quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Óleo de coco - de novo.

Hoje a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia resolveu se manifestar sobre a polêmica do óleo de coco (veja aqui sobre o que se trata).

Já escrevi a minha posição sobre o assunto, baseada em evidências de nível 1 (veja aqui).

Dessa vez, farei diferente. Vou colar, abaixo, em vermelho, o texto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e, após cada afirmação do texto, colocarei a posição de entidades mundialmente respeitadas. Vamos ver como fica:


Posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) sobre o uso do óleo de coco para perda de peso.
Considerando que muitos nutricionistas e médicos estão prescrevendo óleo de côco para pacientes que querem emagrecer, alegando sua eficácia para tal propósito; 
Não se afirma isso neste blog
Considerando que não há qualquer evidência nem mecanismo fisiológico de que o óleo de côco leve à perda de peso; 
Considerando que o uso do óleo de côco pode ser deletério para os pacientes devido à sua elevada concentração de ácidos graxos saturados, como ácido láurico e mirístico;
O que o UpToDate, "o principal recurso de suporte a decisões médicas baseado em evidências, confiado pelo mundo todo por profissionais de saúde", tem a dizer sobre essa afirmação?
Traduzindo: "Embora saiba-se que há uma relação gradual entre concentação de colesterol e doença coronariana, e que o consumo de colesterol na dieta aumenta o colesterol total, uma metanálise de 2014 não achou associação entre gordura saturada e doença cardiovascular. A metanálise também não achou relação entre o consumo de gordura monoinsaturada e doença cardiovascular, mas sugeriu uma redução com o aumento do consumo de gorduras ômega-3; o benefício de gorduras ômega-6 permanece incerto. Em virtude destes resultados, nós não sugerimos mais que se evitem as gorduras saturadas propriamente ditas, embora muitos alimentos ricos em gorduras saturadas sejam menos saudáveis do que os que contém níveis mais baixos (nota do tradudutor: estão falando de fast food, não de coco ou carne de gado alimentado com pasto). Em particular, nós não achamos mais que haja evidências substanciais no sentido de escolher laticínios desnatados (tais como escolher leite desnatado ao invés de integral). Nós continuamos a recomendar a redução do consumo de gorduras trans."


A SBEM e a ABESO posicionam-se frontalmente contra a utilização terapêutica do óleo de coco com a finalidade de emagrecimento, considerando tal conduta não ter evidências científicas de eficácia e apresentar potenciais riscos para a saúde.
Nesse sentido não há polêmica. Não se indica óleo de coco para emagrecer (ao menos não neste blog).
A SBEM e a ABESO também não recomendam o uso regular de óleo de coco como óleo de cozinha, devido ao seu alto teor de gorduras saturadas e pró-inflamatórias.
Novamente a SBEM afirma que o óleo de coco não deve ser usado por conter gordura saturada. Vamos ver o que a Academia Americana de Nutrição pensa sobre o assunto:


Logo em seguida, afirmam que óleo de coco é inflamatório. O que o único ensaio clínico prospectivo e randomizado avaliando especificamente esse assunto em HUMANOS indicou?

Results: No significant differences were observed in the effects of the 3 diets on plasma total homocysteine (tHcy) and the inflammatory markers TNF-α, IL-1β, IL-6, and IL-8, high-sensitivity C-reactive protein, and interferon-γ. (Não houve diferenças significativas observadas nos marcadores inflamatórios homocisteínas, TNF-α, IL-1β, IL-6, and IL-8, proteína C reativa ou  interferon-γ).

O uso de óleos vegetais com maior teor de gorduras insaturadas (como soja, oliva, canola e linhaça) com moderação, é preferível para redução de risco cardiovascular.
O que o Medscape e o British Medical Journal dizem sobre a afirmação de que óleos insaturados são preferíveis para redução de risco cardiovascular?
Conclusions. Advice to substitute polyunsaturated fats for saturated fats is a key component of worldwide dietary guidelines for coronary heart disease risk reduction. However, clinical benefits of the most abundant polyunsaturated fatty acid, omega 6 linoleic acid, have not been established. In this cohort, substituting dietary linoleic acid in place of saturated fats increased the rates of death from all causes, coronary heart disease, and cardiovascular disease. An updated meta-analysis of linoleic acid intervention trials showed no evidence of cardiovascular benefit. These findings could have important implications for worldwide dietary advice to substitute omega 6 linoleic acid, or polyunsaturated fats in general, for saturated fats.

O que o editorial da revista OpenHeart diz sobre o assunto?

"uma meta-análise de estudos controlados randomizados mostrou que trocar uma combinação de gorduras trans e saturadas por gorduras ômega-6 poliinsaturadas (sem simultaneamente aumentar os ácidos graxos ômega-3) leva a um risco aumentado de morte [21]. Esses resultados foram corroborados quando os dados foram recuperados do Estudo da Dieta do Coração de Sidney, e incluídos em uma meta-análise atualizada [22].".

Conclusão: mesmo que a reputação acadêmica de QUEM faz a afirmação fosse importante (ao invés do nível de evidência), ainda assim a posição de entidades de muito maior peso mundial difere da postura da SBEM. 

Não basta contrapor o que eu afirmo. Precisa também contrapor o UpToDate, a Academy of Nutrition and Dietetics, o único ensaio clínico randomizado sobre inflamação e óleo de coco no American Journal of Clinical Nutrition, o Medscape e o OpenHeart.

Já afirmei várias vezes aqui no blog que a qualidade das evidências é mais importante do que o pedigree do mensageiro. Mas, neste caso, quem gosta de pedigree está bem servido.

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