O cérebro não precisa de glicose? O jejum mais longo da história

Um leitor me perguntou sobre a questão da glicose e do cérebro. Acontece que muitos nutricionistas explicam que a dieta low carb prejudica o funcionamento do cérebro, já que o cérebro funciona exclusivamente à base de glicose. Mais do que isso, explicam que é necessário consumir no mínimo 120 gramas de carboidratos (cerca de 500 calorias) por dia, pois o cérebro consome cerca de 20% de toda a energia do corpo – e só na forma de glicose.

Esta questão é fascinante por vários motivos. O principal, ao meu ver, é expor o quão primário é o pensamento “científico” destas pessoas. Vejamos primeiro alguns fatos:

  • A glicose normal no sangue varia de 70 a 100 mg/dl
  • Valores abaixo de 70 são considerados hipoglicemia
  • Valores abaixo de 50 costumam estar associados com sintomas (confusão mental, tremores, convulsões)
  • Valores abaixo de 10 podem provocar coma e morte
  • Com poucos minutos sem glicose no sangue, uma pessoa entre em coma.

Ok, de fato parece que o cérebro depende de glicose para viver. Mas então, você observa o seguinte:

  • Populações como os Esquimós e os Masai têm uma dieta com praticamente zero carboidratos, e gozam de perfeita saúde, e grande acuidade mental;
  • Este que lhes escreve passa a maior parte do tempo com consumo de carboidratos abaixo de 30g por dia; ainda assim, milagrosamente ainda consegue raciocinar e escrever estas linhas.

Então, como deveria proceder qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, mas com pouco ou nenhum conhecimento de bioquímica? SIMPLES: “minhas teorias sobre o cérebro dizem que ele depende de carboidratos; os esquimós, o Dr. Souto e seus leitores não consomem carboidratos; no entanto, eles não estão em coma; portanto, minhas teorias estão NECESSARIAMENTE erradas ou incompletas. Vou ver onde errei”

Mas não é o que se vê. O que se vê na comunidade da nutrição e na comunidade médica é o seguinte: minhas teorias sobre o cérebro dizem que ele depende de carboidratos; os esquimós, o Dr. Souto e seus leitores não consomem carboidratos. MAS ELES TÊM QUE CONSUMIR! Meu professor na faculdade disse que era assim. Então, o Dr. Souto está mentindo e os Esquimós não existem, pois minha teoria está certa e simples fatos não irão mudar isso”.

Vocês percebem? Não é necessário saber o COMO e o PORQUÊ os carboidratos são desnecessários na dieta – o simples fato de saber que muitas pessoas (além, é claro, da totalidade dos nossos antepassados) passam a maior parte da vida sem consumir nenhum carboidrato e sobrevivem já PROVA que os carbs são desnecessários. A verdadeira ciência consiste em buscar as teorias que melhor expliquem os fatos, e não os fatos que corroborem nossas teorias pré-concebidas.

Mas eu não vou deixá-los em suspense. Eis o que permite que eu lhes escreva este artigo (e permaneça vivo!) sem ter comido carboidratos:

  • O cérebro efetivamente precisa de glicose, MAS ninguém disse que esta glicose precisa vir da comida;
  • Se nossos antepassados precisassem comer carboidratos a espécie humana estaria extinta, pois, como vocês sabem, os carboidratos eram escassos no paleolítico;
  • Assim, o simples fato de estarmos aqui hoje já indica que nosso corpo é capaz de sintetizar glicose a partir de outros macronutrientes;
  • Como já referi em outras partes do blog, existem aminoácidos essenciais e gorduras essenciais, mas não existe NENHUM carboidrato essencial – ou seja, trata-se de um nutriente COMPLETAMENTE opcional na dieta humana. E por quê? Porque senão teríamos sido extintos há 2 milhões de anos. Deu para entender a lógica circular?
  • Nosso fígado é capaz de fabricar 200g de glicose por dia, mais do que os 120 que o cérebro precisa.
  • Além disso, quando passamos a utilizar gordura como fonte de energia (capacidade esta que temos, caso contrário eu, os esquimós e nossos antepassados morreríamos), produzimos corpos cetônicos.
  • Os ácidos graxos (gorduras) não podem chegar diretamente ao cérebro, pois são moléculas grandes, mas os corpos cetônicos podem. Os neurônios podem metabolizar perfeitamente os corpos cetônicos. Aliás, há estudos in vitro que mostram que o combustível preferido dos neurônios são os corpos cetônicos, e não a glicose.
  • Em pessoas ceto-adaptadas (que estão acostumados a queimar gordura para energia), o cérebro deriva apenas metade de sua energia na forma de glicose – o restante vem de corpos cetônicos.

Eu poderia encerrar aqui, mas eu quero colocar o último prego nessa questão

Você sabe qual o recorde de jejum? Qual o jejum mais longo jamais registrado?

382 dias

Isso mesmo, 382 dias sem comer nada. Foi registrado no Guinness de 1971, e está minuciosamente relatado em um artigo médico publicado em 1973. Olhem que coisa fantástica:

Tratava-se de um paciente de 27 pesando 207 Kg que apresentou-se ao médico (Dr. Stewart, na Escócia) no final da década de 1960 para emagrecer. A ideia original era conduzir um jejum de alguns dias, sob supervisão médica, mas como o paciente adaptou-se incrivelmente bem ao jejum, o experimento foi prolongado. O paciente consumia líquidos não calóricos à vontade, e multivitamínicos e eletrólitos. No início, ele permaneceu internado, mas depois apenas fazia visitas ambulatoriais. 

Em 382 dias, houve uma perda de 125 Kg (média de 325g por dia), culminado em um peso final de 81 Kg. Cinco anos após o jejum, o paciente ainda mantinha um peso de 88 Kg.

Bem, este paciente não apenas ficou MAIS DE UM ANO sem comer carboidratos, ele ficou 382 dias sem comer NADA. E o cérebro?? Os nutricionistas não afirmam que você precisa comer 6 servidas diárias de pães, massas, bolos, cereais, arroz, batata, caso contrário seu cérebro não terá energia? Pois é…

Este é o gráfico da variação da glicose durante os 382 dias. E sim, você não está vendo errado: durante os últimos 8 meses, a glicose do paciente permaneceu perto ou abaixo de 30 mg/dl. E ele estava muito bem, vinha e voltava da consulta a pé. Não tremia, não passava mal, não estava em coma. Como é possível?? Bom, já sabíamos que era possível, se não nós não estaríamos aqui – nossos antepassados passavam por períodos de jejum, e sobreviviam graças aos corpos cetônicos – ou vocês realmente acham que os homens das cavernas faziam uma refeição (de carbs) a cada 3 horas?

Olhe de novo o gráfico e LEMBRE: o cérebro consegue viver com um mínimo de glicose, quando pode usar corpos cetônicos em seu lugar. Olhe de novo e LEMBRE de novo: o cérebro NÃO depende exclusivamente de glicose – precisa apenas de um pouco, e fígado pode produzir MUITO mais que esta necessidade. No mundo atual, uma pessoa que passou a vida inteira comendo carboidratos de 3/3 horas atrofiou sua capacidade de usar gordura como combustível. Assim, se ficar umas horas sem comer, desmaia. Mas isto é um estado doentio que só existe na nossa sociedade doentia. Seres humanos saudáveis e ceto-adaptados (adaptados e consumir gordura e corpos cetônicos como fonte de energia) toleram a ausência de açúcar e períodos de jejum como QUALQUER outro animal.

Infelizmente, a maioria dos médicos e nutricionistas têm uma inabalável nos errôneos e dogmáticos conhecimentos que aprenderam sobre nutrição. E a palavra é essa: . E, como dizia Carl Sagan: 

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”