domingo, 5 de novembro de 2017

A realidade tem primazia sobre os mecanismos

"Os besouros não deveriam conseguir voar - é matematicamente impossível. E, não obstante, eles voam!"

Por que será que todas as melhores histórias são lendas? Esta, infelizmente, é mais uma delas. Nenhum cientista de verdade diz essa bobagem, e esse tipo de asneira só dá cria nas redes sociais, essa espécie de ágar-ágar da estupidez humana. Mas, enquanto lenda urbana, nos serve de argumento.

Parece que, efetivamente, houve um livro de entomologia de 1934 chamado Le vol des insectes ("O voo dos insetos"), de Antoine Magnan, no qual o autor de fato relatou que, segundo seu amigo e matemático André Sainte-Laguë, as asas tinham uma superfície muito pequena para fornecer sustentação aos insetos, dados sua superfície, volume, peso e velocidade.

Suponhamos que você seja Antoine Magnan, o entomologista. Há 20 anos você estuda e cataloga insetos. Você consegue identificar diferentes espécies, na natureza, apenas pela forma como voam, de modo que seu voo é, para você, uma realidade cotidiana. De repente, você recebe uma carta (estamos nos anos 1930, afinal). Dentro dela, seu amigo e matemático André Sainte-Laguë afirma, após umas 3 folhas de cálculos inescrutáveis, que o voo dos insetos é IMPOSSÍVEL. As leis da aerodinâmica provam isso.

E então, o que acontecerá a seguir?


  1. Você, juntamente com o Universo, dá-se conta subitamente que o voo dos insetos é impossível e, como num passe de mágica, todos os insetos voadores caem do céu, e passam a caminhar, como se formigas fossem. 
  2. Você sabe que os insetos voam. Aliás, todo mundo sabe, inclusive seu amigo André, que de parvo não tem nada. Ou seja, sabendo-se que os insetos voam, você e André sabem que os cálculos estão errados, ou incompletos, ou baseiam-se em modelos inválidos para essa situação específica.
A opção 1 significaria colocar os mecanismos acima da realidade; a opção 2 é a admissão de que a realidade tem primazia sobre os mecanismos. Afinal, o fato é que eles voam.

Mas isso nem sempre foi assim. Durante a idade média, os mecanismos tinham prioridade sobre a realidade. Se você queria saber algo sobre a realidade, você não fazia experimentos, você consultava a opinião dos sábios do passado. E o maior deles era Aristóteles. Aristóteles acreditava que uma pedra de 2 quilos cairia 2 vezes mais rápido do que uma pedra de um quilo. Afinal, ela pesava duas vezes mais - faz todo o sentido, não é mesmo? Apenas um tolo duvidaria desta verdade auto-evidente, matematicamente demonstrável.

Aristóteles, assim como muitos filósofos gregos, acreditava que a filosofia, o pensamento abstrato em si, era a melhor forma de construir o conhecimento. Nunca ocorreu a ele TESTAR a sua hipótese, lançando duas pedras de peso diferente para ver o que ocorria. No pensamento aristotélico, a coerência interna, a lógica - que era o equivalente da álgebra no mundo das ideias - e a beleza de uma teoria bastavam. Sujar as mãos com pedras era uma espécie de rebaixamento intelectual.

Eis que, por 2 mil anos, as mentes curiosas do mundo civilizado que indagassem sobre a queda de corpos de diferentes massas receberam a mesma resposta: quanto mais pesado o corpo, mais rápida a sua queda. Aristóteles explicou o mecanismo. Portanto, tem de ser assim.

Existe um motivo pelo qual este período é conhecido como idade das trevas.

Então, veio Galileu Galilei. Galileu acreditava que corpos de diferentes massas cairiam com a mesma velocidade, pois sofreriam a mesma ACELERAÇÃO. 

A seguir, reproduzo um fragmento da wikipedia:


"Dois mil anos antes, o filósofo grego Aristóteles tinha afirmado que uma pedra de 2 quilos cairia duas vezes mais depressa que uma pedra de um quilo. Os outros professores da Universidade de Pisa, onde Galileu lecionava, mantinham que como Aristóteles era sábio e bom, ninguém devia duvidar dos seus ensinamentos.
Galileu insistiu calorosamente em que os homens deveriam acreditar no que viam. Segundo reza a lenda, Galileu teria convencido os professores a acompanhar suas experiências, levando-os à torre inclinada de Pisa, local em que deixou cair uma grande pedra junto com outra pequena do balcão mais alto da torre.
Elas chegaram juntas ao solo "o seu impacto soou como o toque de finados da autoridade pela fama, em Física".
Desde então nós aprendemos a nos apoiar cada vez mais na experiência e a fazer experiências para descobrir a verdade. A experiência de Galileu marca o nascimento da Física moderna."

Como você sabe, a história não terminou assim. Galileu foi condenado pela Igreja por heresia, e só não foi queimado na estaca porque renegou suas ideias, tendo assim recebido o benefício da prisão domiciliar. Só em 2000 o papa João Paulo II perdoou Galileu. A Igreja definitivamente tem um pendor por mecanismos em detrimento da realidade.

E então, o fato de Aristóteles ter postulado que uma pedra de 2 quilos cairia duas vezes mais rápido do que a de um quilo, faz com que caiam? É claro que não. A realidade tem primazia sobre os mecanismos. E é por isso que, no vídeo abaixo, de 1971, o astronauta da Apollo 15 presta homenagem citando o nome de Galileu, quando prova que uma pluma e um martelo caem à mesma velocidade na lua (onde não há resistência do ar), e não o nome de Aristóteles. Se o homem chegou à lua, e se você está lendo essas linhas em um dispositivo eletrônico, foi por causa do legado de gente como Galileu, que compreendeu que a realidade tem primazia sobre os mecanismos.



Isso significa que mecanismos não têm nenhuma importância? Não, claro que são importantes. O que precisa ficar claro é que mecanismos não determinam a realidade. Mecanismos são postulados teóricos que ajudam a explicar uma dada realidade e a postular hipóteses. Mas a realidade terá SEMPRE a última palavra. Se uma hipótese, amparada em um mecanismo qualquer, produzir resultados diversos do que se observa no mundo real, não é o mundo real que está errado! Os insetos continuarão a voar, é você que precisa rever seus postulados para encontrar onde está o erro.

***

Por que escrevi sobre tudo isso em um blog de ciência low carb? Porque todos os dias recebo emails angustiados de leitores que receberam um artigo científico dizendo que low carb é ruim baseado em algum MECANISMO de ciência básica.

Muitas vezes, tais estudos de mecanismo levantam hipóteses que são opostas à realidade já constatada em ensaios clínicos randomizados.

Exemplo 1:


  • Esse estudo mostra que uma dieta de alta gordura produz obesidade e resistência à insulina em roedores;
  • Esse estudo (ensaio clínico randomizado) mostra que uma dieta de baixo carboidrato e alta gordura produz perda de peso e melhora da resistência à insulina em humanos;
E então? Um novo estudo que mostre que uma dieta rica em gorduras produz ganho de peso em roedores fará com que a realidade se curve? As pessoas que perderam 20 Kg com low carb acordarão hoje 20 Kg mais gordas? É claro que não! O fato de que isso acontece em roedores, mas não em humanos, faz com que os pesquisadores devam pesquisar as diferenças metabólicas entre roedores e humanos. Pois a realidade tem primazia sobre os mecanismos. Os insetos continuam voando, as pedras continuam caindo à mesma velocidade, e as pessoas continuam perdendo gordura com low carb.

Exemplo 2:

  • Esse estudo sugere que gordura na dieta causa alterações adversas no microbioma intestinal, produzindo inflamação;
  • Esse estudo, uma metanálise de ensaios clínicos randomizados em humanos, mostra que low carb produz redução dos níveis de proteína C reativa (um marcador de inflamação);
No exemplo 2, são dois os problemas. O primeiro é o fato de que, em humanos, sem avaliar o microbioma e apenas medindo um marcador de inflamação, low carb está associado com redução dos níveis de inflamação. Como há incontáveis mecanismos de inflamação, não sabemos quais os mais importantes, mas a REALIDADE nos informa que, ao fim e ao cabo, independentemente de por qual mecanismo, low carb produz melhora.

Mas o segundo problema é o mais grave: estamos, nesse caso, discutindo um desfecho substituto.
Isso já foi discutido em outra postagem, mas segue um resumo:

  • Desfecho concreto é o que realmente interessa: morte, derrames, amputação.
  • Desfecho substituto são coisas que você IMAGINA que irão afetar a sua CHANCE de ter um evento concreto: níveis de colesterol, ativação da proteína m-TOR, alterações no microbioma intestinal.
O que realmente importa são estudos (preferencialmente ensaios clínicos randomizados) com desfecho CONCRETO. E sempre que um ensaio clínico com desfecho concreto mostrar algo diferente do que um estudo com desfecho substituto (ou seja, com desfecho focado em mecanismos), o que vale é o DESFECHO CONCRETO. Por quê? Porque a realidade tem primazia sobre os mecanismos. O que importa é que o insetos voam, que as pedras caem, que as pessoas emagrecem e revertem sua síndrome metabólica.

Assim, o que importa não é síntese proteica na biópsia do músculo (mecanismo), e sim massa muscular (realidade);
O que importa não é resistência à insulina 1 hora após uma refeição rica em gordura (mecanismo), e sim reversão do diabetes (realidade).
O que importa não é flora intestinal (mecanismo), e sim reversão de síndrome metabólica (realidade).

***

Não estamos mais na idade média. A Santa Inquisição não irá queimar quem duvida das hipóteses postuladas por pessoas famosas.

Se quisermos saber se uma pedra pesada cai mais rápido ou não, basta fazer um experimento, não precisamos perguntar a opinião de Aristóteles sobre o que os mecanismos dizem que deveria acontecer.  

Nenhum estudo de mecanismo altera NADA em relação à realidade. Sua única função é postular hipóteses. Tais hipóteses são testadas em ensaios clínicos randomizados. Uma vez que os ensaios clínicos tenham sido conduzidos, novos estudos de mecanismo que estejam em desacordo com os resultados observados são tão inúteis quanto os cálculos de André Sainte-Laguë sobre o voo dos insetos.

A realidade tem primazia sobre os mecanismos. E os estudos com desfechos concretos têm primazia sobre estudos com desfechos substitutos.

domingo, 15 de outubro de 2017

Cetose

Poucas coisas geram tanta confusão no mundo low carb quanto os assuntos cetose e dieta cetogênica. Há tantos mitos relacionados a esse assunto que, às vezes, eles parecem acasalar nas redes sociais e dar cria. Mais preocupante, contudo, são os mitos proferidos por quem deveria dominar o assunto - os profissionais de saúde. A seguir, os tópicos que julgo mais importante esclarecer:


  1. Cetose e cetoacidose são coisas completamente diferentes;
  2. Low carb e dieta cetogênica são coisas diferentes, e a maioria das dietas low carb não é cetogênica;
  3. Cetose é desnecessária para a perda de peso em low carb;
  4. Uma dieta low carb cetogênica não é superior a uma dieta low carb não cetogênica para perda de peso.
  5. Mas, afinal, que importância tem estar ou não e cetose?

Primeiramente, uma breve introdução. As duas fontes principais de energia para as nossas células são glicose e ácidos graxos (gordura). Havendo glicose em abundância, esta é utilizada primariamente como fonte de energia. Quando há pouca glicose disponível, o corpo passa a oxidar mais gordura. Parte dessa gordura é convertida, pelo fígado, em corpos cetônicos. Corpos cetônicos são moléculas pequenas (4 carbonos apenas, 3 no caso da acetona), que podem ser utilizados como fonte de energia por neurônios e pelo coração, por exemplo. Isso é extremamente útil em situações de escassez de glicose, como o jejum.

Todos nós temos, sempre, corpos cetônicos presentes no sangue. O que varia é sua quantidade.

Todos nós, quando acordamos do jejum noturno, temos uma elevação dos corpos cetônicos no sangue. Ou seja, tecnicamente, todo mundo acorda em cetose, embora leve. A presença de corpos cetônicos em exame de urina de rotina é algo muito comum, quando as pessoas colhem exames com jejum de 12 horas, independentemente do tipo de dieta: cetose é algo normal e benéfico em jejum, como forma de ajudar a suprir a necessidade energética do cérebro.

1) Cetose e cetoacidose são coisas completamente diferentes.
Corpos cetônicos existem em três formas: acetoacetato (comumente medido na urina), beta-hidroxibutirato (BHB, medido no sangue) e acetona, eliminada na respiração.

O BHB do sangue é medido em milimóis por litro (mmol/L). A concentração de BHB no sangue de pessoas que não estão fazendo nenhum tipo de dieta é da ordem de 0,1 a 0,2 mmol/L

Cetose nutricional costuma ser definida como BHB acima de 0,5 mmol/L. É muito difícil atingir níveis acima de 3 mmol/L apenas com dieta. Crianças com epilepsia refratária, para as quais uma dieta cetogênica é uma alternativa terapêutica bastante eficaz, precisam fazer uma dieta extremamente rígida para passar de 4 mmol/L, o que parece produzir melhores resultados no controle da doença.

Assim, é importante entender que atingir níveis elevados de cetose nutricional não é algo fácil, que uma pessoa consiga atingir sem querer ao deixar de comer pão e açúcar. Mesmo pessoas seguindo uma dieta cetogênica rígida muitas vezes têm dificuldades de atingir 3 mmol/L de beta-hidroxibutirato.

E cetoacidose, o que é? Cetoacidose é uma intoxicação por corpos cetônicos. São níveis muito elevados, em geral superiores a 16-17 mmol/L. Você não atinge tais níveis sem querer. Você não atinge tais níveis nem querendo! Cetoacidose é uma DOENÇA, que ocorre fundamentalmente em UMA situação: paciente diabético, insulino-dependente, que deixa de usar sua insulina (ou usa bem menos do que o necessário).

ENTENDA: qualquer componente do seu sangue pode ser fatal, se estiver em concentração muito elevada. Por exemplo: o cálcio não é um veneno. É absolutamente essencial. Mas seus níveis no sangue variam muito pouco: de 10,5 a 11,9 mg/dL. Níveis de 13 ou 14 mg/dL podem ser fatais. Isso é uma elevação de apenas 0,3 vezes o nível normal. E, repito: ainda assim, o cálcio não é algo RUIM.

Há substâncias cuja concentração no sangue pode variar bem mais, antes de levar o indivíduo à morte. A glicose normal oscila em torno de 70 a 100 mg/dL. Níveis de glicose no sangue 6 ou 7 vezes acima do normal podem levar ao coma e à morte. Isso não significa que a glicose seja algo ruim ou tóxico - apenas o seu EXCESSO é problemático.  E o beta-hidroxibutirato? É algo perigoso? Os níveis de BHB associados à cetoacidose são cerca de CINQUENTA vezes acima do normal. Mesmo uma pessoa fazendo uma dieta cetogênica precisaria atingir níveis de BHB cerca de 5 vezes mais altos para chegar no limite inferior da cetoacidose. Pensando bem, eu não consigo lembrar de NADA que exista na química do sangue que seja tão inócuo quanto beta-hidroxibutirato. Por favor, vocês que me leem: tentem encontrar, na literatura, qualquer componente do sangue cuja concentração sérica possa ser multiplicada por 40 sem levar à morte. Eu prometo editar a postagem para incluir aqui. Ou seja: dizer que cetose é ruim porque cetoacidose pode ser fatal é tão absurdo quanto dizer que ter glicose no sangue é ruim porque hiperglicemia pode ser fatal. E, dado o fato de que corpos cetônicos precisam elevar-se MUITO mais do que qualquer outra coisa no sangue antes de causar problemas, tal afirmação traduz ignorância bastante profunda, se proferida por profissional de saúde.

Se cetose fosse vento, cetoacidose seria furacão;
Se cetose fosse água, cetoacidose seria afogamento;
A única semelhança entre as duas coisas é o nome. Uma é 40 vezes a outra. Quarenta.

2) Low carb e dieta cetogênica são coisas diferentes, e a maioria das dietas low carb não é cetogênica.

É comum as pessoas usarem os termos dieta cetogênica e low carb como se fossem sinônimos. As definições variam, mas a maioria dos autores concorda que low carb é qualquer dieta que contenha menos de 130g de carboidratos por dia. Dificilmente ocorrerá cetose nutricional com mais de 30-40g de carboidratos por dia. Assim, toda dieta cetogênica é low carb, mas a maioria das dietas low carb não é cetogênica. No excelente livro Primal Blueprint, Mark Sisson fez um gráfico que foi adaptado por Hilton Sousa:

O nível de restrição de carboidratos necessário depende do grau de resistência à insulina do indivíduo. Um diabético tipo 2 se beneficia de uma restrição mais severa; já uma pessoa saudável e dentro do peso não necessita grandes restrições. E, quando se come comida de verdade, 100g de carboidratos não é tão pouco: é meio quilo de batatas, por exemplo. Ou seja, tecnicamente, 500g de batata ainda é low carb, mas definitivamente não é compatível com uma dieta cetogênica. Para saber se está em cetose mesmo, é necessário medir os corpos cetônicos.


3) Cetose é desnecessária para a perda de peso em low carb.

muitas dezenas de ensaios clínicos randomizados de low carb para perda de peso. A quase totalidade mostra superioridade da estratégia. Mas chama atenção o fato de que muitos destes estudos usam uma quantidade de carboidratos que está LONGE de ser cetogênica - até 130g. Como explicado acima, 130g torna possível consumir boa quantidade de frutas e raízes, por exemplo. Neste estudo, tanto uma dieta Low Carb, High Fat (Atkins) quanto uma dieta de carboidratos moderados (40%) e alta proteína (Zone Diet) foram superiores à dieta de alto carboidrato no que diz respeito a perda de peso. Quarenta por cento de carboidratos é menos do que a dieta ocidental padrão, mas está LONGE de ser uma dieta cetogênica. Não obstante, houve benefícios de uma redução relativamente modesta de carbs, e tais benefícios foram semelhantes aos obtidos em uma dieta Atkins (very low carb). Aliás, há outros estudos que mostram a mesma coisa (veja aqui).

4) Uma dieta low carb cetogênica não é superior a uma dieta low carb não cetogênica para perda de peso

Quando o Dr. Atkins propôs, em seu livro de 1972, que as pessoas medissem os corpos cetônicos (acetoacetato) com fitas coloridas na urina, talvez ele simplesmente estivesse sugerindo um truque para que as pessoas soubessem se realmente estavam restringindo adequadamente os carboidratos. Ou seja, como uma medida de conformidade às regras. Ou pode ser que ele acreditasse, erroneamente, que a cetose fosse necessária para perda de peso (afinal, a quase totalidade dos ensaios clínicos randomizados sobre low carb são posteriores à publicação de seu livro). Seja como for, essa ideia acabou ganhando as redes sociais. Então, vamos deixar bem claro algumas coisas:

  • Cetose é, sim, evidência de que se está oxidando ("queimando") gordura, mas a origem dessa gordura pode ser sua, de sua dieta, ou de ambos. Ou seja, uma pessoa pode estar em cetose e não perder peso nenhum, e é possível (embora não fácil) inclusive ganhar peso em cetose, se a quantidade de gordura ingerida na dieta for maior do que o gasto calórico.
  • É plenamente possível perder peso em low carb, oxidando primariamente gordura, sem estar em cetose. O corpo não é um sistema binário, que oxida 100% glicose ou 100% gordura. À medida que se reduz os carboidratos na dieta, a participação da gordura na matriz energética aumenta. Não é necessário cetose para que isso aconteça.
Mas resta ainda a pergunta: uma dieta cetogênica não seria superior a uma low carb não cetogênica no que diz respeito a perda de peso? A resposta pode surpreender:


O título já diz: "As dietas low carb cetogênicas não possuem vantagem metabólica sobre as dietas low carb não cetogênicas". Mas devo fazer um pequeno adendo: o autor sênior do estudo é o Dr. Barry Sears, que é autor do livro The Zone Diet, que defende justamente isso.

O estudo é um pequeno ensaio clínico randomizado, com 20 participantes obesos, e duração de apenas 10 semanas. Mas foi bem feito, com os alimentos fornecidos pelo próprio estudo nas primeiras 6 semanas. É basicamente uma comparação de Atkins (cetogênica) versus Zone (40% de carboidratos de baixo índice glicêmico).

O resultado não mostrou diferença em termos de perda de peso e perda de gordura (embora houvesse uma pequena tendência para resultados melhores com a low carb moderada):


Mas este estudo tem um defeito que o fere de MORTE: as dietas foram desenhadas para ser isocalóricas, isto é, ambos grupos foram obrigados a consumir 30% menos calorias do que foi estimado para sua manutenção de peso. Ou seja, o Dr. Sears usou o que eu chamo de truque da corrida: faça uma corrida entre um Gol e uma Ferrari, mas estabeleça uma regra: a velocidade máxima permitida é de 40 Km/h. Dessa forma, você corre o risco de concluir que ambos carros são iguais.

Ainda assim, o que o estudo mostra, sem dúvida, é que a cetose não é essencial para perda de peso na forma de gordura.

E se você, leitor, quiser dar-se ao trabalho de revisar por conta própria as dezenas de ensaios clínicos randomizados, verá que em muitos deles o grupo low carb não é cetogênico mas, ao contrário do estudo reproduzido acima, não tem restrição calórica voluntária, e ainda assim ocorre perda de peso significativa.


5) Mas, afinal, que importância tem estar ou não e cetose?
Existem algumas situações que se beneficiam de uma dieta cetogênica. Outras parecem, anedoticamente, se beneficiar. Há ainda aquelas em que se ESPECULA que a cetose possa ser útil.

Uma dieta cetogênica é comprovadamente eficaz em epilepsia refratária, tendo, inclusive, sido desenvolvida originalmente para esse fim. Enxaquecas, que têm algum parentesco com epilepsia, também parecem se beneficiar.

Há estudos sugerindo benefício em determinados quadros neurodegenerativos e demenciais (veja aqui, aqui e aqui).

Alguns estudos preliminares (eu disse preliminares) sugerem que a cetose possa ser combinada com químio e radioterapia para aumentar o efeito das mesmas. Neste momento, existem 21 ensaios clínicos randomizados em andamento. No futuro, saberemos mais sobre essa assunto; por ora, permanece completamente especulativo.

***

"Se eu mascar chiclete sem açúcar, vou sair da cetose?"  Se eu tivesse uma moeda para cada vez que escuto variações dessa pergunta...

A primeira questão é: por que motivo você precisa ficar em cetose? Está tratando epilepsia? Está tratando um quadro demencial? Como já vimos, se for para perda de peso, estar em cetose não é importante. Então, neste último caso, tanto faz!

Além disso, para "sair da cetose" é preciso primeiro estar em cetose. Se você não tem um aparelho medidor, não tem como saber. E não, você não tem como "sentir" que está em cetose. Quer ou precisa fazer cetogênica? Compre o aparelho e as respectivas fitas.

Se você se SENTE BEM em dieta cetogênica, com pouca fome (pois corpos cetônicos inibem o apetite), energia de sobra, percentual de gordura corporal em dia, excelente: sou 100% a favor. Tenho certeza de que há alguns indivíduos que só conseguem perder peso e manter a glicemia controlada com dieta cetogênica - e dou toda a força! Se precisa manter os níveis de BHB acima de um certo patamar por motivo de doença, então nem se fala. Agora, se você trata o número do medidor como se fosse escore de video-game, preocupado se seja-lá-o-que-for vai lhe "tirar da cetose", sugiro frequentar menos as redes sociais e prestar atenção ao que realmente importa na vida.

***

Finalmente, a resposta à pergunta: "Se eu mascar chiclete sem açúcar, vou sair da cetose?". --> É obvio que não. Mesmo que fosse um cubo de açúcar puro isso não aconteceria, pois uma dieta cetogênica costuma admitir até 20g de carboidratos, e um cubinho de açúcar não deve pesar mais de 1 ou 2 gramas. Mas, agora, você já sabe que isso é irrelevante.

P.S.: antes que alguém pergunte: não, não é aceitável consumir 20g de leite condensado de uma vez só e zero carboidrato no resto do dia. O pico glicêmico e insulinêmico de 20g de açúcar de uma vez só é gigante (e sim, tira qualquer um da cetose), e é obviamente diferente de distribuir esses 20g na forma de vegetais durante o dia inteiro. Por favor, volte aos conceitos básicos, já explicados aqui no blog:

"Não há necessidade de complicar com fases, regras detalhadas, etc. aquilo que, no fundo, é simples:
1) Cortar açúcar;
2) Eliminar grãos (especialmente trigo, aveia, centeio e cevada);
3) Evitar raízes ("tubérculos", em especial batatas) se você precisa perder muito peso (caso contrário, não);
4) Optar por comida de verdade;
5) Não consumir gorduras artificiais (margarinas) e evitar as refinadas (óleos extraídos de sementes);
6) Perder o medo da gordura natural dos alimentos;
Pessoal, no fundo é só isso!! Precisa de um doce? Coma uma fruta ou um chocolate amargo.
Tá difícil perder peso? Elimine um pouco as frutas e/ou batatas. Cada um é diferente. Cada um precisa testar em si mesmo o que funciona, e aquilo que lhe torna possível seguir com o estilo de vida de forma continuada.¨

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Estudos irrelevantes da semana

Todas as semanas, vários estudos irrelevantes produzem manchetes. Em algumas semanas especialmente abençoadas, são vários.

Quando as pessoas perguntam, eu costumo simplesmente indicar a postagem do blog na qual aquele assunto já foi discutido no passado. E tem ainda os podcasts. Todas as semanas eu discuto os assuntos da semana anterior. Você ainda não escuta? Se usa iPhone, basta procurar o podcast Tribo Forte no iTunes. Se usa android, basta usar qualquer aplicativo de podcasts e procurar por Tribo Forte. Pode ainda escutar no computador, ou até mesmo ler a transcrição de cada episódio clicando aqui.

Mas, como nem todo mundo leu o blog inteiro, e nem todo mundo escuta os podcasts, lá vai:

***

Primeira manchete bizarra da semana:
Fonte: clique aqui

1) Leia as 5 postagens abaixo e responda você mesmo porque a manchete acima está errada (assim, você poderá fazer o mesmo semana que vem, quando outras semelhantes surgirem):

http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_8.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_12.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/04/o-que-e-uma-referencia-bibliografica_26.html
http://www.lowcarb-paleo.com.br/2016/01/a-falacia-da-autoridade.html



2) Passo a passo (caso você não tenha paciência de fazer o exercício acima sozinho):

a) Que tipo de estudo é esse?
  • Estudo em animais
b) Existem estudos em seres humanos sobre o mesmo assunto?
  • Sim. Existem. Destes, 58 são ensaios clínicos randomizados - o mais alto nível de evidência:
Fonte: https://phcuk.org/rcts/

c) Os ensaios clínicos randomizados, em humanos, mostram o quê?
  • Como visto acima, nunca nenhum ensaio clínico randomizado (ECR) jamais mostrou que uma dieta rica em gordura (desde que pobre em carboidratos) produza ganho de peso em humanos. Há 29 ECR's comparando dietas de baixo carboidratos e dietas de baixa gordura em humanos nos quais houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos. A totalidade desses estudos mostrou resultados superiores do grupo low carb em relação ao grupo de baixa gordura no que diz respeito a perda de peso. Repetindo: dietas com baixo carboidrato produzem maior perda de peso do que dietas de baixa gordura.
d) Veredito sobre a manchete:
  • A manchete é factualmente errônea, e a realidade é diametralmente oposta.
e) Trechos das postagens prévias do blog que se aplicam a essa situação:

Digamos que eu faça a seguinte afirmação:

"É sabido que uma dieta rica em alface, espinafre, couve e outros hortaliças folhosas promove o ganho de peso. Um novo estudo em bodes indica que o consumo excessivo deste alimentos provoca ganho acelerado de peso nestes animais. O controle do consumo de folhosas ajudou a manter os bodes mais magros".

Qual o problema com essa afirmação? O problema não é a parte dos bodes - essa é verdadeira! O problema é a primeira frase. Afinal, existe alguma evidência de que "uma dieta rica em alface, espinafre, couve e outros hortaliças folhosas promova o ganho de peso" em humanos? Com certeza não! Muito pelo contrário. Assim, repito, não importa quantos estudos mostrem que o excesso de alface provoque ganho de peso em bodes, isso continua sendo pouco relevante para humanos. Pois, como eu disse no início dessa postagem, "Estudos em animais são pouco relevantes quando estudos em humanos  já demonstraram que o fenômeno em questão ocorre de forma diversa.". Então, se houvesse estudos em humanos demonstrando que hortaliças provocam ganho de peso, então, e somente então, bodes passariam a ser um bom modelo experimental para a dieta humana.

Dito de outra forma: quando se estabelece que um fenômeno observado em animais é inexistente em humanos, os detalhes de como e porque a coisa ocorre em animais (como eucalipto é saudável para coalas, como roedores engordam comendo gordura animal) nada mais é do que fornecer explicações complexas para um fenômeno fictício.

***

Segunda manchete bizarra da semana

Fonte



2) Passo a passo (caso você não tenha paciência de fazer o exercício acima sozinho):

a) Que tipo de estudo é esse?
  • Estudo OBSERVACIONAL

b) Estudos observacionais podem estabelecer causa e efeito?
  • Não. A linguagem da manchete está, portanto, errada. Se eu digo que X dobra a chance de Y, eu estou afirmando que X CAUSA a duplicação da chance de Y. Somente um ensaio clínico randomizado poderia estabelecer causa e efeito. 
c) Existem explicações alternativas para tal associação?

  • Sim. Na medida que a orientação de não pular o café da manhã já foi incorporada ao senso comum, pessoas que pulam o café da manhã são pessoas que não seguem o que normalmente se considera como saudável. Por isso, têm uma chance maior de ter OUTROS comportamentos que, esses sim, sejam associados a desfechos de saúde adversos. Exemplo: neste estudo, adolescentes que passavam mais tempo usando redes sociais tinham uma chance maior de beber refrigerantes e energéticos adoçados com açúcar e de pular o café da manhã. Se, no futuro, tiverem mais doença cardíaca e diabetes, a CAUSA foi o açúcar, ou o café da manhã? Neste estudo, mulheres que bebiam demais ("binge drinking") também tendiam a pular o café da manhã. Se elas tiverem efeitos adversos em sua saúde no futuro, a CAUSA foi o alcoolismo, ou o café da manhã?

c) Veredito sobre a manchete:
  • Induz o leitor ao erro, por empregar linguagem causal ao falar de estudo observacional. Pode até haver motivos legítimos para tomar café da manhã, mas este não é um deles.

d) Trechos das postagens prévias do blog que se aplicam a essa situação:

--> A importância de saber diferenciar estes dois tipos de estudo é gigantesca. Afinal, os estudos epidemiológicos (observacionais) apenas podem levantar hipóteses. Eles não podem estabelecer causa e efeito. Repita comigo, em voz alta: "ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS NÃO PODEM ESTABELECER CAUSA E EFEITO". Eu não posso dizer que comer carnes processadas CAUSA câncer. Portanto eu também não posso dizer de reduzir o consumo de carne processada irá reduzir câncer. Por quê? Porque isso é oriundo de estudos observacionais/ epidemiológicos. Eu só posso dizer que há uma ASSOCIAÇÃO entre o consumo de carnes processadas e câncer.

Ok, mas no fundo, no fundo, não é a mesma coisa? Não é apenas uma questão de semântica (jogo de palavras)? Dizer que está associado ou que causa - tanto faz, significa que é ruim pra você, não é mesmo?? Não. NÃO. NÃO, NÃO É A MESMA COISA!!.

Vamos a um exemplo fora do mundo da saúde, que espero que deixe esse assunto BEM claro de uma vez por todas.

Em 2012, o portal IG publicou uma notícia referente às notas do ENEM. Um estudo que comparou os desempenhos dos estudantes de diferentes raças na prova. Trata-se de um estudo observacional, epidemiológico. Não era um experimento. Apenas estava-se OBSERVANDO quem tirou qual nota, e quem tinha qual cor de pele. Vamos à manchete:

Notas de alunos brancos no Enem são mais altas que dos negros

Dados do exame de 2010 nas capitais do País também confirmam distância entre as médias de estudantes de colégios particulares e de escolas públicas

Agência Estado 
Recorte inédito de dados de desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2010 nas capitais do País, além de confirmar a distância entre as notas médias dos estudantes de colégios particulares e os de escolas públicas, revela o abismo que separa estudantes brancos e negros das duas redes. 

Os números mostram que as notas tiradas pelos alunos brancos de escolas particulares no exame são, em média, 21% superiores às dos negros da rede pública – acima da diferença de 17% entre as notas gerais, independentemente da cor da pele, dos estudantes da rede privada e os da rede pública.
Então, está bem claro que há uma ASSOCIAÇÃO entre raça negra e mau desempenho do ENEM. E aí,você ainda acha que associação é o mesmo que causa e efeito??? Porque, se você acha que é a mesma coisa, você teria que acreditar que ser negro é a CAUSA do mau desempenho, não é mesmo? Que o problema original, essencial, único, etiológico é a raça. Bom, no século 21, suponho e espero que ninguém pense isso. A própria matéria jornalística  deixa claro que a associação ocorre devido a outras variáveis ocultas:

Na questão econômica, segundo ela, a explicação é que "entre os pobres, os negros são os mais pobres". O lado pedagógico refletiria a baixa expectativa. "Em uma sala de aula, se uma criança negra começa a apresentar dificuldade, a professora desiste de ensiná-la muito mais rapidamente do que desistiria de um estudante branco."

Então, como podemos ver, associação é apenas isso - associação. Associação não implica necessariamente causa e efeito - erros gigantescos podem advir dessa confusão. As reais causas, no caso da discrepância racial, podem ser especuladas a partir de outros raciocínios interpretativos da realidade. Mas, volto a dizer, as CAUSAS não estão demonstradas no estudo, e por que não? Porque ele é um estudo observacional - ele apenas identifica que duas coisas acontecem ao mesmo tempo ou se agrupam com mais frequência - não há como dizer que uma CAUSA a outra. FONTE

--> Mais uma postagem (apenas substitua, no trecho abaixo, "tomar corretamente seu placebo" por "tomar café da manhã todos os dias"):

 Tomar corretamente seu placebo, uma pílula inerte que não contém nada, produziu uma redução ABSOLUTA de TREZE por cento em mortalidade em um ensaio clínico randomizado com mais de 8 mil participantes e duração de 8 anos. Como é possível?

Ok, eu confesso que usei impropriamente uma linguagem causal de propósito (como fazem alguns jornalistas de saúde). Porque é evidente que tomar o placebo corretamente não foi a CAUSA da redução gigantesca de mortalidade. Mas a pergunta persiste - então, que foi?

A resposta, por incrível que pareça, é simplesmente que as pessoas que tomam seus remédios religiosamente como prescrito são diferentes daquelas que os tomam de forma errática. São mais "certinhas", mais bem comportadas. Por isso, têm menor chance de fumar ou beber em demasia, cuidam-se melhor no que diz respeito a peso, atividade física e alimentação, usam cinto de segurança, capacete, etc.

A magnitude deste efeito impressiona. Treze por cento de redução ABSOLUTA (não relativa!) na mortalidade é algo quase sem precedentes. E é tudo produto de variáveis de confusão - não é real, o placebo não reduz a mortalidade, obviamente.

-->Por fim:
Estudos observacionais e epidemiológicos capturam os vieses, o zeitgeist, os preconceitos de uma época, e o reproduzem. Mais do que isso, embora não possam estabelecer causa e efeito, acabam sendo interpretados de forma a reforçar a causa presumida daquilo que estudam, sob a ótica dos preconceitos e diretrizes vigentes. (FONTE)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Novo site - Dr. José Neto

Não é a primeira vez que falo do Dr. José Neto, médico mineiro, especialista em clínica médica e nefrologia, grande arauto da medicina baseada em evidências.

Veja, por exemplo, esta postagem.

Muitos de vocês talvez já tenham até mesmo assistido palestras dele (estaremos juntos no Tribo Forte Ao Vivo em São Paulo mês que vem).

É com muito prazer que divulgo aqui o novo site deste grande profissional.  Com vocês: Dr. José Neto:

"Após 16 anos da minha formatura, posso dizer que me considero um profissional de sucesso e convicto dos acertos em minhas escolhas profissionais. Reconheço os problemas e desafios vigentes, mas amo ser médico.

Apesar disso, a inquietude vive me tirando da zona conforto. Em agosto de 2016 quebrei meu preconceito com as redes sociais e comecei a publicar conteúdos de temática variada. Medicina baseada em evidências, clínica médica, nefrologia, pilares de uma vida saudável, gastronomia e reflexões fazem parte desse portfólio.

Essa iniciativa cresceu e em função do desenho, próprio das redes sociais, muito desse material começou a se perder em meio às postagens quase diárias.

Desse problema surgiu a idéia de fazer um site com um blog em anexo. Assim vou conseguir organizar o conteúdo produzido e poderei exercitar a escrita, que é um  hábito que tanto me agrada.

Concomitantemente, vou ampliar as fronteiras do meu ambiente físico de trabalho (consultório e hospital) e tornar minhas idéias escalonáveis, atingindo pessoas distantes geograficamente, mas que a tecnologia acabou aproximando.


Muito feliz em poder convidá-los para visitarem e conhecerem o eternamente em construção www.drjoseneto.com.br ".


sábado, 2 de setembro de 2017

Estudo PURE - quando a epidemiologia entra em xeque-mate

Se você presta alguma atenção no mundo da nutrição, com certeza ouviu falar do PURE - Prospective Urban and Rural Epidemiological Study - "Estudo Epidemiológico Prospectivo Urbano e Rural", que foi publicado nesta semana na revista científica The Lancet, uma das mais influentes do mundo.




Para quem frequenta essas páginas, não é exatamente novidade. Afinal, em fevereiro de 2017 já havíamos divulgado um vídeo com a espetacular apresentação feita por seu principal investigador, Dr. Salim Yusuf, em um simpósio de cardiologia, em Davos, na Suíça, antecipando vários dos resultados. O vídeo daquela apresentação foi rapidamente removido do youtube e de todos os locais na internet, mas você pode conferi-lo na íntegra aqui. Aliás, o dr. Yusuf, faltando 1 minuto e 40 segundos para o final, recomenda o livro Big Fat Surprise ("Gordura sem Medo, em português) - se você ainda não leu, faça-o.

A publicação do estudo, e sua apresentação no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia gerou um turbilhão de notícias, matérias espalhafatosas e reações de todos os lados. Por quê? Vou copiar e colar para vocês alguns trechos do próprio estudo:


A ingestão elevada de carboidratos foi associada com maior risco de mortalidade total, enquanto que a gordura total e os tipos individuais de gordura estavam relacionados a menor mortalidade total. A gordura total e os tipos de gordura não foram associados a doenças cardiovasculares, infarto do miocárdio ou mortalidade por doenças cardiovasculares, enquanto a gordura saturada teve associação inversa com AVC. As diretrizes dietéticas globais devem ser reconsideradas à luz desses achados.

ou


Da mesma forma, a ingestão de proteína total foi inversamente associada aos riscos de mortalidade total (HR 0 · 88 [95% IC 0 · 77-1 · 00]; ptrend = 0 · 0030) e mortalidade por doença não-cardiovascular (HR 0 · 85 [0 · 73-0 · 99]; ptrend = 0 · 0022; tabela 2). A ingestão de proteína animal foi associada com menor risco de mortalidade total e não houvve associação significativaentre proteína vegetal e o risco de mortalidade total.


ou


Substituição de carboidratos por gordura saturada foi associada a um risco de AVC de 20% menor (HR 0 · 80 [IC 95% 0 · 69-0 · 93]). Não foram encontradas associações significativas com risco de AVC para a substituição de carboidratos por outras gorduras e proteínas.

ou


Nossos achados não dão suporte às recomendações atuais para limitar a ingestão de gordura total para menos de 30% das calorias e ingestão de gordura saturada para menos de 10% das calorias. Indivíduos com alto consumo de carboidratos podem se beneficiar de uma redução na ingestão de carboidratos e do aumento do consumo de gorduras.

ou

Durante décadas, as diretrizes dietéticas se concentraram na redução da ingestão total de gordura e ácidos graxos saturados, com base na presunção de que a substituição de ácidos graxos saturados por carboidratos e gorduras não saturadas irá diminuir o colesterol LDL e, portanto, reduzir os eventos de doenças cardiovasculares. Este foco é amplamente baseado na ênfase seletiva em alguns dados observacionais e clínicos, apesar da existência de vários ensaios randomizados e estudos observacionais que não apoiam essas conclusões.9,35-37
ou


Este é o primeiro grande estudo a descrever a associação entre a baixa ingestão de ácidos graxos saturados (por exemplo, <7% de energia) e mortalidade total e eventos de doenças cardiovasculares. Dois grandes estudos prospectivos de coorte (o Health Professionals Follow up and the Nurses’ Health Study) não encontraram associações significativas entre a ingestão de ácidos graxos saturados e risco de doença cardiovascular quando os nutrientes de substituição não foram levados em consideração.38,39,48,49 Ensaios clínicos randomizados de redução de ácidos graxos saturados (substituídos por ácidos graxos poliinsaturados) também não demonstraram um impacto estatisticamente significativo na mortalidade total.9,35-37

Ou


Nossos achados de uma associação inversa entre ingestão de ácidos graxos saturados e risco de acidente vascular cerebral são consistentes com alguns estudos de coorte anteriores.50 Coletivamente, os dados disponíveis não suportam a recomendação de limitar os ácidos graxos saturados a menos de 10% das calorias, e que uma ingestão muito baixa (ou seja, abaixo de cerca de 7% das calorias) pode até ser prejudicial.

Bem, já deve estar claro os motivos pelos quais este estudo anda gerando reações tão emocionais no mundo da nutrição.

Mas... este estudo PROVA alguma coisa? Ele PROVA que consumir muitos carboidratos aumenta a mortalidade? Ele PROVA que consumir mais gordura saturada reduz a mortalidade e os AVC's?

Não!! Ele não prova nada disso. Ele não pode provar nada disso. Por quê? Porque é um estudo OBSERVACIONAL, e estudos observacionais não podem estabelecer causa e efeito. Por favor, releia a postagem que eu escrevi sobre isso anos atrás.

Então, por que o "mundo low carb" festejou a sua publicação?

Alguns por ingenuidade - afinal, é gostoso bater palmas para qualquer coisa que defenda o que você acredita.

Mas me parece que a maioria das pessoas não captou os dois outros motivos pelos quais este estudo é MUITO importante:

1) Estudos observacionais não provam que algo é verdade, mas são extremamente úteis para refutar hipóteses causais equivocadas.

2) Na tentativa de desacreditar o estudo PURE, o establishment nutricional subitamente deu-se conta e declarou, publicamente, que estudos observacionais não estabelecem causa e efeito e que não devem, portanto, pautar condutas. EU CONCORDO COM ISSO. Em outras palavras, para refutar um estudo observacional com o qual não concordam, desacreditaram a quase totalidade dos estudos que embasam as diretrizes vigentes. Como alguém disse no twitter: "the house of carbs is falling down".

Vamos expandir um pouco os dois tópicos


  • Estudos observacionais não provam que algo é verdade, mas são extremamente úteis para refutar hipóteses causais equivocadas.
Eu já escrevi uma postagem inteira sobre isso há mais de 2 anos, e sugiro que você leia a íntegra aqui.
Basicamente, é um argumento de lógica. Funciona assim:

Já explicamos, à exaustão, que a existência de uma associação entre duas coisas não implica que uma é causa da outra, ou seja, que associação não implica causa e efeito.

Mas aqui a coisa fica interessante: quando uma coisa efetivamente CAUSA a outra, obrigatoriamente haverá também uma associação entre elas. Ou seja, a associação não implica necessariamente que haja relação de causa e efeito, mas a relação de causa e efeito, quando de fato existe, evidentemente engendra a existência de uma associação.

Corolário lógico? A ausência de associação entre variáveis, mesmo em estudo observacional, sugere fortemente a inexistência de uma relação de causa e efeito entre elas. Se houver uma associação inversa entre duas variáveis, mesmo em um estudo observacional, a hipótese de que uma CAUSA a outra beira ou absurdo. Não é impossível, mas é deveras improvável.


Dito de outra forma: correlação não implica necessariamente causalidade, mas causalidade implica necessariamente correlação. Assim, a AUSÊNCIA de correlação (ou, pior ainda, uma correlação INVERSA) essencialmente REFUTA a existência de causalidade.

Em termos concretos, e no estudo em tela: o fato de que um maior consumo de gordura saturada foi ASSOCIADO a uma menor mortalidade não significa que a gordura saturada seja a CAUSA dessa redução. No entanto, tal associação INVERSA (entre gordura saturada e mortalidade) essencialmente REFUTA a hipótese de que a gordura saturada na dieta seja uma CAUSA de mortalidade.

Isso é tão importante que vou tentar dizer de outra forma: as diretrizes vigentes indicam a redução das gorduras na dieta, em especial as saturadas. Isso porque baseiam-se na ideia de que a gordura saturada da dieta aumenta o risco de morbidade e mortalidade. Tal hipótese é uma hipótese CAUSAL. Ou seja, as diretrizes baseiam-se na hipótese de que a gordura saturada da dieta CAUSA um aumento de mortes; em sendo a gordura a CAUSA, sua redução se justificaria, pois isso produziria uma redução das mortes. Porém, o estudo epidemiológico mostra uma associação INVERSA entre o consumo de gorduras em geral, incluindo a saturada, e mortalidade e AVC. Como o estudo é observacional, ele não PROVA que mais gordura PREVINE mortes (apenas levanta essa hipótese). Mas ele é essencialmente INCOMPATÍVEL com a hipótese de que a gordura saturada CAUSA mortes. Nesse sentido, embora observacional, é mais um estudo que refuta a hipótese.

O estudo PURE não é o primeiro nem o único estudo observacional a refutar a hipótese de que a gordura na dieta é causa de mortalidade. É apenas o maior, mais recente e que levantou os dados uma população mais diversificada (não apenas na América do Norte e Europa).

Segundo tópico:
  • Na tentativa de desacreditar o estudo PURE, o establishment nutricional subitamente deu-se conta e declarou, publicamente, que estudos observacionais não estabelecem causa e efeito e que não devem, portanto, pautar condutas. EU CONCORDO COM ISSO. Em outras palavras, para refutar um estudo observacional com o qual não concordam, desacreditaram a quase totalidade dos estudos que embasam as diretrizes vigentes.
Cada vez que sai um novo estudo observacional sugerindo que carne vermelha está associada com diabetes, câncer, acidentes de automóvel, as MESMAS pessoas que agora gritam que associação não implica causa e efeito fazem festa e mandam você não comer carne.

Cada vez que sai um novo estudo observacional sugerindo que o maior consumo de grãos integrais está associado com menor risco de diabetes, câncer, acidentes de automóvel, as MESMAS pessoas que agora gritam que associação não implica causa e efeito fazem festa e mandam você aumentar o consumo de grãos integrais (P.S.: os ensaios clínicos randomizados que mostram vantagens de grãos integrais tem como grupo controle grãos processados, por isso mostram vantagem).

Reproduzo aqui parte de um texto que foi publicado no blog de uma das seccionais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia:


"Aliás, sabemos que nossa alimentação varia dia após dia, semana após semana, ano após ano. O estudo aplicava o questionário alimentar em intervalos de 3 anos. Será mesmo que todo paciente manteve exatamente o mesmo padrão durante todo este período? Será que alguns pacientes não modificaram suas dietas, para um consumo menor de gorduras justamente por terem um risco maior de problemas de saúde? Será que as pessoas que consumiam mais gordura não se permitiam a isso por serem mais saudáveis? São questões que os próprios autores do trabalho reconhecem não ter conseguido responder."
"Em resumo, gorduras não são as vilãs que se pregava em outros tempos, desde que consumidas dentro de um padrão alimentar e de atividade física equilibrado. Já o consumo abusivo de carboidratos, especialmente refinados ou vindos de alimentos altamente processados, pode sim trazer prejuízos à saúde."
Eu concordo 100% com essa análise. Mas veja, ela deve ser aplicada para todos os estudos observacionais.

Na próxima vez que sair um estudo da escola de saúde pública de Harvard sugerindo que o consumo de carne vermelha está associado a um maior risco de seja-lá-o-que-for, você deve se perguntar: "Aliás, sabemos que nossa alimentação varia dia após dia, semana após semana, ano após ano. O estudo aplicava o questionário alimentar em intervalos de 3 anos. Será mesmo que todo paciente manteve exatamente o mesmo padrão durante todo este período? Será que alguns pacientes não modificaram suas dietas, para um consumo menor de carne vermelha justamente por terem um risco maior de problemas de saúde? Será que as pessoas que consumiam mais carne não se permitiam a isso por serem mais saudáveis?"


***


No jogo de Xadrez, diz-se que o rei está em xeque quando a casa em que ele se encontra está ameaçada. O jogador precisa fazer um movimento para retirar tal ameaça. Quando não existe nenhum movimento possível que remova a ameaça ao rei, chama-se de xeque-mate.

O motivo pelo qual uma abordagem low carb não é amplamente aceita e adotada por profissionais de saúde no manejo de sobrepeso, diabetes e síndrome metabólica não é a ausência de evidências robustas de sua eficácia. Existem dezenas de ensaios clínicos randomizados indicando a superioridade da abordagem, tanto para peso quanto para diabetes tipo 2. A resistência baseia-se inteiramente na percepção de risco associado ao aumento proporcional do consumo de gorduras (incluindo as saturadas) que ocorre quando se reduz os carboidratos da dieta. Mas tal percepção é oriunda da citação seletiva de alguns estudos epidemiológicos - justamente o tipo de estudo que os críticos da abordagem low carb começaram a descartar por serem baseados em questionários e por possuírem variáveis de confusão. 

Eis o dilema: ou se aceita que estudos epidemiológicos são adequados para ditar normas alimentares à população (o que significaria ignorar todas as suas limitações, suas imprecisões e suas variáveis de confusão), e nesse caso o estudo PURE indicaria a necessidade de uma grande revisão nas diretrizes que recomendam a restrição de gordura (especialmente saturada) na dieta; ou se aceita que o estudo PURE é fatalmente inadequado para informar as diretrizes alimentares, visto ser epidemiológico e falho - mas isso terá que valer para TODOS os estudos epidemiológicos que estão na base deste grande castelo de cartas. You can't have it both ways.

O rei não tem para onde fugir, sem que fique em xeque. Xeque-mate.






quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Revista Mais: Boa forma, saúde e combate ao senso comum

Reportagem sensacional e aprofundada sobre low carb na Revista Mais. Parabéns à jornalista Júlia Ruiz - belo trabalho!

 

 
 
 
Boa forma, saúde e combate ao senso comum

Criado em 09 de Agosto de 2017Saúde e Vida
O casal Patrícia Coelho e Rafael Queiroz se libertou do 'efeito sanfona' quando conheceu a low carb e, consequentemente, o médico José Neto
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Você faz parte do expressivo grupo da população que precisa eliminar alguns quilinhos para ter melhor forma física e uma vida mais saudável? Se sim, o que acha de consumir 
sem medo alimentos como carnes, bacon, laticínios “gordos”, abacate, entre outros, sempre que sentir fome? Achou estranho? Então saiba que essa estratégia alimentar tem ganhado cada vez mais adeptos no mundo. É a low carb, high fat – em português, “baixo carboidrato, alta gordura”. Quer entender como funciona? Então, devore o conteúdo a seguir! 
 
ADEPTOS DA LOW CARB, HIGH FAT advertem: “não é uma dieta. É um estilo de vida que transforma o modo de entender e de lidar com a comida”. O que significa, então, ter uma vida em que a base nutricional é uma alimentação com baixo índice de carboidratos e maior ìndice de gorduras? Como todo tema que está muito voga, esse também é, muitas vezes, tratado de forma superficial, o que provoca a criação de mitos e interpretações errôneas. Com o intuito de esclarecer os princípios, as bases e os estudos que sustentam a LCHF, a Mais convocou um time de especialistas no assunto para fazer um verdadeiro raio X dessa estratégia alimentar. 
Quando se trata de profissional de saúde com amplos conhecimento e experiência em LCHF, ninguém é mais consultado no Brasil que o médico cirurgião-urologista gaúcho José Carlos Souto. Apesar de muito estudioso – é graduado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduado pela Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, e mestre pela Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre –, não foi o interesse médico pela nutrição que o levou a conhecer a low carb. “Foi totalmente por acaso. No início de 2011, ouvi um podcast no qual o escritor/pesquisador americano Gary Taubes falava sobre seu mais recente livro, o “Why We Get Fat: And What To Do About It” – em português “Por que Engordamos e o que Fazer para Evitar” - e sua narrativa era fascinante. Na entrevista, ele citava estudos de médicos respeitados e termos que demonstravam domínio do conceito de medicina baseada em evidências científicas, como os ensaios clínicos randomizados, que são o santo graal da pesquisa médica”, narra Souto. 
A grande surpresa veio quando o urologista percebeu que os conceitos de nutrição apresentados pelo pesquisador entravam em choque com tudo o que ele conhecia nessa área. “Era completamente diferente do que eu julgava saber, o que, na realidade, era o senso comum nutricional. Imediatamente, fiz o download do livro e não consegui parar de ler. Chequei várias fontes que Taubes citou e vi que existiam, de fato, todos aqueles estudos mostrando que a restrição de carboidratos é muito mais eficiente que a simples restrição calórica – não apenas para o emagrecimento como também para a saúde – e que a gordura presente nos alimentos não está diretamente relacionada à doença cardiovascular”.
A prova incontestável dos novos conceitos veio em seguida. “Logo que concluí que não se tratava de uma teoria maluca, decidi imediatamente testá-la em mim mesmo. O resultado foi a eliminação de praticamente 20 kg, sem passar fome e sem maior esforço. A partir daí, comecei a estudar de forma incessante o assunto porque me pareceu e ainda me parece, seis anos depois, fascinante que tantos estudos sérios estivessem publicados e eu nunca tivesse lido a respeito”, comenta.
Antes de citarmos os principais itens que devem ser excluídos e os que estão inclusos na low carb, vale saber: é uma estratégia alimentar benéfica para todo mundo? “Pode perfeitamente ser aderida por todos, mas não é necessário para todos. Quem mais se beneficia, especialmente, são pessoas com sobrepeso, obesidade, síndrome metabólica e os diabéticos. Quem tem baixo peso, muita facilidade para emagrecer e dificuldade para engordar talvez não deva fazer restrição de carboidratos porque naturalmente tenderá a perder ainda mais peso. Pessoas saudáveis, que são fisicamente ativas e que não querem/precisam emagrecer não têm necessidade de fazer a LCHF de forma ampla – nesse caso, o que a gente sugere é que tenham uma alimentação o mais natural possível, buscando como fontes de carboidratos todas as frutas e raízes”, diz Souto. 
Quem quiser adotar esse estilo de vida, então, deve evitar ao máximo os açúcares e os farináceos (pães, biscoitos, bolos, massas e outros que contenham qualquer farinha que não seja derivada de um alimento low carb); bebidas adoçadas, como sucos e refrigerantes tradicionais; e sobremesas convencionais. Também devem ser excluídos os alimentos ricos em amido, como arroz e milho; tubérculos, a exemplo de batatas e mandioca (e tapioca); e as frutas que não forem citadas abaixo, em razão da alta quantidade de frutose (o açúcar da fruta). Em suma, devem ser restringidos ao máximo todos os alimentos com alto índice glicêmico, assim como os óleos vegetais (soja, milho, girassol), ricos em ácido linoleico, que favorecem inflamações. É bom também dar uma pausa nas bebidas alcoólicas. 
Já os alimentos indicados para o consumo incluem hortaliças/verduras (todas); legumes; peixes; aves; carnes; bacon; ovos; laticínios fermentados ou centrifugados, como queijo, iogurte (sem açúcar), nata, requeijão e creme de leite – o leite deve ser excluído em razão da lactose (açúcar próprio da bebida), e, também por esse motivo, deve-se dar preferência aos queijos amarelos, pois eles contêm quantidades ainda menores de lactose que os brancos. Frutas como morango, mirtilo, kiwi, abacate e coco e oleaginosas, a exemplo de nozes, amêndoas, castanhas, pistaches, macadâmias e também amendoins, podem ser ingeridos tranquilamente. O médico indica ainda o uso sem receio do azeite de oliva extravirgem, da manteiga, do óleo de coco e da banha de porco. 
O leitor pode estar pensando: “quantas refeições e em que quantidade devo consumir por dia?”. Um dos trunfos da low carb com relação a outras estratégias alimentares é que ela propõe: coma quando estiver com fome e até que se sinta saciado, sem intervalos de tempo ou porções pré-estabelecidas. Como não se baseia em restrição calórica, o adepto não fica fazendo cálculos ou sentindo fome. Diante disso, o leitor pode se perguntar: “não é preciso limitar calorias para emagrecer?”. José Souto esclarece que, “de fato, para se emagrecer, o número de calorias gasto deve ser maior que o ingerido. O grande ponto aqui é que com a LCHF passamos naturalmente a sentir menos fome e a consumir menos calorias – é que, ao se reduzirem os carboidratos, há a diminuição da produção de insulina no organismo, e essa baixa facilita a lipólise, isto é, o corpo usa a gordura que já está acumulada nele como combustível (energia). Essa gordura então passa a ficar disponível para uso pelos demais tecidos do corpo, e a pessoa sente menos fome”. 
Além disso, a quantidade-limite de carboidratos que pode ser consumida diariamente, para gerar resultados, varia de pessoa para pessoa. “Temos desde o indivíduo saudável, fisicamente ativo, que está em seu peso ideal – para quem, como já dissemos, a orientação é basicamente evitar açúcar e farináceos, até o outro extremo de pessoa, por exemplo, diabética, que necessita restringir o máximo possível de carboidratos para manter sua glicemia normal, com o mínimo de medicação. A orientação de um profissional familiarizado com LCHF é de grande utilidade para auxiliar nesse processo”, salienta José Souto. 
Existem ferramentas eletrônicas que também podem ajudar no controle do índice de carboidratos ingeridos. O aplicativo Fat Secret, disponível para Android e IOS, é um deles. No app, é possível saber a quantidade exata de macronutrientes (carboidratos, fibras, gorduras, proteínas) e de calorias de cada alimento ou refeição, bem como monitorar o peso corporal.
 
 “CIÊNCIA LOW CARB”
O tema LCHF encantou tanto José Souto que ficou difícil conter as descobertas. Foi aí que ele decidiu compartilhar seus conhecimentos na internet criando o blog Ciência Low Carb (www.lowcarbpaleo.com.br), que também aborda a alimentação paleolítica – bem parecida com a de baixo carboidrato, mas com algumas diferenças pontuais. O início foi tímido. “Passei todo o ano de 2011 estudando com afinco o assunto, mas tinha receio de compartilhar isso publicamente por conta das possíveis reações dos colegas. Mas, em dezembro de 2011, decidi escrever. Durante um tempo, não divulguei para ninguém. Depois, passei a recomendar para alguns amigos, familiares e, eventualmente, para algum paciente que apresentasse síndrome metabólica, obesidade ou diabetes. O blog acabou decolando por conta própria. Contudo, jamais imaginei que isso seria o pontapé para um movimento nacional”, relata.  
Em 2014, o “Blog do dr. Souto”, como é popularmente conhecido, completou 2 milhões de acessos. De 2015 para cá, a página se tornou um fenômeno quando o assunto é nutrição. Além de divulgar estudos, artigos científicos, trechos de livros e textos de autoria própria, Souto utiliza o blog para esclarecer dúvidas dos internautas e dar orientações, por exemplo, sobre o que comer em viagens. O blog também conta com sugestões de receitas para diversificar o cardápio dos adeptos.
 
 
APOIADORES DE PESO
Apesar do receio inicial do médico gaúcho, o blog conquistou o apreço de vários profissionais de saúde. Um deles é o mineiro José Barros Neto, clínico geral e nefrologista que aderiu ao estilo de vida depois de “devorar” o conteúdo do Ciência Low Carb. Com atuação significativa – ele é graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais, coordenador do Serviço de Nefrologia do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, e diretor científico da Sociedade Mineira de Nefrologia –, sempre se interessou pelo que considerava alimentação saudável. Mas, assim como Souto, enxergava a nutrição pelas lentes do senso comum. “Quando conheci a LCHF, em fevereiro de 2014, seguia aquele protótipo de comer de três em três horas, com pouca gordura. Estava em São Paulo para um evento de nefrologia e, quando fui tomar café da manhã, vi um amigo médico comendo ovos, bacon, presunto de parma e fiquei espantado. Ele conversou comigo e explicou que havia emagrecido 26 kg, controlado a pressão e que nunca havia se sentido tão bem. Ele me deu um norte, e resolvi pesquisar o assunto. Foi aí que encontrei o blog do doutor Souto, o qual li copiosamente durante duas semanas. Fiz uma revisão da literatura médica e vi que tudo o que ele escrevia era muito bem fundamentado. Então pensei: ‘não custa tentar’. Naquele período, eu pesava 92 kg, estava pré-diabético, usando remédios e em descontrole lipídico. Perdi 4 kg no primeiro mês, mais 4 kg no segundo e, ao fim de três meses, havia eliminado 10 kg. O bem-estar, a disposição e a melhora da saúde vieram junto”, descreve Neto.
O novo estilo de vida foi a ponte para a amizade e a parceria profissional entre os dois médicos, que, frequentemente, participam de congressos e workshops juntos.
 
EVIDÊNCIAS
Um dos inúmeros estudos que Souto destaca em seu blog é o Dietary Intervention Randomizes Controlled Tiral (Direct). “Você pode não gostar de low carb, pode não seguir, mas precisa se dobrar às evidências. É um ensaio clínico randomizado com mais de 300 voluntários que durou dois anos. O estudo foi publicado no periódico médico de maior prestígio do mundo, o ‘New England Journal of Medicine’”, conta o urologista.
O experimento dividiu em três grupos homens e mulheres com índice de massa corporal maior que 27, com diabetes tipo 2 e doença coronariana. Em suma, todos com excesso de peso. No sorteio, foi determinado que um grupo faria uma dieta pobre em gorduras (low fat), com restrição de 1.500 calorias para mulheres e 1.800 para homens. O segundo faria a dieta do Mediterrâneo, com a mesma restrição calórica para mulheres e homens. E o terceiro, uma dieta low carb baseada no livro “A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins”, sem qualquer restrição calórica. “É essencial ressaltar que o grupo que praticou low carb foi orientado a consumir quantas calorias quisesse e a aumentar a ingestão de carboidratos até 120 g após os primeiros dois meses. Como já se sabe desde, pelo menos a década de 1950, que a restrição de carboidratos é mais eficaz para a perda de peso, os autores do estudo utilizaram um estratagema para que a vantagem da low carb não fosse tão absurda. É como se um corredor olímpico fosse competir com amadores, mas largasse atrás de todos para dar a eles uma vantagem que diminuísse a óbvia e previsível disparidade de seus desempenhos”, assevera José Souto.
O resultado? “A low carb foi mais eficaz, enquanto a low fat foi a pior até o fim do estudo. E é preciso lembrar o tempo todo que o grupo low carb foi orientado a aumentar a ingestão de carboidratos e podia comer quantas calorias quisesse. Apesar disso, essa turma reduziu seu consumo calórico à mesma proporção dos outros grupos porque sentia menos fome. Conclusão: as pessoas que fizeram low carb perderam mais peso e tiveram maior redução de circunferência abdominal entre as três, enquanto a low fat foi a pior nesse quesito também”, explica Souto.
O mineiro José Barros Neto aponta outro estudo que, para ele, também é marcante: a Public Health Collaboration, respeitada entidade britânica, catalogou 54 ensaios clínicos randomizados comparando uma dieta low carb com uma low fat. O resultado foi expressivo: do total dos experimentos, 47 favoreceram a low carb, dois foram inconclusivos, e cinco foram a favor de uma alimentação pobre em gorduras. Neto ressalta que nenhum dos estudos atingiu significância estatística com uma dieta de baixo índice de gordura.
 
A GORDURA NÃO É A VILà
Mas se a gordura dos alimentos não é, isolada, a responsável pelo ganho de peso, por que existe esse receio dela? De acordo com José Neto, é primordial distinguir a gordura animal da corporal. “Muita gente acredita que porque comeu um alimento com gordura irá engordar. Aí foge daqueles alimentos que poderia consumir sem culpa. É um pensamento cartesiano, e ciência não funciona dessa forma simplória”, afirma.
“Tornar a gordura natural dos alimentos uma vilã talvez tenha sido um dos maiores equívocos da ciência nutricional, porque a ideia de que a gordura é responsável por doenças, sobretudo a cardiovascular, e pelo ganho de peso era apenas uma hipótese nas décadas de 1960 e 1970. E até hoje as pessoas reproduzem isso, apesar da grande massa de evidências mostrando que a gordura não apenas não está relacionada à doença cardiovascular, mas, principalmente, que dietas com mais gordura e menos carboidratos estão ligadas à redução de peso e à melhora em todos os preditores dessa doença”, acrescenta Souto. 
José Barros Neto enfatiza que a gordura tem papel fundamental no organismo. “As membranas celulares são feitas de gordura, assim como vários hormônios, inclusive os sexuais. Isso sem contar os demais usos em nosso metabolismo”, diz.
Para evitar distorções, José Carlos Souto ratifica: “não se trata de defender o consumo ilimitado de gordura, e, sim, de aceitar que aquela presente naturalmente nos alimentos não é o problema. Do contrário, as pessoas acabam evitando algumas das comidas mais saudáveis e saborosas da natureza e embarcando em produtos processados ou ricos em açúcar e amido apenas porque tais alimentos são teoricamente pobres em gordura”. Para os adeptos da LCHF não escorregarem, vale o bom senso: evite ficar adicionando gordura aos alimentos, como misturar manteiga ou nata no café toda vez que for ingerir a bebida ou consumir uma lata inteira de creme de leite na sobremesa.
Quem quiser saber mais sobre isso, recomenda o urologista, pode ler os livros “The Big Fat Surprise”, de Nina Teicholz, recentemente lançado no Brasil com o nome “Gordura sem Medo”, e “Bad Calories, Good Calories”, de Gary Taubes, publicados em 2007, ainda sem tradução para o português.
 

 
 
PAZ COM O CORPO
Com uma sucessão de dietas convencionais, a médica endoscopista Patrícia Coelho e o advogado Rafael Queiroz, casados há 11 anos, viveram tempos de “efeito sanfona”. Os belo-horizontinos encontraram no estilo de vida LCHF as respostas que procuravam para os resultados nada duradouros que ocorriam em outras estratégias alimentares. “Os resultados apareciam em curto prazo, porém não conseguíamos mantê-los por muito tempo, o que acabava gerando um rebote. Quando adotei a low carb, em abril do ano passado, pesava mais de 90 kg. Em janeiro deste ano, cheguei a 78 kg, peso que ainda mantenho, o que demonstra que não há dificuldade em conservar as conquistas”, relata Queiroz.
Foi pela indicação de amigos que Patrícia conheceu a LCHF – e, consequentemente, o médico José Neto, de quem ela e o marido são pacientes. Quando a mudança de vida foi proposta, ela ficou ansiosa. Mas não demorou para o casal adotar a alimentação de baixo carboidrato como estilo de vida. “Além do emagrecimento e da melhora da saúde, o conhecimento das nossas reais necessidades alimentares é uma das descobertas que mais me impressionam”, diz Rafael Queiroz. Apesar da diminuição expressiva de carboidratos, Patrícia destaca a sensação de liberdade que adquiriu. “Não tenho mais aquele sentimento de quem está sofrendo com uma dieta, que precisa contar minutos para comer e se preocupar com a quantidade de calorias que ingere. Quando sinto fome, como com prazer, só que agora eu é que estou no comando do meu próprio corpo, não mais a comida”, destaca. 
E não é difícil trabalhar fora e se manter firme? Eles garantem que não. “Não temos dificuldades porque existem opções que se encaixam na alimentação. Em restaurantes, pedimos para substituir o risoto ou a batata por legumes e salada. O bacana da low carb é que, raramente, precisamos fazer um lanche na rua porque a saciedade nos dá a flexibilidade de pular refeições sem qualquer incômodo. Além disso, oleaginosas como as castanhas são sempre uma boa opção para esses momentos, pois saciam e podem ser encontradas com facilidade no comércio”, garante Patrícia.
A vontade de trocar ideias e experiências com outras pessoas sobre LCHF fez com que o casal criasse, em fevereiro deste ano, um perfil no Instagram, o cafecombacon. Nele, Patrícia e Rafael compartilham receitas, estudos e eventos relacionados à low carb. 
 
REDE LOW CARB
O grande desejo de falar sobre LCHF também motivou a criação do perfil low_carb_br no Instagram, mantido pela bióloga e veterinária mineira Denise Souza, em setembro de 2016. Quem vê o sucesso da página, que conta com quase 70 mil seguidores e traz dicas, orientações, estudos e relatos sobre low carb e alimentação paleolítica, não imagina que Denise sofreu compulsão alimentar. “Lutava para emagrecer e não conseguia. Cansada disso, comecei a fazer várias pesquisas e descobri a LCHF. O fato de emagrecer podendo comer tudo o que eu mais gostava, como carnes, ovos e laticínios, e ver a fome despencar, me arrebatou”, atesta.  
Além do retorno dos seguidores, a recompensa de Denise está, principalmente, na nova relação que estabeleceu com a comida. “Acabou a aflição de acordar pensando que ia comer uma torradinha e continuar com fome. Eu como o que gosto; quando não estou com fome, não como nada, simples assim. Com isso, eliminei 18 kg e passei a me sentir bem, com ótima saúde”, relata.
 
 
AÇÚCAR É SEMPRE AÇÚCAR 
Muitos imaginam que é um grande avanço substituir o açúcar refinado/cristal pelo mascavo, demerara, de coco ou mel. Souto e Neto, contudo, alertam: “açúcar é sempre açúcar, e, entre todos os carboidratos, esse é o pior”. 
“Podemos consumir carboidratos na forma de açúcar ou de amido. Amido é glicose pura; açúcar é mistura de glicose e frutose. A glicose pode ser utilizada por qualquer célula do corpo. Já a frutose só pode ser metabolizada pelo fígado. Porém, nosso fígado é evolutivamente preparado para lidar com a quantidade de frutose presente naturalmente nas frutas, e não com a quantidade maciça que há no açúcar. A frutose, consumida em grande quantidade, apresenta toxicidade no fígado, representada principalmente pela produção de gordura que se acumula no órgão, chamada de esteatose. O fígado gorduroso torna-se resistente à insulina. É um duplo efeito negativo: aumenta a glicose no sangue e, ao mesmo tempo, deixa o fígado resistente ao hormônio. Isso é praticamente uma receita para sobrepeso, diabetes e obesidade”, explica Souto. 
“O açúcar do mel é melhor que o refinado? É, mas, para fazer uma analogia, é como comparar um cigarro com filtro com um sem filtro. O fato de um ser menos pior do que o outro não quer dizer que seja bom para a saúde. Definitivamente, açúcar é uma substância que qualquer pessoa deveria evitar”, completa José Barros Neto. 
E os adoçantes? De acordo com Souto, “num mundo ideal, conseguiríamos abdicar do gosto doce. Contudo, para a maioria das pessoas, o doce é um verdadeiro vício. Então, até que a adoção de um estilo de vida low carb permita que se diminua essa necessidade, os adoçantes têm uma função a cumprir. Para quem quiser utilizar, seja o natural, que é a stévia, sejam os artificiais, a ideia é adotar uma quantidade pequena e ir diminuindo ao longo do tempo, de modo a simplesmente realçar um pouco o sabor doce”.
 
CUIDADO COM OS RÓTULOS
Preocupar-se com uma alimentação saudável implica também desvendar os rótulos dos produtos. E é aí que surgem as grandes armadilhas da indústria. “A única forma de enfrentar esse desafio é aprender os vários nomes que o açúcar e o amido podem ter. Itens como ‘açúcar evaporado de cana’, ‘melado’, ‘dextrose’, ‘maltodextrina’ são nomes com os quais quais a glicose é introduzida em alimentos. A orientação é ficar especialmente atento a produtos dietéticos, como geleias, iogurtes e pudins. A maioria tem grande quantidade de carboidratos, mas, pela legislação, são considerados açúcares apenas glicose, frutose ou sacarose. Qualquer outro tipo de carboidrato pode estar presente – provocando o mesmo efeito do açúcar no organismo –, embora no rótulo esteja escrito ‘zero açúcar’. A melhor solução, então, é evitar alimentos industrializados”, aconselha José Souto. 
 
MARKETING X CIÊNCIA 
Ao longo dos anos, foi comum a classificação de alimentos ora como vilões, ora como herói, assim como o ovo e o abacate. Esses altos e baixos deixaram muita gente descrente quanto ao que se divulga como pesquisa científica. José Barros Neto concorda que a desconfiança tem fundamento. “Endosso o que afirmou o endocrinologista David Ludwing, professor da Escola de Medicina da Universidade de Harvard: representantes da ciência deviam ir a público e dizer ‘desculpem, erramos’. O papel que muitos profissionais desempenham hoje é justamente uma tentativa de recuperar a credibilidade com a população”, afirma.
Outro exemplo desses altos e baixos é a divulgação maciça de alimentos ditos milagrosos. “O viés econômico de querer vender e lucrar em cima de ‘alimentos mágicos’ contribui muito para esse processo da falta de credibilidade. Veja o frisson sobre o sal do Himalaia. Falar que é melhor para a saúde que o sal tradicional é pura ação de marketing. O próprio óleo de coco, muitas vezes vendido em cápsulas, é bom para a saúde? Sim, mas para fins culinários, exatamente como o azeite de oliva extravirgem, a manteiga e a banha de porco”, completa o mineiro.    
 
NUTRICIONISTAS X LOW CARB
Afinal, nutricionistas e nutrólogos aprovam o estilo de vida low carb, high fat? “De forma geral, a resposta tem sido favorável. Acredito que isso se deve ao cuidado de alicerçar as informações em ensaios clínicos randomizados e meta-análises. Contudo, às vezes algum leitor me informa que um nutricionista ou nutrólogo está falando mal de mim nas redes sociais, mas isso não me incomoda, pois acho que o debate precisa ser travado no campo das referências de alto nível”, afirma José Souto.
O fato é que muitos profissionais da área são resistentes à LCHF, defendendo com fervor a tradicional pirâmide alimentar - em que carboidratos devem ser a base da alimentação humana. Mas de onde parte essa conduta? “Minha experiência mostra que nutrição é uma matéria muito malvista na medicina. A maioria das pessoas crê nas fórmulas prontas. Os cursos de nutrição também seguem esse modelo, e, quando alguém tenta ir contra, fica parecendo uma briga sectarista. Vejo como algo multifatorial. Ocorre por ser algo que ainda é ensinado nas universidades e também porque há interesses comerciais da indústria do trigo e do açúcar, que são fortíssimas”, opina José Barros Neto.    
O nutrólogo Lucas Penchel, colunista da Mais, que atende em Belo Horizonte, na Clínica Penchel, faz parte do grupo de profissionais que reconhecem os benefícios da LCHF.  “Costumo dizer que o que é remédio para alguns pode ser veneno para outros. Cada caso é um caso. Indico a low carb e tenho tido resultados excelentes tanto na cura quanto na melhoria sintomas de doenças. Então, há pacientes que reduziram drasticamente o uso de medicamentos, além de terem melhorado sono e autoestima e diminuído a circunferência abdominal”, relata.
Penchel acredita que os conceitos da nutrição estão mudando. “Antes, as dietas eram baseadas em valor calórico. Mas a gente consegue fazer uma dieta de 2.000 calorias só com Mc Donalds; outra de 2.000 calorias só com salada; outra de 2.000 calorias só com carnes, com efeitos completamente diferentes no organismo. Assim como o mito da gordura-vilã está indo por água abaixo, o de ficar só contando calorias também. Há, então, que se avaliar a individualidade biológica de cada pessoa, levando-se em conta o objetivo dela, a idade, níveis hormonais, estilo de vida, hábitos, tudo isso”, arremata Penchel. 
Também do lado favorável à LCHF está a nutróloga Jackelyne Mendonça, que atua em Betim, na região metropolitana da capital mineira, na clínica Yaga. Ela ressalta que a low carb tem uma plasticidade enorme, podendo ser realizada por atletas, para melhorar o rendimento, por pessoas com obesidade ou com sobrepeso, visando ao emagrecimento, pelos já saudáveis, como forma de prevenção de doenças, e como estratégia alimentar em vésperas de provas e concursos, para o melhor funcionamento cerebral, e também como medida coadjuvante no tratamento das mais diversas doenças.
Além dos profissionais, vale ressaltar o posicionamento de uma instituição, a Faculdade de Ciências e Tecnologia de Viçosa (Univiçosa), na Zona da Mata. Só neste ano, a Univiçosa promoveu dois workshops abertos ao público sobre low carb – com a participação de José Carlos Souto e de José Barros Neto, bem como nutricionistas alinhados à low carb. A coordenadora do curso de nutrição da Univiçosa, a nutricionista, mestre e doutora em bioquímica Cristiane Sampaio explica que “a ideia de promover eventos sobre o assunto surgiu da necessidade de informar melhor os alunos sobre o tema, ainda tão polêmico entre os profissionais de saúde e pouco visto nas universidades, mas com enorme fundamentação científica”.
Ela explica que os alunos da Univiçosa estudam a alimentação de baixo carboidrato. “Temos um grupo de estudos coordenado por uma professora da área clinica em que os estudantes têm a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos em low carb. Além disso, temos também duas disciplinas específicas do curso nas quais o assunto é abordado”. Apesar disso, Cristiane confirma que as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação para os cursos de nutrição giram ainda em torno de conceitos como redução de gordura e restrição calórica, mas que cabe à instituição munir os estudantes de outras informações essenciais. 
Ela crê que a LCHF tem mexido muito com as comunidades médica e de nutrição. “Aprofundar os conhecimentos no tema significa sair da zona de conforto. Por isso, é tão importante a realização de eventos para abordagem do assunto low carb", arremata.
 
NÃO É SEITA
 “Digo aos pacientes que não vão ouvir de um médico que eles devem parar de fumar e, quando estiverem com a saúde melhor, poderão retomar o hábito ruim. É o mesmo em uma intervenção dietética: se a pessoa voltar a consumir tudo o que ingeria antes, perderá as conquistas obtidas. Por isso, o conceito de uma dieta com início, meio e fim não faz nenhum sentido. Por outro lado, entendo a necessidade de estabelecer um fim quando a intervenção que se propõe é algo intolerável por longos períodos, como uma dieta de 1.200 calorias. Low carb não é seita, e ninguém coloca tudo a perder por uma ocasião, uma vez na semana. Mas haverá prejuízos se essas exceções se tornarem frequentes”, ressalta Souto. 
Ele esclarece ainda que, na LCHF, o adepto pode reinserir na rotina, depois de um tempo, alimentos naturais dos quais abdicou sem que haja prejuízos. “A reinserção de carboidratos de boa qualidade, como todas as frutas e raízes, é algo desejável para a pessoa que não precisa mais perder peso e/ou não tem mais problemas de síndrome metabólica ou de diabetes”, explica o gaúcho.
LCHF não é seita, mas os médicos esbanjam satisfação em seguir e difundir esse estilo de vida, como conclui José Barros Neto: “Low Carb foi algo que me tornou mais humilde, mais feliz e me fez melhor médico. A ciência muda, avança, progride. Hoje enxergo a medicina  como algo que atua nos galhos de uma árvore. E precisamos tratar a raiz dos problemas. Se não cuidarmos do básico, que são alimentação, hidratação, sono e controle do estresse, a árvore vai cair”.