Dieta e inflamação

Uma grande quantidade de doenças tem como fundo a inflamação. A inflamação tem sido reconhecida como causa ou como fator importante até mesmo em doenças que, até recentemente, não eram consideradas como parte do espectro de doenças inflamatórias. Os dois maiores exemplos são as doenças cardiovasculares e o câncer. Outras doenças surpreendentes em que a inflamação parece ter influência são a depressão e o Alzheirmer. Isso sem contar as inúmeras patologias nas quais a inflamação é reconhecida tradicionalmente como fator preponderante: artrites, alergias, asma, psoríase, colites, a lista é infindável.

A dieta paleolítica é uma dieta anti-inflamatória. Parece haver 2 grandes motivos para isso. O primeiro é a remoção de agentes causadores de inflamação. Já discutimos previamente que a maior causa alimentar de inflamação sistêmica são os grãos, em particular o trigo, em função do glúten. Outros alimentos industrializados tais como gordura vegetal hidrogenada e inúmeros aditivos químicos são automaticamente eliminados quando se adere ao conceito de Comida de Verdade. Para algumas pessoas, os laticínios também produzem reação inflamatória, embora em muito menor escala do que os grãos.

Há um outro motivo, relacionado às gorduras poli-insaturadas. As gorduras poli-insaturadas são ácidos graxos essenciais, ou seja, só podem ser obtidas através da alimentação. Há 2 tipos básicos de gorduras poli-insaturadas: ômega-3 e ômega-6. Ambas são importantes, e devem ser consumidas em equilíbrio. Nossos antepassados paleolíticos consumiam uma proporção de cerca de 2:1 de ômega-6 e ômega-3, respectivamente. Na dieta ocidental contemporânea, esta proporção varia de 10 a 20:1. Por que isto é importante? O predomínio de gorduras ômega-6 é pró-inflamatório. Isto explica a grande quantidade de literatura médica indicando o efeito protetor dos ácidos graxos ômega-3 no que diz respeito a doenças cardiovasculares, demência, alguns tipos de câncer e doenças auto-imunes.

Todos os animais obtêm seus ácidos graxos ômega-3 a partir dos vegetais, ou da gordura de animais que consumiram tais vegetais. As algas são muito ricas em ômega-3. O mesmo ocorre com as pastagens naturais. Os grãos e sementes, por outro lado, são ricos em ômega-6. Assim, mesmo os caçadores que viviam longe do oceano obtinham um bom equilíbrio destes ácidos graxos essenciais, pois os animais que caçavam pastavam capim. O mesmo não se pode dizer do gado engordado com ração à base de milho, sorgo e soja. De forma análoga, salmão criado em fazendas e alimentados com ração não contém quantidades significativas de ômega 3, ao contrários daqueles pescados em seu habitat natural. Os óleos vegetais obtidos por processos industriais a partir de sementes (soja, algodão, milho, etc) obviamente nunca fizeram parte da alimentação humana até recentemente. Ademais, são ricos em ômega-6. O azeite de oliva, por outro lado, contém ômega-3, e seu processo de extração não requer métodos industriais complexos. Por este motivo, os óleos vegetais (com exceção do azeite de oliva) devem ser evitados.

Se você puder se dar ao luxo de consumir apenas animais que foram criados de forma orgânica, pastando grama, e peixes pescados no mar (de preferência em áreas com pouca contaminação de mercúrio), excelente. Caso contrário, esta é uma das únicas situações em que o consumo de um suplemento seria indicado dentro de uma dieta paleolítica. O suplemento é o óleo de peixe. Normalmente é encontrado em cápsulas de 1000mg – 1000 de óleo de peixe, mas os ingredientes ativos (EPA e DHA, os ácidos graxos ômega-3) normalmente apresentam uma concentração bem menor. A dose indicada para a maioria das pessoas é de cerca de 1g destes componentes ao dia. Dependendo da marca do produto, isto pode significar até 2 cápsulas 3x ao dia.

Os efeitos anti-inflamatórios são bastante evidentes, desde normalização de exames de sangue tais como PCR, VSG e ferritina (marcadores de inflamação sistêmica), até a melhora de muitos quadros inflamatórios crônicos tais como artrites, alergias, asma, e doenças auto-imunes como psoríase e tireoidite. Parece inacreditável, mas há grande quantidade de literatura médica embasando estas afirmações (quem quiser conferir, pode cruzar os termos “omega-3” e qualquer destas patologias no PubMed) . Ademais, é comum que estes efeitos clínicos e laboratoriais já possam ser observados em apenas 4 semanas, às vezes de forma dramática.