Comida de gente grande.

Quando eu era pequeno, não existiam essas casas de festas que inflacionam os aniversários de nossos filhos. Aniversário de criança era algo que se fazia em casa. Servia-se todo o tipo de guloseima, regada a refrigerante. E todas essas coisas eram vistas como o que eram: guloseimas, para consumo APENAS naquele dia, e naquela circunstância. Afinal, era o aniversário do júnior. E mesmo assim, isso era na mesa das crianças. Porque a mesa dos adultos era diferente, mas sofisticada. Havia água e bebidas alcoólicas, petiscos característicos de um coquetel, torta fria, etc. As pessoas bebiam, fumavam e beliscavam estes petiscos. Era o mundo dos adultos, nos anos 1970.

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Algum tempo atrás, registrei o lanche que é servido na sala dos médicos no bloco cirúrgico de um grande hospital da cidade. Vejam: isto é o que é considerado um lanche saudável, em um ambiente frequentado exclusivamente por cirurgiões e anestesistas:

É o pesadelo nutricional. Exclusivamente carboidratos, e dos piores tipos: farinha de trigo refinada, açúcar adicionado, recheios com gordura vegetal hidrogenada (gordura trans) – se os americanos tivessem jogado isso no Vietnam, teriam ganho a guerra.

Não há esperança de que isso mude num futuro próximo, em um ambiente frequentado por centenas de médicos com grande fé na pirâmide alimentar. O segredo é tentarmos influenciar as pessoas uma a uma, em círculos mais restritos (amigos, família, ambientes de trabalho menores). À medida que os resultados tornam-se evidentes, a ideia vai-se espalhando.

Há locais em que podemos exercer uma influência positiva. Locais menores, nos quais o número de colegas é suficientemente pequeno para que possamos produzir uma mudança de hábitos.

A foto abaixo é de uma clínica de diagnóstico na qual trabalho fazendo exames. O lanche dos funcionários era algo semelhante à foto acima. Após uma palestra que dei na semana passada para os colegas interessados, qual não foi minha surpresa com o lanche da tarde de hoje?

O pessoal acabou com esse prato em questão de 15 minutos – e todos ficaram com a maravilhosa sensação de saciedade e paladar que comida de verdade proporciona. E alguns colegas que não haviam participado da palestra também se interessaram – nada como um exemplo prático para despertar a curiosidade.

Comparando as duas fotos, me ocorreu uma coisa: a indústria alimentícia conseguiu dois grandes feitos:

1) conseguiu estabelecer na cabeça das pessoas que crianças podem e devem comer porcarias totais, todos os dias. Biscoitos recheados, por exemplo. Não daríamos isso ao nosso cachorro, por receio de que lhe fizesse mal. Mas damos às crianças. Provavelmente, nossas crianças estariam bem mais seguras comendo a ração do cachorro;

2) conseguiu convencer os ADULTOS a comer comida de criança. Sim, pois quando eu era pequeno, as guloseimas mostradas na primeira foto eram consumidas apenas em festas de aniversário. Ninguém comia isso todos os dias. E foi isso que pensei, quando vi o prato da foto de baixo: “isto é comida de gente grande”, poderia ser servida em um coquetel com um bom espumante.

A indústria alimentícia conseguiu transformar a alimentação das crianças em uma eterna festa de aniversário, para em seguida infantilizar a todos nós – todos estão liberados para beber refrigerante todos os dias, comer biscoitos recheados, barras de chocolate e pacotes de balas no ambiente de trabalho sem nenhum constrangimento – isto causaria estranhamento até um passado recente.

Talvez nos falte, no fundo, apenas isso: crescer. Comer comida de adulto, comer como “gente grande” – comida de verdade.