terça-feira, 31 de maio de 2016

Relatório do Fórum Nacional da Obesidade do Reino Unido

Na semana que passou, o Reino Unido estava em polvorosa. O motivo: uma organização sem fins lucrativos chamada Fórum Nacional da Obesidade, juntamente com outra organização análoga chamada Colaboração para a Saúde Pública, publicaram um relatório exortando o governo Inglês a mudar radicalmente as diretrizes alimentares. Houve grande repercussão na imprensa, com manchetes na capa de quase todos os jornais, além de entrevistas na BBC e na televisão.




Eu discuto longamente o assunto no podcast de número 14, que ainda será publicado. No entanto, eu li a íntegra do relatório, e achei tão bom que resolvi traduzi-lo. Segue a íntegra traduzida:

O original está aqui.

Introdução
Depois de 250 mil anos de evolução, os humanos tornaram-se uma espécie saudável, bem nutrida e com longa expectativa de vida. Mas, em apenas 30 anos, as coisas evoluíram catastroficamente mal, com epidemias de obesidade e diabetes tipo 2, intocadas pelas políticas vigentes, e que provavelmente irão reduzir a expectativa de vida e quebrar os sistemas de saúde. Este relatório representa uma potencial mudança destas políticas falhas, e recomenda alternativas que têm probabilidade de reverter alguns dos efeitos contraproducentes das políticas recentes. 

Solucionar a epidemia de obesidade e suas consequências adversas para a saúde, tais como o diabetes tipo 2, é o desafio mais importante da saúde pública nos dias de hoje. A obesidade tem custos diretos para o Serviço Nacional de Saúde de mais de 6 bilhões de libras por ano. O diabetes tipo 2 tem custos diretos e indiretos da ordem de 20 bilhões de libras e, se não houver uma ação efetiva, este este preço provavelmente irá dobrar nos próximos 20 anos (1). Nos Estados Unidos, o custo do diabetes disparou recentemente, atingindo 245 milhões de Dólares em 2012. 

As raízes da obesidade e do diabetes tipo 2 estão fortemente entranhadas no ambiente alimentar. Esforços legislativos para encorajar um menor consumo de alimentos processados e de bebidas açucaradas ajudarão a reduzir significativamente o fardo de doenças relacionadas à dieta, que hoje contribuem com mais mortes e morbidade globalmente do que a inatividade física, o cigarro e o álcool combinados (2). O papel das diretrizes alimentares ruins tem sido ignorado por tempo de mais. Especificamente, a mensagem de consumir alimentos de "baixa gordura"  e "baixo colesterol"  teve consequências não antecipadas desastrosas para a saúde. 

A má ciência por detrás desta mensagem e a subsequente mudança nas diretrizes alimentares introduzidas para os americanos em 1977 (3), seguida pelas diretrizes do Reino Unido em 1983 (4), resultaram em aumento do consumo de comida-lixo low fat, carboidratos refinados e óleos vegetais poli-insaturados. Nos Estados Unidos, entre 1961 e 2011, 90% do aumento da ingestão calórica veio de carboidratos e óleos vegetais poli-insaturados (5). 

O evidente aumento da obesidade imediatamente após a introdução das novas diretrizes sugere que elas sejam a causa do problema. A ciência da nutrição foi originalmente baseada em estudos humanos observacionais, os quais são frequentemente eivados de problemas, mas a ciência também foi corrompida por influências comerciais e interferência indevida da indústria alimentícia nas instituições responsáveis pelas diretrizes, bem como sobre os políticos, constituindo-se em ameaça significativa à  saúde pública. 

A professora de saúde pública Kelly Brownell notou que passaram-se 50 anos desde a primeira evidência científica publicada ligando o tabagismo ao câncer de pulmão até que uma regulamentação efetiva fosse introduzida a fim de minimizar o consumo do tabaco. As grandes companhias de cigarro adotaram uma estratégia de negação, plantando a dúvida, confundindo e até mesmo comprando a lealdade dos cientistas, as semelhanças recentes com a atuação da indústria alimentícia são assustadoras (6).

Nós compreendemos que os membros da indústria alimentícia têm a responsabilidade de produzir lucros para seus acionistas. Mas o escândalo real, às custas da saúde pública, é que acadêmicos, instituições e periódicos científicos, cuja responsabilidade primária é para com os pacientes e com a integridade científica, tenham, por vezes, conspirado com a indústria objetivando ganhos financeiros. 

O mais recente guia Eatwell ("Coma Bem") da Public Health England é, talvez, um exemplo de interesses comerciais passando por cima de evidência científica independente. A maior parte do grupo estabelecido pela Public Health England para determinar o modelo de alimentação saudável para o país representava a indústria alimentícia e de bebidas. Será que a Federação de Alimentos e Bebidas deveria estar entre aqueles que desenharam as diretrizes alimentícias da Inglaterra, ou será que cientistas independentes é que deveriam preencher este papel? 

É também chocante a sugestão de que o consumo de 22 colheres de chá de açúcar por dia possa ainda ser considerado aceitável dentro das diretrizes alimentares vigentes. Não obstante, isto tem sido verdade por mais de uma década (7). Não existe NENHUMA necessidade dietética ou biológica de qualquer quantidade de açúcar adicionado em uma dieta saudável. 

A fim de corrigir estes erros, o fórum Nacional da Obesidade e o Public Health Collaboration,  baseados nas mais atualizados evidências científicas e clínicas, recomendam uma completa revisão das diretrizes nutricionais e de saúde pública. As mudanças mais efetivas e importantes podem ser resumidos nos seguintes 10 pontos. 


1) Comer  gordura não engorda. 

Evidências de múltiplos ensaios clínicos randomizados têm revelado que uma dieta com mais gorduras e menos carboidratos é superior a uma dieta de baixa gordura para perda de peso e redução de risco cardiovascular (8, 9). Uma análise exaustiva de 53 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 68.128 participantes, conduzida pela escola de saúde pública de Harvard, concluiu que "quando comparada com intervenções dietéticas de intensidade similar, a evidência de ensaios clínicos randomizados não dá suporte às dietas de baixa gordura, em relação a outras intervenções dietéticas, para perda de peso no longo prazo. Em ensaios clínicos de perda de peso, intervenções com mais gordura levaram à perdas de peso mais significativas do que as intervenções com menos gordura". 

Além disso, o Women's Health Initiative (Iniciativa para a Saúde da Mulher), foi o maior ensaio clínico randomizado de dieta jamais feito. 48.835 mulheres pós-menopáusicas foram randomizadas para sua dieta usual ou uma dieta de baixa gordura, reduzida em calorias e com aumento de exercícios, com a hipótese de que isso levaria a uma redução de doenças cardiovasculares. O seguimento médio foi de 8,1 anos. A intervenção atingiu uma redução absoluta de 8,2% na gordura total e 2,9% na gordura saturada, mas não reduzir o risco de doença coronariana ou derrame (10). Embora não fosse especificamente um estudo de perda de peso, não obstante, a redução da gordura e das calorias (361 calorias a menos por dia) falhou em produzir qualquer perda significativa de peso na duração do estudo. Isto refutou a noção de que uma dieta de baixa gordua seja benéfica, tanto para o sistema cardiovascular, como para perda de peso. 

Isso pode ser explicado, em parte, em nível fisiológico, pois o consumo de gordura induz à saciedade e à sensação de estômago cheio e, quando comparada aos demais macronutrientes - proteínas e carboidratos - a gordura têm o menor impacto na glicemia e insulina. Além do mais, a resistência à insulina é um precursor do diabetes tipo 2 e, em homens, este é o fator de risco número um para ataques cardíacos (veja o ponto no. 3).

Nós recomendamos que as diretrizes para perda de peso no Reino Unido devam incluir um consumo à vontade de carboidratos não-refinados e uma dieta rica em gorduras saudáveis (isto é, alimentos não-processados ou "comida de verdade") como uma abordagem aceitável, efetiva e segura para prevenir o ganho de peso e ajudar na perda de peso. 


2) Gorduras saturadas não causam doença cardíaca. Os laticínios integrais são provavelmente protetores.


A pressa em condenar a gordura saturada como nutriente digno de preocupação foi prematura. Uma nova metanálise das evidências disponíveis antes das mudanças das diretrizes alimentares de 1977 e 1983 nos Estados Unidos e na Inglaterra, respectivamente, mostrou que os estudos então disponíveis já não davam suporte à introdução da restrição da gordura na dieta (11).

Este erro não foi corrigido até 2014, mais de três décadas após, quando uma revisão sistemática de 76 estudos com mais de 600 mil participantes de 18 países concluiu que "as evidências atuais não dão suporte claro às diretrizes cardiovasculares que encorajam o alto consumo de ácidos graxos poli-insaturados e o baixo consumo de gorduras saturadas e totais" (12). De Souza et al resumiram o mais recente veredito sobre gorduras saturadas: "o consumo de gordura saturada não foi associado com mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, doença coronariana, AVC isquêmico ou diabetes tipo 2" (13).

As diretrizes nutricionais vigentes focam-se, erroneamente, no conteúdo de gordura total e saturada, ao invés de focar-se em alimentares específicos e nos subtipos de gorduras que eles contêm. Em particular, o consumo de ácido margárico, prevalente em laticínios não desnatados, reduz significativamente o risco de doenças cardiovasculares. Thornig et al relatam que " dietas com queijos e carnes como fontes primárias de ácidos graxos saturados levam a níveis maiores de HDL e de Apo-A1 e, portanto, parecem ser menos aterogênicas do que uma dieta de baixa gordura e alto carboidrato." (14) Laticínios integrais também podem proteger contra a obesidade. Um estudo de 2014 concluiu: "participantes no maior tercil de laticínios não desnatados (queijo, iogurte, leite) tiveram chance significativamente menor de se tornarem obesos" (15).

Estudos de coorte prospectiva confirmam que os níveis séricos dos ácidos graxos saturados oriundos do consumo de laticínios, tais como queijos e iogurtes, são inversamente relacionados à incidência de diabetes tipo 2. Em contraste, os níveis séricos do ácido palmítico, relacionado ao consumo de amido, açúcar e álcool, estão fortemente associados ao desenvolvimento de diabetes tipo 2 (16).

Os alimentos mais naturais e nutritivos disponíveis - carnes, peixes, ovos, nozes, sementes, azeitonas, abacates - todos contêm gorduras saturadas. Estes alimentos naturais têm sido parte da dieta humana desde os tempos paleolíticos, e têm sido consumidos ad libitum sem consequências adversas para saúde humana por milênios. A demonização continuada de gorduras naturais onipresentes afasta as pessoas de alimentos altamente nutritivos, integrais e promotores da saúde. 


3) Alimentos processados que contenham no rótulo "baixa gordura", "light", "baixo colesterol" ou "comprovadamente reduz o seu colesterol" devem ser evitados. 

Não existem evidências que demonstrem que reduzir a gordura saturada da dieta reduza os eventos cardiovasculares e mortes. Ao contrário, as melhoras nos desfechos cardiovasculares são independentes da redução do colesterol pela dieta. Ensaios clínicos de dieta que forneceram gorduras naturais abundantes, tais como ácido alfa-linoleico, polifenóis e ácidos graxos ômega 3, encontrados em nozes, azeite de oliva, peixes gordurosos e vegetais, exercem efeitos positivos rapidamente sobre a saúde (17). Os mecanismos podem incluir a redução da inflamação, da aterosclerose e da trombose. Substituir gordura saturada por óleos vegetais contendo ômega 6 reduz o colesterol, mas NÃO melhora a mortalidade cardiovascular (18). Ao contrário, estudos revelaram uma tendência no sentido de aumento da mortalidade. 

Os profissionais de saúde e o público precisam deixar de se focar tanto no LDL como marcador de saúde cardiovascular. As evidências mostram claramente que um perfil lipídico caracterizado por triglicerídeos altos e HDL baixo é mais preditivo de risco cardíaco, e é uma forma confiável de estimar a resistência à insulina. Um modelo matemático revelou que prevenir a resistência à insulina em homens jovens evitaria 42% dos infartos do miocárdio, uma redução maior do que a obtida com a correção da hipertensão (36%), do HDL baixo (31%), do índice de massa corporal elevado (21%) ou dos níveis de LDL (16%) (19). A calculadora de risco QRISK, usada por médicos para estimar o risco de doença cardiovascular nos próximos 10 anos,  sequer faz uso dos valores de LDL, e sim da relação colesterol total / HDL. 


Os processos através dos quais os "alimentos redutores de colesterol" atuam levantam sérias preocupações no que diz respeito a doença cardíaca coronariana: "... não há evidência de que os esteróis das plantas reduzam o risco de doença cardiovascular, e há várias evidências de que prejudiquem". (20).


4. Limite os carboidratos refinados e o amido para prevenir e reverter o diabetes tipo 2Diabetes tipo 2 é uma doença de resistência excessiva à insulina, que se manifesta através de níveis elevados de glicose no sangue. Os pacientes demonstram profunda intolerância aos carboidratos, e as mensagens de saúde pública deveriam refletir isto. É sabido que carboidratos refinados e amido aumentam os níveis de glicose no sangue, a necessidade de medicação e o ganho de peso. É, portanto, muito perturbador que os sites de ambos, Diabetes Uk e NHS (departamento de saúde do Reiuno Unido), deem prioridade ao consumo de carboidratos e amidos para portadores de diabetes tipo 2. Tais dietas irão levar, potencialmente, à piora da doença e a todas as suas complicações, tais como cegueira, insuficiência renal, neuropatia, doença vascular periférica, doença cardíaca e derrame.

Uma recente revisão ampla da literatura concluiu que a restrição de carboidratos é “a intervenção isolada mais eficiente para reduzir todos os aspectos da síndrome metabólica”, e deveria ser a primeira abordagem no manejo do diabetes. Uma dieta cetogênica (aquela na qual menos de 10% das calorias são oriundas de carboidratos) resulta na maior queda da hemoglobina glicada, e em redução do uso de medicamentos; seus benefícios são vistos mesmo na ausência de perda de peso (21).

O Dr David Unwin, um expert do Royal College of General Practitioners, Publicou recentemente resultados impressionantes obtidos ao simplesmente recomendar uma dieta de baixo carboidrato e com mais gordura para seus pacientes. Ele foi reconhecido como o Inovador do Ano nos Prêmios de Reconhecimento de Lideranças da NHS (Innovator of the Year at the NHS Leadership Recognition Awards 2016). Além de melhorar dramaticamente a saúde de seus pacientes, o doutor Unwin poupou ao sistema de saúde britânico 45 mil libras por ano em medicações para o diabetes, quando comparado com a média dos outros clínicos (22). Se nós pudéssemos replicar estes resultados nos outros 9400 consultórios médicos do Reino Unido, nós poderíamos potencialmente economizar 423 milhões de libras por ano apenas em medicamentos para o diabetes. Os custos cumulativos da redução dos danos aos órgãos alvo (ataques cardíacos, derrames, câncer, etc.) são muitas ordens de magnitude mais altos. E isso sequer leva em conta a redução significativa em sofrimento humano.


5. A quantidade ideal de Açúcar a ser consumido, para a saúde, é zero
O açúcar (sacarose, uma combinação de glicose com frutose) adicionado aos alimentos não tem absolutamente nenhum valor nutricional. Não existe uma única reação bioquímica do corpo humano que requeira frutose oriunda da dieta. Não Existe um único estudo que demonstre benefícios associados com seu consumo (23). O consumo excessivo de açúcar é fortemente associado com o aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, independentemente das calorias ou de seu efeito sobre o peso corporal (24, 25, 26). Embora estejamos satisfeitos como fato de que, recentemente, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu um limite máximo recomendado, a mensagem de saúde pública deveria enfatizar o fato de que açúcar não tem NENHUM papel em uma dieta saudável. O açúcar deveria ser relegado ao status de condimento ou aditivo alimentar, ao invés de comida, e deve retornar ao seu papel de coisa decadente e desnecessária, a ser consumida ocasionalmente, ao invés de diariamente em uma dieta saudável.

Além disso, nós recomendamos que o rótulo dos alimentos destaque a quantidade de açúcar adicionado, e que expresse esse valor em colheres de chá. Isso permitirá aos consumidores tomar decisões melhor informadas ao comprar produtos no supermercado.


6. Óleos vegetais obtidos por refino Industrial devem ser evitados
Por virtualmente a totalidade dos 2,4 milhões de anos da história humana, óleos vegetais puros extraídos de sementes não fizeram parte da dieta. O ácido linoleico (a gordura ômega 6 destes óleos) é extremamente suscetível à oxidação, tornando os alimentos rançosos, e também oxidando dentro do corpo (27, 28). Na natureza, o ácido linoleico existe em alimentos integrais tais como sementes, nozes, peixes e ovos, que também contêm vitaminas, minerais e antioxidantes que protegem esta gordura poli-insaturada altamente suscetível.

Dados recentes em humanos sugerem que nós deveríamos remover estes óleos vegetais de nossa alimentação para uma saúde ótima. Uma metanálise incluindo quase 10 mil pacientes confirmou que uma ingestão alta de óleos ômega 6 (oriundos de sementes ou de margarinas) aumenta o risco de morte e o risco de doença cardíaca quando comparado a gorduras saturadas e gorduras trans (29). Os dados de estudos mais antigos não demonstravam isso de forma tão clara, pois o consumo de ômega 3 era computado juntamente com consumo de ômega 6, o que dava uma falsa impressão de benefícios do ômega 6 para a saúde. Outros estudos, tais como o Anti-Coronary Club trial, confirmam que os ácidos graxos poliinsaturados ômega 6 aumentam o risco de morte quando comparados com a gordura animal (30).

Importante salientar que a mortalidade aumentou com consumo de óleos vegetais ricos em ômega 6 no LA Veterans Trial (31). Numerosos estudos em animais demonstraram que a gordura poli-insaturada ômega 6 promove o crescimento de tumores induzidos experimentalmente, enquanto o omega 3 inibe tal crescimento. Os óleos vegetais ricos em ômega 6 (tais como girassol e milho), ligados a um risco aumentado de morte, doença coronariana e câncer em humanos (32), assim como ao crescimento de tumores em modelos animais (33), não podem ser considerados seguros. Na verdade, mal podem ser considerados comida.

7.Pare de contar calorias (o pensamento focado em calorias causou danos à saúde pública).

As calorias só são iguais quando são incineradas e o calor liberado é medido. De fato, esta é a definição de caloria. Entretanto, calorias de alimentos diferentes têm efeitos metabólicos completamente diferentes no corpo humano, tornando esta definição inútil. Portanto, o efeito na nossa saúde difere substancialmente dependendo de onde tais calorias foram derivadas. Por exemplo, porções com a mesma quantidade de calorias de açúcar, álcool, carne ou azeite de oliva têm efeitos completamente diferentes em sistemas hormonais tais como a insulina, e em sinais de saciedade tais como colecistoquinina e o peptídeo YY. É altamente irrelevante saber quantas calorias uma porção de comida ou um prato contém. O que importa é como o nosso corpo responde a ingestão e absorção dessas calorias, e como elas são metabolizadas, dependendo do alimento específico em questão.

As atuais estratégias de redução calórica para perda de peso são altamente ineficazes. Dados do Reino Unido, de 2004 a 2014, estimam que a probabilidade de obter um peso normal com restrição calórica é de 1 em 167 (34). Isso equivale a uma taxa de insucesso superior a 99%. isso é facilmente confirmado pelas experiências de virtualmente todas as pessoas que experimentam dietas, a maioria das quais baseadas em restrição calórica.

Frequentemente, parte-se do princípio de que a ingestão excessiva de calorias é a causa da obesidade, mas isso não é verdadeiro. Uma caloria de energia oriunda de comida pode ter destinos metabólicos diferentes dependendo do contexto hormonal. Por exemplo, a mesma caloria de comida pode ser utilizada para gerar calor corporal, ou ser armazenada como gordura. A obesidade é uma doença de particionamento energético, e não de consumo energético total. O principal determinante de tal particionamento é o hormônio insulina.

O pensamento focado em calorias apresenta necessariamente um viés contra alimentos contendo gordura, muitos dos quais podem ser protetores contra a obesidade e doenças relacionadas, e tende a dar suporte a substitutos contendo amido e açúcar, os quais são particularmente ruins para pessoas com resistência à insulina.

Desviar o foco das calorias e enfatizar um padrão dietético que foque-se na qualidade dos alimentos ao invés da quantidade ajudará rapidamente reduzir a obesidade, as doenças relacionadas, e o risco cardiovascular (35). A perda rápida de peso o reganho após dietas da moda não é bom para saúde; este efeito sanfona contribui para hipertensão, resistência insulina e dislipidemia, resultando em risco aumentado de mortalidade e em desfechos cardiovasculares piores (36). O estudo Look Ahead não encontrou benefícios cardiovasculares em uma dieta com baixa caloria combinada com o aumento da atividade física em pacientes com diabetes tipo 2. A despeito de uma perda de peso significativa, mesmo com um seguimento de máximo 13,5 anos, nenhum efeito benéfico à saúde foi encontrado (37).

A saúde pública deve trabalhar primariamente favorecendo o consumo de alimentos integrais, que ajudam a proteger contra o desequilíbrio energético que leva à obesidade e disfunção metabólica, ao invés de continuar a promover mensagens baseadas em calorias, que podem criar (e depois culpar) vítimas, além de provavelmente exacerbar a epidemia de obesidade e doenças relacionadas.


8. Você não pode consertar uma dieta ruim como exercício.
É largamente aceito, tanto pelo público quanto pela a mídia, que consumir mais calorias do que nós queimamos é a causa da epidemia de obesidade e, assim, a solução é fazer mais exercício. Isso não está correto. A obesidade é um transtorno hormonal, levando a um particionamento anormal da energia, que não pode portanto ser solucionado apenas aumentando o exercício.

Por muitos anos, as indústrias fabricantes de bebidas e alimentos têm salientado a mensagem da atividade física a fim de exonerar-se da sua própria responsabilidade sobre a epidemia de obesidade. De fato, companhias que promovem alimentos processados e altamente refinados, ligados a epidemia de obesidade, têm patrocinado os maiores eventos esportivos (as Olimpíadas, por exemplo). Atividade física regular, sem dúvida, tem uma miríade de efeitos benéficos para a saúde - mas a perda de peso não é um deles. Houve muito pouca mudança em nosso nível de atividade física nas últimas três décadas enquanto os níveis de obesidade aumentaram (38). Um dos mais eminentes cientistas do esporte do mundo, o professor Timothy Noakes, diz que “os benefícios do exercício são inacreditáveis, mas se você precisa exercitar-se a fim de manter o peso baixo, sua dieta está errada”.

A associação entre alimentos ultraprocessados e refrigerantes com o esporte é muito preocupante. O apoio por parte de celebridades passa a mensagem errada, particularmente para crianças. Com o futuro da nação em risco, nós não podemos nos dar ao luxo de esperar - nós precisamos dissociar a atividade física da obesidade. Você não vai ficar bem se você comer junk food, mesmo que você pratique esportes (39).


9. Comer Lanches com frequência fará você engordar (sua avó tinha razão!)
Houve duas grandes mudanças nos hábitos dietéticos desde os anos 70, antes do início da epidemia de obesidade. A mudança para uma dieta de alto carboidrato e baixa gordura foi bem documentada, e teve um importante papel em causar obesidade. A outra mudança, o aumento na frequência da alimentação, tem um papel igual, senão maior, e tem sido negligenciada. Nos anos 70, o número médio de oportunidades para alimentar-se era três: café da manhã, almoço, e janta. Em 2005, o número praticamente dobrara (40). Agora, nós comemos café da manhã, lanche, almoço, lanche, janta e mais lanche. E cada uma dessas oportunidades tem boa chance de conter carboidratos refinados.

Comer continuamente desde o momento em que acordamos até o momento que vamos dormir não permite ao nosso corpo digerir e usar alguns dos alimentos que consumimos. O dia inteiro torna-se uma oportunidade para armazenar a energia dos alimentos, sem chance de queimá-las. Comer 6 vezes por dia não resulta em perda de peso (41), mas tende a aumentar o consumo geral de comida.

Os lanches tendem a ser altamente insulinogênicos (engordantes), uma vez que nós exigimos a conveniência e durabilidade característica dos carboidratos refinados. É simples comer alguns biscoitos como lanche, mas não um pequeno pedaço de salmão grelhado.

Nós precisamos de equilibrar o tempo que nós gastamos comendo e o tempo que nós gastamos não comendo, ou jejuando. A própria palavra café da manhã em inglês (breakfast = “break fast” = “quebrar jejum”), implicitamente reconhece que nós precisamos passar alguma parte do dia jejuando, mesmo que seja apenas 12 a 14 horas, a maior parte da qual durante o sono. Reduzir a frequência das nossas refeições pagará enormes dividendos em termos de perda de peso. Eliminar lanches, especialmente após a janta, e adicionar novamente períodos de jejum, são ideias simples, que já eram largamente praticadas antes da instalação da epidemia de obesidade. Isto provavelmente não é uma coincidência.

10. A nutrição baseada em evidências deve ser incorporada aos currículos educacionais de todos os profissionais da Saúde.

Em vista da ameaça imediata imposta pelas doenças relacionadas a dieta, nós acreditamos que seja imperativo que os currículos de graduação e pós-graduação, bem como o da educação médica continuada, incorporem nutrição baseada em evidências atualizadas. Uma pesquisa global desenvolvida pelo banco de investimentos Credit Suisse preocupantemente revelou o nível substancial de desinformação que existe entre os médicos, com 92% acreditando que comer gordura provoca problemas cardiovasculares e 87% acreditando que levará ao ganho de peso - com resultados semelhantes para nutricionistas. Incorretamente, 54% dos médicos e 40% dos nutricionistas pensam que comer alimentos ricos em colesterol aumenta os níveis sanguíneos de colesterol. Mais “chocante” neste relatório foi que 83% dos médicos acredita que a manteiga é pior do que a margarina, e 66% acreditam que óleos vegetais são benéficos para saúde (42).

Isso não diz respeito apenas a prevenção de doenças, mas envolve intervenções nutricionais voltadas a eliminação das causas das doenças crônicas, não limitando-se apenas a tratar os sintomas e os fatores de risco com medicamentos. O fato de que medicações prescritas são atualmente a terceira maior causa de mortes no mundo todo, depois de doença cardíaca e câncer, deve servir de alerta para o fato de que o futuro dos cuidados à saúde irá requerer uma estratégia que incorpore mudanças de estilo de vida baseadas em evidências para tratar as doenças, estratégias essas a serem empregadas como um acréscimo ou frequentemente como uma alternativa aos tratamentos medicamentosos e seus efeitos colaterais. Nós apoiamos a Academy of Medical Royal Colleges e o British Medical Journal que, conjuntamente, oferecem um plano para reduzir os danos do "excesso de medicações", como parte da campanha Choosing Wisely ("escolhendo com sabedoria"): uma das suas recomendações encoraja a educação do público para que questionem os profissionais médicos sobre se existem opções mais simples ou mais seguras à medicação prescrita (43).

Diretrizes de alimentação saudável e perda de peso para o Reino Unido

Além de auxiliar na confecção deste documento, a Public Health Collaboration (PHC) também escreveu um relatório mais longo sobre diretrizes de alimentação saudável e perda de peso para o Reino Unido. este relatório pode ser baixado do site da PHC em https://www.PHCuk.org/healthy-eating-guidelines-weight-loss-advice-for-the-uk/ onde você também achará mais informações.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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