sexta-feira, 17 de junho de 2016

A esteatose e os carboidratos

Já escrevi em 2013 sobre dieta e fígado - sugiro a leitura daquela postagem para quem busca referências bibliográficas sobre o tema.

O que se segue é interessante artigo do jornal britânico Daily Mail, sobre low carb e esteatose hepática. Obrigado à Daniela Cabral pela tradução.



NÃO é somente álcool! Porque torrada e batatas podem causar dano hepático

Por Jerome Burne para o Daily Mail (artigo original aqui)


O quanto você tem bebido? Essa foi a pergunta padrão do Dr. David Unwin quando os exames sanguíneos dos paciente demonstravam que o fígado deles não estava funcionando adequadamente.

A saúde do seu fígado pode ser medida através do exame sanguíneo de uma proteíma chamada Gama-Glutamil-Transferase (Gama - GT) – se seus níveis estiverem altos, sugere que seu fígado está sob pressão e é normalmente interpretado como um sinal de que você está bebendo muito álcool.

De fato, Dr. Unwin, especialista em Clínica Médica de Southport, no Merseyside, explica: “Assim como outros médicos, eu normalmente assumia que os pacientes estavam subestimando a quantidade de álcool que bebiam e que o álcool era a principal razão para os resultados elevados”.

Mas o Dr. Unwin não pensa mais assim. Isso porque alguns de seus pacientes apresentavam Gama - GT elevados enquanto que bebiam muito pouco ou nada.

Na verdade, seus níveis elevados são devido à esteatose (acúmulo de gordura) hepática não alcoólica, o que é associado à dieta. Estimativamente, 20% dos Britânicos tem esta doença, duas vezes mais do que os portadores de diabetes.

Em alguns casos, a condição pode evoluir para danos hepáticos graves e em último caso à falência hepática. No entanto, isto não é precursor apenas de problemas hepáticos.

Alguns especialistas acreditam que esta condição pode ser um alerta de que o paciente está sob alto risco de outras condições como doenças cardíacas e diabetes.

A sabedoria popular sobre esteatose não alcoólica é que comer demais é a causa do problema, onde o excesso de calorias é simplesmente estocado no fígado na forma de gordura.

Mas alguns especialistas, incluindo Dr. Unwin, acreditam que comidas ricas em açúcar e amido constituem uma importante ameaça.

“Eles são problemáticos porque são rapidamente transformados em glicose e o primeiro local corporal de armazenamento de glicose é o fígado”, ele diz.

Aquilo que o fígado não é capaz de armazenar é então estocado na forma de gordura corporal. A solução, ele diz, é simples: uma dieta de baixo carboidrato (Low-carb). Isso significa menos glicose no fígado, consequentemente, menos gordura.

Dr. Unwin tem provado esta teoria num estudo que acaba de ser publicado na revista especializada “Diabesity in Practice”. Ele selecionou 69 pacientes de sua clínica que apresentavam níveis muito altos de Gama-GT e os colocou numa dieta low-carb durante 13 meses.

Basicamente, eles comiam vegetais verdes, frutas com pouco açúcar como amoras, castanhas, peixes, ovos e carnes. A ideia era cortar todo o açúcar adicionado e reduzir carboidratos do tipo amido, como pães e batatas, enquanto se aumentava a quantidade de gorduras saudáveis vindas de azeite de oliva e manteiga.

“Os resultados foram impressionantes” diz Dr. Unwin. “A primeira coisa que aconteceu foi a queda nos níveis de Gama-GT numa média de 47%. Isso faz sentido uma vez que o fígado é o primeiro destino de novos suprimentos de glicose”.

Depois disso, houve melhora em outros marcadores de saúde – em média, glicemia (açúcar no sangue) diminuiu notáveis 10 pontos, em torno da mesma quantidade alcançada através de alguns remédios para diabetes – o peso dos pacientes diminuiu cerca de 5,5 Kg, enquanto que a razão entre o “bom” e o “mau” colesterol passou de 4,3 para 3,8; apesar de todos os pacientes estarem comendo mais gordura.

O “British Liver Trust”, entidade que financiou a pesquisa, a descreveu como “uma compreensão muito útil a respeito de como melhorar o funcionamento do fígado” e disse que ela trouxe a esperança que dietas low-carb podem ajudar a reduzir as mortes prematuras causadas por doenças hepáticas.

Mas o olhar do Dr. Unwin sobre esteatose hepática vai contradiz a sabedoria convencional, principalmente quando se trata de comer gordura.

O conselho do NHS (Ministério da Saúde local), por exemplo, é que uma dieta de baixa gordura (low-fat) é a melhor forma de prevenir e tratar esteatose hepática.

E semana passada, pesquisadores falaram sobre a possibilidade do primeiro medicamento para tratamento desta condição.

Pesquisadores da Birmingham University administraram uma injeção diária de liraglutide, droga para tratar diabetes, a 14 pacientes por 3 meses – quatro a cada dez pacientes perderam a gordura hepática.

Seus pesos também caíram, eles tiveram menos sinais de dano hepático e melhoraram os marcadores diabéticos.

“Isto é interessante, mas dificilmente é o tratamento ideal”, diz Dr. Unwin. A droga precisa ser injetada diariamente e apresenta o risco de náusea e diarreia. Também representa um custo anual ao NHS de 1.400 euros.

Mas ele não argumenta apenas que a dieta e o corte de carboidratos sejam a chave para o tratamento de esteatose hepática não alcoólica. Dr. Unwin e outros dizem que a condição é mais importante do que normalmente é considerada, com o Gama-GT atuando como um canário numa mina de carvão, um aviso precoce, de que os níveis de glicose estão altos e que os estoques de gordura no fígado estão formando uma barriga, com diabetes e doença cardíaca aguardando no fim da linha.

“Esteatose não alcoólica é a terceira maior epidemia dos tempos modernos, juntando-se à diabetes e obesidade como as maiores ameaças à saúde”, diz Dr. Unwin.

“E o açúcar e os carboidratos parecem ser os culpados. É tentador esperar que assim como comer é o caminho para as 3 epidemias, nós podemos achar a saída na comida, cortando o consumo de amidos e açúcar”.

Roy Taylor, professor de medicina e metabolismo da Universidade de Newcastle, tem demonstrado como exames de Gama-GT podem indicar sinais de esteatose hepática anos antes dos pacientes acabarem desenvolvendo diabetes.

Como ele tem dito: “Antes do diagnóstico de diabetes tipo 2 existe um longo e silencioso grito vindo do fígado”. Esteatose hepática não alcoólica também eleva o risco de doença cardíaca.

“O estudo de longo prazo e ainda em andamento de doença cardíaca de Framingham encontrou que níveis elevados de Gama-GT aumentam o risco de desenvolver doença cardiovascular em 65%”, diz Dr. Unwin. “Agora parece que nós temos uma maneira de trazer esses níveis para baixo”.

Alan Threlfall é um dos pacientes que participou da pesquisa de esteatose do Dr. Unwin. Aos 43 anos pesando 120 quilos e com 1,72 metros de altura, ele tinha diabetes tipo 2 por mais de 12 anos e descrevia sua vida como “horrenda”.

Alan e sua esposa Katy têm três crianças pequenas, mas ele diz que não tinha uma vida real com eles. “Eu estava dormindo 18 horas por dia. Eu estava tão cansado que cada passo era como andar sobre concreto molhado” ele diz.

“Eu tinha um negócio de marcketing com a Katy, mas eu precisei parar 2 anos atrás. Eu estava pronto para me jogar de um prédio”.

No início do estudo, o nível de Gama-GT de Alan era extremamente alto, 223 – os níveis considerados saudáveis são de 0 – 50 – e seus níveis de glicose sanguínea eram frequentemente 3 vezes maior que o normal. Quatro meses depois, o Gama-GT caiu para 78 e o nível de açúcar que era de 162 mg/dL (sinal de diabetes descontrolada) foi para 77 mg/dL.

Ele está gradualmente diminuindo a medicação, perdeu 13 quilos e segue perdendo.

Alan tem descrito a experiência como um milagre. “Em uma semana, eu senti o nevoeiro da fadiga começar a se dissipar. Só ser capaz de brincar com as crianças é maravilhoso”, ele diz.

Os críticos têm dito que as dramáticas melhoras relatadas por pacientes como Alan não são devido ao corte no consumo dos carboidratos mas sim por causa da perda de peso; a gordura extra de uma dieta low-carb faz você se sentir cheio, então você come menos.

Mas “isso não se encaixa com os achados do estudo” diz Richard David Feinman, professor de biologia celular da State University of New York Downstate Medical Center no Brooklyn. Ele é coautor do artigo do que Dr. Unwin escreveu sobre seu estudo e é um especialista internacional em metabolismo dos carboidratos.

“Se a queda da Gama-GT foi um resultado direto da perda de peso, você esperaria ver os dois caírem juntos”, ele diz. “Mas não foi isso que aconteceu. A melhora nos níveis de Gama-GT ocorreu bem rápido, nas primeiras semanas do estudo, antes mesmo do início da perda de peso significativa”.

O desafio, é claro, com todas as dietas é a possibilidade de mantê-la. Mas Dr. Unwin está otimista.

“Durante o estudo, eles seguiram a dieta por uma média de 13 meses, mas eu e minha esposa, junto com muitos outros pacientes, estamos nesta dieta há 3 anos. Eu tenho 57 anos e acabo de correr uma prova de 10 Km em 52 minutos, como meu corpo está adaptado a utilizar gorduras ao invés de carboidratos como combustível. Certamente não é a dieta Atkins, a qual tem proteína demais e vegetais de menos”.

“Sentir-se mais saudável e ter energia para brincar com seus netos é motivante. Boa medicina é quando as pessoas melhoram sua vidas através de mudanças no estilo de vida sem tomar nenhuma medicação. Então, com certeza, vale a pena conduzir mais estudos sobre isso no futuro”.

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