sábado, 2 de setembro de 2017

Estudo PURE - quando a epidemiologia entra em xeque-mate

Se você presta alguma atenção no mundo da nutrição, com certeza ouviu falar do PURE - Prospective Urban and Rural Epidemiological Study - "Estudo Epidemiológico Prospectivo Urbano e Rural", que foi publicado nesta semana na revista científica The Lancet, uma das mais influentes do mundo.




Para quem frequenta essas páginas, não é exatamente novidade. Afinal, em fevereiro de 2017 já havíamos divulgado um vídeo com a espetacular apresentação feita por seu principal investigador, Dr. Salim Yusuf, em um simpósio de cardiologia, em Davos, na Suíça, antecipando vários dos resultados. O vídeo daquela apresentação foi rapidamente removido do youtube e de todos os locais na internet, mas você pode conferi-lo na íntegra aqui. Aliás, o dr. Yusuf, faltando 1 minuto e 40 segundos para o final, recomenda o livro Big Fat Surprise ("Gordura sem Medo, em português) - se você ainda não leu, faça-o.

A publicação do estudo, e sua apresentação no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia gerou um turbilhão de notícias, matérias espalhafatosas e reações de todos os lados. Por quê? Vou copiar e colar para vocês alguns trechos do próprio estudo:


A ingestão elevada de carboidratos foi associada com maior risco de mortalidade total, enquanto que a gordura total e os tipos individuais de gordura estavam relacionados a menor mortalidade total. A gordura total e os tipos de gordura não foram associados a doenças cardiovasculares, infarto do miocárdio ou mortalidade por doenças cardiovasculares, enquanto a gordura saturada teve associação inversa com AVC. As diretrizes dietéticas globais devem ser reconsideradas à luz desses achados.

ou


Da mesma forma, a ingestão de proteína total foi inversamente associada aos riscos de mortalidade total (HR 0 · 88 [95% IC 0 · 77-1 · 00]; ptrend = 0 · 0030) e mortalidade por doença não-cardiovascular (HR 0 · 85 [0 · 73-0 · 99]; ptrend = 0 · 0022; tabela 2). A ingestão de proteína animal foi associada com menor risco de mortalidade total e não houvve associação significativaentre proteína vegetal e o risco de mortalidade total.


ou


Substituição de carboidratos por gordura saturada foi associada a um risco de AVC de 20% menor (HR 0 · 80 [IC 95% 0 · 69-0 · 93]). Não foram encontradas associações significativas com risco de AVC para a substituição de carboidratos por outras gorduras e proteínas.

ou


Nossos achados não dão suporte às recomendações atuais para limitar a ingestão de gordura total para menos de 30% das calorias e ingestão de gordura saturada para menos de 10% das calorias. Indivíduos com alto consumo de carboidratos podem se beneficiar de uma redução na ingestão de carboidratos e do aumento do consumo de gorduras.

ou

Durante décadas, as diretrizes dietéticas se concentraram na redução da ingestão total de gordura e ácidos graxos saturados, com base na presunção de que a substituição de ácidos graxos saturados por carboidratos e gorduras não saturadas irá diminuir o colesterol LDL e, portanto, reduzir os eventos de doenças cardiovasculares. Este foco é amplamente baseado na ênfase seletiva em alguns dados observacionais e clínicos, apesar da existência de vários ensaios randomizados e estudos observacionais que não apoiam essas conclusões.9,35-37
ou


Este é o primeiro grande estudo a descrever a associação entre a baixa ingestão de ácidos graxos saturados (por exemplo, <7% de energia) e mortalidade total e eventos de doenças cardiovasculares. Dois grandes estudos prospectivos de coorte (o Health Professionals Follow up and the Nurses’ Health Study) não encontraram associações significativas entre a ingestão de ácidos graxos saturados e risco de doença cardiovascular quando os nutrientes de substituição não foram levados em consideração.38,39,48,49 Ensaios clínicos randomizados de redução de ácidos graxos saturados (substituídos por ácidos graxos poliinsaturados) também não demonstraram um impacto estatisticamente significativo na mortalidade total.9,35-37

Ou


Nossos achados de uma associação inversa entre ingestão de ácidos graxos saturados e risco de acidente vascular cerebral são consistentes com alguns estudos de coorte anteriores.50 Coletivamente, os dados disponíveis não suportam a recomendação de limitar os ácidos graxos saturados a menos de 10% das calorias, e que uma ingestão muito baixa (ou seja, abaixo de cerca de 7% das calorias) pode até ser prejudicial.

Bem, já deve estar claro os motivos pelos quais este estudo anda gerando reações tão emocionais no mundo da nutrição.

Mas... este estudo PROVA alguma coisa? Ele PROVA que consumir muitos carboidratos aumenta a mortalidade? Ele PROVA que consumir mais gordura saturada reduz a mortalidade e os AVC's?

Não!! Ele não prova nada disso. Ele não pode provar nada disso. Por quê? Porque é um estudo OBSERVACIONAL, e estudos observacionais não podem estabelecer causa e efeito. Por favor, releia a postagem que eu escrevi sobre isso anos atrás.

Então, por que o "mundo low carb" festejou a sua publicação?

Alguns por ingenuidade - afinal, é gostoso bater palmas para qualquer coisa que defenda o que você acredita.

Mas me parece que a maioria das pessoas não captou os dois outros motivos pelos quais este estudo é MUITO importante:

1) Estudos observacionais não provam que algo é verdade, mas são extremamente úteis para refutar hipóteses causais equivocadas.

2) Na tentativa de desacreditar o estudo PURE, o establishment nutricional subitamente deu-se conta e declarou, publicamente, que estudos observacionais não estabelecem causa e efeito e que não devem, portanto, pautar condutas. EU CONCORDO COM ISSO. Em outras palavras, para refutar um estudo observacional com o qual não concordam, desacreditaram a quase totalidade dos estudos que embasam as diretrizes vigentes. Como alguém disse no twitter: "the house of carbs is falling down".

Vamos expandir um pouco os dois tópicos


  • Estudos observacionais não provam que algo é verdade, mas são extremamente úteis para refutar hipóteses causais equivocadas.
Eu já escrevi uma postagem inteira sobre isso há mais de 2 anos, e sugiro que você leia a íntegra aqui.
Basicamente, é um argumento de lógica. Funciona assim:

Já explicamos, à exaustão, que a existência de uma associação entre duas coisas não implica que uma é causa da outra, ou seja, que associação não implica causa e efeito.

Mas aqui a coisa fica interessante: quando uma coisa efetivamente CAUSA a outra, obrigatoriamente haverá também uma associação entre elas. Ou seja, a associação não implica necessariamente que haja relação de causa e efeito, mas a relação de causa e efeito, quando de fato existe, evidentemente engendra a existência de uma associação.

Corolário lógico? A ausência de associação entre variáveis, mesmo em estudo observacional, sugere fortemente a inexistência de uma relação de causa e efeito entre elas. Se houver uma associação inversa entre duas variáveis, mesmo em um estudo observacional, a hipótese de que uma CAUSA a outra beira ou absurdo. Não é impossível, mas é deveras improvável.


Dito de outra forma: correlação não implica necessariamente causalidade, mas causalidade implica necessariamente correlação. Assim, a AUSÊNCIA de correlação (ou, pior ainda, uma correlação INVERSA) essencialmente REFUTA a existência de causalidade.

Em termos concretos, e no estudo em tela: o fato de que um maior consumo de gordura saturada foi ASSOCIADO a uma menor mortalidade não significa que a gordura saturada seja a CAUSA dessa redução. No entanto, tal associação INVERSA (entre gordura saturada e mortalidade) essencialmente REFUTA a hipótese de que a gordura saturada na dieta seja uma CAUSA de mortalidade.

Isso é tão importante que vou tentar dizer de outra forma: as diretrizes vigentes indicam a redução das gorduras na dieta, em especial as saturadas. Isso porque baseiam-se na ideia de que a gordura saturada da dieta aumenta o risco de morbidade e mortalidade. Tal hipótese é uma hipótese CAUSAL. Ou seja, as diretrizes baseiam-se na hipótese de que a gordura saturada da dieta CAUSA um aumento de mortes; em sendo a gordura a CAUSA, sua redução se justificaria, pois isso produziria uma redução das mortes. Porém, o estudo epidemiológico mostra uma associação INVERSA entre o consumo de gorduras em geral, incluindo a saturada, e mortalidade e AVC. Como o estudo é observacional, ele não PROVA que mais gordura PREVINE mortes (apenas levanta essa hipótese). Mas ele é essencialmente INCOMPATÍVEL com a hipótese de que a gordura saturada CAUSA mortes. Nesse sentido, embora observacional, é mais um estudo que refuta a hipótese.

O estudo PURE não é o primeiro nem o único estudo observacional a refutar a hipótese de que a gordura na dieta é causa de mortalidade. É apenas o maior, mais recente e que levantou os dados uma população mais diversificada (não apenas na América do Norte e Europa).

Segundo tópico:
  • Na tentativa de desacreditar o estudo PURE, o establishment nutricional subitamente deu-se conta e declarou, publicamente, que estudos observacionais não estabelecem causa e efeito e que não devem, portanto, pautar condutas. EU CONCORDO COM ISSO. Em outras palavras, para refutar um estudo observacional com o qual não concordam, desacreditaram a quase totalidade dos estudos que embasam as diretrizes vigentes.
Cada vez que sai um novo estudo observacional sugerindo que carne vermelha está associada com diabetes, câncer, acidentes de automóvel, as MESMAS pessoas que agora gritam que associação não implica causa e efeito fazem festa e mandam você não comer carne.

Cada vez que sai um novo estudo observacional sugerindo que o maior consumo de grãos integrais está associado com menor risco de diabetes, câncer, acidentes de automóvel, as MESMAS pessoas que agora gritam que associação não implica causa e efeito fazem festa e mandam você aumentar o consumo de grãos integrais (P.S.: os ensaios clínicos randomizados que mostram vantagens de grãos integrais tem como grupo controle grãos processados, por isso mostram vantagem).

Reproduzo aqui parte de um texto que foi publicado no blog de uma das seccionais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia:


"Aliás, sabemos que nossa alimentação varia dia após dia, semana após semana, ano após ano. O estudo aplicava o questionário alimentar em intervalos de 3 anos. Será mesmo que todo paciente manteve exatamente o mesmo padrão durante todo este período? Será que alguns pacientes não modificaram suas dietas, para um consumo menor de gorduras justamente por terem um risco maior de problemas de saúde? Será que as pessoas que consumiam mais gordura não se permitiam a isso por serem mais saudáveis? São questões que os próprios autores do trabalho reconhecem não ter conseguido responder."
"Em resumo, gorduras não são as vilãs que se pregava em outros tempos, desde que consumidas dentro de um padrão alimentar e de atividade física equilibrado. Já o consumo abusivo de carboidratos, especialmente refinados ou vindos de alimentos altamente processados, pode sim trazer prejuízos à saúde."
Eu concordo 100% com essa análise. Mas veja, ela deve ser aplicada para todos os estudos observacionais.

Na próxima vez que sair um estudo da escola de saúde pública de Harvard sugerindo que o consumo de carne vermelha está associado a um maior risco de seja-lá-o-que-for, você deve se perguntar: "Aliás, sabemos que nossa alimentação varia dia após dia, semana após semana, ano após ano. O estudo aplicava o questionário alimentar em intervalos de 3 anos. Será mesmo que todo paciente manteve exatamente o mesmo padrão durante todo este período? Será que alguns pacientes não modificaram suas dietas, para um consumo menor de carne vermelha justamente por terem um risco maior de problemas de saúde? Será que as pessoas que consumiam mais carne não se permitiam a isso por serem mais saudáveis?"


***


No jogo de Xadrez, diz-se que o rei está em xeque quando a casa em que ele se encontra está ameaçada. O jogador precisa fazer um movimento para retirar tal ameaça. Quando não existe nenhum movimento possível que remova a ameaça ao rei, chama-se de xeque-mate.

O motivo pelo qual uma abordagem low carb não é amplamente aceita e adotada por profissionais de saúde no manejo de sobrepeso, diabetes e síndrome metabólica não é a ausência de evidências robustas de sua eficácia. Existem dezenas de ensaios clínicos randomizados indicando a superioridade da abordagem, tanto para peso quanto para diabetes tipo 2. A resistência baseia-se inteiramente na percepção de risco associado ao aumento proporcional do consumo de gorduras (incluindo as saturadas) que ocorre quando se reduz os carboidratos da dieta. Mas tal percepção é oriunda da citação seletiva de alguns estudos epidemiológicos - justamente o tipo de estudo que os críticos da abordagem low carb começaram a descartar por serem baseados em questionários e por possuírem variáveis de confusão. 

Eis o dilema: ou se aceita que estudos epidemiológicos são adequados para ditar normas alimentares à população (o que significaria ignorar todas as suas limitações, suas imprecisões e suas variáveis de confusão), e nesse caso o estudo PURE indicaria a necessidade de uma grande revisão nas diretrizes que recomendam a restrição de gordura (especialmente saturada) na dieta; ou se aceita que o estudo PURE é fatalmente inadequado para informar as diretrizes alimentares, visto ser epidemiológico e falho - mas isso terá que valer para TODOS os estudos epidemiológicos que estão na base deste grande castelo de cartas. You can't have it both ways.

O rei não tem para onde fugir, sem que fique em xeque. Xeque-mate.






quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Revista Mais: Boa forma, saúde e combate ao senso comum

Reportagem sensacional e aprofundada sobre low carb na Revista Mais. Parabéns à jornalista Júlia Ruiz - belo trabalho!

 

 
 
 
Boa forma, saúde e combate ao senso comum

Criado em 09 de Agosto de 2017Saúde e Vida
O casal Patrícia Coelho e Rafael Queiroz se libertou do 'efeito sanfona' quando conheceu a low carb e, consequentemente, o médico José Neto
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Você faz parte do expressivo grupo da população que precisa eliminar alguns quilinhos para ter melhor forma física e uma vida mais saudável? Se sim, o que acha de consumir 
sem medo alimentos como carnes, bacon, laticínios “gordos”, abacate, entre outros, sempre que sentir fome? Achou estranho? Então saiba que essa estratégia alimentar tem ganhado cada vez mais adeptos no mundo. É a low carb, high fat – em português, “baixo carboidrato, alta gordura”. Quer entender como funciona? Então, devore o conteúdo a seguir! 
 
ADEPTOS DA LOW CARB, HIGH FAT advertem: “não é uma dieta. É um estilo de vida que transforma o modo de entender e de lidar com a comida”. O que significa, então, ter uma vida em que a base nutricional é uma alimentação com baixo índice de carboidratos e maior ìndice de gorduras? Como todo tema que está muito voga, esse também é, muitas vezes, tratado de forma superficial, o que provoca a criação de mitos e interpretações errôneas. Com o intuito de esclarecer os princípios, as bases e os estudos que sustentam a LCHF, a Mais convocou um time de especialistas no assunto para fazer um verdadeiro raio X dessa estratégia alimentar. 
Quando se trata de profissional de saúde com amplos conhecimento e experiência em LCHF, ninguém é mais consultado no Brasil que o médico cirurgião-urologista gaúcho José Carlos Souto. Apesar de muito estudioso – é graduado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduado pela Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, e mestre pela Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre –, não foi o interesse médico pela nutrição que o levou a conhecer a low carb. “Foi totalmente por acaso. No início de 2011, ouvi um podcast no qual o escritor/pesquisador americano Gary Taubes falava sobre seu mais recente livro, o “Why We Get Fat: And What To Do About It” – em português “Por que Engordamos e o que Fazer para Evitar” - e sua narrativa era fascinante. Na entrevista, ele citava estudos de médicos respeitados e termos que demonstravam domínio do conceito de medicina baseada em evidências científicas, como os ensaios clínicos randomizados, que são o santo graal da pesquisa médica”, narra Souto. 
A grande surpresa veio quando o urologista percebeu que os conceitos de nutrição apresentados pelo pesquisador entravam em choque com tudo o que ele conhecia nessa área. “Era completamente diferente do que eu julgava saber, o que, na realidade, era o senso comum nutricional. Imediatamente, fiz o download do livro e não consegui parar de ler. Chequei várias fontes que Taubes citou e vi que existiam, de fato, todos aqueles estudos mostrando que a restrição de carboidratos é muito mais eficiente que a simples restrição calórica – não apenas para o emagrecimento como também para a saúde – e que a gordura presente nos alimentos não está diretamente relacionada à doença cardiovascular”.
A prova incontestável dos novos conceitos veio em seguida. “Logo que concluí que não se tratava de uma teoria maluca, decidi imediatamente testá-la em mim mesmo. O resultado foi a eliminação de praticamente 20 kg, sem passar fome e sem maior esforço. A partir daí, comecei a estudar de forma incessante o assunto porque me pareceu e ainda me parece, seis anos depois, fascinante que tantos estudos sérios estivessem publicados e eu nunca tivesse lido a respeito”, comenta.
Antes de citarmos os principais itens que devem ser excluídos e os que estão inclusos na low carb, vale saber: é uma estratégia alimentar benéfica para todo mundo? “Pode perfeitamente ser aderida por todos, mas não é necessário para todos. Quem mais se beneficia, especialmente, são pessoas com sobrepeso, obesidade, síndrome metabólica e os diabéticos. Quem tem baixo peso, muita facilidade para emagrecer e dificuldade para engordar talvez não deva fazer restrição de carboidratos porque naturalmente tenderá a perder ainda mais peso. Pessoas saudáveis, que são fisicamente ativas e que não querem/precisam emagrecer não têm necessidade de fazer a LCHF de forma ampla – nesse caso, o que a gente sugere é que tenham uma alimentação o mais natural possível, buscando como fontes de carboidratos todas as frutas e raízes”, diz Souto. 
Quem quiser adotar esse estilo de vida, então, deve evitar ao máximo os açúcares e os farináceos (pães, biscoitos, bolos, massas e outros que contenham qualquer farinha que não seja derivada de um alimento low carb); bebidas adoçadas, como sucos e refrigerantes tradicionais; e sobremesas convencionais. Também devem ser excluídos os alimentos ricos em amido, como arroz e milho; tubérculos, a exemplo de batatas e mandioca (e tapioca); e as frutas que não forem citadas abaixo, em razão da alta quantidade de frutose (o açúcar da fruta). Em suma, devem ser restringidos ao máximo todos os alimentos com alto índice glicêmico, assim como os óleos vegetais (soja, milho, girassol), ricos em ácido linoleico, que favorecem inflamações. É bom também dar uma pausa nas bebidas alcoólicas. 
Já os alimentos indicados para o consumo incluem hortaliças/verduras (todas); legumes; peixes; aves; carnes; bacon; ovos; laticínios fermentados ou centrifugados, como queijo, iogurte (sem açúcar), nata, requeijão e creme de leite – o leite deve ser excluído em razão da lactose (açúcar próprio da bebida), e, também por esse motivo, deve-se dar preferência aos queijos amarelos, pois eles contêm quantidades ainda menores de lactose que os brancos. Frutas como morango, mirtilo, kiwi, abacate e coco e oleaginosas, a exemplo de nozes, amêndoas, castanhas, pistaches, macadâmias e também amendoins, podem ser ingeridos tranquilamente. O médico indica ainda o uso sem receio do azeite de oliva extravirgem, da manteiga, do óleo de coco e da banha de porco. 
O leitor pode estar pensando: “quantas refeições e em que quantidade devo consumir por dia?”. Um dos trunfos da low carb com relação a outras estratégias alimentares é que ela propõe: coma quando estiver com fome e até que se sinta saciado, sem intervalos de tempo ou porções pré-estabelecidas. Como não se baseia em restrição calórica, o adepto não fica fazendo cálculos ou sentindo fome. Diante disso, o leitor pode se perguntar: “não é preciso limitar calorias para emagrecer?”. José Souto esclarece que, “de fato, para se emagrecer, o número de calorias gasto deve ser maior que o ingerido. O grande ponto aqui é que com a LCHF passamos naturalmente a sentir menos fome e a consumir menos calorias – é que, ao se reduzirem os carboidratos, há a diminuição da produção de insulina no organismo, e essa baixa facilita a lipólise, isto é, o corpo usa a gordura que já está acumulada nele como combustível (energia). Essa gordura então passa a ficar disponível para uso pelos demais tecidos do corpo, e a pessoa sente menos fome”. 
Além disso, a quantidade-limite de carboidratos que pode ser consumida diariamente, para gerar resultados, varia de pessoa para pessoa. “Temos desde o indivíduo saudável, fisicamente ativo, que está em seu peso ideal – para quem, como já dissemos, a orientação é basicamente evitar açúcar e farináceos, até o outro extremo de pessoa, por exemplo, diabética, que necessita restringir o máximo possível de carboidratos para manter sua glicemia normal, com o mínimo de medicação. A orientação de um profissional familiarizado com LCHF é de grande utilidade para auxiliar nesse processo”, salienta José Souto. 
Existem ferramentas eletrônicas que também podem ajudar no controle do índice de carboidratos ingeridos. O aplicativo Fat Secret, disponível para Android e IOS, é um deles. No app, é possível saber a quantidade exata de macronutrientes (carboidratos, fibras, gorduras, proteínas) e de calorias de cada alimento ou refeição, bem como monitorar o peso corporal.
 
 “CIÊNCIA LOW CARB”
O tema LCHF encantou tanto José Souto que ficou difícil conter as descobertas. Foi aí que ele decidiu compartilhar seus conhecimentos na internet criando o blog Ciência Low Carb (www.lowcarbpaleo.com.br), que também aborda a alimentação paleolítica – bem parecida com a de baixo carboidrato, mas com algumas diferenças pontuais. O início foi tímido. “Passei todo o ano de 2011 estudando com afinco o assunto, mas tinha receio de compartilhar isso publicamente por conta das possíveis reações dos colegas. Mas, em dezembro de 2011, decidi escrever. Durante um tempo, não divulguei para ninguém. Depois, passei a recomendar para alguns amigos, familiares e, eventualmente, para algum paciente que apresentasse síndrome metabólica, obesidade ou diabetes. O blog acabou decolando por conta própria. Contudo, jamais imaginei que isso seria o pontapé para um movimento nacional”, relata.  
Em 2014, o “Blog do dr. Souto”, como é popularmente conhecido, completou 2 milhões de acessos. De 2015 para cá, a página se tornou um fenômeno quando o assunto é nutrição. Além de divulgar estudos, artigos científicos, trechos de livros e textos de autoria própria, Souto utiliza o blog para esclarecer dúvidas dos internautas e dar orientações, por exemplo, sobre o que comer em viagens. O blog também conta com sugestões de receitas para diversificar o cardápio dos adeptos.
 
 
APOIADORES DE PESO
Apesar do receio inicial do médico gaúcho, o blog conquistou o apreço de vários profissionais de saúde. Um deles é o mineiro José Barros Neto, clínico geral e nefrologista que aderiu ao estilo de vida depois de “devorar” o conteúdo do Ciência Low Carb. Com atuação significativa – ele é graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais, coordenador do Serviço de Nefrologia do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, e diretor científico da Sociedade Mineira de Nefrologia –, sempre se interessou pelo que considerava alimentação saudável. Mas, assim como Souto, enxergava a nutrição pelas lentes do senso comum. “Quando conheci a LCHF, em fevereiro de 2014, seguia aquele protótipo de comer de três em três horas, com pouca gordura. Estava em São Paulo para um evento de nefrologia e, quando fui tomar café da manhã, vi um amigo médico comendo ovos, bacon, presunto de parma e fiquei espantado. Ele conversou comigo e explicou que havia emagrecido 26 kg, controlado a pressão e que nunca havia se sentido tão bem. Ele me deu um norte, e resolvi pesquisar o assunto. Foi aí que encontrei o blog do doutor Souto, o qual li copiosamente durante duas semanas. Fiz uma revisão da literatura médica e vi que tudo o que ele escrevia era muito bem fundamentado. Então pensei: ‘não custa tentar’. Naquele período, eu pesava 92 kg, estava pré-diabético, usando remédios e em descontrole lipídico. Perdi 4 kg no primeiro mês, mais 4 kg no segundo e, ao fim de três meses, havia eliminado 10 kg. O bem-estar, a disposição e a melhora da saúde vieram junto”, descreve Neto.
O novo estilo de vida foi a ponte para a amizade e a parceria profissional entre os dois médicos, que, frequentemente, participam de congressos e workshops juntos.
 
EVIDÊNCIAS
Um dos inúmeros estudos que Souto destaca em seu blog é o Dietary Intervention Randomizes Controlled Tiral (Direct). “Você pode não gostar de low carb, pode não seguir, mas precisa se dobrar às evidências. É um ensaio clínico randomizado com mais de 300 voluntários que durou dois anos. O estudo foi publicado no periódico médico de maior prestígio do mundo, o ‘New England Journal of Medicine’”, conta o urologista.
O experimento dividiu em três grupos homens e mulheres com índice de massa corporal maior que 27, com diabetes tipo 2 e doença coronariana. Em suma, todos com excesso de peso. No sorteio, foi determinado que um grupo faria uma dieta pobre em gorduras (low fat), com restrição de 1.500 calorias para mulheres e 1.800 para homens. O segundo faria a dieta do Mediterrâneo, com a mesma restrição calórica para mulheres e homens. E o terceiro, uma dieta low carb baseada no livro “A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins”, sem qualquer restrição calórica. “É essencial ressaltar que o grupo que praticou low carb foi orientado a consumir quantas calorias quisesse e a aumentar a ingestão de carboidratos até 120 g após os primeiros dois meses. Como já se sabe desde, pelo menos a década de 1950, que a restrição de carboidratos é mais eficaz para a perda de peso, os autores do estudo utilizaram um estratagema para que a vantagem da low carb não fosse tão absurda. É como se um corredor olímpico fosse competir com amadores, mas largasse atrás de todos para dar a eles uma vantagem que diminuísse a óbvia e previsível disparidade de seus desempenhos”, assevera José Souto.
O resultado? “A low carb foi mais eficaz, enquanto a low fat foi a pior até o fim do estudo. E é preciso lembrar o tempo todo que o grupo low carb foi orientado a aumentar a ingestão de carboidratos e podia comer quantas calorias quisesse. Apesar disso, essa turma reduziu seu consumo calórico à mesma proporção dos outros grupos porque sentia menos fome. Conclusão: as pessoas que fizeram low carb perderam mais peso e tiveram maior redução de circunferência abdominal entre as três, enquanto a low fat foi a pior nesse quesito também”, explica Souto.
O mineiro José Barros Neto aponta outro estudo que, para ele, também é marcante: a Public Health Collaboration, respeitada entidade britânica, catalogou 54 ensaios clínicos randomizados comparando uma dieta low carb com uma low fat. O resultado foi expressivo: do total dos experimentos, 47 favoreceram a low carb, dois foram inconclusivos, e cinco foram a favor de uma alimentação pobre em gorduras. Neto ressalta que nenhum dos estudos atingiu significância estatística com uma dieta de baixo índice de gordura.
 
A GORDURA NÃO É A VILà
Mas se a gordura dos alimentos não é, isolada, a responsável pelo ganho de peso, por que existe esse receio dela? De acordo com José Neto, é primordial distinguir a gordura animal da corporal. “Muita gente acredita que porque comeu um alimento com gordura irá engordar. Aí foge daqueles alimentos que poderia consumir sem culpa. É um pensamento cartesiano, e ciência não funciona dessa forma simplória”, afirma.
“Tornar a gordura natural dos alimentos uma vilã talvez tenha sido um dos maiores equívocos da ciência nutricional, porque a ideia de que a gordura é responsável por doenças, sobretudo a cardiovascular, e pelo ganho de peso era apenas uma hipótese nas décadas de 1960 e 1970. E até hoje as pessoas reproduzem isso, apesar da grande massa de evidências mostrando que a gordura não apenas não está relacionada à doença cardiovascular, mas, principalmente, que dietas com mais gordura e menos carboidratos estão ligadas à redução de peso e à melhora em todos os preditores dessa doença”, acrescenta Souto. 
José Barros Neto enfatiza que a gordura tem papel fundamental no organismo. “As membranas celulares são feitas de gordura, assim como vários hormônios, inclusive os sexuais. Isso sem contar os demais usos em nosso metabolismo”, diz.
Para evitar distorções, José Carlos Souto ratifica: “não se trata de defender o consumo ilimitado de gordura, e, sim, de aceitar que aquela presente naturalmente nos alimentos não é o problema. Do contrário, as pessoas acabam evitando algumas das comidas mais saudáveis e saborosas da natureza e embarcando em produtos processados ou ricos em açúcar e amido apenas porque tais alimentos são teoricamente pobres em gordura”. Para os adeptos da LCHF não escorregarem, vale o bom senso: evite ficar adicionando gordura aos alimentos, como misturar manteiga ou nata no café toda vez que for ingerir a bebida ou consumir uma lata inteira de creme de leite na sobremesa.
Quem quiser saber mais sobre isso, recomenda o urologista, pode ler os livros “The Big Fat Surprise”, de Nina Teicholz, recentemente lançado no Brasil com o nome “Gordura sem Medo”, e “Bad Calories, Good Calories”, de Gary Taubes, publicados em 2007, ainda sem tradução para o português.
 

 
 
PAZ COM O CORPO
Com uma sucessão de dietas convencionais, a médica endoscopista Patrícia Coelho e o advogado Rafael Queiroz, casados há 11 anos, viveram tempos de “efeito sanfona”. Os belo-horizontinos encontraram no estilo de vida LCHF as respostas que procuravam para os resultados nada duradouros que ocorriam em outras estratégias alimentares. “Os resultados apareciam em curto prazo, porém não conseguíamos mantê-los por muito tempo, o que acabava gerando um rebote. Quando adotei a low carb, em abril do ano passado, pesava mais de 90 kg. Em janeiro deste ano, cheguei a 78 kg, peso que ainda mantenho, o que demonstra que não há dificuldade em conservar as conquistas”, relata Queiroz.
Foi pela indicação de amigos que Patrícia conheceu a LCHF – e, consequentemente, o médico José Neto, de quem ela e o marido são pacientes. Quando a mudança de vida foi proposta, ela ficou ansiosa. Mas não demorou para o casal adotar a alimentação de baixo carboidrato como estilo de vida. “Além do emagrecimento e da melhora da saúde, o conhecimento das nossas reais necessidades alimentares é uma das descobertas que mais me impressionam”, diz Rafael Queiroz. Apesar da diminuição expressiva de carboidratos, Patrícia destaca a sensação de liberdade que adquiriu. “Não tenho mais aquele sentimento de quem está sofrendo com uma dieta, que precisa contar minutos para comer e se preocupar com a quantidade de calorias que ingere. Quando sinto fome, como com prazer, só que agora eu é que estou no comando do meu próprio corpo, não mais a comida”, destaca. 
E não é difícil trabalhar fora e se manter firme? Eles garantem que não. “Não temos dificuldades porque existem opções que se encaixam na alimentação. Em restaurantes, pedimos para substituir o risoto ou a batata por legumes e salada. O bacana da low carb é que, raramente, precisamos fazer um lanche na rua porque a saciedade nos dá a flexibilidade de pular refeições sem qualquer incômodo. Além disso, oleaginosas como as castanhas são sempre uma boa opção para esses momentos, pois saciam e podem ser encontradas com facilidade no comércio”, garante Patrícia.
A vontade de trocar ideias e experiências com outras pessoas sobre LCHF fez com que o casal criasse, em fevereiro deste ano, um perfil no Instagram, o cafecombacon. Nele, Patrícia e Rafael compartilham receitas, estudos e eventos relacionados à low carb. 
 
REDE LOW CARB
O grande desejo de falar sobre LCHF também motivou a criação do perfil low_carb_br no Instagram, mantido pela bióloga e veterinária mineira Denise Souza, em setembro de 2016. Quem vê o sucesso da página, que conta com quase 70 mil seguidores e traz dicas, orientações, estudos e relatos sobre low carb e alimentação paleolítica, não imagina que Denise sofreu compulsão alimentar. “Lutava para emagrecer e não conseguia. Cansada disso, comecei a fazer várias pesquisas e descobri a LCHF. O fato de emagrecer podendo comer tudo o que eu mais gostava, como carnes, ovos e laticínios, e ver a fome despencar, me arrebatou”, atesta.  
Além do retorno dos seguidores, a recompensa de Denise está, principalmente, na nova relação que estabeleceu com a comida. “Acabou a aflição de acordar pensando que ia comer uma torradinha e continuar com fome. Eu como o que gosto; quando não estou com fome, não como nada, simples assim. Com isso, eliminei 18 kg e passei a me sentir bem, com ótima saúde”, relata.
 
 
AÇÚCAR É SEMPRE AÇÚCAR 
Muitos imaginam que é um grande avanço substituir o açúcar refinado/cristal pelo mascavo, demerara, de coco ou mel. Souto e Neto, contudo, alertam: “açúcar é sempre açúcar, e, entre todos os carboidratos, esse é o pior”. 
“Podemos consumir carboidratos na forma de açúcar ou de amido. Amido é glicose pura; açúcar é mistura de glicose e frutose. A glicose pode ser utilizada por qualquer célula do corpo. Já a frutose só pode ser metabolizada pelo fígado. Porém, nosso fígado é evolutivamente preparado para lidar com a quantidade de frutose presente naturalmente nas frutas, e não com a quantidade maciça que há no açúcar. A frutose, consumida em grande quantidade, apresenta toxicidade no fígado, representada principalmente pela produção de gordura que se acumula no órgão, chamada de esteatose. O fígado gorduroso torna-se resistente à insulina. É um duplo efeito negativo: aumenta a glicose no sangue e, ao mesmo tempo, deixa o fígado resistente ao hormônio. Isso é praticamente uma receita para sobrepeso, diabetes e obesidade”, explica Souto. 
“O açúcar do mel é melhor que o refinado? É, mas, para fazer uma analogia, é como comparar um cigarro com filtro com um sem filtro. O fato de um ser menos pior do que o outro não quer dizer que seja bom para a saúde. Definitivamente, açúcar é uma substância que qualquer pessoa deveria evitar”, completa José Barros Neto. 
E os adoçantes? De acordo com Souto, “num mundo ideal, conseguiríamos abdicar do gosto doce. Contudo, para a maioria das pessoas, o doce é um verdadeiro vício. Então, até que a adoção de um estilo de vida low carb permita que se diminua essa necessidade, os adoçantes têm uma função a cumprir. Para quem quiser utilizar, seja o natural, que é a stévia, sejam os artificiais, a ideia é adotar uma quantidade pequena e ir diminuindo ao longo do tempo, de modo a simplesmente realçar um pouco o sabor doce”.
 
CUIDADO COM OS RÓTULOS
Preocupar-se com uma alimentação saudável implica também desvendar os rótulos dos produtos. E é aí que surgem as grandes armadilhas da indústria. “A única forma de enfrentar esse desafio é aprender os vários nomes que o açúcar e o amido podem ter. Itens como ‘açúcar evaporado de cana’, ‘melado’, ‘dextrose’, ‘maltodextrina’ são nomes com os quais quais a glicose é introduzida em alimentos. A orientação é ficar especialmente atento a produtos dietéticos, como geleias, iogurtes e pudins. A maioria tem grande quantidade de carboidratos, mas, pela legislação, são considerados açúcares apenas glicose, frutose ou sacarose. Qualquer outro tipo de carboidrato pode estar presente – provocando o mesmo efeito do açúcar no organismo –, embora no rótulo esteja escrito ‘zero açúcar’. A melhor solução, então, é evitar alimentos industrializados”, aconselha José Souto. 
 
MARKETING X CIÊNCIA 
Ao longo dos anos, foi comum a classificação de alimentos ora como vilões, ora como herói, assim como o ovo e o abacate. Esses altos e baixos deixaram muita gente descrente quanto ao que se divulga como pesquisa científica. José Barros Neto concorda que a desconfiança tem fundamento. “Endosso o que afirmou o endocrinologista David Ludwing, professor da Escola de Medicina da Universidade de Harvard: representantes da ciência deviam ir a público e dizer ‘desculpem, erramos’. O papel que muitos profissionais desempenham hoje é justamente uma tentativa de recuperar a credibilidade com a população”, afirma.
Outro exemplo desses altos e baixos é a divulgação maciça de alimentos ditos milagrosos. “O viés econômico de querer vender e lucrar em cima de ‘alimentos mágicos’ contribui muito para esse processo da falta de credibilidade. Veja o frisson sobre o sal do Himalaia. Falar que é melhor para a saúde que o sal tradicional é pura ação de marketing. O próprio óleo de coco, muitas vezes vendido em cápsulas, é bom para a saúde? Sim, mas para fins culinários, exatamente como o azeite de oliva extravirgem, a manteiga e a banha de porco”, completa o mineiro.    
 
NUTRICIONISTAS X LOW CARB
Afinal, nutricionistas e nutrólogos aprovam o estilo de vida low carb, high fat? “De forma geral, a resposta tem sido favorável. Acredito que isso se deve ao cuidado de alicerçar as informações em ensaios clínicos randomizados e meta-análises. Contudo, às vezes algum leitor me informa que um nutricionista ou nutrólogo está falando mal de mim nas redes sociais, mas isso não me incomoda, pois acho que o debate precisa ser travado no campo das referências de alto nível”, afirma José Souto.
O fato é que muitos profissionais da área são resistentes à LCHF, defendendo com fervor a tradicional pirâmide alimentar - em que carboidratos devem ser a base da alimentação humana. Mas de onde parte essa conduta? “Minha experiência mostra que nutrição é uma matéria muito malvista na medicina. A maioria das pessoas crê nas fórmulas prontas. Os cursos de nutrição também seguem esse modelo, e, quando alguém tenta ir contra, fica parecendo uma briga sectarista. Vejo como algo multifatorial. Ocorre por ser algo que ainda é ensinado nas universidades e também porque há interesses comerciais da indústria do trigo e do açúcar, que são fortíssimas”, opina José Barros Neto.    
O nutrólogo Lucas Penchel, colunista da Mais, que atende em Belo Horizonte, na Clínica Penchel, faz parte do grupo de profissionais que reconhecem os benefícios da LCHF.  “Costumo dizer que o que é remédio para alguns pode ser veneno para outros. Cada caso é um caso. Indico a low carb e tenho tido resultados excelentes tanto na cura quanto na melhoria sintomas de doenças. Então, há pacientes que reduziram drasticamente o uso de medicamentos, além de terem melhorado sono e autoestima e diminuído a circunferência abdominal”, relata.
Penchel acredita que os conceitos da nutrição estão mudando. “Antes, as dietas eram baseadas em valor calórico. Mas a gente consegue fazer uma dieta de 2.000 calorias só com Mc Donalds; outra de 2.000 calorias só com salada; outra de 2.000 calorias só com carnes, com efeitos completamente diferentes no organismo. Assim como o mito da gordura-vilã está indo por água abaixo, o de ficar só contando calorias também. Há, então, que se avaliar a individualidade biológica de cada pessoa, levando-se em conta o objetivo dela, a idade, níveis hormonais, estilo de vida, hábitos, tudo isso”, arremata Penchel. 
Também do lado favorável à LCHF está a nutróloga Jackelyne Mendonça, que atua em Betim, na região metropolitana da capital mineira, na clínica Yaga. Ela ressalta que a low carb tem uma plasticidade enorme, podendo ser realizada por atletas, para melhorar o rendimento, por pessoas com obesidade ou com sobrepeso, visando ao emagrecimento, pelos já saudáveis, como forma de prevenção de doenças, e como estratégia alimentar em vésperas de provas e concursos, para o melhor funcionamento cerebral, e também como medida coadjuvante no tratamento das mais diversas doenças.
Além dos profissionais, vale ressaltar o posicionamento de uma instituição, a Faculdade de Ciências e Tecnologia de Viçosa (Univiçosa), na Zona da Mata. Só neste ano, a Univiçosa promoveu dois workshops abertos ao público sobre low carb – com a participação de José Carlos Souto e de José Barros Neto, bem como nutricionistas alinhados à low carb. A coordenadora do curso de nutrição da Univiçosa, a nutricionista, mestre e doutora em bioquímica Cristiane Sampaio explica que “a ideia de promover eventos sobre o assunto surgiu da necessidade de informar melhor os alunos sobre o tema, ainda tão polêmico entre os profissionais de saúde e pouco visto nas universidades, mas com enorme fundamentação científica”.
Ela explica que os alunos da Univiçosa estudam a alimentação de baixo carboidrato. “Temos um grupo de estudos coordenado por uma professora da área clinica em que os estudantes têm a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos em low carb. Além disso, temos também duas disciplinas específicas do curso nas quais o assunto é abordado”. Apesar disso, Cristiane confirma que as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação para os cursos de nutrição giram ainda em torno de conceitos como redução de gordura e restrição calórica, mas que cabe à instituição munir os estudantes de outras informações essenciais. 
Ela crê que a LCHF tem mexido muito com as comunidades médica e de nutrição. “Aprofundar os conhecimentos no tema significa sair da zona de conforto. Por isso, é tão importante a realização de eventos para abordagem do assunto low carb", arremata.
 
NÃO É SEITA
 “Digo aos pacientes que não vão ouvir de um médico que eles devem parar de fumar e, quando estiverem com a saúde melhor, poderão retomar o hábito ruim. É o mesmo em uma intervenção dietética: se a pessoa voltar a consumir tudo o que ingeria antes, perderá as conquistas obtidas. Por isso, o conceito de uma dieta com início, meio e fim não faz nenhum sentido. Por outro lado, entendo a necessidade de estabelecer um fim quando a intervenção que se propõe é algo intolerável por longos períodos, como uma dieta de 1.200 calorias. Low carb não é seita, e ninguém coloca tudo a perder por uma ocasião, uma vez na semana. Mas haverá prejuízos se essas exceções se tornarem frequentes”, ressalta Souto. 
Ele esclarece ainda que, na LCHF, o adepto pode reinserir na rotina, depois de um tempo, alimentos naturais dos quais abdicou sem que haja prejuízos. “A reinserção de carboidratos de boa qualidade, como todas as frutas e raízes, é algo desejável para a pessoa que não precisa mais perder peso e/ou não tem mais problemas de síndrome metabólica ou de diabetes”, explica o gaúcho.
LCHF não é seita, mas os médicos esbanjam satisfação em seguir e difundir esse estilo de vida, como conclui José Barros Neto: “Low Carb foi algo que me tornou mais humilde, mais feliz e me fez melhor médico. A ciência muda, avança, progride. Hoje enxergo a medicina  como algo que atua nos galhos de uma árvore. E precisamos tratar a raiz dos problemas. Se não cuidarmos do básico, que são alimentação, hidratação, sono e controle do estresse, a árvore vai cair”. 
 

 
 
 

sábado, 29 de julho de 2017

Palestra de Lara Maciel sobre DM1 e low carb

Vamos começar colocando em destaque o aviso que consta desde sempre no rodapé deste blog: "Este blog expressa apenas minhas opiniões pessoais baseadas em minha interpretação do estado atual da ciência. Não é possível realizar consultas médicas via internet. As opiniões expressas neste blog não podem substituir as de seu médico. As sugestões de conduta são genéricas, e podem não estar indicadas para uma pessoa específica. Se você optar por seguir alguma das opiniões aqui expressas, faça-o com o conhecimento de seu médico."

É preciso deixar muito claro que diabéticos tipo 1 não podem adotar uma dieta low carb sem acompanhamento profissional e com a redução concomitante das doses de insulina, sob risco de hipoglicemias potencialmente fatais.

Por outro lado, feito da forma correta, não há nada melhor. Quem tiver curiosidade de ver incontáveis exemplos reais de diabéticos tipo 1 com hemoglobinas glicadas NORMAIS e drástica redução dos episódios de hipoglicemia através do emprego desta estratégia, clique aqui.

Na palestra que vocês verão mais abaixo, Lara Maciel faz menção ao livro que eu indico a todo o profissional de saúde que pretenda manejar diabetes tipo 1 (DM1) com low carb, bem como aos pacientes acometidos por esta . Na verdade, considero como sendo leitura OBRIGATÓRIA nesta circunstância. Eis o livro:


O que o livro indica, o que a Lara Maciel nos mostra através de sua própria experiência como paciente na palestra mais abaixo, e o que o seguinte ensaio clínico randomizado prova é que low carb permite, ao reduzir as doses de insulina necessárias, minimizar o ERRO para mais ou para menos na dosagem de insulina e, com isso, reduzir drasticamente a VARIABILIDADE da glicemia e, o que é mais importante, reduzir os episódios de hipoglicemia.


A conclusão do estudo foi a seguinte: "In conclusion, one week of LCD resulted in more time in euglycaemia, less time in hypoglycaemia, and less glycaemic variability without altering mean glucose levels compared with HCD. Cardiovascular risk markers were unaffected, while fasting glucagon, ketone bodies and free fattyacids levels were higher at the end of the LCD-week compared with the HCD-week."
"Em conclusão, uma semana de LOW CARB resultou em mais tempo com glicemia normal, menor tempo em hipoglicemia e menor variabilidade glicêmica, sem alterar os níveis médios de glicose em comparação com dieta de alto carboidrato. Os marcadores de risco cardiovascular não foram afetados, enquanto o glucagon de jejum, os corpos cetônicos e os níveis séricos de ácidos graxos livres foram maiores após uma semana do LOW CARB em comparação com uma semana de high carb."
Recentemente, escutei um podcast com a participação do Dr. Jake Kushner. Trata-se de um médico completamente mainstream, não é nenhum praticante de "medicina alternativa". Na verdade, é nada mais nada menos do que o chefe do Serviço de Diabetes e Endocrinologia Pediátrica do Baylor College of Medicine em Houston, Texas.  O podcast pode ser escutado aqui
Dr. Jake A. Kushner, M.D., chefe da endocrinologia pediátrica do Baylor College
Como o próprio Kushner relata no podcast, low carb ainda é uma abordagem pouco utilizada para diabetes tipo 1 (e ele também indica o livro do Dr. Bernstein, responsável por sua mudança de visão sobre o assunto), mas seu uso é obviamente racional do ponto de vista fisiológico, e os resultados anedóticos são realmente espantosos. Não deixe de ouvir, especialmente se você é profissional da saúde.

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Lara Maciel
Por ocasião do Workshop Low Carb promovido pelo curso de Nutrição da Univiçosa, tivemos o prazer de assistir a uma palestra muito especial. A palestrante, Lara Maciel, não é profissional de saúde. Mas sabia muito mais do que TODOS nós sobre o manejo nutricional do diabetes tipo 1. Afinal, ela mesma é portadora da doença desde os 7 anos de idade, e foi apenas após a leitura do livro do Dr. Bernstein e após adotar a abordagem low carb que finalmente conseguiu controlar adequadamente a glicemia, evitar as hipoglicemias e ganhar saúde e qualidade de vida.

Com vocês, a emocionante palestra de Lara Maciel no Workshop Low Carb promovido pelo curso de Nutrição da Univiçosa:



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Documentário What The Health

**** 20/07/2017 ****

O objetivo da postagem abaixo não é discutir aspectos ecológicos, éticos ou morais do veganismo. Quem quiser conhecer o que penso a respeito, leia: http://amzn.to/2tjhknd

O objetivo da postagem é salientar que os fins não justificam os meios, e que não é correto mentir para as pessoas alegando que carne causa diabetes ou que comer ovos é pior do que fumar apenas para convencê-las de algo cujos motivos são morais, e não nutricionais. Se após ler http://amzn.to/2tjhknd você ainda achar que a melhor atitude moral e ecológica é essa, dou todo o apoio, e sugiro seguir uma dieta vegana de menor índice glicêmico, sem açúcar e pobre em farináceos, como estratégia de saúde.

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Acho que nunca recebi tantas mensagens por causa de algo na mídia quanto depois da disponibilização no Netflix da peça de propaganda vegana do documentário What The Health.

Já fiz um episódio de podcast apenas sobre isso, que pode ser conferido aqui. Robb Wolf fez uma maravilhosa crítica minuto a minuto, que pode ser vista aqui.

Quem já leu a minha série de postagens sobre como interpretar evidência científica já tem condições de fazer a crítica desse filme (se não leu ainda, leia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Mas ontem a Nina Teicholz publicou uma crítica detalhada, comentando a totalidade dos estudos citados no "documentário".

Nina Teicholz é a autora do livro mais importante da década, que foi recentemente traduzido para o português - não deixe de ler.

O artigo original está aqui. Segue a tradução (mais uma vez, meu agradecimento a Lissandra Bischoff - do blog Resistência à Insulina - e Júci de Paula).
What the Health " - uma revisão: alegações sobre saúde sem nenhuma evidência sólida.
10 horas atrás por Nina Teicholz em Filmes , dietas vegetarianas
O que é a saúde


Comer carne está matando você? Isto é o que poderia pensar depois de assistir o novo filme popular "What the Health" (WTH) no Netflix.


WTH se apresenta como um documentário do cineasta Kip Anderson, que se propõe, em sua confiável van azul de San Francisco, responder perguntas sobre uma dieta saudável. Uma vez que Anderson também é um vegano cujo filme anterior, Cowspiracy, argumentou que as vacas levariam à destruição do planeta, sabemos muito bem onde ele quer chegar.


Com certeza, apesar de seu esforço para parecer chocado e surpreso com suas "descobertas" ao longo do caminho, ele conclui que uma dieta vegetariana não só é melhor para a saúde, mas também que os alimentos animais causam morte e doenças a todas as pessoas que os comem.
Cowspiracy_quote


Vamos dar algum crédito a Anderson: seu filme é tão implacavelmente aterrorizante e convincente que, ao final, alguém poderia querer saltar diretamente em sua van vegana e parar para sempre de comer queijos, que uma pessoa no filme chama de "vaca coagulada", ou o "Puro lixo” de “carne animal morta e em decomposição", termos usados por Anderson para descrever carne.


O filme faz 37 alegações a respeito de saúde e, para essa revisão, investiguei cada uma delas. (WTH também faz uma infinidade de afirmações sobre contaminantes e questões de impacto ambiental, mas estas estão fora do meu campo de especialização, então foquei apenas nas alegações sobre saúde.)


Algumas notas


Antes de mergulhar nessas alegações, no entanto, vou fazer alguns comentários sobre as táticas do filme, passa-las a limpo e fazer um breve embasamento sobre Ciência.


Primeiro, não sou especialista em filmes, mas o WHT me pareceu muito como um filme de terror, com cenas de Anderson dirigindo sinistramente através de túneis sombrios, ou sozinho em uma sala sem iluminação, pesquisando misteriosamente em seu computador. As entrevistas são realizadas contando com um único ponto de iluminação, o clima remetendo uma conversa com um informante da máfia, enquanto músicas ameaçadoras tocam ao fundo, criando um sentimento onisciente de pavor.


Wth-2


O perigo que espreita em todos os lugares é, obviamente, os alimentos de origem animal que são, aparentemente, obrigados a nos matar, por meio de toxinas, produtos químicos, hormônios, antibióticos, esteroides, pesticidas, doença da vaca louca, bactérias, carne cheia de pus ou de uma infinita variedade de potenciais causadores de doenças crônicas.


Os vídeos assustadores de mulheres grávidas (as mais vulneráveis!), com agulhas em suas barrigas, estão misturados com imagens revoltantes de tecidos corporais gordurosos e pulsantes perfurados por bisturis ou cortados precisamente por dispositivos cirúrgicos. Vemos animações de uma feliz grávida, futura mãe, e/ou uma criança inocente bebendo leite, retratadas em quadros piscando em neon laranja para significar seus perigos ocultos e então eis que a cor neon esvazia seus corpos inconscientes – se pelo menos eles soubessem! "Escolha o seu veneno", diz um dos especialistas do filme, referindo-se às várias maneiras que os alimentos de origem animal matam. "É uma questão de se você quer ser baleado ou enforcado".


De acordo com Anderson, a razão pela qual não conhecemos esses perigos é que as indústrias de carne, laticínios e ovos são como a "Big Tobacco" [indústria do cigarro], uma grande e maliciosa corporação que ficou famosa por usar táticas subliminares para esconder os perigos de seu produto danoso . Atrelar esta imagem às indústrias de alimentos de origem animal tem sido uma estratégia bem sucedida, e empregada por grupos vegetarianos, desde a década de 1970, mas WTH usa este recurso ao extremo.


Wth-5


Os cachorros-quentes na boca de crianças são transformados em gordura, cigarros, e uma "ficha informativa" nutricional sobre os ovos é redesenhada como um folheto sobre os benefícios dos cigarros para a saúde. "Um ovo por dia é como fumar cinco cigarros", afirma Michael Greger, MD, o especialista em destaque do filme. Nas minhas contas, o filme emprega “Big Tobacco” ou produtos de tabaco como uma analogia para as indústrias de carne, lácteos ou ovos, e seus produtos, por pelo menos uma dúzia de vezes.


O filme também sugere que nossos problemas de saúde são em parte devido à influência excessiva da Big Food [indústria alimentícia] e da Big Pharma [indústria farmacêutica] em instituições de saúde pública confiáveis, como a American Diabetes Association e a American Heart Association (AHA). Aqui, eu concordo, embora o filme devesse ter retratado o quadro completo: o WTH cita apenas o financiamento apenas de empresas de carnes e produtos lácteos, quando, de fato, toda a gama de indústrias alimentares está neste jogo. [1 Do mesmo modo, muitas indústrias se beneficiam dos programas "Check Off" do governo. Os defensores pró-vegetarianismo gostam de citar a influência dos programas de carne, lácteos e ovos, mas esses programas também existem para soja, trigo, abacates, batatas, cogumelos, etc., todos presumivelmente têm os mesmos tipos de esforços de marketing. O WTH está novamente selecionando a apresentação das evidências aqui.]


Essas doações tornam difícil para essas associações recomendar dietas saudáveis (por exemplo, a AHA coloca sua "marca de seleção saudável" em cereais carregados de açúcar) ou mesmo aconselhar as pessoas a escolher melhor sua nutrição em vez de medicamentos e intervenções médicas. Também estou satisfeita em concordar com outro ponto que o WTH marcou repetidamente ao longo do filme (da maneira mais assustadora possível), a saber, que essas doenças causam um enorme impacto na saúde e na riqueza de nossas nações. Na verdade, eles causam.


Agora, o ponto de esclarecimentos. Minha opinião tem um viés óbvio, uma vez que escrevi um livro, The Big Fat Surprise: Why Butter, Meat e Cheese pertencem a uma dieta saudável [comentários sobre versão em Pt-BR AQUI]. O argumento central do livro é que as gorduras saturadas e o colesterol foram injustamente considerados prejudiciais e elas não são, afinal, ruins para a saúde.


Portanto, eu não compro a ideia do filme de que os alimentos de origem animal são insalubres com base nessas razões (Para uma análise completa sobre esses argumentos, leia meu livro ou para uma breve visão geral, este artigo recente na Medscape  [Traduzido Pt-BR AQUI ] ou esse artigo que escrevi O Wall Street Journal ). Ainda assim, o filme apresenta outros argumentos contra alimentos de origem animal, e estou aberta a estes.


Finalmente, uma nota sobre ciência. WTH, em seu site , fornece muitos links para verificação de suas alegações, então elaborei eu mesma um sistema de classificação. WTH cita os seguintes tipos de evidências:


Epidemiologia


A maioria das alegações no filme provém de estudos epidemiológicos. Estes são fundamentalmente limitados na medida em que só podem mostrar associações e não podem estabelecer causalidade. Portanto, esses dados são, na  verdade, destinados apenas a gerar hipóteses, e raramente conseguem "comprová-las". [ 2 As associações epidemiológicas devem ser muito fortes para sugerir causalidade. O exemplo clássico é a associação entre fumar cigarros e câncer de pulmão, quando o "risco relativo" era muito alto: os fumantes do pacote-dia tinham risco 10 a 35 vezes maior que os não fumantes. Compare isso com o risco relativo 1.17 em câncer para os quintis mais altos e mais baixos de consumidores de carne vermelha. Esse número para carne vermelha processada é 1,18. ]  Entre os muitos problemas com estudos epidemiológicos estão:


  1. A extrema falta de confiabilidade dos "questionários de frequência alimentar", que dependem de pessoas lembrarem com precisão o que comeram nos últimos 6 ou 12 meses; [ 3 Para mais informações, veja este artigo de Edward Archer, Ph.D. Ou leia este excelente apanhado da jornalista Christie Aschwanden. Também cobri isso no meu livro , pp. 262-263.]


  1. A impossibilidade de ajustar adequadamente as variáveis de confusão. Por exemplo, como ajustar o fato de que os maiores consumidores de carne vermelha são, obviamente, pessoas que ignoraram as ordens de seus médicos sobre a carne (uma vez que quase todos os médicos agora aconselham os pacientes a reduzir a carne vermelha) e, portanto, essas pessoas também provavelmente estão ignorando conselhos de "vida saudável" de muitas outras maneiras. Possivelmente fumam mais, não visitam regularmente o médico e/ou participam de eventos culturais - todos os fatores ligados a piores resultados de saúde e nenhum dos quais os epidemiologistas podem medir ou ajustar adequadamente. [ 4 Gary Taubes escreveu uma ótima publicação aqui .] Além disso, os pesquisadores na verdade não sabem até que ponto vários alimentos como o açúcar, ou o xarope de milho de alta frutose, causam doenças, então eles nem sequer podem começar a fazer a ajustar para isto; E esse é apenas o início da discussão sobre problemas com as variáveis de confusão.


  1. Os epidemiologistas calculam de forma cruzada centenas de variáveis de alimentos e estilo de vida contra taxas de mortalidade por diferentes doenças, resultando em um grande número de associações. Simplesmente como uma questão de probabilidade, alguns dos resultados positivos serão espúrios. Ajustes estatísticos podem ser feitos para evitar esse problema, mas os epidemiologistas de Harvard, cujos artigos são citados principalmente pelo WTH, raramente fazem tais ajustes. [ 5 Para mais sobre esta questão e como Walter Willett, um grande epidemiologista de Harvard, respondeu a acusações de estatísticos sobre essas questões, leia meu livro , pp. 261-266. Uma publicação recente sobre Harvard e "p-hacking" está aqui .]


Assim, por todas essas razões e mais, cientistas na maioria dos campos (exceto a nutrição) concordam que pequenas associações - com "razões de risco" menores que 2 – não são confiáveis . [ 6 Uma medida de associação semelhante, denominada "razão de risco", vale a pena considerar se for inferior a 0,5 ou superior a 2. Se a razão de risco for muito próxima de 1, isso significa que a força da associação é quase zero.]


Estudos epidemiológicos com proporções <2 serão, portanto, codificados em vermelho.


(Observe que uma relação de risco é completamente diferente daqueles números de "risco relativo" assustadores que os artigos relatam. Um artigo pode dizer: "a carne aumenta as chances de câncer de mama em 68%!" no entanto, esse número é exagerado, e muitas vezes sem sentido, como explicado aqui .)


Ensaios clínicos


Este é um tipo de evidência mais rigoroso que pode mostrar causa e efeito. [ 7 Os melhores ensaios são randomizados e controlados. Em tal julgamento, um pesquisador pega um quadro de indivíduos e os separa aleatoriamente em dois grupos iguais. Um recebe uma dieta especial enquanto o outro recebe uma dieta de "controle". Para ser "bem controlado", cada grupo deve ter a mesma intervenção - ou seja, a mesma quantidade de aconselhamento, visitas médicas, alimentos gratuitos e atenção geral - para evitar a melhoria inevitável em um paciente apenas em virtude de receber atenção de um profissional da saúde. Isto porque é conhecido que maioria de nós observará o que comemos um pouco mais cuidadosamente se estamos cientes de que alguém está nos observando.] Vou avaliar os ensaios de forma aproximada de acordo com os seguintes critérios: Foi randomizado? Houve um grupo de controle? Tinha tamanho adequado? A população era relevante? Um número de pessoas suficientes concluiu o ensaio para torná-lo significativo? Os seus resultados suportam a alegação?


Ensaios clínicos que não atendem a maioria desses padrões serão codificados em vermelho.
Ensaios clínicos que possam apoiar a alegação serão codificados em verde.


Evidência não conclusiva
Estes incluem estudos que não suportam a afirmação ou em que evidência que é altamente preliminar, como artigos especulativos sobre possíveis hipóteses, estudos de caso em 1-2 pessoas ou estudos de teste em cultivo em células. Estes representam os tipos mais preliminares de pesquisa e não podem ser considerados evidências conclusivas e serão codificados em vermelho.


Artigos de jornais, revistas e postagens de blog


Como estes não são revisados pelos pares, não podem ser considerados como fontes rigorosas de evidência, embora algumas publicações sejam melhores do que outras. Os artigos de fontes tendenciosas (por exemplo, médicos da dieta vegana) serão codificados em vermelho, porque eles têm conflitos de interesse, comerciais e intelectuais. Artigos publicados nos principais meios de comunicação, que de fato verifiquem suas fontes, são mais confiáveis, embora ainda não sejam fonte de ciência revisada pelos pares, é suficiente para que eles sejam codificados em amarelo.


Relembrando:


  • Os itens em vermelho não podem ser considerados como suporte para alegação.
  • Os itens em amarelo são um suporte fraco para a alegação.
  • Os itens em verde suportam alegação.


E ... rufem os tambores ... aqui está a evidência: [ 8 Nota: Não estou afirmando que todos esses números são perfeitos. Sem dúvida, há um erro ou dois aqui, como inevitavelmente acontece ao analisar muitos dados. Os defensores da dieta vegana provavelmente usarão um erro e descartarão a peça inteira como "erro rastreado", mas se eu contei cada post corretamente é aniquilado pela quantidade esmagadora de dados fracos, tendenciosos e inconclusivos citados no WTH para fazer alegações de que são injustificáveis por qualquer medida.]8


Qual a tabela de evidência de saúde


Em suma, 96% dos dados não suportam as alegações feitas neste filme. Este não cita um único ensaio clínico randomizado rigoroso sobre humanos que apoie seus argumentos. Em vez disso, o WTH apresenta uma grande quantidade de dados epidemiológicos fracos, estudos de caso em uma ou duas pessoas ou outras evidências inconclusivas. Alguns dos estudos citados, na verdade, concluem o oposto do que é afirmado.

Além disso, a maioria dos "artigos" acaba sendo postagens de médicos veganos - principalmente Michael Greger e Neal Barnard. Ambos são ativistas apaixonados pelo bem-estar dos animais, [ 9 Michael Greger "orgulhosamente atende [d] como diretor de saúde pública para a Humane Society of the United States" até 2016, de acordo com seu site .
Neal Barnard tem sido ligado há muito tempo a grupos e atividades de direitos dos animais, como aqui e aqui aqui aqui , aqui e aqui .] então nunca se sabe se eles estão buscando a verdade sobre uma dieta saudável ou se partiram da premissa de que eles gostariam de acabar com a domesticação de animais e passaram a escolher a dedo a ciência a partir daí.


Levando-se em conta os dados, de fracos a inexistentes, apresentados no filme, esta última parece ser uma boa possibilidade. Na verdade, o WTH, baseado em uma má ciência, é provavelmente uma peça de advocacia para o bem-estar dos animais mascarada como um filme sobre saúde pública.


Para obter uma lista abrangente de cada alegação de saúde do WTH, e o suporte exato, veja este documento PDF .
Imagem do w-the-w-claim


Conclusão


Os defensores do filme podem dizer que os melhores estudos estão enterrados em todas essas postagens de médicos da dieta vegana, mas qualquer pesquisador sabe citar fontes primárias em vez de secundárias. Onde está a ciência? Parece não existir.


E podemos assumir que, se a ciência foi tão distorcida e deturpada quanto às alegações sobre saúde, provavelmente o mesmo foi feito em relação a alegações sobre outras questões, tais como impacto ambiental, toxinas, antibióticos, hormônios, a evolução dos humanos, etc.


Se esta é a melhor prova de que uma dieta vegana pode promover uma boa saúde, então não estou convencida. Estou ainda mais cética, baseando-me em algumas observações sólidas:


  1. Não há registro de população humana na história da civilização que tenha sobrevivido em uma dieta vegana.


  1. A dieta vegana é nutricionalmente insuficiente, não apenas vitamina B12, mas deficiente em ferro heme e folato (o que significa que devemos nos referir sempre a ela como uma "dieta vegana mais suplementos").


  1. Uma dieta quase vegana, em ensaios clínicos rigorosos, invariavelmente causa a queda do Colesterol HDL e, às vezes, eleva os triglicerídeos, e estes marcadores em conjunto são sinais de piora do risco de ataque cardíaco; Ao longo dos últimos 30 anos, na medida em que as taxas de obesidade e diabetes aumentaram acentuadamente nos EUA, o consumo de alimentos de origem animal diminuiu abruptamente: o leite integral caiu 79%; Carne vermelha em 28% e carne bovina em 35%; Os ovos caíram 13% e as gorduras animais diminuíram 27%. [ 10 Jeanine Bentley. Tendências dos EUA na disponibilidade de alimentos e uma avaliação dietética da disponibilidade de alimentos ajustados por perda, 1970-2014, EIB-166, Departamento de Agricultura dos EUA, Economic Research Service, janeiro de 2017.] Enquanto isso, o consumo de frutas aumentou 35% e o de vegetais, em 20%. Todas as tendências, portanto, apontam que os americanos mudaram de uma dieta baseada em animais para uma baseada em plantas, e esses dados contradizem a ideia de que uma mudança contínua para alimentos baseados em plantas promoverá a saúde.


  1. Há todo o subcontinente indiano, no qual a carne não é consumida pela maioria das pessoas, que tem assistido o diabetes explodir na última década.


É falsa, também, a afirmação de que o WTH seja o filme que "as organizações de saúde não querem que você veja", uma vez que o presidente do Colégio Americano de Cardiologia, entrevistado no filme, expressa um apoio inflexível à dieta vegana e o comitê de especialistas para as Diretrizes Alimentares dos EUA em 2015 propôs a eliminação de carne da lista de "alimentos saudáveis".


Assim, essas duas principais instituições de saúde pública presumivelmente ficariam felizes por você ver esse filme. Na verdade, a dieta baseada em plantas tem proponentes em muitos círculos influentes, incluindo a Escola de Saúde Pública de Harvard Chan, que produz muitas das associações epidemiológicas fracas citadas no filme. Querer se passar por um “Davi contra Golias”, no estilo Michael Moore, portanto, parece ser apenas um dos truques retóricos do filme.


Finalmente: gostaria de comentar este filme como um ato de jornalismo. Em WTH, o papel de Anderson como um "repórter" não consegue atender aos padrões normais da área. Não só ele lança uma cerca de arame farpado no que parece ser um ato de invasão ilegal em uma fazenda de porcos na Carolina do Norte, mas ele também realiza uma série de entrevistas que só me fizeram rir.


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Qualquer jornalista sabe que, se alguém, como Anderson, quer alguma informação de uma instituição como, por exemplo, o American Cancer Institute, a American Heart Association ou a American Dietetics Association, contata-se o departamento de Relações com a Imprensa e pede-se para entrar em contato com o especialista apropriado. Anderson não parece saber disso, ou então ele finge, e, assim, faz suas perguntas às operadoras que atendem o telefone ou - divertidamente - um guarda de segurança atrás de uma mesa de escritório.


Humpf! "Mais uma vez ... mais perguntas que ninguém pode responder", diz Anderson. Sim, porque essas pessoas foram contratadas para serem operadores e guardas de segurança, Anderson, e não especialistas científicos. No filme, Anderson retrata esses encontros como uma série de momentos de "te peguei" em que ele está sendo bloqueado, mas na verdade é uma ilusão.


E assim é o filme inteiro: imagens assustadoras, linguagem atraente, e a ilusão de certeza e dados, quando na verdade não existe. Vá em frente e coma seus ovos, produtos lácteos e carne, pessoal, porque não há evidências sólidas para mostrar que esses alimentos naturais, tradicionais e integrais, são ruins para a saúde.




Nota de Tradução: onde se lê no texto “Todas as tendências, portanto, apontam que os americanos mudaram de uma dieta baseada em animais para uma baseada em plantas, e esses dados contradizem a ideia de que uma mudança contínua para alimentos baseados em plantas promoverá a saúde.”  e/ou “Na verdade, a dieta baseada em plantas tem proponentes em muitos círculos influentes, incluindo a Escola de Saúde Pública de Harvard Chan [ ...] ” entenda-se: uma dieta vegetariana ou vegana deveria ser baseada em vegetais, mas, na prática, a lógica utilizada é “se não é de origem animal, não interessa de onde venha, é comida”. Um exemplo grosseiro: refrigerante é vegetal? NÃO. Refrigerante é um produto alimentício que não possui componentes animais (a maioria, pelo menos, não tem), portanto “perfeitamente viável em uma dieta vegana/vegetariana”, ou seja, no final das contas não importa se é um vegetal ou não, importa apenas que não tenha componentes de origem animal. Achei importante fazer este apontamento porque um dos “lemas” usados em Comida de Verdade é “Bicho e Planta” e estes trechos do texto poderiam ser alvo de “Picking Cherry” para desqualificar o todo, em uma falsa simetria.