domingo, 12 de fevereiro de 2017

AHA 1995: comam mais açúcar para comer menos gordura

Recentemente, conversando com colegas médicos, surgiu por parte dos mesmos a ideia de que as pessoas passaram a consumir muito açúcar e carboidratos refinados por força de uma má interpretação das diretrizes nutricionais. Ou seja, embora meus colegas também achassem que a ênfase em reduzir a gordura na dieta fora equivocada, afirmavam que "nunca se disse que as pessoas deveriam consumir açúcar e farinha refinada" no seu lugar. Será mesmo?

O problema é que a memória nos trai. Embora o passado molde muito das nossas atitudes presentes, nossas lembranças são editadas pelo cérebro à luz do que hoje sabemos, e determinadas coisas parecem jamais ter acontecido. Felizmente, em tempos de internet, as fontes primárias podem ser garimpadas. Esta pérola foi tuitada pela jornalista australiana Maryanne Demasi:



O documento da Associação Americana de Cardiologia, de 1995, é intitulado "Um plano alimentar para americanos saudáveis".

Ali, se lê:

"Para controlar a quantidade e o tipo de gordura, gorduras saturadas e colesterol da dieta, você deve comer:"


  • Frutas e SUCOS DE FRUTA
  • Vegetais crus e MOLHOS LOW FAT (ou seja, high carb)
  • BISCOITOS LOW FAT (muito açúcar e farinha)
  • BISCOITOS SALGADOS LOW FAT (muita farinha)
  • PIPOCA SEM MANTEIGA E SEM SAL
  • PRETZELS SEM SAL
  • BALAS DURAS, BALAS DE GOMA
  • AÇÚCAR, XAROPE, MEL, GELEIA, GELATINA, DOCES DO TIPO GOIABADA / MARMELADA
E, para beber, a primeira escolha é:
  • SUCOS DE FRUTAS
  • Outra opções: REFRIGERANTES.

Sim, é chocante. E não faz tanto tempo assim. Eu já era formado há 2 anos quando essa cartilha circulou em 1995. Toda essa geração de médicos teve como ÚNICA formação nutricional este tipo de informação. Depois, foram estudar suas respectivas especialidades, e continuaram propagando permutações dessa cartilha, pois foi o que aprenderam. 

Foi justamente a esse propósito que o Dr. David Ludwig publicou, ano passado, editorial na revista científica JAMA, cuja íntegra pode ser vista aqui.

Naquele editorial, o Dr Ludwig diz:
  • Pesquisas recentes sugerem que o foco na redução da gordura dietética contribuiu diretamente para o fardo crescente de doenças crônicas.
  • De particular importância, os principais estudos de dieta com baixo teor de gordura, como os ensaios clínicos randomizados Women's Health Initiative e Look Ahead, não conseguiram reduzir o risco de doença cardíaca, apesar do uso de intervenções de baixa intensidade no grupo controle. Em contraste, o estudo PREDIMED foi encerrado precocemente quando a incidência de doença cardiovascular diminuiu mais rapidamente do que o esperado nos grupos de dieta com maior teor de gordura em comparação com o grupo controle com baixo teor de gordura (low fat).
  • Estudos preliminares sugerem que a redução da secreção de insulina em dietas com baixo índice de carboidratos e baixo índice glicêmico pode atenuar [a fome e a redução do metabolismo característicos das dietas de restrição calórica simples], facilitando a manutenção da perda de peso a longo prazo e reduzindo as doenças associadas à hiperinsulinemia (modelo carboidratos-insulina).
  • O foco na substituição da gordura dietética por carboidratos não atingiu os objetivos de saúde pública pretendidos e, sem dúvida, causou danos, mas esses resultados adversos não foram claramente e consistentemente reconhecidos [pela comunidade médica e acadêmica]. Consequentemente, muitas pessoas nos Estados Unidos ainda evitam ativamente comer gordura. De fato, a política nacional de nutrição continua promovendo a redução de gordura nas escolas (por exemplo, proibindo o leite integral e permitindo o leite achocolate desnatado adoçado com açúcar), nos programas governamentais de aquisição de alimentos e na linha de "gordura total" na tabela nutricional dos alimentos. De acordo com um relatório recente sobre a indústria do açúcar, os efeitos cardiovasculares adversos do açúcar adicionado permanecem amplamente sub-reconhecidos por causa de um programa de pesquisa patrocinado pela indústria nos anos 1960 e 1970 "que lançou com êxito dúvidas sobre os perigos da sacarose, promovendo gordura como culpado dietético na cardiopatia coronariana".
  • Alguns especialistas sustentam que há muito tempo já existe consenso sobre os componentes de uma dieta saudável; que a recomendação de dieta de baixo teor de gordura sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados adversos deve recair sobre a indústria alimentícia, por comercializar alimentos insalubres, com baixo teor de gordura, processados; e sobre o público por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), explicitamente por causa de sua menor densidade energética do que a gordura; a ênfase da pirâmide alimentar em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa.
O trecho mais importante deste editorial é o seguinte: "Alguns especialistas sustentam (...) que a recomendação de dieta low fat sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados aversos deve recair sobre a indústria alimentícia (...) e sobre o público, por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), (...) a ênfase da pirâmide em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa."

Se alguém tinha dúvida de que isso realmente aconteceu, reveja o panfleto da AHA, no início dessa postagem.

A culpa não é das pessoas; elas apenas seguiram as diretrizes.

Leituras adicionais para essa postagem:

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