Colesterol II

No post anterior, discutimos sobre a a origem da teoria lipídica da doença cardiovascular. Era 1957, e a American Heart Association publicava o seguinte artigo:

O seguinte trecho, na conclusão do artigo, é significativo pois demonstra que a teoria lipídica não passava disso, uma TEORIA, e que não se justificava mudar a dieta de um país inteiro baseado apenas em hipóteses frágeis:

Traduzindo: “Assim, as evidências atuais não autorizam nenhuma mudança drástica na dieta, especificamente na quantidade de ou no tipo de gordura na dieta da população em geral, sob a premissa de que tal mudança pudesse definitivamente diminuir a incidência de doença coronariana. Por outro lado, o fato de que a obesidade é um defeito nutricional causado por consumir mais calorias do que se gasta e o fato de que as gorduras são a fonte mais concentrada de calorias, provendo 40 a 45% das calorias diárias, sugere que muitas pessoas deveriam consumir menos calorias. Para a maioria delas, ist significa comer menos gordura.”

A segunda parte deste parágrafo você, leitor deste blog, já sabe que está equivocada. Uma dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras leva à perda de peso, e não ao ganho.

Agora, compare a afirmação marcada em amarelo, acima, com o seguinte trecho, publicado apenas 4 anos após, em 1961, na revista Circulation:


Traduzindo: “A redução ou controle do consumo de gordura, sob supervisão médica, com substituição de gorduras saturadas por poli-insaturadas, é recomendada como um meio de prevenir a aterosclerose e reduzir o risco de ataques cardíacos e derrames. Esta recomendação é baseada na melhor evidência científica disponível no presente momento.”

O que mudou nestes 4 anos? Novos estudos prospectivos? Grandes estudos epidemiológicos? Não. O que mudou foi apenas o balanço de poder no comitê de especialistas que emitiam suas opiniões nestes textos. Neste artigo de 1961, olhe quem passou a ser membro do comitê da AHA:

Este é o mesmo Ancel Keys que postulou a teoria lipídica da doença cardiovascular. Keys ganhava cada vez mais prestígio, e passava a apresentar um peso político cada vez maior nas disputas científicas dentro da American Heart Association (AHA).

Mas foi com o advento do United States Senate Select Committee on Nutrition and Human Needs, conhecido como Comissão McGovern  entre 1968 and 1977, que a recomendação de cortar a gordura saturada virou dogma. Baseado em ciência? Não, baseado na bola de neve iniciada por publicações como as acima, e pela influência de médicos como Ancel Keys. Em outras palavras, ninguém havia testado essa mudança radical (pegar um grande número de pessoas, dividir em dois grupos, e alimentar metade com baixa gordura e alto carboidrato, e outra metade com baixo carboidrato e alta gordura, e ver o que acontece), e um comitê de políticos, após ouvir a opinião destes “experts”, decidiu recomendar que todos os americanos comessem menos gordura (e portanto mais carboidratos). Para uma excelente revisão deste período, assista o documentário (legendado) de Tom Naughton, em especial a parte II.

Finalmente, depois que toda a população já havia sido orientada a mudar a sua dieta radicalmente, foram conduzidos grandes estudos para avaliar o impacto da redução da gordura nos alimentos (repito, apenas DEPOIS que a gordura já havia sido demonizada). Os resultados foram muito diferentes do que se esperava, mas isto fica para o próximo post.