segunda-feira, 31 de março de 2014

Novo blog - Paleo Odisseia - e PESQUISA sobre o perfil dos seguidores Páleo / Low Carb

Um novo blog, de um frequente colaborador, Arthur Gumz:


O Arthur legendou alguns vídeos sensacionais com Jeff Volek e Stephen Phinney (os mais proeminentes cientistas do mundo low carb) - não deixe de assistir.

**** XXX ****

Outro grande colaborador, Hilton Sousa (www.paleodiario.com), me pediu para divulgar sua interessante pesquisa sobre o perfil dos seguidores do estilo de vida páleo / low-carb. Quanto mais pessoas participarem, mais representativa a pesquisa será. Participe, leva apenas alguns minutos!

http://www.paleodiario.com/p/dados-atualizados-semanalmente-ultima.html

domingo, 30 de março de 2014

Reportagem revista L’Officiel Brasil

Sei que março já está acabando, mas na edição deste mês da revista L’Officiel Brasil saiu excelente matéria sobre LCHF (Low Carb, High Fat) com entrevista minha e da Bruna do Primal Brasil (http://primalbrasil.com.br/), além da Raquel Zucchi - grande divulgadora no Instagram, e da nutricionista Alice Dalpicolli Rodrigues, seguidora aqui do blog. Trata-se de uma revista feminina, muito voltada para moda - o fato é que a reportagem ficou excelente.

Segue a íntegra - e a revista ainda está nas bancas -> sugiro comprar para mostrar para os parentes e vizinhos (e para agradecer à jornalista Giuliana Mesquita pelo trabalho bem feito).

O PDF pode ser baixado clicando aqui:


Texto da reportagem:

Bacon em uma dieta? Sim, isso existe e a gente foi investigar a fundo como funciona a LCHF, sigla para Low Carb, High Fat(pouco carboidrato, muita gordura). A dieta, ou estilo de vida, como as adeptas estão acostumadas a chamar, veio pararevolucionar. A idéia é comer bastante gordura para emagrecer. Sim, gordura. Mas, vamos por partes.

HIGH LOW
A dieta LCHF consiste em diminuir drasticamente o consumo de carboidratos e aumentar o consumo de gordura. Comece tirando o trigo da sua alimentação - você vai ver que você vai se sentirmuito mais disposta, depois retire os grãos e o açúcar. Seu consumo diário de carboidratos não deve passar de 70 g sevocê quer emagrecer. Mas não adianta fazer uma dieta pobre em carboidratos e pobre em gorduras, isso vai fazer comque você se sinta fraca. Tem que ingerir gordura.“Ao contrário do que se imagina, não se trata de uma dieta de proteína; a quantidade de proteínas é adequada e normal. Se comemos poucos carboidratos, e comemos proteínas em quantidade normal, de onde virão as calorias para completar a necessidade diária? Das gorduras boas e naturais, presentes nos alimentos. Por isso low carb, high fat”, explica José Souto, médico, autor do maior blog brasileiro sobre LCHF (com mais de 2 milhões de acessos) o lowcarb-paleo.blogspot.com.

Mas, é claro, não pode ser qualquer gordura. Não vai adiantar sair comendo fritura e gordura trans. A gordura da suaalimentação deve vir de ovos, castanhas, manteiga (não margarina), azeite extra-virgem, óleo de coco, leite de coco,abacate. “Sua glicose sanguínea é elevada quando você come carboidratos. Quando ela abaixa, seu corpo pede mais. Em uma dieta de baixo carboidrato, seus níveis de glicose sanguínea são estáveis”, explica Bruna Machado, dona do primeiro blog sobre o assunto no país, o Primal Brasil, e que já segue esse modelo há quatro anos.

DE VERDADE
Outro ponto importante dessa dieta é que você deve excluir alimentos ruins da sua vida. Refrigerantes, salgadinhos, queijos processados e produtos light/diet. É importante consumir alimentos de verdade, sem rótulo. É claro que não dá para excluir os alimentos processados para sempre da sua vida, mas é importante priorizar carnes, ovos, verduras, vegetais.“Coma como a humanidade sempre comeu antes da epidemia de obesidade, antes que as pessoas passassem a ter medo da gordura e começassem a comer um monte de carboidratos em seu lugar _a coisa mais desastrosa que a saúde pública já viu”, esclarece Dr. Souto. “A dieta disponibiliza todos os nutrientes essenciais que qualquer ser humano necessita porque há grande e variado consumo de vegetais, carnes de todos os tipos e ovos. Os carboidratos não são nutrientes essenciais”, explica a nutricionista Alice Dalpicolli Rodrigues, que nada contra a corrente atual dos profissionais da sua área. “Até pouco tempo atrás eu também seguia a mesma linha da grande maioria dos profissionais. Mas me dei conta de que tinha algo errado nas estatísticas das últimas décadas que relacionam saúde e nutrição. Fui buscar compreender o porquê do grande aumento de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares em uma era em que praticamente não se consome gordura e prioriza-se alimentos pouco calóricos, diet e light, farinhas e grãos integrais. Então mudei totalmente minha conduta”, explica a nutricionista.

PARA COMEÇAR
Se você se interessou por essa dieta, é fácil, fácil começar. Só não pode ter medo das gorduras. Elas devem ocupar 70% do seu consumo diário. Se você deixar de consumi-las, vai se sentir fraca e sem energia. “Quando for ao supermercado, prefira os legumes, carnes, derivados do leite (não o leite em si)”, ensina Bruna. “Dá para fazer várias receitas com esses ingredientes que matam a vontade de comer as coisas proibidas.” Raquel Zucchi, dona do Instagram @raqueleatsfat _um dos mais legais de seguir se você quer fazer essa dieta_, também dá a dica: “Para saber se a LCHF pode ser uma boa pra você: você come o que acha certo (pães integrais, cereais, muitas frutas), mas sente fome a cada três horas ou menos; sente vontade louca e incontrolável por doces, pães e outras besteiras; não aguenta mais comer frango feito na água e sem sal; detesta ter que comer barrinhas de cereal sem gosto, mas come porque já está com o estômago roncando mesmo tendo comido bastante no almoço.” Se identificou? Então você provavelmente vai se sentir mais saciada com essa dieta. Ou seja, não vai precisar fazer lanchinhos, contar os minutos para próxima refeição. É libertador. “Imagine você comendo um peito de frango bem sequinho e salada de alface no almoço. Isso seria low carb e low fat (dieta Dukan). Às 15h da tarde você estaria morto de fome! Agora imagine-se comendo dois bifes acebolados com um ovo em cada um, acompanhado de vegetais na manteiga, e seguido de morangos com nata como sobremesa. Primeiro: é delicioso. Segundo, você não vai pensar em comida até a hora do jantar”, exemplifica o Dr. José Souto.

“BACONTENTE”
Uma das coisas que mais atrai as pessoas a experimentar a LCHF é o fato de que o consumo de bacon é liberado. Sim, senhora. A gordura da carne é uma das “gorduras boas” e pode ser consumida à vontade. É claro, assim como a gente explicou, é melhor dar uma olhada no rótulo de produto: se contiver vários ingredientes que você não sabe nem pronunciar o nome, evite. Se o bacon for curado apenas no sal e um pouquinho de açúcar, está liberado.“Você pode comer bacon quase que à vontade. A melhor parte do hambúrguer, que é a carne, queijo e o bacon, você pode comer. Você não passa vontade, são comidas muito saborosas”, defende Bruna Machado. E é verdade. Nada de ficar passando vontade quando seus amigos estão num churrasco: a maioria das coisas é liberada pra você. Isso quer dizer que você nunca mais vai poder comer um pãozinho ou tomar uma cerveja na vida? Claro que não. Existe um método chamado 85:15 que sugere que se durante 15% do seu tempo você sair da dieta, não tem problema. Isso, por semana, dá três refeições. “A ideia da dieta não é, de maneira nenhuma, viver nela 100% do tempo. Até porque assim seria uma prisão. Alimentando-se no modelo da dieta a maior parte do tempo e se permitindo poucas refeições fora da dieta, já obterá ótimos benefícios”, explica a nutricionista Alice. É claro que, depois de excluir alguns alimentos da sua rotina, eles começam a te fazer muito mal. “Eu pessoalmente quando faço refeições que têm ingredientes fora do que costumo comer, prefiro que não envolvam trigo (nunca tive problemas com ele, mas hoje quando consumo me faz mal). Mas cada organismo reage diferente”, conta Raquel Zucchi.
 
ESCOLHAS
Se você quer começar a LCHF, priorize as carnes orgânicas. Isso porque o gado que se alimenta de pasto, não de grãos, tem uma qualidade melhor de gordura. “Mas, se não tiver como, você já vai estar muito melhor que muita gente”, brinca Bruna. A mesma coisa dos ovos: prefira os caipiras, que vêm de galinhas que são criadas soltas. Mas, e quem come fora todo dia? “É um risco, mas é minha vida. Eu tento buscar as melhores opções. Carnes que são sejam feitas com molho, prefiro as grelhadas. Nos restaurantes sempre tem salada, legumes. É muito fácil”, ensina Bruna, que emagreceu 6,5 kg desde que começou a dieta, quatro anos atrás. Bruna também ensinou a gente que o ideal é se focar nas duas primeiras semanas da LCHF para que o corpo comece a entender que a gordura agora é sua fonte principal de energia. Assim que virar essa chave, você vai começar a perder peso e as gorduras localizadas vão sumir, já que o corpo não diferencia sua gordura e aquela que você está consumindo. Então a dica é: siga o modelo por duas ou três semanas sem sair da linha. “Basta cortar os carboidratos e perder o medo das gorduras”, finaliza Dr. Souto.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Relato de caso - psoríase

Se você ainda não leu, leia a postagem anterior, sobre a relação entre dieta e autoimunidade. A foto abaixo foi retirada da Wikipedia (não é do paciente) - apenas como ilustração para quem não conhece a doença.


Segue o relato, que dispensa comentários:

Gostaria de deixar aqui meu relato sobre os benefícios que a dieta low-carb páleo tem trazido para mim, com especial destaque sobre como ela tem me ajudado com minha doença autoimune.
Tenho psoríase, uma doença que se manifesta por lesões na pele, em formato de placas avermelhadas e esbranquiçadas. A psoríase não tem cura. 

Apesar da causa não ser conhecida, como em muitas doenças autoimunes, psoríase não é uma doença contagiosa. Não se pega psoríase pelo contato. Também não causa nenhum tipo de dor ou incômodos mais sérios para o portador, pelo menos no que diz respeito à parte física (estou me referindo à psoríase vulgar, que é o meu tipo). O grande estrago que ela causa é na vida social. As lesões costumam assustar muito as pessoas, que acabam evitando contato com o doente e criando um isolamento, que costuma piorar com o passar dos anos e a piora da doença. Depressão é comum em doentes de psoríase.

Geralmente as lesões aparecem nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo, mas no meu caso a maior parte apareceu nas mãos (também no cotovelo e perna esquerda). Azar o meu… Já perdi a conta de quantos desconhecidos deixaram de apertar minhas mãos, às vezes dando um aceno sem jeito, após me olharem. Praia então, faz pelo menos 15 anos que não vou. Nem bermuda tenho usado, graças à lesão na perna.

Sou portador da doença há 20 anos, desde quando eu tinha 19 anos de idade (tenho 39 atualmente). Não consigo medir o quanto esse negócio já prejudicou minha vida, em todos os aspéctos, até mesmo no trabalho. Apesar de ser possível um controle dos sintomas usando medicamentos fortes (cremes, pomadas e, nos casos mais severos, tratamento sistêmico e raios ultra-violeta), geralmente o aparecimento das lesões é cíclico, ocorre em períodos. Algumas pessoas, em casos mais severos, tem grande parte do corpo coberto pelas lesões.

Passei por 4 médicos ao longo da minha vida, que sugeriam coisas bem parecidas:

- Expôr as lesões ao sol diariamente (há benefícios com raios ultra-violeta);
- Controlar o stress (como se fosse fácil…)
- Aceitar que a doença vai fazer do resto da sua vida;
- Procurar ajuda de psicológica, se necessário;
- Todos os médicos disseram que NENHUM ALIMENTO ERA PROIBIDO, somente as bebidas alcoólicas deveriam ser evitadas.

Em 2013 minha situação se complicou bastante, e o controle estava muito difícil. As lesões não desapareciam mais, só melhoravam levemente, mesmo com pomadas bem potentes. 
Por coincidência (ou talvez não), nesse mesmo ano eu engordei cerca de 10kg. Já estava obeso anteriormente e isso me fez chegar ao IMC 36,5, com gloriosos 125kg. Estava na hora de mudar.

Em 2010 um amigo havia me recomendado o livro de Gary Taubes (Why we get fat), que colocou em xeque-mate tudo o que eu sabia sobre alimentação. Tentei fazer a dieta na época e até perdi um pouco de peso, mas falhei, por falta de maiores informações e também por um pouco de medo. Não conhecia ninguém que praticava esse estilo de vida.

Quando achei o blog do Dr. Souto, essa foi a ferramenta que faltava para me motivar a perder peso novamente. Iniciei a dieta no mesmo dia (16/10/2013), mas não retirei tudo de uma vez. Fui lendo o blog e descobrindo todos os benefícios de uma vida sem os carboidratos e com mais gordura e proteínas. Durante os 2 meses seguintes mantive na dieta uma pouco de pão, macarrão e arroz, mas mesmo assim perdi 6kg. Nesse ponto aderi integralmente à dieta, mudando radicalmente meu cardápio. Acabo de completar 4 meses de dieta e já se foram 18kg até o momento. Não tinha esse peso desde 2004!

Apesar da felicidade por perder tanto peso em tão pouco tempo, havia uma surpresa guardada para mim que nunca em minha vida eu poderia esperar. Ao retirar o Glúten da minha alimentação a minha psoríase, como num passe de mágica, simplesmente começou a desaparecer. Quando percebi a melhora, logo imaginei que tinha a ver com a nova dieta e saí buscando informações. Li no blog sobre as doenças auto-imunes e sua relação com o glúten, flora intestinal, protocolo auto-imune e tudo começou a fazer sentido. As lesões haviam praticamente desaparecido com um mês de dieta sem glúten, e algumas pequenas lesões que sobraram melhoram a cada dia, mas já não atrapalham em nada, pois são do tamanho de uma espinha. Acredito que com mais tempo e dedicação elas podem ter remissão total.

Meus parentes e amigos próximos não acreditam até agora, pois não tenho usado nenhum medicamento e nunca estive tão bem. Mais magro, mais disposto e sem o mal que me afligiu por 20 anos. só posso recomendar que quem ainda não aderiu à dieta low-carb/páleo faça isso hoje mesmo. Não é só uma mudança de estilo de vida, pois para mim foi quase como renascer. Me sinto mais jovem a cada dia e com espírito renovado!

Obrigado ao Dr. Souto e a todos os colaboradores do Blog, por compartilhar tanta informação e por tanta dedicação. Minha gratidão é eterna!

José A. Bichoff

quarta-feira, 26 de março de 2014

Páleo e autoimunidade

Já se vão 245 postagens neste blog, que aborda o assunto dieta paleolítica, e nunca tratei diretamente do tema autoimunidade (que refere-se àquelas doenças nas quais o sistema imunológico ataca os tecidos do próprio organismo, coisas como artrite reumatoide, psoríase, e uma vasta gama de patologias). E isso é estranho. Por quê? Porque há extensa evidência anedótica (ou seja, de relatos de casos individuais) de melhora significativa ou até mesmo de remissão completa de patologias autoimunes com dieta páleo. Os principais autores da área (Loren Cordain, Mark Sisson, Robb Wolf e tantos outros) dedicam capítulos inteiros à relação entre dieta e autoimunidade em seus livros. Mas é na "blogosfera" páleo que a coisa corre solta. Apenas digite "paleo" seguida de sua doença autoimune preferida no google, e centenas de relatos de sucesso individual surgirão.

Então, vem a pergunta. Por que nunca escrevi diretamente sobre o assunto? Porque o grau de evidência é baixo. Muito baixo. O mais baixo de todos: relatos de casos. E o problema com os relatos de caso é que você encontra relatos de casos de sucesso com QUALQUER coisa. Doenças entram em remissão por conta própria - até mesmo câncer avançado - de vez em quando. E as pessoas atribuem este fenômeno natural à seja-lá-o-que-for que estivesse sendo feito no momento - babosa com mel, cirurgias espirituais, orações, etc. Ou seja, dizer que melhorou da artrite com dieta páleo pode ser tão científico quanto dizer que brigou no trânsito porque marte estava em capricórnio. E esse não é o nível de evidência que embasa o restante das postagens desse blog.

Assim, vou introduzir o assunto dieta paleolítica e autoimunidade com um alerta: ao contrário do que acontece com a maior parte das demais postagens do blog, esta postagem sugere possíveis benefícios não comprovados cientificamente, baseados em relatos de caso. Dito isso, há grande PLAUSIBILIDADE na hipótese que dá sustentação a essa ideia, como veremos a seguir.


Plausibilidade diz respeito ao fato de que há mecanismos biológicos e físicos que tornam uma teoria viável e até provável. Os mecanismos biológicos através dos quais a modulação da permeabilidade intestinal pela dieta pode influenciar a produção de autoanticorpos e a inflamação crônica sistêmica são bem estabelecidos, especialmente em modelos animais. Assim, o emprego de uma dieta de estilo paleolítico na tentativa de aliviar patologias autoimunes pode até não ser uma intervenção completamente comprovada (faltam ainda os ensaios clínicos randomizados), mas é uma intervenção cientificamente PLAUSÍVEL, para a qual há ampla sustentação de evidências anedóticas. E o risco? Zero - é apenas comida de verdade!

Numa equação de benefício/risco, o risco é o denominador. Uma intervenção com alto risco (quimioterapia citotóxica, por exemplo) jamais poderia ser conduzida com base em evidências fracas de seu benefício - não seria ético. Mas quando a intervenção consiste em deixar de comer alimentos processados, açúcar e farináceos - algo cujo único risco é ficar mais saudável - temos uma situação completamente diferente. Na ausência de risco, um benefício potencial - mesmo que não comprovado - é MAIS UM motivo para que se proponha uma mudança de estilo de vida: páleo comprovadamente melhora vários aspectos de sua saúde, e PODE inclusive melhorar certas doenças autoimunes ou idiopáticas para as quais a medicina, em 2014, não tem nada a oferecer, exceto tratamentos sintomáticos e com efeitos colaterais de grande monta.

Em resumo:
  • Mecanismo? Plausível. 
  • Benefício? Provável (com base na quantidade de relatos e na plausibilidade do mecanismo). 
  • Risco? Não há. 
Este é, sem dúvida, o maior disclaimer da história. Agora que já está claro que não estou afirmando que trata-se de algo comprovado, podemos finalmente começar a postagem!

***

Já perdi a conta do número de pacientes que vi melhorar de patologias inflamatórias de origem "idiopática" ("idiopático" é o jargão médico para "não sei a causa") com a adoção de uma dieta de estilo paleolítico. Dentre as várias mudanças introduzidas (redução drástica de alimentos processados, retirada dos carboidratos e das gorduras refinadas, eliminação total dos grãos, em especial o trigo), não há dúvidas de que a mais relevante no que diz respeito à autoimunidade é a retirada total do glúten (quem já leu o livro barriga de trigo sabe sobre o que estou falando - se não leu, clique aqui e aqui, e leia o livro) .

Quando falamos isso, as pessoas (leigos e médicos) não conseguem imaginar um mecanismo fisiopatológico que possa explicar esse fenômeno. Mas o mecanismo existe, e está bem descrito.

80% das células do sistema imunológico estão concentradas no intestino, o que não deveria ser surpresa, visto que é uma superfície mucosa gigante, no interior da qual encontram-se DEZ vezes mais bactérias do que há células humanas em todo o corpo.

A integridade dessa barreira é crítica, e o balanço é delicado. A barreira não pode ser impermeável, pois negaria a função do órgão (absorção). Mas a barreira não pode ser permeável demais, para não permitir a passagem de polissacarídeos de gram-negativos (endotoxemia) nem polipeptídeos inteiros (queremos absorver aminoácidos das proteínas que ingerimos, e não AS proteínas).

Numa analogia imperfeita, podemos imaginar a barreira intestinal como um filtro de café - precisa ser permeável para deixar passar a saborosa infusão, mas não deve deixar passar a borra do café. Qualquer coisa que produzir aumento dos poros (ou mesmo um rasgo) nesse filtro, permitirá que a borra de café passe para o outro lado. O filtro fica "vazando" ("leaky", em inglês). O intestino com aumento da permeabilidade é conhecido em inglês como "Leaky Gut" - que traduzirei de agora em diante por intestino permeável.

Assim, qualquer estímulo que altere a permeabilidade da barreira intestinal pode provocar, de um lado, um estado crônico de inflamação sistêmica, com a liberação de citocinas, fator de necrose tumoral, e outros mediadores por leucócitos estacionados junto a essa mucosa (que, repito, constituem cerca de 80% dos leucócitos do corpo) e, de outro lado, a passagem para a corrente sanguínea de proteínas parcialmente digeridas leva à produção de anticorpos em grande quantidade contra estes epítopos (áreas contra as quais os anticorpos são dirigidos). E, com frequência, tais anticorpos identificam epítopos em fragmentos do que comemos que fazem reação cruzada com epítopos em nosso próprio corpo (causando autoimunidade).

Esta é a ligação fundamental entre permeabilidade intestinal aumentada e autoimunidade. O glúten é o maior exemplo de produto alimentar que provoca alterações inflamatórias e de permeabilidade intestinal. Observem que isso não tem NADA a ver com doença celíaca! Doença celíaca afeta menos de 2% da população. Estamos aqui falando da totalidade das pessoas, nas quais a GLIADINA, uma das proteínas que compõem o glúten, interage diretamente com a ZONULINA, uma proteína essencial para o controle de permeabilidade da mucosa intestinal (proteína da "zonula occluens", ou "tight junctions"):





Uma vez abertas as portas da permeabilidade intestinal, a coisa vira uma loteria. Na melhor das hipóteses, desenvolve-se um quadro de inflamação crônica de baixo nível (low level chronic inflamation); na pior das hipóteses, autoimunidade franca.
A especificidade dos autoanticorpos determinará então a sintomatologia: dermatites, artrites, rinites, polineuropatias, cistites não infecciosas, todas "idiopáticas", e todas com alta taxa de remissão após a retirada completa do agente agressor.

REPITO, não são anticorpos contra o glúten (por isso, os exames de doença celíaca serão NEGATIVOS). São anticorpos contra uma miríade de outros antígenos que ganham acesso ao sistema imunológico devido a um aumento da permeabilidade intestinal ("leaky gut"), sendo o glúten apenas o agente desencadeador do processo, através do efeito da gliadina sobre a zonulina.

Isso quem diz não sou eu. Já está na literatura peer reviewed. Por exemplo (para o pessoal da área da saúde):

 2012 Feb;42(1):71-8. doi: 10.1007/s12016-011-8291-x.

Leaky gut and autoimmune diseases.

Abstract

Autoimmune diseases are characterized by tissue damage and loss of function due to an immune response that is directed against specific organs. This review is focused on the role of impaired intestinal barrier function on autoimmune pathogenesis. Together with the gut-associated lymphoid tissue and the neuroendocrine network, the intestinal epithelial barrier, with its intercellular tight junctions, controls the equilibrium between tolerance and immunity to non-self antigens. Zonulin is the only physiologic modulator of intercellular tight junctions described so far that is involved in trafficking of macromolecules and, therefore, in tolerance/immune response balance. When the zonulin pathway is deregulated in genetically susceptible individuals, autoimmune disorders can occur. This new paradigm subverts traditional theories underlying the development of these diseases and suggests that these processes can be arrested if the interplay between genes and environmental triggers is prevented by re-establishing the zonulin-dependent intestinal barrier function. Both animal models and recent clinical evidence support this new paradigm and provide the rationale for innovative approaches to prevent and treat autoimmune diseases.
PMID:
 
22109896
 
[PubMed - indexed for MEDLINE]

(não vou traduzir, é mais para que o pessoal da área da saúde não pense que eu estou inventando :-P).

Para quem se interessar, o artigo abaixo (cuja íntegra encontra-se aqui) explica em detalhes o mecanismo fisiopatológico das alterações de permeabilidade intestinal (o exemplo que o autor usa é o diabetes tipo 1 - sim, mais uma coisa causada pelo glúten) e sua relação com toda uma gama de patologias autoimunes.




Este outro estudo aborda a relação entre intolerância não-celíaca ao glúten e várias patologias (entre elas a artrite reumatoide, patologias neurológicas, cólon irritável, diabetes - clique aqui para ler na íntegra):



Para uma aula magistral de uma hora de duração sobre esse assunto com o maior pesquisador do tema na atualidade, assista esse vídeo (sorry, sem legendas):

Existe certo "parentesco" molecular entre glúten e as lecitinas das leguminosas (coisas que crescem em vagens, como feijão, soja, lentilha e amendoim - para um belo artigo do Dr. Cordain sobre o assunto, clique aqui). Da mesma forma, a caseína do leite pode produzir reação cruzada em quem tem sensibilidade ao glúten. Assim, para as pessoas que apresentam problemas relacionados a autoimunidade, pode ser interessante fazer uma dieta páleo estrita, isto é, rígida - sem leguminosas nem laticínios de nenhum tipo. Mas, para muitas pessoas, basta apenas e tão somente remover o glúten - há que testar!

Em resumo, em virtude dos incontáveis relatos (anedóticos) de melhora e remissão das mais variadas doenças de cunho autoimune com o emprego de dieta páleo (e em particular com a retirada completa do glúten), do mecanismo fisiopatológico já bastante esclarecido, e do crescente número de artigos científicos publicados sobre a relação glúten->leaky gut->autoimunidade, bem como do fato de haver ZERO risco em, por exemplo, trocar o macarrão por salmão, TODO o paciente portador dessas patologias deveria realizar um teste de no mínimo 30 dias de páleo. O pior que pode acontecer é não haver melhora. O melhor que pode acontecer... fica para a próxima postagem.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A dieta de baixa gordura está morta - 3 - Por que tudo que lhe ensinaram estava errado?

Texto bom demais para deixar de fora dessa série.

Com meus agradecimentos ao Hilton Sousa que, como de hábito, traduziu o texto no mesmo dia em que lhe enviei.

Deu no jornal britânico The Guardian:
The Guardian home



Porque quase tudo o que lhe ensinaram sobre comida ruim está errado

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Joanna Blythman


Poderia a ingesta de margarina demais ser ruim para suas faculdades críticas? Os "experts" que tão confiantemente nos aconselhavam a trocar as gorduras saturadas, tais como manteiga, por cremes poliinsaturados, pessoas que presumivelmente praticam o que pregam, de repente ficaram incertos e parecem estar lutando contra uma certa confusão mental para reformular seus discursos.

Na semana passada, coube a um vacilante professor, Jeremy Pearson, da Fundação Britânica de Cardiologia, tentar explicar o motivo pelo qual a mesma ainda aderia à doutrina anti-gordura saturada propagada pela nutrição convencional, quando as evidências estão se acumulando para refutá-la. Após examinar 72 estudos acadêmicos envolvendo mais de 600.000 participantes, o estudo - financiado pela própria fundação - apontou que o consumo de gordura saturada não está associado com risco de doença coronária. Essa avaliação fez eco a uma outra revisão de 2010 que concluía: "não há evidência convincente de que gordura saturada pode causar doença cardíaca".

O grupo de pesquisadores da fundação tampouco encontrou qualquer evidência para a afirmação tradicional dos fabricantes de margarina e apóstolos da saúde governamentais, de que comer gordura poliinsaturada oferece proteção ao coração. De fato, o líder da pesquisa, Dr. Rajiv Chowdhury, falou sobre a necessidade de uma checagem de saúde nas prescrições de alimentação saudável oficiais. "Esses são resultados interessantes que potencialmente estimulam novas linhas de indagação científica e encorajam uma reavaliação das diretrizes nutricionais vigentes", disse ele.

Chowdhury alertou ainda que que a substituição de gorduras saturadas por excesso de carboidratos - tais como pão branco, arroz e batatas - ou por açúcar refinado e sal nas comidas processadas, deveria ser desencorajada. O aconselhamento vigente é "basear suas refeições em comidas ricas em amido", então se você esteve diligentemente seguindo esse evangelho dietético, o conselho do professor é, digamos, perturbador.

Confuso? Começando a se frustrar e a ficar sem paciência? Assim também ficou o apresentador da BBC encarregado de conseguir esclarecimentos da Fundação Britânica de Cardiologia. Sim, Pearson admitiu, "não há evidência suficiente para ser firme sobre as diretrizes [de alimentação saudável]", mas não, as descobertas "não mudam o aconselhamento de que comer gordura demais é danoso ao coração". A redução da gordura saturada, disse ele, era apenas um fator que devemos considerar como parte de uma dieta balanceada e um estilo de vida saudável. Você consegue ouvir um barulho das gotas ao fundo, enquanto a dieta oficialmente recomendada pelo governo se derrete?

É claro, já tivemos um gosto amargo de quão irremediavelmente enganadora a ortodoxia nutricional pode ser. Não muito tempo atrás, nos foi ensinado o "fato" inatacável de que não deveríamos comer mais de 2 ovos por semana, porque eles continham colesterol, capaz de parar o coração - mas essa pérola de conhecimento nutricional teve de ser discretamente apagada da história, quando as pesquisas mostrando que o colesterol dos ovos não têm quase efeito nenhum no colesterol sanguíneo tornou-se óbvia demais para se ignorar.

As consequências dessa restrição geral aos ovos foram inteiramente negativas: produtores de ovos faliram, e a população perdeu um alimento barato, natural e cheio de nutrientes, enquanto encheu suas tigelas de café da manhã com cereais industrialmente processados vendidos em caixas de papelão. Mas esse estrago foi certamente menos grave que o causado pela diretriz de abandonar gorduras saturadas tais como manteiga e banha, e escolher ao invés disso óleos líquidos altamente processados.

Apesar de repetidas tentativas de grupos de defesa da saúde, fio apenas em 2010, quando as diretrizes dietéticas americanas foram alteradas, que os órgãos de saúde pública de ambos os lados do Atlântico admitiram que os processos químicos para endurecer os óleos poliinsaturados das margarinas criavam gorduras trans que entopem artérias.

Fabricantes atualmente reformularam seus cremes vegetais sintéticos, endurecendo-os através de métodos químicos que - eles nos garantem - são mais benignos. Mas através do século XX, à medida que fomos compelidos a abraçar cremes supostamente saudáveis para o coração, essa prescrição nos esteve matando. Aqueles que obedientemente engoliram a pílula amarga, relutantemente trocando a deliciosa manteiga pela triste margarina, ainda estão aguardando pela retratação das autoridades nutricionais. Evangelistas governamentais da dieta vigente certamente não parecem dispostos a admitir humildemente seus erros.

Mas qual lição podemos tirar das histórias dos ovos e das gorduras trans? Certamente provaremos que não conseguimos aprender com nossos erros, se não encararmos outros aspectos das orientações nutricionais bem-estabelecidas, frequentemente repetidas e infinitamente recicladas, com olhos mais críticos. Vamos começar pelas calorias. Afinal de contas, nós todos fomos ensinados que contá-las é a fundação da retidão nutricional; mas está começando a parecer que isso é uma monumental perda de tempo. Lenta e firmemente, os pesquisadores de nutrição estão mudando seu foco para o conceito de "saciedade", isto é, quão bem certas comidas satisfazem nossos apetites. Nesse quesito, proteína e gordura estão emergindo com os dois macronutrientes mais úteis. A ficha já caiu, que passar fome numa dieta de biscoitos e saladas cruas, restrita em calorias, não é resposta para a epidemia de obesidade.

Enquanto a proteína e a gordura aproveitam o brilho da recuperação de seu prestígio nutricional, os carboidratos - a "barriga grande e distendida" do aconselhamento governamental - estão parecendo decididamente problemáticos. Os carboidratos são o ingrediente mais comum representado na descrição visual da dieta recomendada pela Organização Nacional de Saúde, o Prato Coma Bem. Zoë Harcombe, uma expert independente em nutrição, o renomeou desdenhosamente de "Prato Coma Mal" - e agora você pode ver porquê. Afinal de contas, nós alimentamos nossos animais com grãos ricos em amido para engordá-los, então por que o efeito em nós não seria o mesmo? Essa percepção menos favorável dos carboidratos está sendo levantada por testes que mostram que dietas com pouco carboidrato são mais efetivas que dietas com pouca gordura e proteína, em manter um peso corporal saudável.

Quando a gordura era o bicho-papão da nutrição, os efeitos devastadores do açúcar sobre a saúde passaram abaixo do radar. Cole o adesivo "sem gordura" no rótulo, e você consegue vender às pessoas qualquer lixo velho. A religião da "pouca gordura" criou legiões de comidas processadas, produtos com níveis de açúcar elevados, e outros adoçantes igualmente duvidosos, para compensar a inevitável perda de sabor que ocorre quando a gordura é removida. O dogma anti-gordura saturada deu aos fabricantes a desculpa perfeita para nos privar de comidas de verdade que nos sustentaram por séculos, e que agora são pintadas como assassinas, de olho em produtos mais lucrativos, com menos nutrientes, cheios de aditivos e recheios baratos.

Em linha com a controvérsia de que comidas contendo gordura animal são nocivas, também fomos instruídos a restringir nossa ingesta de carne vermelha. Mas fatos cruciais se perderam nesse debate simplista. A evidência epidemiológica fraca que parece incriminar a carne vermelha não separa a carne bem-criada, não-processada, da carne altamente processada em fábricas, que contém um coquetel de aditivos químicos, conservantes e por aí vai (LEIA AQUI). Enquanto isso, nenhuma autoridade governamental se incomodou em nos dizer que carneiro, boi e carne de caça, de animais criados livres com pasto, é uma das maiores fontes de ácido linoléico conjugado (CLA), o micronutriente que reduz nosso risco de câncer, obesidade e diabetes.

Os gurus de dieta governamentais estão há muito tempo engajados numa cruzada pela redução do sal, mas o que fica faltando nesse nobre esforço é a consciência de que sal em excesso é um problema da comida processada. Muito sal é essencial àquele gosto fenomenal da comida processada. Sem sal, e um subconjunto variado de melhoradores químicos de sabor, as comidas processadas seriam expostas por aquilo que são: produtos que perderam o sabor natural e a integridade nutricional. Flocos de milho sem sal, por exemplo, seriam praticamente intragáveis. Ninguém iria querer comprá-los porque veriam que eles são uma pilha de inutilidade nutricional. Mas onde está a evidência de que o sal usado como tempero comum na comida caseira, constitui risco à saúde? SOBRE SAL, LEIA AQUI.

Com o sal, assim como com o açúcar, a saúde pública é muito covarde para encarar as poderosas empresas de comidas processadas e os seus lobistas, traçando uma distinção entre comida caseira feita "do zero" e comida industrial de conveniência.

A frase crucial "evite comida processada" não aparece em qualquer lugar das diretrizes nutricionais governamentais, e ainda assim essa é a maneira mais concisa de resumir em termos práticos o que é bom e saudável de se comer. Até que essa consciência mude o aconselhamento dietético, todas as diretrizes governamentais deveriam vir com uma advertência no mesmo estilo do tabaco: seguir esse conselho nutricional pode danificar seriamente a sua saúde.

Joanna Blythman é autora de "Bad Food Britain" e "What to Eat"

O que é bom e o que não é


  • Ovos: já nos disseram para não comer mais de dois por semana. Agora os ovos parecem ser a comida mais nutritiva que você pode comer, então não há limite para eles.
  • Manteiga: a primeira geração de margarinas se revelou ser causadora de ataques cardíacos, o que torna difícil confiar em qualquer coisa que a indústria da margarina diz. Você está mais seguro com a boa e velha manteiga.
  • Carne vermelha: carne vermelha processada, lotada de aditivos, deve ser evitada. Mas carne de gado criado solto, com pasto, é uma fonte rica de CLA, que reduz nosso risco de câncer, obesidade e diabetes.
  • Sal: comidas processadas estão cheias dele para torná-las palatáveis, mas não há evidência de que sal adicionado em quantidades sensatas na comida caseira, seja um problema de saúde.
  • Açúcar: açúcar e adoçantes em todas as formas deveriam ser reduzidos/evitados. Acostume seu paladar a um gosto menos doce.

domingo, 23 de março de 2014

Gordura não é a vilã - Revista Istoé

Eu nem pretendia mais tocar no assunto - afinal, como já disse, a dieta de baixa gordura está morta. Mas é mais forte do que eu. "Eu não disse?" é, sem dúvida, a melhor combinação de 3 palavras de nosso idioma...

http://www.istoe.com.br/reportagens/353591_NEM+TAO+VILA+ASSIM+?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage


Nem tão vilã assim?

Ao revisarem estudos sobre a relação entre gorduras e doenças cardíacas, cientistas concluem que não há evidências definitivas de que ingerir alimentos como carnes vermelhas, manteiga e queijos faz mal ao coraçãoCilene Pereira (cilene@istoe.com.br)
Uma ampla pesquisa divulgada na última semana colocou em xeque um dos pilares usados até hoje para a prevenção das enfermidades cardiovasculares. De acordo com o trabalho, não há evidências científicas fortes o bastante para assegurar que o consumo das gorduras saturadas – presentes em alimentos como carne vermelha, manteiga e queijos – aumenta o risco de ocorrência de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). Tampouco existe comprovação definitiva de que as chamadas gorduras do bem, as polinsaturadas, encontradas no azeite de oliva, abacate e amêndoas, por exemplo, realmente protegem o coração como sempre se acreditou. Ou seja, de uma vez só, o trabalho jogou por terra duas certezas a respeito do que seria a dieta ideal.
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REFLEXÃO
Para Faria Neto, pesquisa inicia debate sobre quantidade ideal de consumo
Publicada na “Annals of Internal Medicine” – uma das mais importantes revistas científicas do mundo –, a pesquisa foi realizada por um time internacional de cientistas coordenado por Rajiv Chowdhury, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Os autores revisaram 72 estudos que haviam sido realizados anteriormente em 18 países, envolvendo cerca de 600 mil participantes. Entre eles, constavam 27 trabalhos randomizados, considerados o padrão ouro da investigação científica (eles comparam duas ou mais intervenções, aplicadas de maneira aleatória aos voluntários). O modelo de trabalho escolhido pelos pesquisadores é chamado de metarrevisão e tem sido bastante utilizado na busca pela confirmação de evidências sobre a eficácia de uma técnica.
Os pesquisadores observaram não só a dieta que os participantes informaram, mas também as concentrações de gordura na corrente sanguínea e no tecido de gordura reportadas. Na conclusão, foram enfáticos: “As evidências atuais não suportam claramente as recomendações que encorajam o alto consumo de gordura polinsaturada e a baixa ingestão de gorduras saturadas.” A única orientação atual confirmada pela revisão foi a de não ingerir alimentos com gordura trans, como biscoitos, sorvetes, salgadinhos e frituras.
As gorduras saturadas sempre estiveram associadas a risco cardiovascular porque aumentam as taxas do LDL, chamado de mau colesterol porque se deposita nos vasos sanguíneos – o que eleva a chance de infartos e AVC. No entanto, na explicação de Chowdhury, seu consumo tem impacto sobre uma partícula do LDL que não seria tão prejudicialA parte que realmente leva perigo seria influenciada não pela gordura saturada, mas pelo carboidrato, presente em massas, pães e doces.
Diante das conclusões, os cientistas defendem uma revisão das recomendações em vigor. “Estes resultados são interessantes e potencialmente estimulam novas linhas de investigações científicas e encorajam à realização de uma reavaliação cuidadosa das orientações atuais”, argumentou Chowdhury.
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Recentemente, outros especialistas levantaram discussões sobre o real peso das gorduras no desenvolvimento das doenças cardiovasculares. Em artigo publicado no “British Medical Journal”, também conceituada revista científica, o cardiologista Aseem Malhotra, do Croydon University Hospital, de Londres, afirmou: “É hora de acabar com o mito do papel da gordura saturada na doença cardíaca.” Segundo o especialista, evidências mostram que a recomendação de diminuir a ingestão desse tipo de gordura levou, na verdade, a um aumento no risco cardíaco. Malhotra citou a evolução do problema nos Estados Unidos como argumento. Naquele país, o consumo de calorias derivadas de gordura declinou cerca de 40% nos últimos 30 anos. No entanto, a obesidade só cresceu nesse mesmo período. Uma das razões seria o fato de que a indústria alimentícia teria compensado a queda do consumo de gordura substituindo o nutriente com adição de mais açúcar.
Por enquanto, porém, as sociedades especializadas em cardiologia não pretendem mudar suas recomendações de restrição de ingestão de alimentos ricos em gordura saturada [Albert Einstein definiu insanidade da seguinte forma: "Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes" - com TRÊS metanálises mostrando a mesma coisa, e a experiência desastrosa do low fat no mundo, o que estão esperando pra admitir que estavam errados??]. Hoje, preconiza-se que no máximo 5% do total energético de uma dieta de cerca de duas mil calorias deva ser proveniente desse nutriente. “Mas o estudo desencadeou uma reflexão. Será que o consumo precisa mesmo ser tão restrito?”, diz o cardiologista José Rocha Faria Neto, presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da PUC-Paraná. “Mas não sabemos ainda o quanto mais pode ser liberado. O importante é que hoje há consenso de que a culpa não é de um nutriente específico. Por isso, o importante é ter um padrão alimentar saudável como um todo.”
FOTO: João Castellano/Istoé 

sábado, 22 de março de 2014

A dieta de baixa gordura está morta - 2

Nesta semana foi publicado outro artigo que julgo de suma importância - mas este não recebeu atenção da mídia. Não obstante, eis aqui o estudo:

Dieta Low Carb + alta proteína melhora a função cardíaca diastólica e a síndrome metabólica em pacientes diabéticos tipo 2 obesos ou com sobrepeso.




Não se assuste com o título pomposo - vamos adiante.

Sob pena de estragar a história contando o final do filme, eis a conclusão do estudo:
"These data indicate, that a low-glycaemic/high-protein but not a low-fat/high-carbohydrate nutrition modulates diastolic dysfunction in overweight T2D patients, improves insulin resistance and may prevent or delay the onset of diabetic cardiomyopathy and the metabolic syndrome."
Traduzindo: "Estes dados indicam que uma dieta low carb, MAS NÃO uma dieta de baixa gordura (e alto carboidrato), modulam a disfunção diastólica [função cardíaca] em pacientes diabéticos com sobrepeso, melhora a resistência à insulina e pode prevenir ou retardar o início da miocardiopatia e da síndrome metabólica"

Traduzindo o jargão: o estudo demonstra que uma dieta low carb melhora não apenas a resistência à insulina e a síndrome metabólica, mas melhora também o funcionamento do coração em diabéticos obesos. Mais do que isso: a dieta low fat - a pirâmide alimentar - não melhora NENHUM desses parâmetros.

Lendo os detalhes do estudo, observamos que - como costuma ocorrer - a dieta de baixa gordura tinha restrição calórica imposta. Ou seja, a única forma de fazer com que as pessoas percam peso comendo uma dieta de alto carboidrato é deixando-as com fome. Já o grupo Low Carb podia comer à vontade. 45% das calorias deste grupo eram na forma de GORDURA. Por que os autores escolheram uma dieta de fome, com 55% de calorias na forma de carboidratos, para o outro grupo? Porque eles odeiam diabéticos? Não. Porque essa é a dieta RECOMENDADA pela Associação Europeia para o Estudo do Diabetes. Isto mesmo. 55% de carboidratos para uma doença que, bem, é diagnosticada baseada na intolerância a, bem, carboidratos (já comentamos isso em detalhe nesta outra postagem).

Trata-se de um estudo com 32 voluntários - mas é um EXPERIMENTO, e é PROSPECTIVO, ou seja, este é um estudo com implicações científicas reais, não um estudo observacional como os que a mídia costuma alardear.

E isto não é nem mesmo uma novidade, visto em em 2013 um estudo prospectivo e randomizado com milhares de pacientes já havia sido interrompido antes do tempo pois uma dieta de baixa gordura estava produzindo um excesso de mortalidade de 30% - comer pouca gordura é comprovadamente prejudicial.

Enfim, eis um resumo gráfico deste mais novo artigo:

Você come isso:

Até desenvolver síndrome metabólica, obesidade e diabetes.

Então, você tem duas opções:

OPÇÃO 1 -> Low Fat, baixa caloria:
Esta opção implica passar fome para o resto da vida (restrição calórica voluntária), e comer cada 3 horas para aguentar.

OPÇÃO 2 -> Dieta Paleo/Low Carb:
Esta opção implica comer assim, até ficar saciado, para o resto da vida. Ao contrário do que ocorre com low fat, isto não seria uma desgraça, e sim motivo de alegria.

Como demonstra o estudo em pauta, quem opta pela opção 2, sem restrição calórica, obtém "melhora não apenas da resistência à insulina e da síndrome metabólica, mas melhora também da função cardíaca".

E por que alguém então escolheria a opção 1? Porque nos foi ensinado que uma dieta low fat com restrição calórica reduz o risco cardiovascular. Mas, como vimos na postagem anterior, isto DEFINITIVAMENTE não é verdade, está PROVADO que reduzir a gordura na dieta não reduz a mortalidade (ver postagem anterior) - pelo contrário, está provado em estudo prospectivo e randomizado que uma dieta pobre em gorduras leva a uma maior mortalidade (veja aqui), e nada disso é novo - veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aquiaquiaqui, aquiaqui, aqui e aqui.

A dieta de baixa gordura lembra muito uma galinha que continua correndo depois que sua cabeça já foi cortada - pode não parecer, mas já está morta. Hoje, para mim, está claro, olhando para trás, que low fat foi uma dessas anomalias históricas, uma espécie alucinação coletiva que se apossou da humanidade nos anos 1970. Esta foi - e sempre será - a verdadeira dieta da moda. Sua introdução (pelo departamento de agricultura dos EUA) desencadeou o maior desastre de saúde pública de que temos notícia - a epidemia de obesidade, síndrome metabólica e diabetes (veja aqui). Mas não passou, no fundo, de uma breve solução de continuidade dentro de uma evolução alimentar que jamais incluiu a restrição voluntária de calorias ou de gordura (pelo contrário, veja aqui)

Assim como Elvis, que continua vivo para alguns de seus fãs, tenho para mim que a moda low fat continuará viva nos estômagos famintos de seus seguidores e nas mentes dogmáticas de alguns profissionais de saúde. Mas - sinto dizer - Elvis morreu.

terça-feira, 18 de março de 2014

A dieta de baixa gordura está morta - 1

Já escrevi inúmeras vezes aqui no blog, nos últimos anos, sobre todas as evidências científicas que apontavam para o fato de que a gordura na dieta não era o problema (it's the carbs, stupid!). Para quem quiser refrescar a memória, clique aquiaquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,aqui,aqui, aqui,aqui, aquiaqui.

Armas de destruição em massa - carboidratos e gordura trans juntos
Ontem, foi publicado mais um grande estudo, uma metanálise absurdamente completa, na revista Annals of Internal Medicine, abarcando todas as melhores evidências, prospectivas e randomizadas, sobre o efeito das gorduras no risco cardiovascular. O resultado?

  • Não há evidências de que a gordura saturada na dieta aumente o risco de ataques cardíacos ou de quaisquer outros eventos cardiovasculares;
  • Não há evidências de que o consumo de gorduras insaturadas proteja contra doenças cardíacas (sorry, Becel);
  • Gorduras trans são as que realmente fazem mal (sorry again, margarinas!);
  • Gordura saturada até pode aumentar o LDL, mas aumenta também o HDL, e o TIPO de LDL transforma-se em LDL padrão A (partículas maiores, menos densas, menos oxidadas, e menos aterogênicas, isto é, uma partícula de LDL que não é propensa a se acumular nas artérias)
  • Ao analisar as concentrações de ácidos graxos específicos na corrente sanguínea, os pesquisadores acharam:
    • O ácido margárico, uma gordura saturada presente na manteiga e outros laticínios gordos, estava associado a MENOR risco cardiovascular;
    • EPA e DHA (ômega-3) estava associado a MENOR risco;
    • Vários ácidos graxos ômega-6 estavam associados com MAIOR risco (Sorry, óleos vegetais extraídos de sementes!)

As manchetes estão se espalhando pelo mundo. Estava na capa do New York Times de hoje:



As melhores partes:

  • Many of us have long been told that saturated fat, the type found in meat, butter and cheese, causes heart disease. But a large and exhaustive new analysis by a team of international scientists found no evidence that eating saturated fat increased heart attacks and other cardiac events.
  • “My take on this would be that it’s not saturated fat that we should worry about”
  • In addition to raising LDL cholesterol, saturated fat also increases high-density lipoprotein, or HDL, the so-called good cholesterol. And the LDL that it raises is a subtype of big, fluffy particles that are generally benign. 
  • The smaller, more artery-clogging particles are increased not by saturated fat, but by sugary foods and an excess of carbohydrates, Dr. Chowdhury said. “It’s the high carbohydrate or sugary diet that should be the focus of dietary guidelines,” he said. “If anything is driving your low-density lipoproteins in a more adverse way, it’s carbohydrates.” (TRADUÇÃO): As partículas pequenas, entupidoras de artérias, não aumentam por causa da gordura saturada, e sim por alimentos com açúcar e pelo excesso de carboidratos, explicou o Dr. Chowdhury. "É a dieta de alto carboidrato, é o açúcar que deveria ser o foco das diretrizes nutricionais", ele disse. "Se há algo que está produzindo alterações adversas em seu LDL, são os CARBOIDRATOS". Como se faz para sorrir por escrito?


E a primeira repercussão na mídia nacional já saiu: site da revista VEJA (prevejo que, até amanhã, repercutirá bem mais):

Gordura saturada não leva a doenças cardíacas, diz estudo

Nova pesquisa questiona recomendação de substituir consumo de gordura 'ruim', como a da carne vermelha, pela 'boa', como a do peixe. Conclusão, porém, deve ser interpretada com cautela

Carne e alecrim
Alimentação: Estudo não observou mais doenças cardíacas em quem consome mais gordura saturada (Thinkstock)
A publicação de uma série de estudos nos últimos anos deu origem à ideia de que a gordura saturada, encontrada na carne vermelha, na manteiga e no queijo, por exemplo, aumenta o risco de doença cardíaca [na verdade é o contrário. A publicação de estudos observacionais há décadas sugeriu essa associação. Os estudos recentes, prospectivos, vêm refutando essa hipótese há anos, só não vê que não quer]. Ao mesmo tempo, essas pesquisas concluíram que a gordura insaturada, como o ômega-3 presente em peixes, oleaginosas e no azeite, reduz essas chances. Por isso, é comum a recomendação de que devemos substituir, sempre que possível, o consumo da gordura “ruim” pelo da gordura “boa” como forma de proteger o coração.
Um extenso estudo divulgado nesta terça-feira questiona essa orientação. A pesquisa não encontrou evidências significativas de que consumir mais gordura saturada aumenta as chances de um problema cardíaco. Além disso, o estudo observou que pessoas que fazem uso de suplementos de ômega-3 não têm menos doenças do coração do que as outras.
A nova pesquisa, realizada na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, revisou 76 pesquisas sobre o assunto — sendo que 17 delas analisaram os níveis de ômega-3 no sangue dos participantes e 27 acompanharam de perto indivíduos que passaram a fazer uso de suplementos dessa gordura. Ao todo, os estudos revisados envolveram mais de 600.000 pessoas. Os resultados foram divulgados no periódico Annals of Internal Medicine.
"Minha opinião é que não é com a gordura saturada que nós devemos nos preocupar na nossa alimentação", diz Rajiv Chowdhury, epidemiologista cardiovascular da Universidade Cambridge e coordenador do estudo.

Cautela — A comunidade científica, porém, recebeu a pesquisa com ressalvas [bullshit - a preponderância da evidência científica de nível 1 está estabelecida - GAME OVER dudes!]. Os especialistas alertam que o estudo não dá sinal verde para o consumo desenfreado de gordura saturada e nem quer dizer que o hambúrguer é tão saudável quanto o salmão. Isso porque as pesquisas revisadas não compararam diretamente os efeitos da gordura saturada com os da insaturada nas mesmas pessoas ao longo de um longo período. Ou seja, evidências consistentes ainda são necessárias para compreender de que forma a alimentação impacta o risco de doenças cardíacas.
Frank Hu, professor de nutrição da Universidade Harvard e um dos principais pesquisadores sobre alimentação no mundo, disse ao jornal americano The New York Times que as pessoas não devem avaliar o consumo de determinados nutrientes como algo isolado. Isso porque um indivíduo, ao retirar a gordura saturada da dieta, por exemplo, pode acabar consumindo mais pães, massas e outros carboidratos refinados, o que, em exagero, também faz mal ao coração. "Acredito que no futuro as recomendações alimentares darão mais ênfase à comida real em vez de simplesmente impor limites ou proibir a ingestão de certos nutrientes", afirmou.