sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Desinformação

Nos últimos dias, tenho recebido uma enxurrada de mensagens de leitores sobre declarações feitas por uma nutricionista em rede nacional, em um programa da Globo.

Normalmente, não faço postagens apenas para rebater tolices que saem na mídia nacional, caso contrário eu não faria mais nada na vida. Mas, enfim, às vezes pode ser didático, quando a coisa é tão errada a ponto de ser caricato.

O texto transcrito é o seguinte:

Tem pessoas usando óleo de coco para cozinhar. É caríssimo! Um potinho desse às vezes sai mais de trinta reais, quarenta. Quase cinquenta reais em alguns lugares.
É bom ou ruim?
Não, ele não traz nenhum benefício. Ao contrário, o óleo de coco, se a gente observar aqui nele [no rótulo], ele é branco e duro, portanto, rico em gordura saturada e a gordura saturada nós sabemos que aumenta o colesterol. O óleo de coco ainda tem um problema que ele aumenta a inflamação. Ele aumenta a inflamação no tecido adiposo, e as pessoas às vezes usam óleo de coco pra emagrecer e estão fazendo algo contrário, elas estão aumentando a inflamação justamente do tecido adiposo.
E lembrando, né Mariana, que o coco ele tem muitas calorias. Depois do óleo, é o alimento mais calórico na natureza.
A apresentadora em seguida diz que, seguindo a dica da entrevistada Ana Maria, os consumidores devem preferir o óleo de canola. Caso contrário, se for muito caro, pode ser o de soja mesmo. “Vai alternando entre os dois pois são os melhores em termos nutricionais.
Ok, vejamos, por onde começar?

Primeiro, a reposta resumida:

  • A melhor evidência científica disponível em 2015 indica que não existe associação entre gordura saturada na dieta e mortalidade por todas as causas, doença cardiovascular, doença coronariana, isquemia cerebral ou diabetes tipo 2;
  • O colesterol total tende a aumentar com o consumo de gordura saturada, mas mais devido ao aumento do HDL (o que é bom). Há diversos tipo de de gordura saturada, e a gordura do óleo de coco está associada com melhora do perfil lipídico;
  • A afirmação de que óleo de coco "aumenta a inflamação" é completamente fictícia, e a literatura sugere justamente o contrário.
  • O fato de ser um alimento caloricamente denso é irrelevante, pois já sabemos que, em dietas low carb, as pessoas perdem mais peso sem contar calorias, justamente devido à alta saciedade produzida por alimentos naturais como o coco;
  • A ideia de que dever-se-ia preferir óleo de canola ou óleo de soja é muito controversa. Se formos utilizar o argumento da nutricionista, sobre qual óleo provoca mais inflamação, soja seria pior. O melhor estudo prospectivo e randomizado sobre substituição de gordura saturada por óleo vegetal mostra aumento da mortalidade com este último.
A seguir, a explicação detalhada de cada ponto, com aquilo que a nutricionista não forneceu: REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS com alto nível de evidência:

1) Contém muita gordura saturada.
Sim, é verdade. E daí? Qual o estudo com alto nível de evidência que diz que isso é um problema? Há vários que mostram que isso é irrelevante: vamos relembrar?








Conclusions Saturated fats are not associated with all cause mortality, CVD, CHD, ischemic stroke, or type 2 diabetes
"Conclusões: gorduras saturadas não estão associadas com mortalidade por todas as causas, doença cardiovascular, doença coronariana, isquemia cerebral ou diabetes tipo 2"

A título de honestidade intelectual, devo citar uma nova metanálise da Cochrane, de 2015, que reavaliou a sua posição (que previamente era de que modificar gordura na dieta não tinha nenhum impacto), e que agora sugere que a substituição de gordura saturada por insaturada pode produzir uma PEQUENA redução no risco cardiovascular (mas NÃO NA MORTALIDADE):

Reduction in saturated fat intake for cardiovascular disease (Hooper L, Martin N, Abdelhamid A, Davey Smith G. Reduction in saturated fat intake for cardiovascular disease. Cochrane Database of Systematic Reviews 2015, Issue 6. Art. No.: CD011737. DOI: 10.1002/14651858.CD011737.)


Esta metanálise encontrou que a redução de gordura saturada não traz benefício se a gordura for substituída por carboidratos (óbvio!), não reduz a mortalidade geral nem cardiovascular, mas reduz em 1,36% a chance de sofrer eventos cardiovasculares (incluindo os não fatais). A magnitude desse efeito, se for real, é extremamente pequena.

Enfim, dentre 4 metanálises especificamente sobre o assunto, apenas uma discorda sobre a benignidade da gordura saturada, e mesmo assim fazendo ressalvas sobre a diminuta magnitude do efeito (uma redução absoluta de 1,36%), SEM EFEITO sobre a mortalidade.

Conclusão: o fato de o óleo de coco ser uma gordura saturada não é problema, visto que NÃO EXISTE associação entre gordura saturada e mortalidade e segundo a maioria dos estudos, nem sequer existe associação com doença cardiovascular ou outras patologias associadas.

2) Gordura saturada aumenta o colesterol. Sim, e não. Gordura saturada aumenta o colesterol TOTAL. Quando isso se deve predominantemente ao HDL, isto é uma coisa BOA. Há diversos tipo de de gordura saturada. O coco é rico em triglicerídeos de cadeia média, com cerca de 50% sendo de ácido láurico. Quais a evidências de que um consumo elevado de coco traria consequências adversas? Desconheço. O que temos é o seguinte:

a.1) Populações com ALTO consumo de gordura de coco gozam de boa saúde e baixa morbidade cardiovascular:

Cholesterol, coconuts, and diet on Polynesian atolls: a natural experiment: the Pukapuka and Tokelau island studies.

Am J Clin Nutr August 1981, vol. 34 no. 8 1552-1561

Neste estudo, comparam-se duas ilhas do pacífico, com grandes diferenças na quantidade de gordura saturada advinda do coco:

"Os Tokelauanos obtêm uma percentagem muito maior de energia a partir de coco do que os Pukapukanos: 63 % versus 34 %. Assim, seu consumo de gorduras saturadas é muito maior. Os níveis de colesterol sérico são de 35 a 40 mg maiores em Tokelauanos do que em Pukapukanos. Estas grandes diferenças são provavelmente devidas ao elevado consumo de gordura saturada dos Tokelauanos. A análise de uma variedade de amostras de alimentos e de biópsias de gordura humana mostram um alto conteúdo de ácido láurico (12:0) e ácido mirístico (14:0). A doença vascular é rara em ambas populações, e não há nenhuma evidência de que a ingestão elevada de gordura saturada tenha um efeito prejudicial nestas populações".

Ou seja, não estamos falando de pessoas que usam algumas colheres de sopa de gordura de coco para cozinhar, e sim de pessoas que comem, a vida toda, mais de 60% de todas as suas calorias em forma de gordura saturada de coco. Ainda assim, nenhuma evidência de aumento de doenças cardiovasculares.

a.2) Já postei previamente sobre outro exemplo de duas outras populações, nas quais uma consumia sua dieta tradicional, com 60% das calorias compostas de gordura saturada de coco, versus uma população etnicamente idêntica porém com dieta ocidentalizada. Vai aqui só um pedaço da postagem:
"Em Vanuatu, as pessoas comem da forma que vêm comendo há décadas - mantimentos que eles mesmo plantam, colhem ou pescam - principalmente peixes, hortaliças e coco.
Em torno de 60% de suas calorias vêm da gordura, mais do que o dobro da ingesta na Nova Zelândia. Havia muito pouco carboidrato, apenas uma pequena quantidade de arroz.
Enquanto isso, em Kiribati, os ilhéus sobreviviam com base em importações baratas tais como refrigerantes, arroz branco, farinha de trigo, açúcar, peixes enlatados e macarrão instantâneo.
Em Vanuatu, a maior parte da população parecia saudável e feliz, vivendo da forma que sempre viveram, em vilarejos isolados com mínima influência do mundo exterior. Em Kiribati, entretanto, onde as pessoas dependem fortemente em ajuda humanitária do exterior, virtualmente todos os adultos tinham sobrepeso ou eram obesos. As crianças eram mal nutridas. O diabetes estava tão fora de controle que o hospital local amputava até 20 membros por semana."
b) O efeito do ácido láurico, principal componente da gordura de coco, é altamente positivo sobre o perfil lipídico. Eis uma METANÁLISE de 60 ensaios clínicos randomizados (vale um pouco mais do que uma opinião na televisão):


Observe o gráfico abaixo: qual o tipo de gordura que mais eleva o HDL, e mais reduz a relação colesterol total/HDL (uma das melhores métricas, em termos de lipidograma, para predizer o risco cardiovascular)?
Sim, o ácido láurico - o principal componente do óleo de coco - aumenta o LDL, mais aumenta ainda mais o HDL, motivo pelo qual apresenta o efeito mais favorável sobre o perfil lipídico, representado pela redução da relação col.total/HDL (gráfico da esquerda). Nas palavras do artigo: "Although lauric acid was the most potent total and LDL cholesterol–raising SFA it actually decreased total:HDL cholesterol relative to carbohydrates. Thus, the cholesterol-raising effect of lauric acid is proportionally higher for HDL than for LDL. "

3) A afirmação de que óleo de coco aumenta a inflamação está fora do discurso científico, pertencendo mais à esfera de conversa de comadre. Por favor, faça você mesmo o teste: clique no link abaixo, e você será direcionado para uma pesquisa no PubMed com os termos COCONUT OIL + INFLAMMATION:


São 46 artigos. Confesso que não tive paciência de ler o resumo de todos, visto que os primeiros 15 ou 20 só mostram como a gordura de coco é ANTI-INFLAMATÓRIA!!

Neste quesito, era impossível nossa nutricionista estar mais errada. Faça a pesquisa acima, e observe o primeiro artigo, no topo da lista (ao menos até a data dessa publicação):

O título já é sensacional, quando contrastado com as afirmações da nutricionista: "Óleo de soja é mais obesogênico e diabetogênico do que o óleo de coco e a frutose em camundongos: papel potencial do fígado".

Não é um artigo difícil de achar. É o primeiro da lista do PubMed, foi repercutido pela imprensa leiga mundial, e a revista em que foi publicada é de acesso livre.

O resumo do artigo, abreviado abaixo, é fascinante:

A epidemia de obesidade nos EUA levou a uma extensa pesquisa sobre potenciais fatores dietéticos contribuintes, especialmente a gordura e frutose. Recentemente, o aumento do consumo de óleo de soja, que é rica em ácidos graxos poli-insaturados (PUFA), tem sido proposta como desempenhando um papel causal na epidemia. Nós projetamos uma série de quatro dietas isocalóricas (HFD, SO-HFD, F-HFD, F-SO-HFD) para investigar os efeitos das gorduras saturadas versus insaturadas, bem como da frutose, na obesidade e diabetes. Ratos machos alimentados com uma dieta moderadamente alta em gordura composta de uma mistura de óleo de coco e óleo de soja (SO-DH, 40% kcal de gordura total) mostraram um aumento estatisticamente significativo em obesidade, diabetes, intolerância à glucose e resistência à insulina em comparação com ratos submetidos a uma dieta que consistia principalmente de óleo de coco (HFD). Eles também tinham esteatose (gordura no fígado), bem como menor comprimento das criptas do cólon. Embora a dieta com elevado teor de frutose (F-DH) não tenha causado tanta obesidade ou a diabetes quanto a dieta rica em óleo de soja (SO-DH), causou muita esteatose. Tomados em conjunto, os nossos resultados indicam que, em ratos, uma dieta de elevado teor em óleo de soja é mais prejudicial à saúde metabólica do que uma dieta rica em frutose ou óleo de coco.
Que dizer... o óleo de coco ajudou a proteger contra obesidade, diabetes, intolerância à glucose e resistência à insulina, que surgiram de forma mais acentuada com uma dieta rica em frutose, e, pior ainda, com óleo de soja. Aqui, aproveito para repetir o conselho dado em rede nacional: "os consumidores devem preferir o óleo de canola. Caso contrário, se for muito caro, pode ser o de soja mesmo. “Vai alternando entre os dois pois são os melhores em termos nutricionais."

Ah, sim, eu ia me esquecendo! No corpo deste artigo, vem a seguinte frase: "Interestingly, the pro-inflammatory eicosanoid 12-HETE (an AA metabolite) and the marker of lipid peroxidation 13-HODE+9-HODE (LA metabolite) were significantly decreased in HFD versus Viv at both 16 and 35 weeks, suggesting that coconut oil may be protective against inflammation". Ou seja: metabólitos pró-inflamatórios estavam reduzidos na dieta de alta gordura à base de coco quando comparada com a dieta normal dos camundongos, sugerindo que o óleo de coco tenha efeito PROTETOR contra inflamação.

Peço ajuda ao leitor: tentem encontrar algum estudo (clique aqui) que mostre um efeito inflamatório do óleo de coco - ainda mais sobre o tecido adiposo, como disse a nutricionista em rede nacional. Se acharem, por favor me mandem.

4) O óleo de coco tem muitas calorias. Ok, e daí? Na postagem anterior, já citei estudos nos quais dietas low carb com calorias liberadas emagrecem o dobro do que dietas low fat com calorias restritas. Mágica? Não. É que alimentos ricos em gordura, como coco, abacate, etc, são naturalmente mais saciantes. Com menos fome, come-se menos.
Especificamente no que diz respeito ao óleo de coco, há pequenos ensaios clínicos nos quais isto foi demonstrado:

 2009 Jul;44(7):593-601. doi: 10.1007/s11745-009-3306-6. Epub 2009 May 13.

Effects of dietary coconut oil on the biochemical and anthropometric profiles of women presenting abdominal obesity.

Author information

  • 1Faculdade de Nutrição, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL 57072-970, Brazil.
Neste estudo brasileiro, prospectivo e randomizado, 40 mulheres obesas receberam 30 ml ao dia de óleo de soja ou de óleo de coco, associados a uma dieta hipocalórica. E então, o que ocorreu? Se você obtêm suas informações científicas na Globo, você acreditaria que todas engordaram (a quantidade de calorias é a mesma em ambos óleos) e que a saúde das que usaram óleo de coco piorou, certo? CLARO que não:

O grupo que consumiu óleo de coco, em relação ao grupo do óleo de soja, teve:
 - HDL mais alto
 - Relação Colesterol total / HDL mais baixa
 - Redução da circunferência abdominal (ambos grupos perderam peso, mas apenas o grupo do óleo de coco perdeu cintura)
 - O grupo da soja apresentou um aumento do colesterol total, LDL e da relação colesterol total / HDL, enquanto o HDL diminuiu.
 - O óleo de coco parece favorecer a redução da obesidade abdominal em conjunto com uma dieta hipocalórica, quando comparado com o óleo de soja.

5) E quanto à substituição de gordura saturada por poliinsaturada na dieta? Devemos mesmo consumir óleo de canola e de soja? Se você leu até aqui, já deve estar com sérias dúvidas.

Bem, a preponderância de estudos indicando o efeito pró-inflamatório das gorduras poliinsaturadas já tem levado, há algum tempo, a editoriais como este:
"As consequências cardiometabólicas de substituir as gorduras saturadas com carboidratos ou gorduras poliinsaturadas ômega-6: será que as diretrizes estão erradas?"
Não tenho condições de traduzir todo o artigo - mas a íntegra está aqui. A conclusão é que esta substituição é péssima ideia.

Ainda em 2013 (portanto, a nossa nutricionista teve tempo de se informar), um importantíssimo estudo, um ensaio clínico prospectivo e randomizado, foi publicado, gerando mais uma vez manchetes internacionais:
"Gorduras ômega-6 ligadas ao aumento do risco de doença cardíaca".
O estudo em questão, uma reanálise de dados de um estudo prospectivo e randomizado dos anos 1960, no qual 458 homens com história de doença cardíaca foram randomizados para um grupo controle e outro grupo no qual deveriam substituir a gordura saturada por óleos vegetais (poliinsaturados ômega 6), não mostrou nada daquilo que você poderia supor ao assistir nossa nutricionista falar na Globo. Na verdade mostrou o contrário. A mortalidade foi 17,6% no grupo óleo vegetal versus 11,8% no grupo gordura saturada, a incidência de doença cardiovascular foi de 17,2% versus 11% respectivamente, e a incidências de doença coronariana foi de 16,3% versus 10,1% respectivamente. Vejam que estou usando riscos absolutos, e não relativos (se fosse usar relativos, diria que houve um aumento de cerca de 70% de doença cardiovascular em quem usou os óleos recomendados pela nutricionista da Globo).

***

O papel aceita qualquer coisa. A TV, então, aceita coisas capazes de constranger até o papel higiênico.

Por que, então, o que você lê seria mais confiável? Um blog, afinal, também aceita qualquer coisa. Mas não este aqui. Nesta postagem, 100% das referências bibliográficas estão citadas e clicáveis para que você possa conferir o original. A grande maioria são metanálises e ensaios clínicos randomizados - a NATA, o crème de la crème da evidência científica. Se alguém quiser lhe dizer algo diferente, terá que refutar tudo o que está aí em cima. Com referências.

***

Só para relembrar: referências bibliográficas não são opiniões de especialistas, nem de pessoas que escrevem ou falam na imprensa (não importa se são médicos ou nutricionistas). Leia essas 4 postagens para entender o que é uma referência bibliográfica aceitável para defender uma posição em ciências da saúde:

http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_8.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_12.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_26.html

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