sábado, 30 de maio de 2015

A falta que o ceticismo faz - como enganar toda a imprensa mundial

A incrível história de como um jornalista alemão inventou um nome falso, criou um instituto de pesquisa fictício, fabricou um estudo fajuto, publicou os resultados em um periódico científico fake e convenceu a mídia mundial de que chocolate emagrece. Ou: "quando desejo e credulidade se encontram".

Muitas vezes escrevo aqui no blog sobre a importância de ser cético, sobre como a imprensa apenas reproduz os press releases (comunicados de imprensa) dos pesquisadores sem dar-se ao trabalho de ler o estudo original, saber que tipo de estudo é esse, qual a magnitude absoluta dos efeitos relatados, etc., e como a imprensa nacional costuma ser ainda menos sofisticada, limitando-se a traduzir tais reportagens estrangeiras, e mesclando-as com a opinião de especialistas nacionais que não entendem do assunto.

Pois bem, o jornalista John Bohannon resolveu mostrar tudo isso em escala mundial - uma pegadinha gigante!! - e quase todo mundo caiu! Sempre acreditei que o humor consegue passar a mensagem de uma forma que 1000 argumentos podem não conseguir. Acho que a imprensa não achou nada engraçado. Já eu, estou rindo há uns três dias :-)




As notícias saíram na imprensa mundial, e logo depois foram copiadas no Brasil. Na época, lembro-me de ter visto a notícia em muitos sites. Agora, convenientemente, ela sumiu... Mas um exemplo pode ser visto no site da Folha de São Paulo. A matéria original saiu publicada no dia 07/04/2015, às 09:50 da manhã:


Comer chocolate todo dia pode ajudar a emagrecer, diz estudo

07/04/2015 - 09h50
DA ANSA
Comer chocolate diariamente pode ajudar a emagrecer. Pelo menos é o que garante uma descoberta publicada recentemente pela revista "International Archives of Medicine", o que pode alegrar muita gente.
Segundo o estudo alemão —coordenado pela pesquisadora da Universidade de Tel Aviv Daniela Jakubowicz—, o doce pode ser útil na hora de perder peso se ingerido junto a uma dieta de baixo teor de carboidratos.
Para a realização da pesquisa, os estudiosos separaram os participantes em três grupos. Os integrantes do primeiro ficaram à base de uma dieta com poucos carboidratos e nada da guloseima.
Já os do segundo fizeram uso da mesma alimentação, mas consumiram 42 gramas de chocolate amargo (com cerca de 80% de cacau) todos os dias. E as pessoas do terceiro continuaram comendo normalmente.

Após um período já preestabelecido, os pesquisadores perceberam que os membros dos dois primeiros grupos conseguiram perder peso, mas os do terceiro, não. Além disso, foi descoberto que quem comeu o doce diariamente emagreceu 10% a mais em relação aos voluntários do primeiro.
Agora, foi atualizado, em 28/05/2015, com o seguinte parágrafo:

SÓ QUE NÃO
Na realidade, o estudo acima foi uma pegadinha. O instituto de Dieta e Saúde não existe, e o autor da pesquisa, Johannes Bohannon, na verdade se chama John Bohannon, um jornalista que quis testar a imprensa.

O autor dessa "pegadinha" sensacional escreveu uma reportagem explicando toda a trama: o original está aqui, e quem lê inglês deve parar tudo e ler AGORA: http://io9.com/i-fooled-millions-into-thinking-chocolate-helps-weight-1707251800

--> Sei que o grande Hilton Sousa, do Paleodiario, já está traduzindo o original, de modo que logo poderei postar aqui para vocês.

Mas eis os pontos principais:

  • A brincadeira foi levada a sério e noticiada em 20 países e meia dúzia de idiomas;
  • O autor do estudo não existe (custava verificar?);
  • O Institute of Diet and Health não existe: era apenas um site que o autor inventou (custava verificar??);
  • A revista científica na qual o estudo foi publicado era um FALSO periódico "peer reviewed" (sim, isso existe!), que aceita qualquer trabalho mediante pagamento de 600 Euros;
  • John Bohannon, jornalista, foi contactado pela TV alemã para mostrar, de forma clara, como ciência nutricional ruim (pleonasmo) facilmente produz manchetes;
  • O estudo foi realmente feito!! Mas foi baseado em 15 voluntários, distribuídos em 3 grupos, ou seja, CINCO pessoas em cada grupo, por apenas 21 dias (grupo controle, grupo low carb, grupo low carb com chocolate);
  • Ambos grupos low carb perderam um pouco de peso (3 quilos, o esperado). Mas os autores testaram 18 variáveis diferentes. E por que eles fizeram isso? Porque se você testar 18 variáveis diferentes em QUALQUER estudo (especialmente com poucos voluntários), você terá uma alta chance de encontrar alguma FALSA relação estatisticamente significativa entre elas, apenas devido ao ACASO (para um exemplo disso no mundo real, clique aqui);
  • De fato, o chocolate não parecia estar influenciando em nada, mas graças ao truque de apenas 5 voluntários por grupo, e graças às 18 variáveis medidas, alguma delas estava fadada a - por PURO ACASO - demonstrar uma correlação estatística;
  • Então, resulta que o grupo do chocolate perdeu peso "mais rápido". 10% mais rápido. 10% é uma diferença em termos relativos - um jornalista científico precisaria saber os números absolutos. Em 3 Kg, isso significaria 300 gramas, que teriam sido perdidos mais rapidamente. Uma variação de 300g em um grupo de 5 pessoas quando comparado a outro... é menos do que a diferença de peso de uma pessoa antes e depois de evacuar.
O resto foi fácil: bastava fazer um "press release", com manchete chamativa, um assunto que, se fosse verdade, agradaria a todos, e fotos de mulheres bonitas comendo chocolate. Logo as agências de notícias passaram a matéria adiante, e a coisa se deu da forma como costuma acontecer: reprodução sem crítica de conteúdo "científico", com o objetivo de preencher espaço em sites, jornais e revistas.

A palavra-chave aqui chama-se CETICISMO (ou, no caso, a falta dele). Como escrevi certa vez aqui:

"O ceticismo é uma ferramenta saudável e imprescindível. É a faculdade de suspender provisoriamente nossa tendência de acreditar. E quase todos nós fazemos uso do ceticismo diariamente, quando falamos com um vendedor de carros usados, quando ouvimos um político fazer promessas, quando recebemos um email dizendo que fomos sorteados para receber 1 milhão de dólares, bastando clicar no link sublinhado...
No entanto, quando a informação é proveniente de figuras de autoridade, muitas pessoas simplesmente abandonam completamente o ceticismo, como se médicos, cientistas e suas organizações fossem imunes aos conflitos de interesse. Não são.
O que estou sugerindo aqui é que você tenha, com relação à vida em geral e às diretrizes produzidas por sociedades médicas e governos em particular, o mesmo grau de ceticismo que você teria ao comprar um veículo usado. "
A questão fundamental é a seguinte: se dois ou três jornalistas, com um orçamento de poucas centenas de euros, conseguem implantar na imprensa mundial uma bobagem tão grande, imagine o que corporações multibilionárias podem fazer, de forma bem mais sutil?

Imagine se você puder introduzir vieses em resultados, mas, ao contrário da pegadinha de John Bohannon, imagine que você possua, em sua folha de pagamento, pesquisadores reais, universidades respeitáveis, periódicos peer reviewed legítimos - e uma legião de jornalistas sedentos por novidades e furos exclusivos?

Estamos perdidos? Como nós, meros mortais, podemos deixar de ser enganados?

Para quem é completamente leigo, não é fácil. Afinal, o periódico no qual o artigo foi publicado é indexado, afirma ser peer reviewed, mas John Bohannon nos explica que bastou pagar 600 Euros e o artigo foi publicado na forma como estava, sem nenhuma modificação, e sem nenhum peer review.

Mas há, hoje, uma nova modalidade informal de peer review: a blogosfera. As perguntas que os jornalistas deveriam ter feito e não fizeram, foram feitas por diversos blogs especializados em uma abordagem cética e científica sobre ciência da nutrição. Se você não tem tempo, paciência ou expertise para criticar a qualidade científica do último estudo mencionado na mídia, use alguma das fontes a seguir:


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Bônus

Esta postagem não tem como objetivo denegrir todos os jornalistas. Há bons e maus profissionais em todas as áreas. Nesta postagem, podemos encontrar o pior e o melhor do jornalismo. As duas pessoas mais importantes da história da nutrição moderna não são nutricionistas nem médicos, e sim jornalistas: Gary Taubes e Nina Teicholz

O trabalho de John Bohannon se insere nessa fantástica tradição de jornalismo de excelência. Eu já o acompanhava desde o ano passado, quando ele escreveu sobre o problema dos falsos periódicos peer reviewed (leia aqui, em português).

Ano passado, um matemático português fez uma pegadinha semelhante, mas ainda mais bizarra: ele usou um gerador de palavras aleatórias, e seu artigo foi aceito e publicado em 157 revistas! Leia aqui.

Até onde eu saiba, a tradição começou com o (sensacional) livro de Alan Sokal, hoje disponível em português, chamado Imposturas Intelectuais. Eu li este livro ainda nos anos 90 - estou quase lendo de novo!

Da WikipediaO caso Sokal (ou escândalo Sokal) foi um escândalo ocorrido no meio acadêmico durante a segunda metade da década de 1990. O caso eclodiu em 1996, quando o físico Alan Sokal publicou um artigo-embuste na revista Social Text (publicada pela Duke University Press), publicação de estudos culturais até então conhecida por seu caráter “pós-moderno”.
Professor de Física na Universidade de Nova Iorque, Sokal submeteu o artigo à publicação como um experimento para ver se um jornal desse tipo iria “publicar um artigo generosamente temperado com nonsense se (a) o artigo soasse bem e (b) o artigo exaltasse as concepções ideológicas dos editores”1 .
O artigo, intitulado “Transgressing the Boundaries: Towards a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity2 (em português, “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”), foi publicado na edição de “Guerras da Ciência” da Social Text e argumentava que a gravidade quântica seria uma construção social e linguística. Na época, a revista não contava com um processo de revisão por pares e não submeteu o artigo a revisores . Na época da publicação, Sokal anunciou em outra publicação - Lingua Franca - que o artigo era uma fraude, qualificando-o como “um pasticho de jargões esquerdistas, referências aduladoras, citações pomposas e completo nonsense", tendo sido “estruturado em torno das citações mais tolas que eu pude encontrar sobre Matemática e Física” feitas por acadêmicos pós-modernos.

O livro é muito divertido, especialmente para aqueles de vocês que são oriundos das ciências sociais.

Então, lembre-se:

Qual a cura para isso?

Ceticismo. Nossa profunda necessidade de QUESTIONAR.


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