só pelo excesso calórico;

- Não se cresce por que se come, come-se por que se está crescendo;

- Por que as calorias não são todas iguais;

- A insulina, suas funções e implicações;

- Por que comer um pão não é tão diferente de comer açúcar do açucareiro;

- Cuidado com os grãos integrais (dica: são muito menos saudáveis do que você pensa);

- A origem do termo “dieta paleolítica”;

- Como assim? Mas os homens das cavernas não viviam apenas 30 anos?;

- Nem tudo que é bom pra espécie, é bom para o indivíduo;

- O conceito de “comida de verdade”;

- A gordura e o colesterol, dica: não é o que você aprendeu;

- Os vilões “integrais”, “desnatados” e “baixa gordura”;

- A culpa não é sua, é das informações que você recebeu;

- O que “pode” e “não pode”;

- O glúten

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sobre galgos e bassets

A pergunta chega todos os dias: "não importa o que eu faça, não importa o quanto eu restrinja os carboidratos ou mesmo as calorias, meu peso está estacionado em um platô há 3 meses".

Pois é. Isso tem um nome. É o "set point", sobre o qual já escrevi em outra postagem. É o ponto de equilíbrio escolhido pelo nosso corpo. É curioso como as pessoas aceitam naturalmente a existência dos inúmeros outros "set points" da nossa fisiologia, mas têm dificuldade de aceitar que possa haver um set point para quantidade de gordura corporal. Alguns exemplos?


  • Osmolaridade. Refere-se à concentração do sangue. O sangue nunca fica muito concentrado nem muito diluído. Há um controle rígido da osmolaridade do sangue. Quer fazer um teste? Beba uma 1 litro d'água. Seu sangue ficará aguado, diluído? Nada disso! Em pouco tempo você começará a urinar, até que a concentração do sangue fique igual a antes; fique um tempo sem beber nada, e virá uma sede irresistível - o sensor que detecta estas mínimas flutuações da concentração do plasma é um osmostato, localizado no hipotálamo. É ele que determina a excreção de água pelos rins e a sensação de sede, automaticamente e com alta precisão.
  • Temperatura. Nossa temperatura é extremamente regulada, o que é incrível dado o grau de variação das temperaturas externas a que somos submetidos, bem como à variação do calor gerado internamente pela atividade física e metabolismo. Não importa se é verão e está fazendo 40 graus, ou se é inverno e está fazendo 5 graus, sua temperatura oscila apenas DÉCIMOS de grau. Como é possível? Pois no hipotálamo (olha ele aí de novo) há um termostato. Se sua temperatura cai alguns décimos, você treme (para gerar calor) e sente frio, o que o leva a comportamentos que naturalmente aumentam sua temperatura (cobrir-se, ir para o sol, etc). Se a temperatura interna sobe um pouco, você produz suor para dissipar o calor e tem a sensação de calor, que o leva a comportamentos que diminuem a temperatura (vontade de ir para a sombra ou para dentro d'água). Quando ocorre uma febre, o ajuste do termostato sobe, digamos, 2 graus. E então o corpo passa a trabalhar em direção a esta nova temperatura: haverá tremores (geração de calor) e sensação de frio, que fará com que você vista casacos ou cubra-se, até que a temperatura chegue lá. Se a temperatura for reduzida artificialmente (entrando em uma banheira de água gelada, por exemplo), a temperatura baixará um pouco, e por pouco tempo, pois o corpo buscará novamente o set point. Se, contudo, resolvermos a causa da febre, o set point baixará, e o corpo voltará sem nenhum esforço à sua temperatura normal.
Pois bem, no mesmo hipotálamo há um fino controle do status energético do corpo. Este "obesostato" (na falta de nome melhor, eu inventei esse) recebe informações de todo o corpo, na forma de impulsos nervosos oriundos tanto da periferia como do cérebro, além de diversos hormônios, os mais conhecidos (mas não os únicos!) sendo a insulina e a leptina. Quando o obesostato detecta uma queda nos níveis de gordura corporal ABAIXO do que ele considera ideal, dispara, como nos outros casos descritos acima, uma sensação e determinados comportamentos e mudanças fisiológicas. A sensação é a fome, e os comportamentos incluem o cansaço, a inatividade e uma diminuição do gasto metabólico basal. Se baixarmos artificialmente o peso através de déficit calórico severo, haverá uma queda na quantidade de gordura corporal ABAIXO do que o obesostato considera ideal. Ato contínuo, a fome, o cansaço e mudanças mais sutis no gasto metabólico basal e na eficiência energética entram em ação, trazendo a pessoa novamente ao ponto que o obesostato considera adequado. Não importa se é acima do que VOCÊ considera ideal. E não importa que seja dezenas de quilos acima do que seria o correto para sua altura (de acordo com as tabelas). Assim como você não tem controle voluntário sobre sua temperatura, ou a concentração de glicose, potássio ou qualquer outra coisa, sua simples vontade não controla o set point do peso. Se o obesostato considerar que 100 Kg é seu peso ideal, é ali que o peso vai ficar.

Há uma faixa de oscilação possível do set point de peso. Reduzir os carboidratos é, em geral, capaz de baixar o set point. Quando isso acontece, o peso se reduz sem esforço, da mesma forma que a febre se dissipa numa poça de suor. Mas, da mesma forma que a temperatura não cai indefinidamente quando você toma um anti-térmico até você ficar gelado - o set point apenas muda de um valor mais alto para outro valor mais baixo, o peso não cai indefinidamente - o obesostato apenas encontra outro set-point - e vai defender este set point com unhas e dentes contra perdas adicionais de peso. E da mesma forma que tomar mais comprimidos de antitérmico não abaixará mais a temperatura, cortar ainda mais os carboidratos que já estão baixos não o fará emagrecer mais, até minguar e desaparecer. O corpo simplesmente não funciona assim.

Há várias estratégias para tentar reduzir o set point, além da restrição de carboidratos. Exercício físico de alta intensidade (veja aqui e aqui) pode ajudar. Reduzir o stress pode ajudar. Dormir bem pode ajudar. Eliminar fontes de inflamação pode ajudar. Como já vimos, a flora intestinal está intimamente ligada a esse processo - mas a forma de alterá-la positivamente não está completamente definida (embora açúcar e farináceos com certeza a alterem negativamente).

Mas há um aspecto que às vezes preferimos ignorar, devido à sensação de impotência que provoca: a genética. Mais uma vez, quando pensamos fora do exemplo humano, aceitamos a genética de forma muito natural.

Vejamos, à guisa de exemplo, duas raças de cães: galgos e bassets.

O galgo é uma raça que foi criada para correr. São naturalmente magros, com pernas longas - corredores natos, enfim. Eles não são magros porque correm muito. Eles correm muito porque são magros - são máquinas de correr, literalmente nasceram para isso.



O basset, ao contrário do galgo, foi geneticamente selecionado para ter pernas curtas, orelhas longas e cara simpática. Seu set point de gordura corporal é muito maior do que o de um galgo:
Um basset saudável e campeão
Obviamente, esta característica pode ser exagerada pelos hábitos alimentares:
Este basset provavelmente come a comida do dono!

O set point de um basset pode ser mais baixo, quando comparado ao de outros bassets:




Já o galgo não engorda por mais que coma - eu simplesmente não consegui achar uma imagem de um galgo gordo. O basset tem uma faixa de variação de set point geneticamente determinada. Com certeza este basset da foto acima está bem mais saudável do que o anterior. Mas um basset nunca será um galgo. Não importa quanto exercício um basset faça, quantos carboidratos ele consuma, um basset sempre parecerá mais gordinho e mais lento do que um galgo.

Em humanos, há uma concordância de aproximadamente 90% entre gêmeos idênticos no que diz respeito à gordura corporal. Ou seja, quase 90% da quantidade de gordura que você têm no corpo é determinada geneticamente (Anon, 2001. A twin study of weight loss and metabolic efficiency. , Published online: 22 March 2001; | doi:10.1038/sj.ijo.0801559, 25(4). Available at: http://www.nature.com/ijo/journal/v25/n4/full/0801559a.html)
Mais do que isso, a eficiência energética (o quanto a perda de peso prevista durante uma restrição calórica concorda com a perda observada - algumas pessoas perdem mais peso do que se previa, outras perdem menos) também é geneticamente (77%) determinada:


0801559f1.gif
Cada par de números identifica um par de gêmeos idênticos - os que estão abaixo da linha diagonal perdem peso com mais dificuldade, os que estão acima, perdem peso facilmente. Observe que os pares estão sempre relativamente próximos, indicando que a genética determina fortemente a facilidade ou dificuldade em emagrecer.

O contrário também foi demonstrado: a genética influencia a resistência ao ganho de peso em pessoas que recebem 1000 calorias a mais todos os dias (uns ganham peso, outros não)Levine, J.A., Eberhardt, N.L. & Jensen, M.D., 1999. Role of Nonexercise Activity Thermogenesis in Resistance to Fat Gain in Humans. Science, 283(5399), pp.212–214. Available at:http://www.sciencemag.org/content/283/5399/212

No mundo do fisiculturismo, há muito tempo se sabe que o mesmo fenômeno de diferentes tipos corporais, geneticamente determinados, ocorre conosco. Grosseiramente, as pessoas podem ser divididas em ectomorfos, mesomorfos e endomorfos.


  • Ectomorfos: magros, membros longos e esguios. São as pessoas que querem ganhar peso mas, não importa o que façam, não conseguem. Têm muita dificuldade de ganhar músculos também, mesmo com exercícios e suplementação. São os "galgos" humanos;
  • Mesomorfos: são tipos atléticos, "sarados", que ganham massa muscular com muita facilidade e são naturalmente mais fortes. Ganham gordura com mais facilidade do que os ectomorfos, mas perdem com facilidade também;
  • Endomorfos: membros curtos, musculatura mais forte porém menos definida, ganham gordura com muita facilidade e têm dificuldade para emagrecer. Têm a musculatura menos definida. São às vezes chamados de "atarracados". São os bassets.






As modelos que aparecem nas capas de revistas são ectomorfas e, frequentemente, submetidas a Photoshop. Esse é o modelo de beleza socialmente criado para mulheres. Os modelos masculinos são mesomorfos e, frequentemente, anabolizados. Esse é o modelo de beleza socialmente criado para homens.

Embora um basset nunca possa virar um galgo, não penso que os bassets se entristeçam com isso. Aliás, pelo contrário, eu imagino que o basset leve vantagem. Qual desses dois você acha que ganha mais afagos?

 

É, pois é, eu também acho que é o de baixo. Mas imagine se o Basset crescesse ouvindo que só os galgos têm valor? Talvez mesmo o fato de saber que ele é um basset saudável não fosse suficiente para consolá-lo.

Um endomorfo dificilmente será um modelo de capa de revista, dada a norma social vigente. Por mais low carb que coma, por mais exercício que faça. Para os editores da revista, um basset magro não substitui um galgo. Mas e daí? Um basset mais magro é um basset mais saudável e mais feliz. Ainda é um pouco fofinho, digamos assim, mas não é obeso, não têm dor nas costas, e consegue subir sozinho no sofá.

Eu não tenho a fórmula para transformar bassets em galgos. Ninguém tem. Mas uma abordagem páleo, low carb, seguramente produzirá bassets (e pessoas) mais saudáveis, mais felizes, e que não precisam passar fome para não engordar.

Uma vez entendidas as limitações intransponíveis (o fato de que a loteria genética não é feita apenas de ganhadores), resta-nos refletir sobre a importância de ao menos poder interromper um processo - que parecia inexorável - de ganho de peso, restaurando a saúde e a sensação de bem estar, de forma SUSTENTÁVEL, pois não envolve fome crônica e não nos deixa escravos da comida, permitindo comer para viver, ao invés de viver para comer. Se houvesse uma pílula que fornecesse metade desse benefício, seria a pílula mais vendida da história.

****** ATUALIZAÇÃO ******

Uma leitora me mandou a figura abaixo, dizendo que a postagem acima a ajudou a parar de agir como na caricatura. Sensacional:

Detalhe: será que a maioria de nós não persegue um ideal igualmente mitológico e imaginário?

sábado, 11 de janeiro de 2014

Pirâmide Alimentar - a vitória da política sobre a ciência - Guest Post

Artigo escrito por Cíntia Vieira Souto, professora da Faculdade Portoalegrense (FAPA), historiadora do Ministério Público do Rio Grande do Sul (e minha esposa!).


O artigo original pode ser conferido aqui: http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/pir%C3%A2mide-alimentar-a-vitoria-da-politica-sobre-a-ci%C3%AAncia/ comentários podem ser feitos diretamente na página do artigo original.



07/01/2014 08:09


Cíntia Vieira Souto*

Vivemos numa sociedade absurdamente dependente de ciência e tecnologia, na qual quase ninguém sabe nada sobre ciência e tecnologia.
Carl Sagan (1934-1996)

A pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) do Ministério da Saúde de 2013 aponta que 51% dos brasileiros com mais de 18 anos estão acima do peso. Em 2006, quando essa pesquisa começou a ser feita o índice era de 43% [1]. Mas não é necessário recorrer à estatística. Basta circularmos no centro de Porto Alegre e veremos grande número de pessoas – homens, mulheres, adolescentes, crianças – acima do peso. Agora, pegue algumas fotos da infância dos seus pais ou dos seus avós. Dificilmente haverá algum obeso nessas fotos. O estranho é que no tempo dos nossos pais não havia produtos light ou diet, tampouco academias de ginástica. Há algo muito errado com a nossa alimentação. E isso tem uma história relativamente recente.



Basta consultarmos um nutricionista, um endocrinologista ou comprarmos uma revista tipo Boa Forma para tomar contato com a pirâmide alimentar. Até na escola as crianças estudam a onipresente pirâmide. Basicamente, ela nos diz para comermos uma maior quantidade de carboidratos (pão, arroz, massa, cereais), localizados na base, e comer pequenas quantidades de gordura, localizada no topo. No meio, ficam as frutas, verduras, carnes (magras), ovos, leite.

Mas qual a origem da pirâmide alimentar? A origem está relacionada a uma ideia que se transformou em um dogma: a de que a gordura faz mal para a saúde.

Durante a primeira metade do século XX, os nutricionistas estavam mais preocupados com desnutrição do que com alimentação excessiva. Depois da Segunda Guerra mundial, contudo, uma epidemia de doença cardíaca chamou a atenção das autoridades de saúde nos Estados Unidos. O bioquímico Ancel Keys, da Universidade de Minnesota, foi um dos primeiros a sugerir que a gordura na dieta poderia ser a causa da doença cardíaca [2]. Em 1956, Keys iniciou o “Estudo dos Sete Países”, no qual seriam avaliados 130 mil homens de meia idade na Iugoslávia, Grécia, Itália, Finlândia, Holanda, Japão e Estados Unidos. Os participantes eram submetidos a exames no início do estudo e tinham sua saúde periodicamente avaliada. Os primeiros resultados foram publicados em 1970 e, após, a cada cinco anos, à medida que os participantes envelheciam e faleciam. Os resultados foram: 1) o nível de colesterol estava relacionado à doença cardíaca; 2) a quantidade de gordura saturada na dieta aumentava o nível de colesterol e, logo, de doença cardíaca; 3) a gordura monossaturada protege contra doença cardíaca [3].

O problema desse estudo é que ele foi concebido para confirmar uma hipótese pré-estabelecida. Keys considerava que a gordura na dieta causava doença cardíaca. Então ele escolheu sete países cujos dados confirmariam essa hipótese. Segundo Gary Taubes, se ele tivesse incluído a França e a Suíça, por exemplo, sua hipótese cairia por terra [4]. O estudo causou algum impacto, mas havia controvérsias na comunidade científica. Muitos pesquisadores questionavam os resultados da pesquisa e discordavam abertamente da tese de que a gordura causava problemas cardíacos.

Paralelamente, independente do mundo científico, se desenvolvia no mundo ocidental e nos Estados Unidos em particular, um movimento anti gordura na alimentação. Relacionado à contracultura da década de 1960, esse movimento criticava o consumo excessivo de bens materiais, bem como de carne e do tradicional american breakfast à base de bacon e ovos [5].

Foram os políticos, todavia, que transformaram essa ideia em um dogma e mudaram a política nutricional dos Estados Unidos e, consequentemente, do mundo ocidental. Em 1969 foi criado, sob responsabilidade do senador George MacGovern, o Select Committee on Nutrition and Human Needs (Comitê em Nutrição e Necessidades Humanas) com o objetivo de erradicar a má nutrição. Esse trabalho terminou em 1970, mas os dois membros principais do comitê, Marshall Matz e Alan Stone, advogados, decidiram se ocupar dos excessos alimentares. A partir de 1976, um membro do comitê, Nick Mottern, jornalista, recebeu a tarefa de escrever um guia com diretrizes nutricionais. “Mottern, que não tinha nenhuma formação cientifica e nenhuma experiência em escrever sobre ciência, nutrição, saúde, acreditava que suas diretrizes dietéticas iriam produzir uma ´revolução na dieta e agricultura desse país`” [6]. Ele adotou a ideia da gordura como o principal vilão da dieta, ignorando as controvérsias científicas em torno da tese.

Em 14 de janeiro de 1977, foi publicado o Dietary Goals for the United States, documento que regula o que comemos até hoje. A recomendação principal era de cortar a ingestão de gordura para 30% do total de calorias consumidas e de gordura saturada para 10%. A gordura foi comparada ao cigarro e a indústria de carnes e ovos foi acusada de se comportar como a indústria tabagista, vendendo produtos nocivos somente para obter lucros. Muitos cientistas e entidades protestaram contra as diretrizes. Mas, em geral, eram acusados de estarem “trabalhando” para a indústria.

As diretrizes poderiam ter sido esquecidas com o encerramento do comitê MacGovern no final de 1977. Mas duas agências federais levaram a questão adiante. A primeira foi a USDA (United States Departamento of Agriculture). Carol Foreman, secretária assistente do USDA, consultou a NAS (National Academy of Science) a respeito das diretrizes. Quando seu presidente Philip Handler, disse-lhe que elas não faziam sentido e não tinham base científica, ela ignorou e procurou alguém com opinião contrária. Consultou os ex-membros do comitê MacGovern que indicaram Mark Hegsted, da Harvard Scholl of Public Health, um entusiasta das diretrizes. Hegsted foi contratado por Foreman. O resultado foi a publicação em fevereiro de 1980 do Dietary Guidelines for Americans, quase idêntico às diretrizes de 1977. Novamente houve reações, mas, dessa vez, a imprensa (The Washington Post, The New York Times) saiu em defesa do novo paradigma [7].

Nos próximos anos, cerca de meia dúzia de estudos foram feitos para verificar a hipótese de que a gordura causava doenças cardíacas. Nenhum desses estudos provou que o baixo consumo de gordura protege de doenças cardíacas. Um desses estudos, feitos pelo NHLBI (National Heart, Lung and Blood Institute) testava o efeito de uma droga, a colestiramina. Os pesquisadores concluíram que essa droga baixava o colesterol e diminuía, muito pouco, o número de mortes por doença cardíaca. Foi nesse ponto que os defensores das diretrizes se fixaram: se uma droga que baixa o colesterol diminui mortes por doença cardíaca, diminuir a ingestão de colesterol deve também diminuir as mortes por doença cardíacas (ignorando as diferenças entre os dois processos).

O NHLBI desencadeou uma massiva campanha a favor da tese. Em março de 1984, a capa da Time mostrava um prato com ovos no lugar de olhos e bacon no lugar da boca, com a palavra “colesterol” como título. O pesquisador do NHLBI diz na reportagem: os resultados “indicam fortemente que quanto menos colesterol e gordura na sua dieta, mas reduz-se o risco de doença cardíaca” [8].



Assim, estava formado o consenso. Em 1992, o USDA criou, com base nas diretrizes, a nossa conhecida pirâmide alimentar, recomendando pouca gordura e muito carboidrato. Nas palavras de Taubes “na história da convicção nacional de que a gordura na dieta é mortal, e a sua evolução de hipótese a dogma, políticos, burocratas, a mídia e o público desempenharam um papel muito maior do que o dos cientistas e da ciência” [9].

As diretrizes fizeram a felicidade da indústria alimentícia e farmacêutica. O café da manhã americano tradicional foi trocado por cereais matinais. Foram criados inúmeros produtos low fat, nos quais se utilizam carboidratos e produtos artificiais (adoçantes, corantes, estabilizantes) para simular o gosto da gordura. E as estatinas, medicamentos para reduzir o colesterol, são uma das maiores fontes de lucro da indústria farmacêutica.

Na verdade, somos resultado de uma evolução de cerca de dois e meio milhões de anos ao longo dos quais nos alimentamos predominantemente de carnes e vegetais. Nosso organismo foi adaptado para isso. Não é necessário ser cientista para perceber que a mudança da dieta para qual fomos evolutivamente adaptados causaria efeitos indesejados [10]. Eles estão nas ruas, nos consultórios médicos, nas escolas, nos programas de televisão.

Olhe novamente a foto dos seus avós. Eles não compravam produtos diet, não corriam no parque e não contavam as calorias que comiam. Então, não comam nada que seus avós não reconhecessem como comida.

Notas


[1] http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/12926/162/mais-da-metade-da-populacao-brasileira-tem-excesso-de-peso.html Acessado em 12 de dezembro de 2013.


[2] TAUBES, Gary. The Soft Science of Dietary Fat. Science, New Series, Vol. 291, nº 5513, Março 2001, p. 2537.


[3] TAUBES, Gary. Good calories, bad calories. Random House: New York, 2007, p. 31.


[4] Ibidem, p. 32.


[5] TAUBES, Gary. The Soft Science of Dietary Fat. Science, New Series, Vol. 291, nº 5513, Março 2001, p. 2538.


[6] Ibidem, p. 2539.


[7] Ibidem, p. 2540.


[8] Ibidem, p. 2541.


[9] Ibidem, p. 2537.


[10] Para maiores informações http://lowcarb-paleo.blogspot.com.br/

*Professora da FAPA e Historiadora do MP-RS



Leia mais: http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/pir%C3%A2mide-alimentar-a-vitoria-da-politica-sobre-a-ci%C3%AAncia/