O tecido gorduroso não é o local onde o excesso de calorias é guardado, passivamente.

O comportamento do tecido gorduroso (assim como outros tecidos do nosso corpo) é altamente regulado. Não é, ao contrário do que alguns pensam, o local onde o excesso de calorias é guardado, de forma passiva. O fato de que algumas áreas de nosso corpo permanecem livre de gordura (o dorso das mãos ou a testa, por exemplo) é prova de que fatores locais influenciam o comportament do tecido gorduroso. O mesmo ocorre, por exemplo, com pelos e cabelos. O fato de a obesidade ter um caráter hereditário, e que a própria distribuição da gordura no corpo tenha característimas hereditárias, atesta o alto grau de regulação deste tecido (de que outra forma a não ser através de enzimas e hormônios nossos genes poderiam determinar tais características?).

Alguns animais são mais gordos (hipopótamos e baleias, por exemplo), outros menos. Mas no ambiente selvagem, independentemente de quanto alimento esteja disponível, não há obesidade, isto é, acúmulo de gordura com consequências danosas à saúde. A quantidade de gordura nos animais é cuidadosamente regulada para servir como vantagem evolutiva (fornecer um fluxo contínuo de energia nos intervalos entre refeições, isolamento térmico, etc), nunca como fonte de doença.

Exemplos fabulosos do grau de regulação do tecido groduroso podem ser vistos nos roedores hibernantes, como algumas espécies de esquilo. Em poucas semanas no final de cada verão, estes animais dobram de peso às custas acúmulo de gordura. Assim como os ratos de Wade (ver post anterior), estes esquilos engordarão da mesma forma, mesmo que sejam colocados em dieta hipocalórica desde que acordam da hiberanção até a época de hibernar novamente – nem que para isso tenham de ficar completamente sedentários. Eles queimarão a gordura durante o inverno, independentemente de permanecerem acordados e aquecidos em um laboratório com comida à vontade ou de estarem hibernando e vivendo exclusivamente desta gordura, sem comer ou beber absolutamente nada. A regulação do tecido gorduroso nestes esquilos depende exclusivamente de variáveis biológicas (alterações cíclicas de hormônios e enzimas), independentemente das manipulações dietéticas impostas pelos pesquisadores.

Concluir que os seres humanos são os únicos animais em que o tecido gorduroso é passivo, desregulado, e que acumulará quantidades descomunais de gordura enquanto houver comida disponivel significa ignorar tudo o que sabemos sobre evolução. Por fim, não seria um pouco ingênuo, sabendo-se que todas as funções do corpo humano são cuidadosamente reguladas (quantidade de água e eletrólitos no sangue, por exemplo), acreditar que o tecido adiposo é o único que e comporta de forma passiva, como um lata de lixo onde são jogadas as calorias excessivas?