Carboidratos viciam mais do que cocaína?

Obrigado ao leitor Fábio Mossmann por me indicar esta reportagem.

Saiu na revista GQ, da editora globo:

http://gq.globo.com/gastronomia/carboidratos-viciam-mais-do-que-cocaina/

Só não caiam naquela conversa da nutricionista no final da reportagem: o índice glicêmico do pão preto é igual ao do pão branco e ambos são maiores do que o índice do açúcar puro (sacarose). Não acredita? Veja aqui. Veja também o índice dos cereais e do arroz – no final, é tudo açúcar.

Carboidratos viciam mais do que cocaína?

O desejo incontrolável por pizza e sorvete pode ser seu corpo gritando por socorro. Será que você é um dependente?

Por Paul John Scott e Thaís Cavalheiro

A edição de setembro da GQ traz grátis um
suplemento especial de 66 páginas sobre saúde e bem-estar. Uma de nossas
matérias especiais na edição pergunta se “é possível os carboidratos
viciarem mais do que cocaína?”. A resposta é assustadora. Leia…

Estou em um estabelecimento que vende drogas. Observo uma fila de
pessoas no balcão, comprando livremente uma mercadoria que, para
algumas, poderá se transformar (se ainda não se transformou) em um vício
capaz de arruinar sua vida. Quem sabe você esteja no mesmo caminho. O
problema nem sempre é evidente: nada que se compare ao massacre
associado à cocaína ou ao álcool. É um vício que demora a se revelar,
mas com percurso igualmente traiçoeiro. O lugar é uma padaria. E,
certamente, aqui vende-se saladas e produtos light. Mas por que a oferta
de bolos e docinhos supera a de alimentos saudáveis? Porque os
carboidratos – assim como a cocaína – dão barato. E esse barato pode
levar à fissura quando se fica muito tempo sem uma “dose”. Só que,
diferentemente da cocaína, o consumo de carboidratos faz mais do que
estabelecer novas conexões no sistema neurológico: o corpo sofre uma
espécie de curto-circuito. Nosso metabolismo normalmente armazena
energia para ser usada como combustível. Só que calorias não queimadas
viram estoque de gordura. Quando a fome bate, você não fica doido para
comer o que estiver à mão, mas deseja as mesmas besteiras cheias de
calorias que o levaram à dependência. Pense nesse efeito como o de uma
droga.

Em defesa dos carboidratos: a recomendação internacional defende que
esses nutrientes componham 30% das refeições principais. Sob forma de
amidos e açúcares, estão em pães, cereais, massas, frutas, doces, sucos e
cerveja – basicamente qualquer coisa que não seja proteína ou gordura.
“Mas você pode passar a vida toda sem ingerir um único carboidrato –
exceto aquele do leite materno ou da diminuta quantidade da carne – e
provavelmente viverá bem”, afirma Gary Taubes, autor do livro
Boas Calorias, Más Calorias (Good Calories,Bad Calories, inédito no Brasil).

Dormindo, o organismo queima gordura

Açúcar e amido fornecem energia em forma de glicose, fonte para as
células vermelhas do sangue – e também a preferida pelo cérebro. Na
falta de glicose, o organismo queima gordura para gerar energia. É o que
acontece enquanto você dorme, sem comer por oito horas. “O cérebro
necessita de carboidratos como combustível”, diz Taubes (que acaba de
lançar Por que Engordamos (Why We Get Fat, também inédito
aqui). “Mas o corpo é perfeitamente capaz de buscar energia nas
proteínas, nos vegetais e na gordura animal.” Como escreveram doutores
da Universidade Harvard no Journal of the American Medical Association, “carboidratos são nutrientes absolutamente desnecessários para o ser humano”.

Dependência

O problema não está exatamente nos carboidratos, mas na dependência que
estabelecemos deles. Ao ativar áreas do cérebro ligadas ao prazer, eles
derrubam nossas defesas contra a comilança desenfreada e nos deixam
gordos e mal nutridos. Quanto mais comemos alimentos ricos em
carboidratos, mais queremos comer – o processo é semelhante ao das
drogas viciantes. Em 2007, um experimento feito com ratos na
Universidade de Bordeaux, na França, mostrou que, quando os bichos
podiam escolher entre cocaína intravenosa e um adoçante, 94% preferiram o
substituto do açúcar. A conclusão foi a de que a doçura intensa
funciona, para os receptores cerebrais, como um estímulo maior do que o
da cocaína
, de tal forma que, ao chegar ao centro de recompensa
cerebral, suprime os mecanismos de autocontrole, levando à dependência.

Sintomas de abstinência

Nicole Avena, especialista em neurociência comportamental da
Universidade da Flórida (EUA) que se dedicou à análise de cobaias
alimentadas com açúcar, afirma que o consumo de doces leva ao desejo
compulsivo e a sintomas de abstinência. Isso porque tanto carboidrato
como cocaína e anfetamina envolvem os mesmos circuitos cerebrais sob o
comando do sistema nervoso central. Alimentos altamente calóricos
injetam no sangue dopamina, neurotransmissor que, ao atingir o centro de
recompensa do cérebro, gera um efeito imediato de bem-estar e
felicidade – o mesmo que causa a dependência química. Tudo o que dá
prazer, guloseima ou droga, aciona uma rede complexa de neurônios que,
ao ser ativada, reconhece a sensação agradável, cristaliza-a na memória e
provoca a repetição do gesto.

Como a natureza é sábia, a sensação de prazer associada à macarronada
ou ao sorvete é a arma do cérebro para garantir que não falte energia
para o corpo funcionar. Assim que você põe na boca um alimento calórico,
começa a produção da dopamina. “Esse mecanismo é fundamental para nossa
sobrevivência”, explica Paulo Jannuzzi Cunha, neuropsicólogo do
Laboratório de Investigações Médicas do Hospital das Clínicas da
Universidade de São Paulo (USP). “O consumo de carboidratos provoca um
prazer intenso que vai embora rápido, o que leva ao desejo de ingerir
aquilo de novo para ter de volta a satisfação perdida.”

Ação da dopamina

“Brigadeiro e pão francês, por exemplo, ativam o centro de recompensa de
maneira tão rápida e intensa que a mensagem de saciedade é simplesmente
ignorada pelo cérebro”, continua Cunha, especialista em comportamentos
impulsivos. Resultado: você continua a se empanturrar. E, assim como
acontece com dependentes de drogas, o córtex pré-frontal (centro moral
do cérebro) não consegue se sobrepor à ação da dopamina. Assim, o que
prevalece é a memória da satisfação proporcionada pela guloseima, na
região do hipocampo. E aí tudo o que você quer é, mais uma vez, cair de
boca nos bombons e nos sonhos de padaria para ter bem-estar. “Não é o
caso de declarar guerra ao carboidrato”, enfatiza o neurologista. “O
importante é controlar o impulso, adiar a gratificação e evitar o
imediatismo.”

Receptor prejudicado

Se você adotar uma dieta pobre nesse nutriente, seu corpo vai queimar
estoques de gordura
. Já comer carboidratos em grande quantidade
(principalmente os refinados, como açúcar, farinha branca e
refrigerantes) obriga o pâncreas a liberar cada vez mais insulina
. Esse
hormônio, como uma chave que se encaixa com perfeição na fechadura, se
liga a seu receptor localizado na membrana da célula e “abre a porta”
para a passagem da glicose. A ingestão excessiva de carboidratos
prejudica o funcionamento do receptor, pois em altas doses a glicose
desequilibra a fabricação de insulina e modifica a própria membrana das
células, que passam a negar a entrada do açúcar. Ele, então, sobra na
circulação e acaba armazenado em forma de gordura.

Pré-diabetes

Para piorar, o tecido adiposo favorece a resistência à insulina – o
chamado pré-diabetes. Em altas doses, esse hormônio não apenas predispõe
o corpo a estocar gordura, mas dificulta sua queima e aciona uma fome
de leão.
Para saciá-la, você não come qualquer coisa, mas algo rico em…
açúcar e farinha. Os cartéis de droga apenas sonham com um narcótico que
crie um ciclo de dependência tão poderoso (e pernicioso) quanto o dos
pós brancos que guardamos na despensa. Este ano, o americano Robert Lustig, endocrinologista da Universidade da Califórnia (EUA), foi capa
da revista do New York Times defendendo restrições à venda de
doces e refrigerantes, como acontece com álcool e cigarros, por causarem
igual dependência. Lustig foi além ao afirmar que, como a frutose, o açúcar das frutas, produz um efeito nocivo sobre o fígado comparável ao das bebidas alcoólicas (por causa do mesmo tipo de metabolização),
deveríamos limitar o consumo de sucos. Para ele, as frutas são saudáveis
por conterem fibras, mas seu suco, nem tanto.

Índice glicêmico

A nutricionista brasileira Anna Castilho, especializada em reeducação
alimentar, lembra que carboidratos têm papel importante na recuperação e
no crescimento muscular. A insulina liberada por pães e massas
transporta os aminoácidos (“tijolos” de proteínas) para as células
musculares, melhorando o desempenho. Em vez de banir os carboidratos,
diz Anna, fique de olho no índice glicêmico (IG), medida que indica a
velocidade com que a glicose é liberada no sangue assim que se ingere um
alimento. Quanto mais alto o IG (caso de biscoitos, arroz e pão
brancos), mais rápidas a digestão, absorção e sensação de fome.
Alimentos com baixo IG (como cereais, pão e arroz integrais, verduras e
legumes), ao contrário, retardam o esvaziamento gástrico e prolongam a
saciedade.

É possível livrar-se da dependência dos carboidratos? Segundo Gary
Taubes, não nos resta alternativa a não ser tentar. “Há evidências de
que a fissura acaba depois de um tempo, mas é difícil precisar se isso
acontece em semanas ou anos”, afirma. O assustador é que, como um
viciado em recuperação, você provavelmente nunca estará 100% curado e
ainda correrá o risco de recaídas.