domingo, 9 de agosto de 2015

Três relatos de caso com 2 anos de sucesso

Já escrevi uma vez sobre síndrome metabólica (clique aqui). Relembrando: quando uma pessoa apresenta resistência à insulina, a glicose no sangue tende a subir, visto que a insulina não consegue exercer adequadamente suas funções. O pâncreas, detectando essa glicose elevada, reage secretando ainda MAIS insulina. A síndrome metabólica nada mais é do que resistência à insulina associada à HIPERINSULINEMIA compensadora (isto é, insulina crônica mente elevada). Esta insulina elevada, por sua vez, leva a uma constelação de sinais e sintomas (muitas pessoas apresentam apenas alguns deles - 3 são necessários para o diagnóstico):

  • Obesidade abdominal (índice cintura/quadril > 0,9 para homens e 0,85 para mulheres, ou ainda cintura masculina com mais de 94 cm e a feminina com mais de 80 cm;
  • Triglicerídeos acima de 150 mg/dl;
  • Colesterol HDL baixo: < 40 mg/dl (homens) ou < 50 (mulheres) (ou já estar em tratamento para isso);
  • Pressão arterial acima de 130/85 (ou já estar em tratamento para isso);
  • Glicose em jejum acima de 100 mg/dl (ou estar em tratamento para mantê-lá abaixo disso); 
  • Diabetes tipo II
  • Há ainda um grande número de outras patologias associadas à síndrome metabólica, incluindo ácido úrico elevado, gota, cálculos renais, esteatose hepática ("gordura no fígado"), cálculos de vesícula biliar, entre outros.
O que aconteceria se, ao invés de combater com vários medicamentos cada uma dessas manifestações da hiperinsulinemia, fizéssemos uma estratégia voltada à CAUSA do problema? O que aconteceria se reduzíssemos drasticamente a quantidade de glicose disponível? Sem excesso de glicose, o pâncreas não precisaria fabricar grandes quantidades de insulina. Sem a hiperinsulinemia, deveríamos observar a remissão da maioria dos sinais e sintomas da síndrome metabólica, certo? Afinal, eis os efeitos da insulina elevada no organismo:

  • estocar a gordura nas células adiposas, estimulando a síntese de triglicerídeos;
  • estocar a gordura nas células adiposas estimulando a sua remoção da corrente sanguínea(estimulando enzima LPL dos adipócito);
  • manter a gordura dentro das células adiposas, impedindo a enzima que degrada os triglicerídeos (através da enzima HSL) de funcionar;
  • estimular a transformação de glicose em gordura no fígado, aumentando os triglicerídeos no sangue e seu estoque nas células adiposas;
  • estimular a síntese de colesterol no fígado (através da enzima HMG-CoA sintase);
  • estimular a síntese de glicogênio (a forma como os animais estocam glicose);
  • estimular o uso da da glicose pelas células (estimulando a glicólise por exemplo);
  • inibir a enzima LPL nos músculos, forçando o uso da glicose como combustível ao invés da gordura;
  • reter sódio e água nos rins.
  • reter ácidos orgânicos nos rins, tais como ácido úrico
Vamos conhecer 3 casos nos quais a restrição de carboidratos levou à remissão da síndrome metabólica, em suas múltiplas manifestações: uma vez retirada a glicose da dieta, a hiperinsulinemia se resolve, e com ela as suas consequências.

Paulo Roberto, 65 anos (111 Kg --> 78 Kg):



"Há sete anos sou portador de artrite, artrose e cristais de pirofosfato nos joelhos E e D. Artrose nos quadris E e D, artrite no tornozelo E, artrose nas mãos E e D, além de fibromialgia.

Tinha gordura no fígado.

Pesava 121 Kg.

Comecei a dieta convencional com Endocrinologista e Nutricionista. Perdi 11 Kg durante quatro anos de dieta de fome. Estacionei em 110 Kg.

Meu médico Cardiologista me encaminhou para fazer a cirurgia bariátrica, dizendo que estava sacrificando-me por não comer quase nada e o peso não baixava.

Lista de medicamentos:
topiramato
AAS prevent
Indapamida (Natrilix) para pressão
Atorvastatina
Diosmina para circulação
Pantoprazol 20mg
Glifage 500XR 2x ao dia
Glicosamina
Colchicina (gota)
Simbicort inalatório
Amitriptilina 25mg para fibromialgia

No dia 24 de dezembro de 2013, recebi de presente de Natal o livro Barriga de Trigo, do Dr. Willian Davis.

Comecei a ler no mesmo dia, me vi ali dentro com todos os meus problemas de saúde.

No terceiro dia de leitura, e já fazendo a dieta eliminando totalmente o trigo da minha vida, pude notar que as dores foram totalmente eliminadas, inclusive as da Fibromialgia, essas também cessaram.

Consultei com o Dr. Souto Em janeiro de 2014.

Um mês depois, em 23/01/2014, perdi 7,3 Kg, no mês seguinte, 22/02/2014, perdi mais 6 Kg. Até o dia 29/08/2014, já havia perdido 18 Kg com a Dieta Páleo Low Carb.

Enquanto com a dieta convencional levei 4 anos para perder 11Kg, com a Dieta Páleo, que não é bem dieta, e sim um estilo de vida, já havia perdido 20 Kg sem sentir fome!

Meus exames estavam todos alterados antes da Páleo Low Carb.

Após a Páleo, uma bela surpresa: tudo normal graças a Deus, mas sem deixar de agradecer pelo presente do livro “Barriga de Trigo”, ao Dr. José Carlos Stumpf Souto, que tive o prazer de conhecer e torná-lo meu médico.

Quero também agradecer a Nutricionista Polyana R.R. Freitas, com quem consultei e muito me ajudou nesta nova etapa de minha vida.

Porto Alegre, 04/09/2014."

Este relato foi há quase um ano. O senhor Paulo Roberto continuou a seguir o estilo de vida páleo Low Carb, e segue perdendo peso (com 78 quilos atualmente, já são 33 Kg perdidos em DOIS ANOS). Já largou as muletas. Já largou praticamente todos os remédios (atualmente, usa apenas metformina, diosmina e glucosamina --> compare com sua lista anterior, acima!) - sua síndrome metabólica entrou em remissão.

***

Valéria, 51 anos (119 Kg --> 68 Kg)

Valéria, amiga do Sr. Paulo Roberto, também começou a consultar em janeiro de 2014. Quando veio ao consultório, já havia lido barriga de trigo e já seguia o blog, já tendo perdido 20 Kg (peso inicial, 119 Kg).

Ao consultar, apresentava cerca de 100 Kg, mantinha a glicemia controlada com metformina e tinha apneia do sono, e usava ainda topiramato, Simbicort (asma) e omeprazol.

A evolução dos valores de insulina mostra o motivo por trás do que você vê na noto acima:

27 --> 17 --> 14 --> 11 --> 8 --> 5

Hoje, valéria usa apenas metformina e Forxiga, não sofre mais de apneia do sono, e está com sua síndrome metabólica em remissão. E por quê? Porque a CAUSA da síndrome metabólica foi tratada: a HIPERINSULINEMIA. Sem consumir grandes quantidades de glicose, simplesmente não há necessidade de grandes quantidades de insulina. Sem excesso de insulina, os adipócitos podem liberar o excesso de gordura, o rim pode excretar o excesso de sódio, o fígado deixa de acumular gordura.

***

Tabajara (perda de 32 Kg)

Este rapaz da foto não é meu paciente de consultório, apenas leu o Barriga de Trigo e acompanhou o blog. Isso serve para mostrar que não se trata de uma coisa complexa, que precisa de incontáveis consultas e que dependa de fórmulas mágicas ou remédios caros de que só eu disponho. Basicamente, consiste em restringir carboidratos, de forma continuada - o mais democrático dos tratamentos. Segue seu relato, escrito por seu irmão:

"Cerca de 2 anos atrás, meu irmão sofria com obesidade mórbida, gastrite, estava sedentário, com pressão alta e usando remédios (omeoprazol, sinvalip e etc.).

Recomendei a ele seguir o estilo de vida low-carb e, de início, sentiu-se estranho, mas os benefícios surgiram com o tempo.

Mesmo sob pressão familiar dos outros 2 irmãos que condenavam totalmente a dieta, dizendo que iria morrer por consumir gordura e comer ovos com bacon de manhã, decidiu seguir firme.

Após 2 anos, obteve os seguintes benefícios:

- Perda de 32 kilos;
- Normalização da pressão arterial (médico cardiologista retirou os remédios).
- Readquiriu capacidade de "Sonhar" (isto mesmo ele dizia não sonhar mais).
- Gastrite simplesmente sumiu.
- Ânimo e disposição "a mil".

Detalhe: não praticou nenhum tipo de exercícios físicos, somente a mudança na alimentação.

Hoje quer ficar longe de carboidratos simples e açúcar.

Diz ele que o médico havia dito, tipo por cima, pra ele para cortar tudo que é "branco" da dieta, mas após apresentar o BLOG do Sr. pra ele, o mesmo ficou pasmo com as evidências cientificas.

Leu o Livro Barriga de Trigo, adotou a dieta páleo Low carb, e os resultados estão aí.

Enfim.... só benefícios."

***

O que há de comum nos 3 casos? Todos eram portadores de síndrome metabólica, e portanto candidatos ideais a uma dieta de baixo carboidrato como intervenção terapêutica. Afinal, se a CAUSA dos seus problemas é resistência à insulina com hiperinsulinemia compensadora, é esperado que a restrição de carboidratos corrija o problema (já escrevi aqui sobre o estudo do Dr. Gardner, o primeiro a mostrar que Low Carb funciona melhor nessa circunstância).

Outra característica comum é o fato de que os 3 casos têm uma evolução de DOIS ANOS. Há 4 implicações importantes:

  1. É possível perder peso passando fome, fazendo restrição calórica e grande volume de exercício. Mas, na prática, isso não é sustentável no longo prazo: não é possível passar fome para sempre. E, obviamente, se sua solução for restrição calórica voluntária, seu peso todo voltará no momento em que você não aguentar mais passar fome - destino de 95% das pessoas que perdem peso dessa forma.
  2. A obesidade, no contexto da síndrome metabólica, é apenas MAIS UM SINTOMA desta síndrome. Tratar a obesidade com restrição calórica simplesmente não tem a mesma eficácia em relação ao restante dos sinais e sintomas do hiperinsulinismo. Não se trata apenas de perder peso. Trata-se de reverter a síndrome metabólica. No segundo caso, acima, os valores da insulina de jejum ilustram isso.
  3. Não há necessidade de consultas com especialistas, remédios caros injetáveis, etc. Este blog não vende nada, não há uma área restrita no qual os pagantes terão acesso a fórmulas secretas, etc.; o Tabajara, acima, apenas leu o blog. Não é ciência de lançamento de foguetes. É restrição de carboidratos.
  4. Este blog defende a ideia de que uma dieta restrita em carboidratos é uma alternativa saudável, especialmente para quem é portador de resistência à insulina e/ou diabetes tipo 2, a despeito das lendas urbanas de que Low Carb irá lhe prejudicar por motivos místicos/mitológicos (irá "sobrecarregar os rins", "sobrecarregar o fígado", causar osteoporose, causar ateroscleroseimpedir o cérebro de funcionar por falta de glicose e causar todo o tipo de doenças por causa da carne vermelha). Uma vez entendido que que tais lendas não têm fundamento (clique nos links acima), deve ser compreendido que o que se está propondo é uma mudança permanente estilo de vida. Em não havendo fome - uma característica definidora das dietas de baixo carboidrato - não se justifica a PRESSA na obtenção de resultados. As 3 pessoas acima não ganharam o peso em 3 meses. Não é razoável esperar que percam uma quantidade significativa de peso em pouco tempo. Se a dieta for um SOFRIMENTO, há que ter pressa. Se o estilo de vida for sustentável no longo prazo, resultados como esses tornam-se possíveis - até mesmo prováveis.
Nem todos terão esse tipo de resultado (leia aqui, aqui, aqui é aqui). Mas todos merecem essa chance.




Nenhum comentário:

Postar um comentário