Tratamentos e causas

Falácias lógicas: comuns entre pinguins e profissionais de saúde

É bastante comum ouvir das pessoas um questionamento que soa mais ou menos assim: “se os carboidratos engordam, por que os japoneses, que comem tanto arroz, são magros?”; Ou “se o pão e o trigo são problemáticos, por que as pessoas eram bem mais magras antes de 1977, se naquela época já se comia pão?”; Ou ainda “os franceses comem mais gordura e têm menos doenças cardíacas e são mais magros (o chamado “paradoxo francês), mas eles comem pão – por que então não são gordos“?

1977 – o ano em que a pirâmide alimentar foi introduzida; marca o início da epidemia de obesidade e diabetes, na medida em que as pessoas começaram a comer menos gordura e mais carboidratos. Reproduzido de The Smarter Science of Slim, Jonathan Bailor.

O problema com este tipo de raciocínio é uma falácia lógica (non sequitur). Observem o seguinte exemplo:

Quando uma pessoa está com dor de cabeça, esta dor costuma passar com Aspirina. Isto significa que a CAUSA da dor de cabeça é FALTA de Aspirina no corpo?

Cuidado – lógica falha pode ser mortal

Pense um pouco – a conclusão da frase acima é absurda. Afinal, ninguém sofre de falta de aspirina, pois aspirina não existe normalmente no corpo de ninguém. No entanto, este pensamento falacioso está por trás dos sofismas do primeiro parágrafo desta postagem.

Lógica da maioria dos médicos e nutricionistas

Vejamos este exemplo:

Quando uma pessoa está obesa, restringir carboidratos costuma resolver o problema. Japoneses comem arroz, que é um carboidrato, mas não são gordos. Isto significa que não é necessário restringir arroz para perder peso.

Percebem a falácia lógica? Aquilo que usamos para resolver um problema não precisa ser, necessariamente, a causa do problema!

Veja, a causa da dor de cabeça não é falta de aspirina; não obstante, a aspirina é eficaz para aliviar a dor de cabeça. A dor de cabeça pode ser causada, por exemplo, por ter bebido muito vinho na véspera. Mas agora que você já bebeu, e a dor já está aí, a aspirina pode ajudar.

O consumo de arroz, por si só, não causa obesidade na maioria das pessoas. A obesidade pode ter sido causada, por exemplo, pelo consumo excessivo de farináceos e açúcar por vários anos. Mas, agora que você já engordou, e a obesidade já está instalada, a restrição de carboidratos (inclusive de arroz) pode ajudar.

Muito da confusão que recai sobre as discussões a respeito de nutrição e saúde advém destes erros elementares de argumentação e lógica.


Assim, mais uma vez eu insisto – tudo depende da situação e dos objetivos. As pessoas não engordaram porque comeram muitas frutas, muito arroz, muita batata doce. Elas engordaram depois de anos de abuso de açúcar e farináceos (pães, macarronadas, bolos, tortas, refrigerantes e doces diversos) no contexto de uma genética desfavorável. AGORA, depois que você atingiu um grau elevado de dano metabólico, com obesidade, pré-diabetes ou diabetes e síndrome metabólica, apenas restringir os doces e pão branco pode ser insuficiente, e pode ser necessário restringir severamente os carboidratos de uma forma geral para ter resultados realmente bons. Fazendo um paralelo com o exemplo da aspirina, você não engordou por FALTA DE LOW CARB na juventude. Mas uma vez que você tenha engordado, LOW CARB é a melhor solução terapêutica.

De uma forma geral, pessoas não engordam mesmo que comam um monte de carboidratos, desde que sejam carboidratos mais próximos àqueles com os quais evoluímos – frutas e raízes, até mesmo grãos integrais (embora estes últimos possam ter outras implicações para a saúde que vão além de gordura). Mas depois de feito o estrago, a intervenção (restrição de carboidratos) passa a ser terapêutica.

Ou seja: uma dieta de baixo índice glicêmico, rica em hortaliças e frutas, e com maior quantidade de proteínas e gorduras, sem açúcar adicionado aos alimentos e sem farináceos refinados seria extremamente saudável e evitaria que as pessoas adoecessem – mas isto é praticamente a definição de uma dieta paleolítica (fora os grãos). E esta é a dieta adequada para pessoas saudáveis. Mas para pessoas doentes devido ao hiperinsulinismo crônico, o que funciona mesmo é cortar os carboidratos, e a ciência é absolutamente cristalina no que diz respeito a 1) eficácia da intervenção e 2) segurança da intervenção, conforme demonstra ampla literatura baseada em estudos de nível de evidência 1.

Não quero jamais deixar implícito que uma dieta cetogênica é a dieta que deveria ser adotada por jovens atletas saudáveis e magros – isso seria tolice (já dieta paleolítica, descrita no parágrafo acima, é a ideal, penso). Mas as críticas feitas por alguns profissionais de saúde (“faz mal para os rins“, ou “faz mal para os ossos“, faz “perder massa muscular“, etc) são coisas ridículas e pueris, algo que se esperaria de uma conversa de bar, e não de pessoas que cursaram uma universidade em áreas afins à saúde e fisiologia humanas.