segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Dois pesos, duas medidas? O pensamento crítico precisa valer para todos.

Quando assistimos um show de mágica, desses realmente bons, nós vemos o improvável descortinar-se em frente aos nossos olhos. A moça é serrada ao meio, não dá nenhum grito, e depois é unida novamente - sem nenhum arranhão! O ilusionista é capaz de fazer uma pessoa levitar, e passa argolas ao redor do corpo da mesma, mostrando que não há fios invisíveis que a sustentem. Mágica!

Tirando aqueles dentre nós que são irremediavelmente crédulos, os adultos assistem a esse tipo de coisa com a chamada "suspensão voluntária da descrença". Ou seja, qualquer pessoa SABE que se trata de truques, o próprio artista se intitula "ILUSIONISTA", mas a graça é, por alguns momentos, abandonar ceticismo, abraçar a credulidade, e divertir-se com os pretensos poderes sobrenaturais do artista. Mas, quando o show acaba, deve também encerrar-se a suspensão voluntária da descrença. Se alguém, no mundo real, quiser me vender uma bicicleta voadora, eu preciso exercer o ceticismo, MESMO que a pessoa mostre que a bicicleta flutua - sob pena de ser vítima da própria credulidade, não posso adotar a mesma atitude que adotei no show de ilusionismo. Aquilo era diversão; isso é o mundo real.

Tema em pauta: as pessoas parecem ter uma certa NECESSIDADE de acreditar. Mais do que isso, de construir categorias, dividindo as coisas em um grupo do MAL ("nessas, eu não confio e não acredito") e de um grupo do BEM. No que se refere a este último grupo, aplica-se uma suspensão voluntária da descrença. Tudo aquilo que está no grupo do BEM, é bom, é salutar, etc. E isto é um ERRO. O que deve decidir se algo é válido ou inválido é a preponderância da evidência, e não o fato de ser algo que se enquadra na minha categoria de "coisas do bem" ou "do mal".

Então, onde quero chegar? Quero desfazer um equívoco. O de que eu pratico algum tipo de "medicina alternativa". Para mim, não existe medicina alternativa. Existe boa e má medicina. Quando eu ataco de forma sistemática as diretrizes nutricionais vigentes, eu não o faço porque eu sou contra a "medicina convencional". Não existe medicina convencional. Existe boa medicina, e má medicina.

O perigo dessa divisão simplista é a falsa categorização das práticas de saúde em "medicina convencional" versus "medicina alternativa". Ato contínuo, ao invés de avaliar o corpo de evidências que dá sustentação a uma determinada teoria ou intervenção, a pessoa aceita ou rejeita a teoria/intervenção baseado no GRUPO a que pertence. Se eu acredito em medicina alternativa, eu rejeito e desconfio de tudo o que for "convencional". Por outro lado, eu adoto uma atitude de SUSPENSÃO VOLUNTÁRIA DA DESCRENÇA no que diz respeito a QUALQUER coisa que esteja sob o guarda-chuva de "medicina alternativa".

Meses atrás, em virtude dos problemas ocorridos com o Facebook (que bloqueou, por várias semanas, o compartilhamento dos links do blog), andei frequentando (demais, eu diria) essa rede social. E fiquei muito preocupado. Pois dei-me conta de que uma boa parcela das pessoas que seguem esse blog o fazem porque o consideram como fazendo parte de sua visão de mundo de "medicina alternativa". E as mesmas pessoas que - pensava eu - teoricamente apreciavam meu tremendo esforço de mostrar as bases de evidência científica para esta abordagem nutricional, estão defendendo proposições que não resistiriam a uma fração de tal pensamento crítico.

Exemplo em pauta: o mito do pH.

Corre solta, no mundo da chamada "medicina alternativa", a ideia de que quase tudo em saúde, e em particular o câncer, tem a ver com o pH do corpo. Reza a lenda que o consumo de alimentos acidificantes (que são todos "do mal", processados, ligados a grandes conglomerados e, dependendo das crenças apriorísticas da pessoa, incluirão carne e/ou grãos) produzem câncer, que "só cresce em ambiente ácido". Da mesma forma, alimentos alcalinizantes (que são todos "do bem", incluindo frutas e vegetais, e uma entidade mitológica chamada de água alcalina) inibiriam o desenvolvimento do câncer (e sabe-se lá de quantas outras doenças).

Por onde começar?

1) O pH. Sim, um dia você já estudou isso. Água é H20. Mas a água está o tempo todo em constante reação de dissociação e reassociação. Assim, em qualquer dado momento, uma pequena porção de água está dissociada em OH- e H+. Quanto? 0,0000001 mol, ou 10-7. O pH nada mais é do que o logaritmo negativo dessa concentração, ou seja, água pura é sempre neutra, correspondendo a um pH de 7. Por que neutra? Porque acidez diz respeito à quantidade de H+ na solução, e alcalinidade diz respeito à quantidade de OH- na solução. Como a quantidade de H+ e OH- em água pura será sempre - obviamente - a mesma, é claro que a água não será ácida nem alcalina. Água é neutra por definição.

2) Quando misturamos uma substância na água - sódio, por exemplo - isso muda. Nesse exemplo, os íons negativos (OH-) ligam-se ao sódio, e a solução passa a ser alcalina. Passa a ser uma solução de NaOH  diluída, não "água alcalina". Água é neutra.

3) O pH do sangue é controlado de forma extremamente rígida, variando de 7,35 a 7,45. Diversas reações químicas dependem disso. Mais importante: a conformação tridimensional das proteínas e enzimas do corpo dependem da manutenção do pH nessa estreita faixa. Por esse motivo, o controle do pH do corpo é incrivelmente preciso.

4) Se você não sofre de insuficiência renal ou respiratória, NADA que você coma mudará o pH do sangue de forma significativa. Pode comer um pé de couve inteiro ou um rodízio de churrasco - o pH do sangue não muda. E ainda bem que não muda, pois tanto a alcalose metabólica quanto a acidose metabólica são situações muito graves, que você normalmente encontrará em pacientes muito doentes internados em CTI ou fazendo hemodiálise. O corpo tem mecanismos, chamados de sistema tampão, o mais importante sendo o do ácido carbônico/bicarbonato, que regulam essa função vegetativa básica.

5) O que muda é o pH da URINA. Alimentos com carga líquida ácida de fato acidificam a urina (os prótons são excretados pelo rim, que devolve o bicarbonato para o sangue para manter o sistema tampão funcionando) - exemplo: qualquer grão, integral ou não, e qualquer produto de origem animal. Alimentos com carga líquida alcalina alcalinizam a urina - exemplo: frutas cítricas, vegetais folhosos. O pH da urina muda, para que o pH do corpo não mude. A urina fica contida e isolada na bexiga, que é impermeável, a fim de manter essa diferença de pH. Releia esse parágrafo - a comida não altera o pH do sangue (aqui está uma explicação do site Brasil Escola, pois isso é matéria ensino médio - não é nenhuma bioquímica de nível universitário - todo o profissional de saúde tem obrigação de saber isso).

6) A carga ácida ou alcalina do que ingerimos depende das "cinzas" que seriam formadas por sua "queima". Cálcio alcaliniza (pois forma, por exemplo Ca(OH)2 - uma base); Fósforo acidifica, pois forma Ácido fosfórico; e assim por diante. Se consumimos muitos vegetais, por exemplo, a carga alcalina será grande, devido à grande quantidade de tais minerais formadores de base. Mesmo assim, o pH do corpo não irá mudar (o que é bom, pois alcalose metabólica é potencialmente fatal).

7) A água é neutra. Não existe água alcalina ou água ácida. Existem, isso sim, soluções diluídas de hidróxido de sódio, hidróxido de cálcio, etc, que chamamos popularmente de água mineral pois é uma água contendo minerais. O pH dessa solução será determinado pela concentração dos diferentes minerais. Faça um exercício. Pegue uma garrafa de água mineral, e leia o rótulo. Observe a quantidade MINÚSCULA de minerais contidos ali. São eles que alteram o pH da água. Agora, você acha que a CARGA ácida ou alcalina dessa solução é grande ou pequena?? Estou bebendo uma água mineral com gás enquanto escrevo essa linhas, e eis a composição.




Vejam, são valores de MILIGRAMAS por LITRO. Deixe eu lembrar o que é um miligrama.

Primeiro, a foto abaixo mostra, em colheres de chá, o que é 1 grama de sal:



Continuando: 1 g  = 1000 miligramas. Ou seja, 1 miligrama de sal, seria um milésimo da quantidade da foto acima. Eu disse um MILÉSIMO (imagine dividir essa quantidade entre MIL colheres de chá). 

Então vejamos: na água que eu estava bebendo, temos, por exemplo, 0,999 miligramas de magnésio. Ou seja, 1 miligrama por LITRO. Eu bebi meio litro, então eu bebi MEIO miligrama de magnésio

Para colocar em perspectiva: se eu comesse 1 xícara de couve refogada, eu estaria comendo 23 miligramas de magnésio. Ou seja, eu precisaria beber 23 litros dessa água para consumir o magnésio de uma xícara de couve... Então, você ainda acha que essa água irá me "alcalinizar" muito?

Quanto ao sódio, por exemplo: há 38 MILIGRAMAS por LITRO nessa marca de água, que é uma das marcas com mais sódio no mercado. Se eu bebesse 10 litros, eu estaria consumindo 380 miligramas. Quanto é isso? Um TERÇO da quantidade mostrada na colher de chá da foto acima. Então, POR QUE as pessoas se preocupam com a quantidade ridiculamente pequena de sódio na água mineral?? Falta total de pensamento crítico.

Juntando todos os sais minerais presentes nessa água (eu disse TODOS), teríamos 152 mg por LITRO. É uma pitadinha de pó quase invisível. Agora, imagine isso diluído em toda a quantidade de água de seu corpo (muitos litros!), e me diga se a carga alcalina da água mineral teria impacto significativo? Quer alcalinizar alguma coisa? Coma couve, e não água mineral! Ao menos a urina ficará mais alcalina.

Mas, e quanto ao gás da água mineral? Vai acidificar meu corpo? Causar celulite? Câncer?? Dissolver ossos? Eu não sei se já disse, mas o pH do corpo não muda, nem com comida, muito menos com o gás carbônico da água mineral. O gás da água mineral é CO2. CO2 é CO2, não importa a origem. Não há um CO2 natural, que vem dos seres vivos, e outro maligno, que vem do petróleo (dica: o petróleo também veio de seres vivos, digamos, um pouco mais antigos). É a MESMA molécula. E é a mesma que nosso corpo produz, em grande quantidade, durante toda a nossa vida. Um adulto em repouso produz, em media, 300 ml de gás carbônico por minuto. Ou cerca de um LITRO de CO2 a cada 3 minutos. Mas isso em repouso. Quando fazemos exercício, esta quantidade de CO2 pode aumentar até OITO vezes. Ou seja, pode chegar a 2400 ml por minuto. 

A quantidade de CO2 nas bebidas com gás é de cerca de 0,14 mol de CO2 por litro. Isso significaria, nas condições normais de temperatura e pressão, cerca de 1,5 litros de CO2 em uma garrafa de 500 ml de água mineral. Assim, mesmo que TODO o gás fosse diluído na corrente sanguínea, isto ainda estaria dentro de limites fisiológicos - nós apenas respiraríamos mais rápido para colocar esse CO2 para fora, assim como fazemos automaticamente no exercício. E nosso pH não mudaria. Ele não muda. Por fim, lembre-se que uma parte significativa desse CO2 retorna ao ambiente saindo diretamente do estômago, de forma nem sempre silenciosa. E o restante entra na circulação, MISTURA-SE ao CO2 endógeno, e é eliminado na respiração, como qualquer CO2. Simples assim.

Mas e o câncer? Não e verdade que ele cresce apenas em ambiente ácido?

1) O pH do sangue é estável entre 7,35 e 7,45. O que comemos não muda isso. O que bebemos não muda isso. Qualquer médico que trabalhe com medicina de verdade sabe isso. Assim, o câncer ocorre no mesmo pH que todo o resto dos fenômenos orgânicos.

2) O pH varia bastante em determinadas partes do corpo. Por exemplo, nos músculos. Quando fazemos um exercício vigoroso, não há tempo para a chegada de oxigênio em quantidade suficiente, e ocorre o exercício ANAERÓBICO, isto é, a glicose é oxidada por FERMENTAÇÃO, gerando ácido lático. O ácido lático é, como o nome diz, ácido. Assim, ocorre queda do pH localmente. Mas não confunda: isso é um fenômeno LOCALIZADO, que não tem nada a ver com o pH do resto do corpo (que oscila entre 7,35 e 7,45), e é CONSEQUÊNCIA da contração muscular anaeróbica, não causa. O fato de o pH no músculo ser frequentemente mais baixo do que o do resto do corpo não significa que o músculo só trabalha em pH baixo. É que a remoção do ácido lático pela circulação não é instantânea, o que provoca uma redução temporária do pH no local como CONSEQUÊNCIA da fermentação da glicose (glicólise anaeróbica).

3) A confusão com o câncer remonta ao início do século 20 e a um cientista brilhante chamado Otto Warburg. Otto Warburg descobriu que praticamente TODAS as células cancerígenas fermentam glicose, mesmo na presença de oxigênio. Isso ocorre em contraste com as células normais do corpo, que realizam RESPIRAÇÃO celular, na qual a glicose é completamente metabolizada até CO2 e água. A fermentação, ao contrário, gera ácido lático, e só ocorre na ausência de oxigênio (fermentação anaeróbica). Mas as células de câncer realizam fermentação aeróbica, ou seja, elas fermentam glicose e produzem ácido lático mesmo na presença de oxigênio (o chamado EFEITO WARBURG). Por conseguinte, o pH nas vizinhanças de um tumor tende a ser ácido, pelo mesmo motivo que no músculo: por acúmulo de ácido lático. A diferença é que no músculo a fermentação é facultativa, e ocorre na ausência temporária de oxigênio (exercício intenso e súbito). Já no câncer, ela ocorre mesmo com oxigênio presente, provavelmente devido à deficiência no funcionamento das mitocôndrias.
Otto Warburg em seu laboratório


4) Assim, se por um lado é verdade que o pH nos arredores das células tumorais tende a ser baixo, isso é CONSEQUÊNCIA do efeito Warburg, e não causa! Ou seja, já sabemos que nenhum alimento é capaz de alterar o pH do corpo de pessoas normais, mas MESMO que isso acontecesse, o pH baixo não tem NADA a ver com causa de tumores. O mais incrível é que o Dr Warburg, um gênio, que foi agraciado com o prêmio Nobel, sabia muito bem disso. Foram pessoas sem noção de bioquímica e desprovidas de pensamento crítico que, décadas mais tarde, entenderam ERRADO os experimentos de Warburg e chegaram à conclusão de que a acidez provocada (em suas férteis imaginações) pelos alimentos provocaria câncer.

5) A afirmação de que as células cancerígenas não se desenvolvem em pH alcalino procede, porque NENHUMA célula humana se desenvolve em pH alcalino, visto que a alcalose metabólica é um estado de doença, potencialmente fatal. É uma afirmação, portanto, pueril.


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Finalmente eu cheguei no ponto onde queria chegar. O que faz com que as pessoas sejam extremamente críticas no que diz respeito, por exemplo, às estatinas para tratamento do colesterol, mas sejam COMPLETAMENTE ingênuas no que tange a esse assunto do pH, da água alcalina e do câncer?

Veja, no que diz respeito a estatinas e colesterol, podemos questionar as indicações de tratamento, podemos questionar a magnitude dos riscos bem como o pequeno impacto da sua redução. Mas estamos falando de um fenômeno REAL, baseado em ciência sólida, com dezenas de ensaios clínicos randomizados. O fenômeno é REAL. A estatinas REDUZEM o risco cardiovascular. Só que pouco. O colesterol AUMENTA o risco cardiovascular. Só que pouco. A gordura da dieta NÃO TEM RELAÇÃO com mortalidade. Isso são fatos. E aqueles de nós que adotam uma abordagem crítica em relação às diretrizes vigentes interpretam com grande rigor estes estudos, procurando e criticando CADA PEQUENA FALHA METODOLÓGICA dos mesmos.

E, contudo, quando alguém diz que água alcalina previne o câncer pois o câncer se forma por causa da acidez, apertamos CURTIR no Facebook??? Vocês conseguem vislumbrar o ABISMO que separa essas duas coisas? A primeira é uma análise avançada e cheia de nuances sobre riscos relativos e absolutos de coisas REAIS, a outra é pura fantasia, pensamento mágico, quase infantil. O nível de pensamento científico necessário para refutar algumas dessas coisas é de ensino médio, coisas como química inorgânica, regra de três. Pessoal, isso poderia ser pergunta de vestibular. Ou de ENEM. Sabendo-se que a composição da couve é X e a da água mineral é Y, se eu comer uma xícara de couve ou beber 5 litros de água, qual terá mais impacto sobre o equilíbrio ácido-básico do corpo? É serio - ensino médio basta.

Não podemos acreditar que vamos curar o câncer chupando limão ou bebendo bicarbonato, e ao mesmo tempo criticar o estudo da rosuvastatina porque a redução do risco relativo foi pouco significativa e a população estudada não representa a média das pessoas que atendemos. Há uma assimetria fundamental entre uma atitude intelectualmente primitiva (para os conceitos "amigos") e outra complexa (para os conceitos "inimigos").

Isso me faz voltar ao início dessa postagem. Num show de mágica, temos por hábito a prática da suspensão voluntária da descrença. Mas, no dia a dia, para coisas que realmente importam (compra de um carro usado, nossa saúde), temos que ligar o botão do ceticismo. Não podemos "ligar" nossas faculdades críticas ao examinar um estudo que questiona a "Medicina Convencional", mas aceitar sem crítica afrontas diretas ao bom senso apenas por que foram proferidas de acordo com uma "Medicina Alternativa". Não existe medicina alternativa. Há apenas boa medicina, e má medicina. O MESMO rigor científico e crítico precisa ser exercido para AMBOS lados.


***

Eu tinha 16 anos, recém tinha entrado na faculdade de medicina, quando li o livro mais importante da minha vida - e não era sobre dieta:



Se é que pensamento crítico pode ser ensinado, comece lendo esse livro (e depois o do Taubes!).

É neste livro que está a lista de falácias lógicas a que eu recorro com tanta frequência (como a do espantalho)

Segue a lista de falácias:

  • ad hominem — expressão latina que significa “ao homem”, quando atacamos o argumentador e não o argumento (por exemplo: A reverenda dra. Smith é uma conhecida fundamentalista bíblica, por isso não precisamos levar a sério suas objeções à evolução);
  • argumento de autoridade (por exemplo: O presidente Richard Nixon deve ser reeleito porque ele tem um plano secreto para pôr fim à guerra no Sudeste da Ásia — mas, como era secreto, o eleitorado não tinha meios de avaliar os méritos do plano; o argumento se reduzia a confiar em Nixon porque ele era o presidente: um erro, como se veio a saber);
  • argumento das consequências adversas (por exemplo: Deve existir um Deus que confere castigo e recompensa, porque, se não existisse, a sociedade seria muito mais desordenada e perigosa talvez até ingovernável *2. Ou: O réu de um caso de homicídio amplamente divulgado pelos meios de comunicação deve ser julgado culpado; do contrário, será um estímulo para os outros homens matarem as suas mulheres);
  • apelo à ignorância — a afirmação de que qualquer coisa que não provou ser falsa deve ser verdade, e vice-versa (por exemplo: Não há evidência convincente de que os UFOs não estejam visitando a Terra; portanto, os UFOs existem — e há vida inteligente em outros lugares no Universo. Ou: Talvez haja setenta quasilhões de outros mundos, mas não se conhece nenhum que tenha o progresso moral da Terra, por isso ainda somos o centro do Universo). Essa impaciência com a ambiguidade pode ser criticada pela expressão: a ausência de evidência não é evidência da ausência;
  • alegação especial, frequentemente para salvar uma proposição em profunda dificuldade teórica (por exemplo:Como um Deus misericordioso pode condenar as gerações futuras a um tormento interminável, só porque, contra as suas ordens, uma mulher induziu um homem a comer uma maçã? Alegação especial: Você não compreende a doutrina sutil do livre-arbítrio. Ou: Como pode haver um Pai, um Filho e um Espírito Santo igualmente divinos na mesma Pessoa? Alegação especial: Você não compreende o mistério da Santíssima Trindade. Ou: Como Deus permitiu que os seguidores do judaísmo, cristianismo e islamismo — cada um comprometido a seu modo com medidas heróicas de bondade e compaixão — tenham perpetrado tanta crueldade durante tanto tempo? Alegação especial: Mais uma vez você não compreende o livre-arbítrio. E, de qualquer modo, os movimentos de Deus são misteriosos);
  • petição de princípio, também chamada de supor a resposta (por exemplo: Devemos instituir a pena de morte para desencorajar o crime violento. Mas a taxa de crimes violentos realmente cai quando é imposta a pena de morte? Ou: A bolsa de valores caiu ontem por causa de um ajuste técnico e da realização de lucros por parte dos investidores. Mas há alguma evidência independente do papel causal do “ajuste” e da realização de lucros? Aprendemos realmente alguma coisa com essa pretensa explicação?);
  • seleção das observações, também chamada de enumeração das circunstâncias favoráveis, ou, segundo a descrição do filósofo Francis Bacon, contar os acertos e esquecer os fracassos *3 (por exemplo: Um Estado se vangloria do presidente que gerou, mas se cala sobre os seus assassinos que matam em série);
  • estatística dos números pequenos — falácia aparentada com a seleção das observações (por exemplo: ” Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa. Atenciosamente “. Ou: Tirei três setes seguidos. Hoje à noite não tenho como perder).
  • compreensão errônea da natureza da estatística (por exemplo: O presidente Dwight Eisenhower expressando espanto e apreensão ao descobrir que metade de todos os norte-americanos tem inteligência abaixo da média);
  • incoerência (por exemplo: Prepare-se prudentemente para enfrentar o pior na luta com um potencial adversário militar, mas ignore parcimoniosamente projeções científicas sobre perigos ambientais, porque elas não são “comprovadas”. Ou: Atribua a diminuição da expectativa de vida na antiga União Soviética aos fracassos do comunismo há muitos anos, mas nunca atribua a alta taxa de mortalidade infantil nos Estados Unidos (no momento, a taxa mais alta das principais nações industriais) aos fracassos do capitalismo. Ou: Considere razoável que o Universo continue a existir para sempre no futuro, mas julgue absurda a possibilidade de que ele tenha duração infinita no passado);
  • non sequitur — expressão latina que significa “não se segue” (por exemplo: A nossa nação prevalecerá, porque Deus é grande. Mas quase todas as nações querem que isso seja verdade; a formulação alemã era “Gott mit uns”). Com frequência, os que caem na falácia non sequitur deixaram simplesmente de reconhecer as possibilidades alternativas;
  • post hoc, ergo propter hoc — expressão latina que significa “aconteceu após um fato, logo foi por ele causado” (por exemplo, Jaime Cardinal Sin, arcebispo de Manila: ” Conheço [...] uma moça de 26 anos que aparenta sessenta porque ela toma a pílula [anticoncepcional] “. Ou: Antes de as mulheres terem o direito de votar, não havia armas nucleares);
  • pergunta sem sentido (por exemplo: O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto imóvel? Mas se existe uma força irresistível, não pode haver objetos imóveis, e vice-versa);
  • exclusão do meio-termo, ou dicotomia falsa — considerando apenas os dois extremos num continuum de possibilidades intermediárias (por exemplo: Claro, tome o partido dele; meu marido é perfeito; eu estou sempre errada. Ou: Ame o seu país ou odeie-o. Ou: Se você não é parte da solução, é parte do problema);
  • curto prazo versus longo prazo — um subconjunto da exclusão do meio-termo, mas tão importante que o separei para lhe dar atenção especial (por exemplo: Não temos dinheiro para financiar programas que alimentem crianças mal nutridas e eduquem garotos em idade pré-escolar. Precisamos urgentemente tratar do crime nas ruas. Ou: Por que explorar o espaço ou fazer pesquisa de ciência básica, quando temos tantas pessoas sem teto?);
  • declive escorregadio, relacionado à exclusão do meio-termo (por exemplo: Se permitirmos o aborto nas primeiras semanas da gravidez, será impossível evitar o assassinato de um bebê no final da gravidez. Ou, inversamente: Se o Estado proíbe o aborto até no nono mês, logo estará nos dizendo o que fazer com os nossos corpos no momento da concepção);
  • confusão de correlação e causa (por exemplo: Um levantamento mostra que é maior o número de homossexuais entre os que têm curso superior do que entre os que não o possuem; portanto, a educação torna as pessoas homossexuais. Ou: Os terremotos andinos estão correlacionados com as maiores aproximações do planeta Urano; portanto — apesar da ausência de uma correlação desse tipo com respeito ao planeta Júpiter, mais próximo e mais volumoso — o planeta Urano é a causa dos terremotos); *4
  • espantalho — caricaturar uma posição para tornar mais fácil o ataque (por exemplo: Os cientistas supõem que os seres vivos simplesmente se reuniram por acaso — uma formulação que ignora propositadamente a ideia darwiniana central, de que a natureza se constrói guardando o que funciona e jogando fora o que não funciona. Ou isso é também uma falácia de curto prazo/longo prazo — os ambientalistas se importam mais com anhingas e corujas pintadas do que com gente);
  • evidência suprimida, ou meia verdade (por exemplo: Uma “profecia” espantosamente exata e muito citada do atentado contra o presidente Reagan é apresentada na televisão; mas — detalhe importante — foi gravada antes ou depois do evento? Ou: Esses abusos do governo pedem uma revolução, mesmo que não se possa fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos. Sim, mas será uma revolução que causará muito mais mortes do que o regime anterior? O que sugere a experiência de outras revoluções? Todas as revoluções contra regimes opressivos são desejáveis e vantajosas para o povo?);
  • palavras equívocas (por exemplo, a separação dos poderes na Constituição norte-americana especifica que os Estados Unidos não podem travar guerra sem uma declaração do Congresso. Por outro lado, os presidentes detêm o controle da política externa e o comando das guerras, que são potencialmente ferramentas poderosas para que sejam reeleitos. Portanto, os presidentes de qualquer partido político podem ficar tentados a arrumar disputas, enquanto desfraldam a bandeira e dão outros nomes às guerras — “ações policiais”, “incursões armadas”, “ataques de reação protetores”, “pacificação”, “salvaguarda dos interesses norte-americanos” e uma enorme variedade de “operações”, como a “Operação da Causa Justa”. Os eufemismos para a guerra são um dos itens de uma ampla categoria de reinvenções da linguagem para fins políticos. Talleyrand disse: “Uma arte importante dos políticos é encontrar novos nomes para instituições que com seus nomes antigos se tornaram odiosas para o público”).
Segue uma boa resenha do livro:

O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro
Carl Sagan
Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

por Roberto Belisário
Seqüestros por alienígenas, anjos e gnomos, feitiçarias e maus-olhados, curas quânticas e o poder extraordinário das pirâmides. Um dos muitos paradoxos do mundo moderno é a convivência entre o enorme sucesso da ciência e da tecnologia e a disseminação de crenças não-científicas ou pseudo-científicas nas sociedades.
Mitos sempre existiram. A novidade é que, no seio de nossa cultura "científica", vários deles assumem formas "modernas" e procuram na própria ciência respaldo para se sustentar - apesar de atropelarem sistematicamente os métodos científicos -, produzindo as chamadas "pseudociências". Ironicamente, sua difusão é enormemente facilitada pelos mesmos meios de comunicação de massa que a ciência ajudou a criar. A ciência é "filtrada" por uma mídia em grande parte acrítica e sua parte mais importante, o seu método crítico, não chega à população em geral.
Poucos cientistas se arriscam nesse debate. O astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan (1934-1996), autor da série de TV Cosmos e um dos maiores divulgadores científicos de nossa época, é uma exceção. Em O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, ele ergue o estandarte da ciência para mostrar as origens das teorias pseudocientíficas e usa-o para rebater inúmeros casos específicos, desde histórias famosas sobre raptos por alienígenas até "superstições estatísticas" em loterias e jogos de roleta.
A tese central de Sagan é que o antídoto do cidadão comum para não tomar gato por lebre - ou ciência por pseudociência - é a aliança equilibrada entre a postura cética e a abertura da mente para idéias novas. A importância dessa atitude, diz o autor, é que "as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior" (pág. 21), devido aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida cotidiana, quando mau usados. Desde 1996, ano da publicação do livro, os acontecimentos confirmaram e aprofundaram essa idéia: avanços recentes como os medicamentos genéricos, alimentos transgênicos e a engenharia genética, além de fatores mais antigos, como usinas nucleares, armas nucleares, antibióticos usados indiscriminadamente e produtos que destróem a camada de ozônio exigem modificações na legislação e a participação de toda a sociedade para evitar efeitos nocivos. [1]
Boa parte do livro contém uma coleção preciosa de desmistificações de uma série de fenômenos "inexplicáveis", incluindo previsões astrológicas, visões e raptos por discos voadores e bruxarias. Mas a obra não se resume a um compêndio de desmentidos. Trata-se de um livro vasto, que cobre uma série de aspectos das origens das pseudociências e das relações entre a ciência e a sociedade.
Pode-se distinguir, entre os 25 capítulos, cinco partes principais. Nos dois primeiros, discute-se a importância da ciência e suas características principais. A seguir, passa-se a discutir os principais fatores responsáveis pela permanência das crenças não-científicas na sociedade. As razões são certas características culturais e biológicas herdadas de nossos antepassados longínquos, fundamentais para a sobrevivência de nossa espécie, mas que podem funcionar como armadilhas para o discernimento quando não reconhecidas. Cada capítulo versa sobre um aspecto dessas armadilhas, ilustrado por vários exemplos concretos.

Foto da "Face de Marte" , tirada pela sondanorte-americana Viking Orbiter 1,após tratamento digital. "A Face"
guarda surpreendente semelhança
com o rosto de Cristo.
Fonte: Nasa
Por exemplo,a capacidade de reconhecer padrões, inata no ser humano e que nos faz abstrair formas em nuvens e em conjuntos de estrelas (constelações), é responsável pelas visões de canais em Marte e da face de Cristo no mesmo planeta. Alucinações, coletivas ou não, são ilustradas por visões de OVNIs e da Virgem Maria. Reconhecimento de padrões também aparecem na falsa identificação de regularidades em fenômenos aleatórios, como em especulações em jogos de loteria e de roleta.
Sendo o autor astrônomo, boa parte desses primeiros capítulos dedica-se a desmentir histórias sobre visões e raptos por seres extraterrestres, incluindo falsificações propositais - como os círculos perfeitos nas plantações da Inglaterra -, teorias conspiracionistas, como os casos Roswell e da Área 51 [2] e disseminações de histórias através de uma mídia quase acrítica.
A maior parte dos outros assuntos é abordada em função das histórias sobre ETs. Por exemplo, são identificados alguns paralelos entre histórias de raptos por OVNIs e histórias de bruxas e de rituais satânicos - a maioria dos elementos centrais das histórias de rapto por alienígenas está, segundo o autor, presente na paranóia que queimou inúmeras mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média. Sagan pretende mostrar com isso que os relatos de raptos por alienígenas são apenas mais um tipo de representação mítica dos medos e desejos humanos: os ETs seriam as versões modernas das bruxas, gnomos e duendes (curiosamente, o Brasil está experimentando um novo "surto" de duendes e anjos povoando o mundo, responsável pela repercussão de obras como as da escritora Mônica Buonfiglio). Alguns casos de raptos por alienígenas e de rituais satânicos são explicados a partir da memória recuperada de abusos sexuais na infância.

A mesma foto da Face de Marte tirada pela sonda norte-americana Mars Global Surveyor, em 1998. As sombras, mais detalhadas, já não sugerem face alguma.Fonte: Nasa
A obra não é um texto de filosofia da ciência ou de epistemologia e Sagan não se aprofunda nas relações entre pseudociências, mitos, medos e desejos. Essas relações são visíveis, porém, numa leitura atenciosa do livro. O maior valor dessa parte da obra está em mostrar como as diversas pseudociências não resistem a uma análise mais apurada.
A partir do capítulo 12, a abordagem muda e o autor passa a complementar os doisprimeiros capítulos com a descrição das características da ciência, as razões pelas quais a abordagem científica é a mais apropriada e a comparação com as pseudociências. Novamente Sagan não mergulha em teorias epistemológicas, mas descreve o lado prático do pensamento cético, baseado em sua experiência como cientista. Sagan apresenta o que chama de "kit de detecção de mentiras", uma exposição bem elaborada da essência do pensamento cético e seus instrumentos. Esta parte da obra inclui uma interessantíssima lista de cerca de 20 falácias de argumentação mais comuns (páginas 210-215), ilustradas por numerosos exemplos afinados com o cotidiano das pessoas. Por exemplo, o argumento ad hominem, "quando atacamos o argumentador e não o argumento", ou o post hocergo propter hoc ("aconteceu após um fato, logo foi por ele causado").
Nos oito capítulos finais, Sagan afasta-se do combate direto à pseudociência e passa a descrever as relações entre a ciência e a sociedade. Os problemas na educação e na divulgação científica são abordados nos primeiros três. Os últimos são dedicados às relações entre ciência e política, incluindo a importância da cultura científica na formação da cidadania (o autor tem uma experiência pessoal a contar sobre isso), a relação entre instrução e liberdade, a importância da pesquisa básica e o problema das verbas para pesquisas.
Uma agradável surpresa aparece nas páginas 324-327, quando o autor tenta passar sua enorme experiência em divulgação científica e explica ao leitor como ela deve ser feita. Qual o segredo da vulgarização científica de sucesso? Sagan é direto: "não falar para o público em geral como falaríamos com nossos colegas do ramo" é o único segredo. Entre as "armadilhas potenciais" no trabalho de divulgação, Sagan cita "a simplificação exagerada, a necessidade de ser econômico com as qualificações (e quantificações), o crédito inadequado dado aos muitos cientistas envolvidos e as distinções insuficientes traçadas entre as analogias úteis e a realidade". Entre os bons exemplos de divulgadores, são citados os biólogos Stephen Jay Gould e Richard Dawkins, os físicos Steven Weinberg e Kip Thorne, o químico Roald Hoffmann e os astrônomos Fred Hoyle e Isaac Asimov.
[1] O caso da África do Sul é um exemplo concreto de o quanto o analfabetismo científico pode ser trágico: o presidente Thako Mbeki recusa-se a aceitar as inúmeras pesquisas que apontam o vírus HIV como o causador da AIDS (vide a Decração de Durban) e proibiu a administração de medicamentos à população, inclusive às gestantes, cujos filhos teriam muito mais chances de serem salvos se fossem medicadas (cf. Folha de S. Paulo de 17/12/00, pág. A25). A África do Sul é um dos países mais atingidos pela AIDS, com cerca de 10% da população contaminada pelo HIV. Outro caso famoso é o da cantora Nara Leão, que tentou curar um tumor no cérebro através de medicinas alternativas que não fizeram mais do que fazer desaparecer os sintomas (um efeito perigosíssimo!). Nara morreu por causa do tumor pouco depois, em 1989.
[2] O leitor pode tentar desvendar com seus próprios olhos os "mistérios" da ex-secretíssima base militar norte-americana conhecida como "Área 51" nas fotos de satélite disponíveis desde 1998 no site da Terraserver .

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