A Úlcera

A Úlcera

A incrível história de como toda a comunidade científica pode estar errada por mais de 100 anos e, mesmo depois que a ciência já demonstrou o erro, continuar negando-se a abrir os olhos por mais de 10 anos.

Úlcera péptica. Também conhecida como úlcera do estômago, e úlcera duodenal. Atualmente, é uma doença cada vez mais rara. Mas nem sempre foi assim. Meus professores de cirurgia contavam como esta patologia era comum. Naqueles tempos, os estudantes de medicina aprendiam a operar graças às úlceras perfuradas e às grandes hemorragias provocadas por elas. Vamos avançar para o século XXI. Nos dias de hoje, um médico residente é capaz de terminar seu treinamento sem jamais operar uma única úlcera perfurada. O que houve neste período? O que houve foi uma incrível mudança de paradigma. Descobriu-se que as úlceras não eram causadas por stress ou pelo ácido do estômago, mas por uma simples bactéria. Mas isto não interessava à indústria dos antiácidos, nem aos médicos que tratavam úlcera com psicoterapia. Vamos conhecer a incrível história de Barry Marshall, o médico australiano que lutou por mais de 10 anos para que o consenso médico mudasse. Por esta façanha, ganhou o prêmio Nobel de medicina em 2005. Me parece que este episódio é muito relevante para o que ocorre atualmente no mundo da nutrição e saúde.

Barry Marshal nasceu em 1951 na Austrália ocidental. Formou-se em medicina em 1975, e durante seu treinamento como médico recém formado, começou a trabalhar com o patologista Robin Warren, que estava intrigado pela presença de bactérias nas amostras de estômago de pessoas com úlceras. A sabedoria convencional da época ditava que não poderia haver bactérias no estômago, devido à alta acidez gástrica. Mas as bactérias recusavam-se a se adaptar às teorias. A perspicácia e insistência destes dois cientistas mudou a história da medicina. Mas não foi fácil. O Dr. Marshal já havia compilado toda a ciência que embasava seus conceitos, mas não conseguia convencer a velha guarda da medicina. Tentava conseguir fundos para conduzir estudos com seres humanos, mas as companhias farmacêuticas faziam de tudo para impor obstáculos (afinal, ganhavam bilhões com a venda de anti-ácidos, e este sujeitinho queria MATAR a galinha dos ovos de ouro). Desesperado, extraiu a bactéria do estômago de um de seus pacientes e inoculou  em si mesmo, produzindo a doença, e em seguida se tratou com antibióticos e curou-se. Publicou o seu feito como um relato de caso em uma revista científica. Ainda assim, passaram-se 10 anos antes que a medicina finalmente aceitasse que as úlceras eram causadas por bactérias. Os paralelos com o mundo da nutrição são evidentes (TODA a ciência básica e os ensaios clínicos já demonstram de forma inequívoca que são os carboidratos, e não a gordura, os responsáveis pela síndrome metabólica que tanta doença e sofrimento produz no mundo ocidental, mas a velha guarda não vai desistir de suas ideias sem lutar).

A seguir, traduzo uma sensacional reportagem e entrevista da revista científica Discover.

Discover Magazine: The magazine of science, technology, and the future

O médico que ingeriu a bactéria, produzindo uma úlcera em si mesmo, e resolveu um mistério da medicina.

A elite da medicina pensava que sabia o que causava as úlceras e o câncer de estômago. Mas eles estavam errados – e não queriam saber a resposta que era correta.

Por Pamela Weintraub|quinta-feira, 08 de abril de 2010

bmarshallDurante anos, um obscuro médico vindo da costa oeste da Austrália assistiu horrorizado a pacientes com úlcera que ficavam tão doentes a ponto de precisarem ter seus estômagos removidos ou sangrarem até a morte. Esse médico, um internista chamado Barry Marshall, estava atormentado porque ele sabia que havia um tratamento simples para as úlceras, que na época acometiam 10 por cento de todos os adultos. Em 1981, Marshall começou a trabalhar com Robin Warren, patologista do Royal Perth Hospital que, dois anos antes, descobrira que o estômago poderia ser invadido por uma bactéria, em forma de saca-rolhas, chamada Helicobacter pylori. Com biópsias em pacientes com úlcera e cultura de organismos em laboratório, Marshall vinculou não só as úlceras, mas também o câncer de estômago a esta infecção digestiva. A cura, ele percebeu, estava prontamente disponível: antibióticos. Mas os gastroenterologistas tradicionais o desconsideraram, apegando-se à velha ideia de que as úlceras eram causadas por estresse.

Incapaz de fazer seus estudos com ratos de laboratório (H. pylori afeta apenas primatas) e proibido de fazer experiências com pessoas, Marshall desesperou-se. Finalmente, ele realizou um experimento no único paciente humano que ele poderia eticamente recrutar: ele mesmo. Ele pegou um pouco de H. pylori do intestino de um paciente enfermo, misturou-o em uma espécie de sopa e bebeu. Com o passar dos dias, ele desenvolveu gastrite, o precursor de uma úlcera: Ele começou a vomitar, desenvolveu mau-hálito, e passou a sentir-se doente e exausto. De volta ao laboratório, ele realizou biópsias em seu próprio estômago, cultivando H. pylori e provando inequivocamente que as bactérias eram a causa subjacente das úlceras.

Marshall recentemente sentou-se com a editora sênior da revista DISCOVER, Pam Weintraub, em um hotel de Chicago, usando jeans e bebendo água mineral (sem helicobacter!). O homem que a revista The Star já chamou de “doutor cobaia” pode agora falar sobre o seu trabalho com o humor e a paixão de alguém que corria por fora e a quem finalmente foi feita justiça. Por seu trabalho com H. Pylori, Marshall e Warren dividiram o prêmio Nobel em 2005. Hoje, o tratamento padrão para úlceras é com antibióticos. E o câncer de estômago – no passado uma das formas mais comuns de câncer – está quase varrido do mundo ocidental.

Tendo livrado o mundo de duas doenças terríveis, Marshall agora está transformando seu antigo inimigo em um aliado. Como professor de microbiologia na Universidade da Austrália Ocidental, ele está trabalhando no desenvolvimento de vacinas para gripe cultivadas em cepas atenuadas de Helicobater. Numa época em que muitos médicos desdenham problemas inexplicados como sendo “coisas psicológicas”, a história de Marshall serve tanto como inspiração quanto como um antídoto contra a arrogância frente ao desconhecido.

Você cresceu longe da cidade grande. Como era isso?

Eu nasci em Kalgoorlie, uma cidade de mineração de ouro a 400 milhas à leste de Perth. Meu pai era mecânico, e consertava motores a vapor e trens. Minha mãe era enfermeira. Todos os mineiros deviam muito dinheiro e bebiam demais, e minha mão disse: “temos de dar o fora daqui antes que sigamos o mesmo caminho”. Em 1951 estávamos nos dirigindo para Rum Jungle, onde  havia um “boom” econômico com a mineração de urânio, mas na metade do caminho paramos em Kaniva, outra cidade em expansão econômica, com indústria baleeira e bons salários. Então, finalmente, meu pai começou a administrar fábricas de aves em Perth. Desde então, nunca nos faltou nada. Era como a série de TV Happy Days.

O que despertou seu interesse pela ciência?

Minha mãe tinha livros de enfermagem. Eu tinha 3 irmãos, e nós vivíamos mexendo com eletrônica, solda, pólvora e explosões. Tudo que posso dizer é que algumas coisas você absorve de seus pais por osmose. Na escola, minhas notas eram B’s e C’s, não muitos A’s, mas devo ter ido bem no exame para a escola de medicina e devo ter tido carisma na entrevista, pois acabei na Faculdade de Medicina. Tudo que eu queria era ser clínico geral. Eu era bom no trato com os pacientes e muito interessado no porquê as coisas aconteciam. No final, desenvolvi uma abordagem mais madura: me dei conta de que pelo menos 50% dos pacientes  não eram diagnosticáveis.

Você se deparou com doenças inexplicáveis?

Na faculdade, você acaba aprendendo que você pode diagnosticar todo mundo e tratar tudo. Mas então você cai no mundo real e descobre que, para a maioria dos pacientes que cruzam a sua porta, você não faz a menor do que está causando os seus sintomas. Você poderia fatiar aquela pessoa em um trilhão de moléculas, estudá-las todas, e elas seriam todas completamente normais. Eu nunca fiquei satisfeito com a ideia de que, se excluirmos todas a doenças, a pessoa deve ter uma doença psicológica; assim, eu aceitei o fato de que, muitas vezes, eu não poderia chegar a um diagnóstico fundamental, e deveria apenas manter minha mente aberta.

E foi assim que você veio a repensar a causa das úlceras?

Antes do século 20, a úlcera não era uma doença respeitável. Os médicos diziam “você está sob muito stress”. Na Europa e nos EUA do século 19, havia toda sorte de SPA’a malucos e picaretagem. Nos anos 1880, os médicos haviam desenvolvido uma cirurgia para úlcera, na qual cortavam a parte de baixo do estômago e reconectavam com o intestino. Hoje sabemos que, no início do século 20, provavelmente 100% da humanidade estava infectada com Helicobacter pylori, mas você pode passar assim a vida inteira e jamais desenvolver sintomas.

Qual era o pior cenário para pacientes com úlcera?

Uma úlcera duodenal com um buraco em si é muito dolorosa devido ao ácido do estômago. Quando você come, o alimento dilui o ácido temporariamente. Quando a refeição é digerida, o ácido volta e cobre a ferida exposta da úlcera, fazendo com que a dor volte. Isto era tão comum que a famosa Mayo Clinic foi construída com os recursos das cirurgias gástricas. Depois da cirurgia, metade das pessoas ficava melhor. Mas cerca de 25% dos pacientes curados da úlcera ficavam com sequelas gástricas, sem apetite e jamais recuperando completamente a saúde.

Com tantas evidências físicas de um problema real, por que as úlceras continuavam a ser rotineiramente classificadas como psicossomáticas?

Os médicos descobriram que podiam ver as úlceras com aparelhos de raio-X mas, claro, tais equipamentos estavam em grandes centros como Londres e Nova Iorque – de modo que os médicos destas metrópoles começaram a identificar úlceras em homens de negócio urbanos que provavelmente fumavam muito e tinham um estilo de vida com muito stress. Mais tarde, cientistas induziram úlceras em ratos colocando-os em camisas de força e largando-os em água gelada. Então, descobriram que poderiam inibir estas úlceras dando anti-ácidos aos ratos. Eles então fizeram a conexão entre úlceras, stress e ácido sem jamais conduzir os estudos duplo-cegos apropriados; mas a ideia fechava com o pensamento comum de todos.

Como você veio a desafiar esta teoria tão prevalente?

Eu estava no terceiro ano de meu treinamento em medicina interna em 1981, e eu tinha que desenvolver um projeto. Robin Warren, o patologista do hospital, disse que ele vinha identificando estas bactérias em biópsias de úlceras e de câncer de estômago de pacientes havia 2 anos, e que as bactérias eram sempre idênticas.

O que chamava atenção nestas infecções?

Os microorganismos tinham todos um formato de “S” ou forma helicoidal, e recobriam toda a superfície do estômago. Warren os havia encontrado em cerca de 20 pacientes, cujos espécimes lhe haviam sido enviados pois seus médicos achavam que eles tinham câncer. Ao invés de câncer, ele achou estas bactérias. Então ele me deu a lista de pacientes e disse “por que você não revisa os prontuários e descobre se há algo de errado com eles?”. Resulta que um deles, uma mulher com cerca de 40 anos, tinha sido minha paciente. Ela veio consultar nauseada, com dor de estômago. Fizemos os exames usuais, que foram normais. Então, claro, ela foi mandada ao psiquiatra, que lhe prescreveu um anti-depressivo. Quando eu vi o nome dela na lista eu pensei “humm… isto é interessante”.

bmarshall2Então outro paciente apareceu, um sujeito russo idoso com severas dores. Os médicos lhe deram o diagnóstico de angina, a dor que ocorre quando o sangue para o coração não consegue passar por uma coronária estreita. É raro, mas este fenômeno pode ocorrer no intestino e estômago também. Naquela época, não existia tratamento para para um homem de 80 anos com esta patologia, de modo que nós lhe demos tetraciclina (um antibiótico) e o mandamos para casa. Ele foi embora, e duas semanas depois ele voltou. Era como se tivesse molas em seus pés, praticamente dava cambalhotas no consultório. Estava curado! Tratar a infecção curou o seu problema. Eu tinha ainda mais um ano de residência pela frente, então preenchi a papelada para iniciar um estudo clínico com 100 pacientes à procura da bactéria causadora da infecção estomacal; este estudo começou em abril de 1982.

Mas num primeiro momento nada apareceu, certo?

Sim – nada até os pacientes de número 34 e 35, na semana da Páscoa, quando recebi uma ligação do microbiologista, muito excitado. Então fui até lá e ele me mostrou duas culturas sob o microscópio. Os técnicos de laboratório vinham jogando no lixo as culturas após dois dias, pois, com os estreptococos, no primeiro dia já aparecia alguma coisa, mas no segundo dia a placa já estava coberta com bactérias contaminantes. Esta era a mentalidade do laboratório: qualquer coisa que não crescesse em dois dias não existia. Mas o Helicobacter, nós descobrimos depois, cresce lentamente. Então começamos a deixar as culturas crescerem por mais tempo, e descobrimos que tínhamos 13 pacientes com úlcera duodenal, e todos tinham a bactéria.

Quando você se deu conta que o H. Pylori causava câncer de estomago também?  

Nós observamos que todos que desenvolviam câncer de estômago o faziam em um contexto de gastrite, uma irritação ou inflamação da mucosa do estômago. Sempre que achávamos alguém sem Helicobacter, não havia gastrite. Até onde sabíamos, a única causa importante de gastrite era o Helicobacter. Portanto, tinha que ser a principal causa do câncer de estômago também.

E como você divulgou sua descoberta?

Eu apresentei o trabalho no encontro anual do Real Colegiado Médico da Australásia, em Perth. Esta foi minha primeira experiência com o total ceticismo das pessoas. Para os gastroenterologistas, o conceito de que  um germe pudesse causar úlceras era como dizer que a terra era plana. Você então pensa: “Bem, é ciência, terão que aceitar”. Mas não é assim. A ideia parecia muito estranha.

Então você e Robin Warren escreveram cartas à revista Lancet (uma das mais importantes revistas médicas do mundo).

A carta de Robin descrevia a bactéria e o fato de que era muito comum nas pessoas. Minha carta descrevia a história desta bactéria nos últimos 100 anos. Ambos sabíamos que estávamos lidando com a iminência de uma descoberta fantástica. No final de minha carta, eu disse que as bactérias eram candidatas a causas de úlceras e câncer do estômago.

Esta carta deve ter provocado uma verdadeira comoção.

Não provocou nada. Na verdade, nossas cartas foram consideradas tão estranhas que quase não foram publicadas. Na época eu trabalhava no hospital em Freemantle, biopsiando cada paciente que passava pela porta. Eu estava recebendo todos estes pacientes e não conseguia mais manter o controle sobre tantos dados. Então, eu procurei todas as companhias farmacêuticas em busca de financiamento de pesquisa para aquisição de um computador. Todas escreveram de volta dizendo que eram tempos difíceis, e que não dispunham de nenhum dinheiro para pesquisa. Mas eles estavam faturando 2 bilhões de dólares por ano com o antiácido Zantac (ranitidina) e outro bilhão com Tagamet (cimetidina). Você poderia fazer o paciente sentir-se melhor com a remoção do ácido. Tratados, a maioria dos pacientes não morria de sua úlcera, e não precisava de cirurgia, então as pessoas estavam dispostas a pagar 100 dólares por mês, muito dinheiro na época. Na América dos anos 1980, 2 a 4% das pessoas tinham comprimidos de Tagamet no bolso. Simplesmente não havia incetivo para buscar uma cura.

Mas uma companhia farmacêutica ajudou, certo?

Eu recebi uma carta interessante de uma uma companhia que fabricava um produto chamado Denel, que continha bismuto – semelhante ao Peto-Bismol nos EUA. A companhia havia demonstrado que seu produto cicatrizava as úlceras tão rapidamente quanto o Tagamet, muito embora o ácido continuasse presente. O estranho era que, de cada 100 pacientes tratados, 30 não apresentavam úlceras nunca mais, enquanto que se você parasse o Tagamet, 100 teriam úlceras novamente em 12 meses. Então a companhia afirmava: “Esta medicação deve cicatrizar as úlceras melhor do que apenas acabar com o ácido. Deve atuar de alguma forma sobre a causa do problema, seja lá qual for”. Eles mandaram fotos de antes e depois. Nas fotos “antes”, lá estava o Helicobacter; nas fotos “depois”, não havia mais. Então, eu coloquei a droga sobre culturas de Helicobacter e você não acredita com que facilidade eles morriam. A empresa então me ajudou a apresentar meu trabalho numa conferência internacional de microbiologia em Bruxelas.

Os microbiologistas em Bruxelas adoraram o trabalho, e em março de 1983 eu estava incrivelmente confiante. Durante aquele ano, Robin e eu escrevemos um trabalho científico completo. Mas foi tudo rejeitado. Cada vez que apresentávamos nossas coisas para os gastroenterologistas, éramos recebidos com uma campanha de negativismo. Eu tinha em minhas mãos uma descoberta que poderia detonar uma indústria de 3 bilhões de dólares, não apenas das drogas, mas de todo a campo da endoscopia. Todo o gastroenterologista fazia 20 a 30 endoscopias por semana em pacientes que pudessem apresentar úlceras, e 25% deles de fato tinha. Como era uma doença recidivante que você não podia curar, o paciente sempre voltava. E cá estava eu, oferecendo tudo isso em uma bandeja para os infectologistas.

E quanto aos infectologistas, pelo menos eles lhe apoiaram?

Eles disseram: “Isto é importante. Isto é ótimo. Seremos os novos médicos das úlceras”. Muitas pessoas começaram a pesquisar a microbiologia das úlceras. Mas os artigos ficavam diluídos dentre centenas de artigos sobre úlceras e ácido. Eu costumava enlouquecer com isso.

Para ir adiante, você precisava se uma sólida prova experimental. Que obstáculos você encontrou?

Nós vínhamos tentado infectar animais para ver se desenvolviam úlceras. Sempre falhava. O H. Pylori não infectava porcos, camundongos e ratos. Até que pudéssemos conduzir estes experimentos, estaríamos sujeitos a críticas. Então, eu tinha de planejar estudos em humanos. Eu estava desesperado: eu via pessoas que estavam quase morrendo de úlceras sangrando, e eu sabia que tudo que elas precisavam era de um pouco de antibiótico, mas não eram meus pacientes. Então o paciente ficava ali, sangrando, rebebendo bloqueadores de ácido, e na manhã seguinte a cama estava vazia. Eu perguntava “para onde ele foi”? Ele está no bloco cirúrgico, seu estômago foi extirpado.

O que o levou ao seu mais famoso e mais perigoso experimento, testar a teoria em você mesmo?

Eu tinha um paciente com gastrite. Eu peguei uma amostra da bactéria e a cultivei, verifiquei quais antibióticos a eliminavam no laboratório – neste caso era bismuto e metronidazol. Tratei o paciente e fiz uma nova endoscopia para me assegurar que sua infecção estava resolvida. Depois disso, eu misturei a bactéria em um caldo turvo e bebi na manhã seguinte. Meu estômago roncou um pouco e, depois de 5 dias, comecei a acordar de manhã dizendo “oh, não me sinto bem”, e corria ao banheiro para vomitar. Após vomitar, eu ficava em condições para trabalhar, embora me sentisse cansado e não dormisse direito. Depois de 10 dias eu fui submetido a uma endoscopia que mostrou que a bactéria estava por todo o lugar. Havia muita inflamação, e uma gastrite havia se desenvolvido. Foi apenas então que contei à minha mulher.

Como ela reagiu?

Infelizmente eu não gravei a reação, mas em resumo significava que eu deveria parar o experimento e tomar os antibióticos. Ela estava paranoica de que ela pegaria a infecção, as crianças pegariam a infecção, e – caos – todos teríamos úlceras e câncer. Então eu disse “apenas me dê até o final de semana”, e ela concordou.

Sua experiência pessoal o convenceu de que a infecção com Helicobacter começa na infância. Você pode explicar?

No princípio, eu pensava que se tratava de uma infecção silenciosa. Mas depois que eu a tive, eu pensei “não, é uma infecção que causa vômitos”. E quando você pega esta infecção? Quando você anda engatinhando por aí, colocando coisas sujas na boca, com seus pequenos e sujos irmãozinhos. O motivo que você não lembra de ter contraído Helicobacter é que você contraiu antes de aprender a falar.

Você publicou uma síntese deste trabalho na Revista Médica da Austrália em 1985. Então as pessoas mudaram seus pensamentos?

Não, o artigo ficou lá, como uma hipótese, por mais 10 anos. Alguns pacientes ouviram falar do assunto, mas seus gastroenterologistas ainda assim recusavam-se a tratá-los com antibióticos. Ao invés disso, falavam aos pacientes dos possíveis efeitos colaterais e complicações dos antibióticos. Em 1985 eu basicamente podia curar qualquer um, e pacientes vinham me procurar em segredo – por exemplo, pilotos de avião que não queriam que ninguém soubesse que tinham úlcera.

Então, como você finalmente convenceu a comunidade médica?

Na época eu não sabia, mas Procter & Gamble, fabricantes do Pepto-Bismol nos EUA, era o maior cliente da Hill & Knowlton, a grande empresa de relações públicas. Quando vim trabalhar nos EUA, eles tornaram a coisa pública. As matérias tinhas títulos como “Médico-cobaia experimenta em si mesmo e cura úlcera”, e a National Enquirer e o Reader’s Digest cobriram o assunto. Nossa credibilidade sofreu um pouco, mas o interesse em nosso trabalho aumentou bastante. Sempre que alguém dizia “Ok, Dr. Marshall, mas não está provado”, eu replicava “Bem, há muita coisa em jogo aqui. Pessoas estão morrendo de úlcera péptica. Nós precisamos acelerar o processo”. E, no fim, o NIH (Instituto Nacional de Saúde) e o FDA (órgão equivalente à Anvisa nos EUA) fizeram isso. Eles abraçaram muito deste conhecimento nos EUA, e disseram aos editores das revistas científicas “nós não podemos mais esperar que você conduzam os estudos maravilhosos e ideais. Nós vamos nos mexer e disseminar a notícia”. E isto aconteceu bem rápido no final. De 1993 a 1996, o país inteiro mudou de opinião.

Você então desenvolveu testes para H. pylori. Como eles funcionam?

O primeiro teste diagnóstico, feito após a biópsia, detectava o Helicobacter devido à sua capacidade de metabolizar ureia em amônia. Mais recentemente, eu desenvolvi um teste na respiração, baseado no mesmo princípio. O teste é comercializado pela Kimberly-Clark em todo o mundo. Aquela pequena descoberta definiu o resto de minha carreira.

É possível criar uma vacina contra o Helicobacter?

Depois de 20 anos e muito trabalho duro de companhias que gastaram milhões, nós ainda não conseguimos desenvolver uma vacina. O motivo é que, uma vez que esteja em você, o Helicobacter ganha controle de seu sistema imunológico. Quando me dei conta disso, pensei “bem, se é muito difícil fazer uma vacina contra H. pylori, que tal utilizar o H. pilory como veículo para vacinas contra outras coisas?” E este é o meu projeto de vacinas, e é minha vida no momento. Estamos fazendo uma vacina contra influenza. Vamos achar uma cepa de Helicobacter que não cause doença, e então vamos pegar o antígeno de superfície do vírus da influenza e cloná-lo no Helicobacter e administrá-lo na forma de um tipo de iogurte. Basta um pequeno gole, e 3 dias depois todo o seu estômago estará coberto com este Helicobacter modificado. Em poucas semanas, seu sistema imunológico começará a reagir contra ele, e identificará também os antígenos de influenza em sua superfície, e passará a fabricar anticorpos conta influenza também.

De que forma isso seria melhor que a atual vacina para influenza?

No momento, leva-se um ano para fabricar 50 milhões de doses de vacina contra gripe, de forma que você só é vacinado para a gripe do ano passado. Enquanto isso, nós estamos fabricando vacina para a gripe suína enquanto falamos. Nós sabemos a sequência de DNA do vírus da gripe suína. Você pode fabricar DNA e colocá-lo no Helicobacter. E, com um kit caseiro, eu posso fabricar 100.000 doses na minha banheira. Usando o mesmo método, uma vacina de Helicobacter contra malária seria muito barata. Você poderia fazer 100 milhões de doses no meio da África, sem refrigeração. Você poderia distribuir a vacina no aeroporto com algo como uma máquina de Coca-cola.

Baseado nesta sua experiência, deveríamos lançar um novo olhar para outras doenças que não têm causas bem compreendidas?

O caso de Helicobacter fez-nos perceber que não podemos excluir causas infecciosas para muitas doenças ainda não explicadas. Nos anos 80, infectologia era considerada uma especialidade ultrapassada, e os experts diziam que qualquer um com doenças infecciosas poderia ser curado com antibióticos. Mas e quando seu filho tinha 2 anos de idade? Cada semana ele vinha para casa com um vírus diferente. Você não sabia que infecção era aquela. A criança tinha febre por um ou dois dias, não dormia, tinha irritabilidade, e então passava. Bem, você acha que passou. Pode ter desaparecido, mas deixou uma cicatriz em seu sistema imunológico. E, quando eles crescem, desenvolvem colite, ou doença de Crohn ou talvez eczema. Há centenas de doenças como estas, e ninguém sabe a causa. Pode ser um germe, um germe que você ainda não consegue achar.

Como podemos achar estes patógenos misteriosos?

O que gostaríamos de fazer, de preferência, com fundos no NIH, é lançar grandes programas de longo prazo. Você registraria seu bebê no estudo no momento do seu nascimento. Nós decodificaríamos seu genoma. Nós faríamos um levantamento de seu microbioma [todos os microorganismos de seu corpo e seu DNA] e, talvez, do microbioma de seu marido, e tudo iria para um banco de dados. Então coletaríamos culturas de fezes do bebê uma vez por mês. E, cada vez que ele tivesse uma febre, nós coletaríamos uma amostra da mucosa da bochecha com um cotonete e guardaríamos. Nós faríamos isso com 10.000 bebês. Então, em 20 anos, descobriríamos que 30 deles desenvolveram colite, e poderíamos voltar ao banco de dados. Nós pegaríamos o material supercongelado 20 anos antes e o analisaríamos, e acharíamos as respostas. Nos últimos 20 anos as pessoas têm estado muito focadas em correlacionar doenças com fatores ambientais como produtos químicos e poluição. Mas o fator ambiental poderia ser um agente infeccioso que você teve em seu organismo em algum momento de sua vida. Apenas por que alguém descartou uma infecção nos anos 80 ou 90, não significa que estivesse correto. A tecnologia avançou muito desde então.

Mesmo hoje, contudo, não segue sendo difícil que novas ideias sejam ouvidas, quando as revistas médicas seguem sendo as responsáveis pelo acesso à informação, comportando-se como guardiãs do status quo?

É verdade, mas a revistas médicas estão mais atentas agora, pois cada vez que um novo manuscrito de um estudo chega a elas, eles dizem “espere um minuto, é melhor eu ter certeza que este não é mais um estudo como aquele do Barry Marshall. Eu não quero ter o meu nome naquela carta de rejeição que ele projeta em suas palestras”. Agora eles talvez digam “é uma ideia tão diferente – estará correta?”

Nota do tradutor: esta última reposta é muito otimista, sabemos que infelizmente as coisas não são assim.