A falácia original: “tudo depende do balanço calórico”

Nossa noção mais arraigada sobre obesidade resume-se à seguinte frase: “engordar é o resultado de consumir mais calorias do que se gasta”, ou seja, um problema de balanço calórico. Quem quiser questionar isso parecerá desafiar a própria lógica. Engorda-se por que come-se demais e gasta-se de menos. É a base do paradigma vigente da obesidade. E está errado. Como assim errado? O problema é confundir associação com causa.

Qualquer entidade biológica que estiver em crescimento estará, por definição, comendo mais calorias do que gasta, ou seja, em um balanço calórico positivo. Mas isso não diz NADA sobre causa e efeito. Por exemplo: uma criança, que está em crescimento, necessariamente comerá mais calorias do que gasta. É um fato da vida, e uma imposição da física (primeira lei da termodinâmica, conservação da energia). Mas, alguém argumentaria que a criança cresce por que come demais? Todo mundo sabe que um adolescente em crescimento come demais por que está crescendo, e não está crescendo por que come demais. Afinal, são os hormônios que causam o crescimento, e comer demais é uma consequência necessária.

Analogamente, alguém que faça muito exercício com pesos terá um ganho de massa muscular. Por definição, será necessário um balanco calórico positivo para que isso aconteça. Em outras palavras, não será possível produzir um 1 Kg de músculos sem comer mais calorias do que se gasta. Mas alguém acha que comer demais causa o aumento da massa muscular? Uma menina que entra na puberdade começa a acumular gordura subcutânea em áreas características (seios, quadris, etc) que ajudarão a diferenciar seu corpo na fase adulta. Para isso, será necessário comer mais calorias do que se gasta. Mas alguém imaginaria que uma menina cria seios por que come demais? Nesse ponto você já deve ter captado o padrão: todos os mecanismos acima são regulados do ponto de vista hormonal, enzimático e metabólico, sendo que o balanço calórico positivo é consequência, e não causa dos fenômenos. Porque a obesidade seria a única exceção?