domingo, 19 de fevereiro de 2017

Estudo PURE: novas evidências sobre alimentação e saúde

Semana passada, na tarde do dia 12 de fevereiro de 2017, o cardiologista Dr. Salim Yusuf, fez uma apresentação memorável em um simpósio de cardiologia em Davos, Suíça.

O Dr. Yusuf é o chefe de medicina cardiovascular na McMaster University, Canadá, e presidente da Federação Mundial de Cardiologia.

Ele é o investigador principal do maior e mais amplo estudo epidemiológico sobre as causas das doenças cardiovasculares - o PURE Study (Prospective Urban and Rural Epidemiological Study), que segue de forma prospectiva mais de 150 mil pessoas em 17 países de renda baixa, média e alta, e que está expandindo para ainda mais países e mais de 200 mil pessoas.

Com isso em mente, por favor reserve 20 minutos do seu tempo e assista à palestra do Dr. Yusuf (em inglês, por ora sem legendas):

https://www.facebook.com/emagrecerdevez/videos/1551218898229200/

  • Envie o vídeo para profissionais de saúde.
  • Se você é profissional da saúde, mande para seus colegas.


P.S.: Sim, é um estudo epidemiológico, e não um ensaio clínico randomizado. Sim, isso significa que possui todas as limitações dos estudos não randomizados. Mas vamos relembrar um ponto importante, sobre o qual já escrevi no passado:

"Quando uma coisa efetivamente CAUSA a outra, obrigatoriamente haverá também uma associação entre elas. Ou seja, a associação não implica necessariamente que haja relação de causa e efeito, mas a relação de causa e efeito, quando de fato existe, evidentemente engendra a existência de uma associação.
Corolário lógico? A ausência de associação entre variáveis, mesmo em estudo observacional, sugere fortemente a inexistência de uma relação de causa e efeito entre elas.
Entenda: correlação não implica necessariamente causalidade, mas causalidade implica necessariamente correlação. Assim, a AUSÊNCIA de correlação efetivamente REFUTA a existência de causalidade.
Em bom português: não há como gordura ser uma CAUSA de doença cardiovascular e, ao mesmo tempo, não estar associada com doença cardiovascular em dezenas de estudos epidemiológicos."

Assim, o fato de o estudo PURE indicar uma importante associação positiva entre o consumo de carboidratos e doenças cardiovasculares bem como uma associação inversa entre o consumo de gorduras e doenças cardiovasculares não implica necessariamente que carboidratos causem doença cardíaca ou que gordura proteja contra doença cardíaca. CONTUDO, se gordura FOSSE a causa das doenças cardiovasculares, não poderia ao mesmo tempo estar INVERSAMENTE associada às mesmas. Se FOSSE saudável consumir 60% de carboidratos, se isso fosse PROTETOR contra doença cardíaca, não seria possível que o consumo de carboidratos estivesse associado a AUMENTO do risco na coorte.

Em 2017, você pode alegar que não gosta da abordagem low carb; que acha restritiva; que acha que não é sustentável. Essas são questões de opinião, e se prestam a debates bizantinos. Eu discordo, mas eu entendo. Mas, em 2017, alegar que não é eficaz (contra dezenas de ensaios clínicos randomizados) ou que não deveria ser feita em virtude do fato de reduzir os carboidratos e aumentar, proporcionalmente, as gorduras dietéticas é, oficialmente, irracional.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ainda sobre arroz e diabetes

Há poucas semanas, escrevi aqui sobre o lamentável fato de que um hospital universitário de Porto Alegre tenha permitido que uma entidade que representa a cadeia produtiva do arroz fizesse campanha dentro da instituição afirmando que o arroz (glicose) poderia auxiliar no tratamento do diabetes (intolerância à glicose).

Tomei conhecimento de que a entidade publicou uma resposta em seu site. O texto contém os seguintes trechos relevantes:

"A partir de citações recentemente divulgadas em redes sociais que apontam o arroz como alimento não adequado a diabéticos, viemos por meio deste apresentar, com base em estudos e artigos científicos, que este cereal possui moderado índice glicêmico entre outras qualidades e sempre que consumido em quantidades orientadas não agrava a condição do diabético. "
Vejamos:
  • O texto não elenca NENHUM estudo científico.
  • O índice glicêmico do arroz é elevadíssimo. O arroz branco tem índice glicêmico próximo de 100. Você pode conferir aqui: http://www.glycemicindex.com/
  • Além disso, a CARGA glicêmica do arroz é alta, mesmo quando suas versões integrais têm índice glicêmico um pouco menor --> continua sendo glicose.
  • A última parte do parágrafo deve ser repetida: "sempre que consumido em quantidades orientadas não agrava a condição do diabético." --> mas VEJA: a campanha NÃO dizia isso! A campanha dizia "Arroz é saúde: auxilia no tratamento do diabetes". Não conheço nenhum ensaio clínico randomizado que tenha demonstrado que o ACRÉSCIMO de arroz à dieta de um diabético MELHORE os desfechos. Dizer que pequenas quantidades de glicose (arroz) NÃO AGRAVAM a condição do diabético é MUITO diferente de dizer que alimentar-se com glicose quase pura AUXILIA no tratamento do diabetes. A campanha está ERRADA, e o correto seria simplesmente admitir isso.

Mais um trecho:
"A ingestão dietética de carboidratos para pessoas com diabetes segue recomendações semelhantes às definidas para a população em geral, respeitando concentrações entre 45 e 60% do requerimento energético. Embora o carboidrato seja um importante preditor da glicemia pós-prandial, os alimentos que contêm esse nutriente são também fontes importantes de energia, fibra, vitaminas e minerais, contribuindo ainda com a palatabilidade da dieta."
Vejamos

  •  "Embora o carboidrato seja um importante preditor da glicemia pós-prandial, os alimentos que contêm esse nutriente são também fontes importantes de energia, fibra, vitaminas e minerais". Vamos traduzir: --> Embora a pessoa com diabetes seja diagnosticada justamente pelo fato de que, ao consumir alimentos como arroz, sua glicemia passa de 200 em duas horas, as pessoas com diabetes deveriam comer arroz? Por quê? Porque arroz é fonte de energia (peixe, frango e ovos também são, mas não alteram a glicemia); porque é fonte de fibra (couve e espinafre também, mas não aumentam a glicemia); porque é fonte de vitaminas (vegetais de baixo amido também, mas não aumentam a glicemia). E nem vamos entrar na questão da POBREZA nutricional do arroz (péssima fonte de qualquer coisa que não seja amido)
  • "contribuindo ainda com a palatabilidade da dieta". --> Vejamos: arroz é amido. Amido é glicose. Glicose na dieta deve ser evitado por pessoas com intolerância à glicose (que é sinônimo de diabetes, quando tal intolerância é mais grave); de que forma afirmar que o gosto é bom justificaria seu uso nessa situação? Se sim, porque não açúcar? 
  • Enfim, se o arroz (e coisas nutricionalmente semelhantes, como batata, polenta, mingau de aveia, pão ou açúcar mascavo) fossem as únicas fontes disponíveis de energia, fibra, vitaminas ou minerais, a solução seria medicar o diabético para que ele tolerasse um pouco melhor o excesso de glicose que o adoece, e torcer para que as amputações, cegueira e infartos demorassem um pouco mais a chegar. Mas não são. Há muitos alimentos muito mais ricos em "energia, fibra, vitaminas e minerais", e que não são compostos fundamentalmente de glicose.
  • Finalmente, vamos à seguinte afirmação: "A ingestão dietética de carboidratos para pessoas com diabetes segue recomendações semelhantes às definidas para a população em geral, respeitando concentrações entre 45 e 60% do requerimento energético". O fato de que, efetivamente, as diretrizes vigentes afirmam isso é embaraçoso e, de fato, não é um motivo para recomendar arroz para diabéticos, e sim para questionar veementemente as diretrizes. Primeiramente, vamos deixar claro que as diretrizes não recomendam consumir alimentos de alto índice glicêmico (como o arroz) para AUXILIAR no tratamento do diabetes. Elas partem de premissas errôneas (de que as pessoas precisariam consumir uma quantidade maior de carboidratos do que realmente precisam) e tentam então LIMITAR O DANO causado por estes carboidratos (usando suas versões de menor índice glicêmico, por exemplo, e estimulando o exercício físico). No entanto, este blog se pauta por evidência, ou seja, pelos ESTUDOS, que mostram que restrições maiores de carboidratos produzem melhores desfechos. Para uma revisão que pode lhe levar aos estudos em questão, clique aqui.
Mas aqui, vou reproduzir um artigo publicado no site da clínica Joslin em 2015. A Joslin é maior centro mundial para a pesquisa e tratamento da diabetes, em Boston, Massachusetts, uma instituição afiliada à Universidade de Harvard. O texto original pode ser lido aqui.

Revolução na Nutrição: O Fim da Era de Alto Carboidrato para a Prevenção e Manejo do Diabetes Tipo 2.

"Em 1977, o Comitê Especial de Nutrição e Necessidades Humanas do Senado dos EUA recomendou que as pessoas aumentassem seu consumo de carboidratos para 55 a 60% de suas calorias, reduzindo ao mesmo tempo o consumo de gordura de 40 para 30% das calorias totais. O objetivo destas recomendações era reduzir os crescentes gastos com saúde e maximizar a qualidade de vida dos americanos, como explicou o senador George McGovern, o presidente daquela comissão.

A suposta redução de custos seria o resultado de uma possível redução na incidência de doença cardíaca, câncer e derrames, assim como de outras doenças letais. A despeito de controvérsias sobre fato de que tais recomendações eram baseadas em evidências científicas fracas, o Departamento Americano de Agricultura (USDA) criou em 1980 uma pirâmide alimentar para representar o que seria o número ótimo de porções a ser consumido a cada dia, de cada um dos grupos alimentares básicos. Os carboidratos foram colocados na base da pirâmide (perfazendo a maior porção da ingestão calórica - 6 a 11 porções por dia), e as gorduras foram relegadas ao ápice da pirâmide, a fim de mostrar que deveriam ser consumidas em pouca quantidade.


O que foi descrito corretamente como um "experimento nutricional em âmbito nacional"contribuiu, como agora sabemos, para aumentar a prevalência da obesidade. E, contrariamente aos principais objetivos das recomendações, a prevalências do diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares também aumentou significativamente.

Por que isso aconteceu? Fisiologicamente, um aumento no consumo de carboidratos resulta em um aumento da resposta da INSULINA aos carboidratos e, devido à ação promotora do armazenamento de gordura deste hormônio, promove a obesidade. E, como já foi demonstrado, este acúmulo de gordura abdominal ("gordura visceral") está associado com inflamação crônica, que é diretamente ligada à diabetes tipo 2 e ataques cardíacos.

"um aumento no consumo de carboidratos resulta em um aumento da resposta da INSULINA aos carboidratos e, devido à ação promotora do armazenamento de gordura deste hormônio, promove a obesidade. E, como já foi demonstrado, este acúmulo de gordura abdominal ("gordura visceral") está associado com inflamação crônica, que é diretamente ligada à diabetes tipo 2 e ataques cardíacos."

O problema é igualmente ruim para aquelas pessoas que já são portadoras de diabetes tipo 2. Hoje nós sabemos que aumentar a quantidade de carboidratos na dieta de um diabético aumenta a chamada toxicidade da glicose (ou "glicotoxicidade") e, consequentemente, aumenta a resistência à insulina, os triglicerídeos e reduz o benéfico HDL.


"Hoje nós sabemos que aumentar a quantidade de carboidratos na dieta de um diabético aumenta a chamada toxicidade da glicose (ou "glicotoxicidade") e, consequentemente, aumenta a resistência à insulina, os triglicerídeos e reduz o benéfico HDL."

No início do século 20 (portanto muito antes das recomendações do USDA representados na pirâmide alimentar), aquilo que hoje conhecemos como diabetes tipo 2 era predominantemente definido como uma doença de intolerância os carboidratos, e era tratado fundamentalmente através da redução dos carboidratos. A restrição dos carboidratos era uma forma particularmente bem sucedida de tratar o diabetes antes da descoberta da insulinaOs Drs. Elliot P. Joslin e Frederick Allen, os pais da ciência do diabetes, tratavam com sucesso seus pacientes diagnosticados com "diabetes gorda" (mais tarde conhecida como diabetes tipo 2) com uma dieta de muito baixo carboidrato ("very low carb diet"). Hoje, a dieta de Joslin seria considerada excêntrica, como se pode ver pela reação da comunidade médica à Dieta Atkins, que nada mais é do que a sua reencarnação.

"Hoje, a dieta de Joslin seria considerada excêntrica, como se pode ver pela reação da comunidade médica à Dieta Atkins, que nada mais é do que a sua reencarnação."

Tal redução extrema dos carboidratos, embora fosse altamente bem sucedida em tratar o diabetes tipo 2 antes da descoberta da insulina, era associada a alguns efeitos colaterais desconfortáveis, tais como constipação, dor de cabeça, mau hálito e cãibras. Mas, embora a recomendação quanto à quantidade de carboidratos tivesse sido um pouco afrouxada após a descoberta da insulina em 1922, tal recomendação nunca excedeu 40% das calorias, uma quantidade que já demonstrava reduções na glicemia e nos triglicerídeos. Assim, foi um grande absurdo o fato de que, quando as recomendações do USDA foram publicadas, várias sociedades médicas passaram a recomendar um aumento dos carboidratos e uma redução do consumo de gordura para os pacientes com diabetes.

"(...) foi um grande absurdo o fato de que, quando as recomendações do USDA foram publicadas, várias sociedades médicas passaram a recomendar um aumento dos carboidratos e uma redução do consumo de gordura para os pacientes com diabetes."

Desde 2003, muitos ensaios clínicos confirmaram que reduzir os carboidratos é superior à reduzir as gorduras, tanto na redução do peso, quanto em melhorar o controle da glicose. Também foi demonstrado que reduzir os carboidratos em pacientes com diabetes tipo 2 melhora a sensibilidade dos mesmos à sua própria insulina, reduz a gordura abdominal, os triglicerídeos, e aumenta o HDL (colesterol "bom").

"Desde 2003, muitos ensaios clínicos confirmaram que reduzir os carboidratos é superior à reduzir as gorduras, tanto na redução do peso, quanto em melhorar o controle da glicose. Também foi demonstrado que reduzir os carboidratos em pacientes com diabetes tipo 2 melhora a sensibilidade dos mesmos à sua própria insulina, reduz a gordura abdominal, os triglicerídeos, e aumenta o HDL (colesterol "bom")."

Recentemente uma análise de vários estudos (metanálise) mostrou que reduzir a carga glicêmica (quantidade de glicose) e o índice glicêmico (o efeito de um determinado alimento na glicemia) estava associado com uma redução no risco de desenvolver diabetes tipo 2. Após a redução do peso, manter uma dieta com redução de alimentos de alto índice glicêmico e com mais proteína demonstrou ser uma estratégia superior em manter a perda de peso já atingida, por um tempo maior do que qualquer outra composição de dieta.
(...) 
Recentemente, a maior parte das sociedades médicas afastou-se das recomendações de alto consumo de carboidratos e passaram a recomendar a individualização das necessidades nutricionais. Na Clínica Joslin nós temos prova de que esta é uma decisão acertada. Desde 2005 nós temos seguido a diretrizes Joslin para manejo do peso (N.T.: redução de carboidratos). Os 44 grupos de pacientes com diabetes tipo 2 que passaram pelo programa e seguiram as diretrizes Joslin perderam um total de 5 mil quilos, melhoram seu controle do diabetes e cortaram significativamente sua necessidade de medicamentos.

"Recentemente, a maior parte das sociedades médicas afastou-se das recomendações de alto consumo de carboidratos (...)"

Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas em todo o país ainda recomendam uma dieta de alto carboidrato para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode prejudicá-los e contribuir para o aumento de sua obesidade e piora do controle de seu diabetes, consequentemente aumentando sua chance de vir a desenvolver complicações da doença no futuro.

"Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas em todo o país ainda recomendam uma dieta de alto carboidrato para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode prejudicá-los e contribuir para o aumento de sua obesidade e piora do controle de seu diabetes, consequentemente aumentando sua chance de vir a desenvolver complicações da doença no futuro."

Agora está CLARO que um GRANDE ERRO foi cometido nos anos 1970 quando se recomendou um aumento dos carboidratos para mais de 40% das calorias totais. Este período precisa terminar, se nós realmente queremos reduzir a epidemia de obesidade e de diabetes tipo 2."

References:

1- U. S. Government Printing Office: Stock No. 052-070-03913-2/catalog No. Y 4.N95:D 63/3 accessed at http://zerodisease.com/archive/Dietary_Goals_For_The_United_States.pdf

2- U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services. Nutrition and Your Health: Dietary Guidelines for Americans. Home and Garden Bulletin No. 232, 1980.

3- Flegal KM1, Carroll MD, Kuczmarski RJ, Johnson CL. Overweight and obesity in the United States: prevalence and trends, 1960-1994. Int J Obes Relat Metab Disord. 1998;22(1):39-47.

4- Hedley AA1, Ogden CL, Johnson CL, Carroll MD, Curtin LR, Flegal KM Prevalence of overweight and obesity among US children, adolescents, and adults, 1999-2002. JAMA. 2004;291(23):2847-50.

5- Flegal KM1, Carroll MD, Kit BK, Ogden CL. Prevalence of obesity and trends in the distribution of body mass index among US adults, 1999-2010. JAMA. 2012;307(5):491-7.

6- Aldhahi W, Hamdy O. Adipokines, inflammation, and the endothelium in diabetes. Curr Diab Rep. 2003;3(4):293-8.

7- Osler W & McCrae T, The Principles and Practice of Medicine, 1923; Westman EC, Perspect Biol Med, 2006

8- Yancy WS Jr1, Olsen MK, Guyton JR, Bakst RP, Westman EC. A low-carbohydrate, ketogenic diet versus a low-fat diet to treat obesity and hyperlipidemia: a randomized, controlled trial. Ann Intern Med. 2004;140(10):769-77.

9- Gannon MC1, Nuttall FQ, Saeed A, Jordan K, Hoover H. An increase in dietary protein improves the blood glucose response in persons with type 2 diabetes. Am J Clin Nutr. 2003;78(4):734-41.

10- Foster GD, Wyatt HR, Hill JO, McGuckin BG, Brill C, Mohammed BS, Szapary PO, Rader DJ, Edman JS, Klein S. A randomized trial of a low-carbohydrate diet for obesity.

N Engl J Med. 2003;348(21):2082-90.

11- Stern L, Iqbal N, Seshadri P, Chicano KL, Daily DA, McGrory J, Williams M, Gracely EJ, Samaha FF. The effects of low-carbohydrate versus conventional weight loss diets in severely obese adults: one-year follow-up of a randomized trial. Ann Intern Med. 2004;140(10):778-85.

12- Gardner CD, Kiazand A, Alhassan S, Kim S, Stafford RS, Balise RR, Kraemer HC, King AC. Comparison of the Atkins, Zone, Ornish, and LEARN diets for change in weight and related risk factors among overweight premenopausal women: the A TO Z Weight Loss Study: a randomized trial. JAMA. 2007;297(9):969-77.

13- Miyashita Y1, Koide N, Ohtsuka M, Ozaki H, Itoh Y, Oyama T, Uetake T, Ariga K, Shirai K. Beneficial effect of low carbohydrate in low calorie diets on visceral fat reduction in type 2 diabetic patients with obesity. Diabetes Res Clin Pract. 2004;65(3):235-41.

14- Larsen TM1, Dalskov SM, van Baak M, Jebb SA, Papadaki A, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunešová M, Pihlsgård M, Stender S, Holst C, Saris WH, Astrup A; Diet, Obesity, and Genes (Diogenes) Project. Diets with high or low protein content and glycemic index for weight-loss maintenance. N Engl J Med. 2010;363(22):2102-13. doi: 10.1056/NEJMoa1007137.

15- Ludwig DS. Clinical update: the low-glycaemic-index diet.Lancet. 2007;369(9565):890-2.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

AHA 1995: comam mais açúcar para comer menos gordura

Recentemente, conversando com colegas médicos, surgiu por parte dos mesmos a ideia de que as pessoas passaram a consumir muito açúcar e carboidratos refinados por força de uma má interpretação das diretrizes nutricionais. Ou seja, embora meus colegas também achassem que a ênfase em reduzir a gordura na dieta fora equivocada, afirmavam que "nunca se disse que as pessoas deveriam consumir açúcar e farinha refinada" no seu lugar. Será mesmo?

O problema é que a memória nos trai. Embora o passado molde muito das nossas atitudes presentes, nossas lembranças são editadas pelo cérebro à luz do que hoje sabemos, e determinadas coisas parecem jamais ter acontecido. Felizmente, em tempos de internet, as fontes primárias podem ser garimpadas. Esta pérola foi tuitada pela jornalista australiana Maryanne Demasi:



O documento da Associação Americana de Cardiologia, de 1995, é intitulado "Um plano alimentar para americanos saudáveis".

Ali, se lê:

"Para controlar a quantidade e o tipo de gordura, gorduras saturadas e colesterol da dieta, você deve comer:"


  • Frutas e SUCOS DE FRUTA
  • Vegetais crus e MOLHOS LOW FAT (ou seja, high carb)
  • BISCOITOS LOW FAT (muito açúcar e farinha)
  • BISCOITOS SALGADOS LOW FAT (muita farinha)
  • PIPOCA SEM MANTEIGA E SEM SAL
  • PRETZELS SEM SAL
  • BALAS DURAS, BALAS DE GOMA
  • AÇÚCAR, XAROPE, MEL, GELEIA, GELATINA, DOCES DO TIPO GOIABADA / MARMELADA
E, para beber, a primeira escolha é:
  • SUCOS DE FRUTAS
  • Outra opções: REFRIGERANTES.

Sim, é chocante. E não faz tanto tempo assim. Eu já era formado há 2 anos quando essa cartilha circulou em 1995. Toda essa geração de médicos teve como ÚNICA formação nutricional este tipo de informação. Depois, foram estudar suas respectivas especialidades, e continuaram propagando permutações dessa cartilha, pois foi o que aprenderam. 

Foi justamente a esse propósito que o Dr. David Ludwig publicou, ano passado, editorial na revista científica JAMA, cuja íntegra pode ser vista aqui.

Naquele editorial, o Dr Ludwig diz:
  • Pesquisas recentes sugerem que o foco na redução da gordura dietética contribuiu diretamente para o fardo crescente de doenças crônicas.
  • De particular importância, os principais estudos de dieta com baixo teor de gordura, como os ensaios clínicos randomizados Women's Health Initiative e Look Ahead, não conseguiram reduzir o risco de doença cardíaca, apesar do uso de intervenções de baixa intensidade no grupo controle. Em contraste, o estudo PREDIMED foi encerrado precocemente quando a incidência de doença cardiovascular diminuiu mais rapidamente do que o esperado nos grupos de dieta com maior teor de gordura em comparação com o grupo controle com baixo teor de gordura (low fat).
  • Estudos preliminares sugerem que a redução da secreção de insulina em dietas com baixo índice de carboidratos e baixo índice glicêmico pode atenuar [a fome e a redução do metabolismo característicos das dietas de restrição calórica simples], facilitando a manutenção da perda de peso a longo prazo e reduzindo as doenças associadas à hiperinsulinemia (modelo carboidratos-insulina).
  • O foco na substituição da gordura dietética por carboidratos não atingiu os objetivos de saúde pública pretendidos e, sem dúvida, causou danos, mas esses resultados adversos não foram claramente e consistentemente reconhecidos [pela comunidade médica e acadêmica]. Consequentemente, muitas pessoas nos Estados Unidos ainda evitam ativamente comer gordura. De fato, a política nacional de nutrição continua promovendo a redução de gordura nas escolas (por exemplo, proibindo o leite integral e permitindo o leite achocolate desnatado adoçado com açúcar), nos programas governamentais de aquisição de alimentos e na linha de "gordura total" na tabela nutricional dos alimentos. De acordo com um relatório recente sobre a indústria do açúcar, os efeitos cardiovasculares adversos do açúcar adicionado permanecem amplamente sub-reconhecidos por causa de um programa de pesquisa patrocinado pela indústria nos anos 1960 e 1970 "que lançou com êxito dúvidas sobre os perigos da sacarose, promovendo gordura como culpado dietético na cardiopatia coronariana".
  • Alguns especialistas sustentam que há muito tempo já existe consenso sobre os componentes de uma dieta saudável; que a recomendação de dieta de baixo teor de gordura sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados adversos deve recair sobre a indústria alimentícia, por comercializar alimentos insalubres, com baixo teor de gordura, processados; e sobre o público por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), explicitamente por causa de sua menor densidade energética do que a gordura; a ênfase da pirâmide alimentar em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa.
O trecho mais importante deste editorial é o seguinte: "Alguns especialistas sustentam (...) que a recomendação de dieta low fat sempre pretendeu aumentar o consumo de vegetais, frutas e grãos inteiros ao invés de carboidratos processados; e que a responsabilidade por quaisquer resultados aversos deve recair sobre a indústria alimentícia (...) e sobre o público, por sucumbir a este marketing. Mas esses argumentos desconsideram as convocações no sentido de aumentar o consumo de todos os carboidratos, independentemente da qualidade (incluindo o açúcar), (...) a ênfase da pirâmide em pão, cereais e outros produtos transformados de grãos; a chamada do governo para que a industria desenvolvesse milhares de novos alimentos processados ​​de gordura reduzida; e esquemas de marketing envolvendo a indústria, sociedades nutricionais e funcionários governamentais que promovem produtos alimentícios de baixo teor de gordura de qualidade extremamente baixa."

Se alguém tinha dúvida de que isso realmente aconteceu, reveja o panfleto da AHA, no início dessa postagem.

A culpa não é das pessoas; elas apenas seguiram as diretrizes.

Leituras adicionais para essa postagem: