terça-feira, 1 de setembro de 2015

Gary Taubes e a fome

Artigo publicado no New York Times por Gary Taubes (do blog Menos Rótulos)

Conselhos de dieta que ignoram a Fome.
Artigo publicado por GARY TAUBES no "The New York Times" em 29/08/2015, traduzido por Regiany Floriano. O original está aqui.

Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, os pesquisadores da Universidade de Minnesota começaram uma lendária experiência sobre a psicologia e fisiologia da inanição humana - e, portanto, sobre a fome. Foram 36 participantes, alguns magros, outros não. Durante 24 semanas, esses homens ficaram semi-esfomeados, consumindo pouco menos de 1.600 calorias por dia, com alimentos escolhidos para representar a fome durante a escassez de comida vivida em áreas da Europa: "pão de trigo integral, batatas, cereais e uma quantidade considerável de nabos e repolho" com uma "quantia simbólica" de carne e produtos lácteos.

Como dieta, seria o que os nutricionistas de hoje considerariam uma dieta de baixo teor calórico e de muito baixa gordura, com apenas 17 por cento de calorias provenientes da gordura.

O que aconteceu com esses homens é uma lição sobre nossa capacidade de lidar com a privação calórica, o que significa, também, uma lição das expectativas que se possa ter sobre as recomendações mais atuais para a perda de peso e, particularmente as do tipo que começam com "comer menos” e "reduzir a gordura”.

Os homens perderam em média uma libra (454g) de gordura corporal por semana durante as primeiras 12 semanas, mas, em média, apenas um quarto de libra (114g) por semana ao longo das próximas 12 semanas, apesar da privação contínua. E esta não foi a única reação fisiológica. Suas extremidades incharam; seus cabelos caíram; as feridas curavam lentamente. Sentiam-se continuamente frios e com o metabolismo mais lento.

Mais preocupantes foram os efeitos psicológicos. Os homens tornaram-se deprimidos, letárgicos e irritáveis. Eles tinham ataques de raiva. Perderam sua libido. Eles pensavam obsessivamente em comida, dia e noite. Os pesquisadores Minnesota chamaram isso de "neurose da semi-inanição”.
Quatro desenvolveram "neurose de caráter". Dois tiveram colapsos, um com "choro, conversas sobre suicídio e ameaças de agressão." Ele foi submetido a tratamento psiquiátrico. A "deterioração da personalidade" do outro "culminou em duas tentativas de automutilação". Ele quase arrancou a ponta de um dedo e depois cortou três com um machado.

Quando o período de fome imposta terminou, os sujeitos foram autorizados a começar a "realimentação". No início, eles foram autorizados a comer mais calorias, mas com quantidades restritas. Um pequeno grupo sob observação contínua, poderia comer até a saciedade, o que era surpreendentemente difícil de alcançar. Os homens consumiram quantidades enormes de comida, até 10.000 calorias por dia. Eles recuperaram o peso e a gordura com notável rapidez. Após 20 semanas de recuperação, tinham em média 50 por cento mais gordura corporal do que quando começaram - o que os investigadores chamaram de "obesidade pós-fome".

Implícita em muitas discussões sobre a melhor forma de perder peso é a suposição de que a fome, que é uma consequência da privação calórica, não seja um problema. As organizações de saúde e do governo dizem às pessoas com obesidade e o excesso de peso, que agora somam pouco mais de dois terços da nossa população adulta, para fazer o que os sujeitos do estudo fizeram: comer menos, reduzir as calorias.

Esse conselho considera que a fome consequente será um fardo facilmente suportável (sem depressão, letargia, irritabilidade - sem ataques de raiva, por favor!). Suportável não somente durante 24 semanas, mas por uma vida inteira. O experimento de Minnesota nos diz que, quando o período de semi-inanição termina, o período de ”realimentação” não vai acabar bem.

Este assunto de como fazer dieta e de como perder peso esteve novamente nas manchetes recentemente, quando foi publicado um estudo realizado por pesquisadores do National Institutes of Health. Os pesquisadores confinaram seus indivíduos obesos (nove mulheres, 10 homens) em uma enfermaria de hospital e os submeteram a dietas próximas à semi-inanição, alimentando-os com uma média de 820 calorias a menos por dia do que o necessário para manter seu peso. Em média cerca de 1.920 calorias por dia, sendo que uma das dietas - a dieta restrita em carboidratos - era composta por 29 por cento de carboidratos e 50 por cento de gordura e a outra – a dieta com restrição de gordura - era composta por 71 por cento de carboidratos e apenas 8 por cento de gordura.
Os indivíduos foram então obrigados a comer essas dietas, nem uma caloria a mais ou menos, durante seis dias - e não 24 semanas.

Uma autoridade do N.I.H. (National Institutes of Health) disse que o estudo fornecia “evidências valiosas sobre como os diferentes tipos de calorias afetam o metabolismo e composição corporal." Google News fez várias referências em mais de 200 entradas sobre o estudo nos primeiros três dias após a publicação.
O que diziam as manchetes? Que os sujeitos perderam mais gordura restringindo a gordura dietética do que os que restringiram o mesmo número de calorias a partir dos hidratos de carbono. "Os cientistas (meio que) resolveram o debate sobre dieta low carb verus low fat", publicou The Washington Post.

Mas o que mais atormenta nos estudos sobre nutrição são sempre os detalhes, que são encapsulados por expressões como "meio que". Se a evidência foi inestimável, como o NIH reivindicou, depende de uma série de questões. Uma experiência de seis dias é relevante para saber o que acontece ao longo de meses, anos ou uma vida inteira? Há poucas razões para pensar assim. Os seres humanos podem sobreviver (e em caso afirmativo, por quanto tempo) em uma dieta com 8 por cento de gordura? A Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas diz que 15 por cento é o limite mínimo. E cerca de 30 por cento de carboidratos é suficientemente restrito para ser considerada uma dieta baixa em carboidratos?  A dieta do NIH incluía muffins de mirtilo no café da manhã, espaguete no almoço e wraps no jantar.

Aqueles que defendem publicamente (como eu) que os grãos refinados e açúcares causam obesidade, acreditam que a perda de peso significativa requer mudanças mais significativas na qualidade de carboidratos consumida (muito menos refinado) e na quantidade (menos de 20 por cento, talvez menos do que 10%).

Finalmente, o que dizer da fome? Determinando a privação calórica por apenas seis dias, os pesquisadores parecem ter tomado a decisão implícita de que a fome - a resposta biológica à privação calórica - é irrelevante quando pensamos em uma dieta para perda de peso. Que os sujeitos poderiam estar com mais fome em uma dieta do que na outra também não foi avaliado.

A dieta de baixa gordura do estudo feito pelo N.I.H. teve significativamente menos gordura (8 por cento versus 17 por cento) e apenas 350 calorias por dia a mais do que a dieta na qual os pesquisadores de Minnesota levaram os indivíduos ao ponto de neurose de caráter e colapsos mentais. A dieta do N.I.H. tinha mais proteína também. Mas o histórico dos estudos sobre dietas (e populações humanas) sugere que a privação calórica é insustentável.

Que seres humanos ou qualquer outro organismo vá perder peso se for obrigado a passar fome suficientemente nunca foi notícia nova. O truque, se tal coisa existe, é encontrar uma maneira de fazê-lo sem fome, assim a perda de peso pode ser sustentada indefinidamente. O maior argumento das dietas de baixo carboidrato sempre foi que você pode comer à vontade, sem contagem de calorias, enquanto os carboidratos em sua maioria forem evitados.

Mas este conselho levanta um par de perguntas óbvias, ou pelo menos deveria: Se as pessoas em dietas low-carb comem menos (a explicação convencional para qualquer perda de gordura que se segue), porque eles não estão com fome? Onde está a neurose semi-inanição? E se elas não comem menos, por que elas perdem peso? Isso implica um mecanismo de perda de peso diferente da privação calórica e sugere que os hidratos de carbono e as gorduras consumidas fazem a diferença.

Questões como estas sobre a relação entre calorias, macronutrientes e fome têm assombrado os estudos de nutrição e obesidade desde o final dos anos 1940. Mas raramente elas são feitas. Acreditamos assim implicitamente na lógica de comer menos, movimentar-se mais, e que nós (pelo menos aqueles que são magros) implicitamente culpamos os obesos pelos fracassos em seguir um regime de restrição calórica, sem nunca nos perguntarmos se nós mesmos poderíamos segui-lo também. Tenho um colega que dedicou sua carreira como pesquisador estudando a fome que diz: Pedir às pessoas para comer menos, é como pedir-lhes para respirar menos. Parece razoável, contanto que você não espere que elas façam isto por muito tempo”.

Grande parte dos estudos sobre a obesidade no século passado se concentraram no esclarecimento de técnicas comportamentais que possam induzir os obesos a comer menos, tolerar melhor a fome, e assim, por esta lógica, perder peso. A epidemia da obesidade sugere que falharam.

Para aqueles que acreditam que a fome é de alguma maneira "coisa da sua cabeça", ao invés de uma poderosa resposta biológica devida à privação calórica, é tentador desejar-lhes o mesmo destino que a deusa Ceres impôs ao rei Erysichthon da Tessália, na mitologia grega. Ela "concebeu um castigo para despertar a piedade dos homens... atormentá-lo com a Fome maligna". Erysichthon então comeu sem parar até perder seu castelo e seu reino e, no final, morreu "alimentando-se, pouco a pouco, do seu próprio corpo."

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A seguir, bela entrevista com Gary Taubes - confira:


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