Consequências não antecipadas e incentivos perversos

Em sistemas simples, com poucas e isoladas variáveis, é possível manipular tais variáveis com consequências previsíveis. Mas, à medida que os sistemas crescem em complexidade, a noção de que seja possível controlar os efeitos manipulando-se variáveis torna-se ingênua, quando não perigosa.

Na física isto é estudado pela teoria do caos. O exemplo clássico é o clima, no qual o número de variáveis é incontável, e pequenas perturbações iniciais podem desencadear efeitos imprevisíveis.

Mas é na economia que encontramos o conceito mais fascinante para analisarmos o impacto de condutas em saúde pública: a Lei das Consequências Não-Antecipadas.

A lei das consequências não antecipadas (ou não pretendidas) indica que, em um sistema altamente complexo, como o corpo humano, um sistema ecológico ou uma sociedade, intervenções levadas a cabo com um objetivo em mente, frequentemente produzirão desfechos completamente diferentes dos que se pretendia. Para se obter os desfecho necessário, frequentemente usam-se incentivos. Em economia, incentivos que levam à consequências não antecipadas desastrosas são denominados incentivos perversos.

Vejamos alguns exemplos clássicos, retirados da wikipedia:

  • Em Hanói, Vietnam, durante o jugo colonial francês, as autoridades francesas decidiram resolver o problema da infestação de ratos na cidade (boa intenção). Para isso, bolaram um plano engenhoso: pagar uma soma em dinheiro (incentivo perverso) para cada pessoa que lhes trouxesse uma cauda de rato. O objetivo era exterminar os ratos. A consequência? As pessoas começaram a criar ratos em casa, para ganhar mais dinheiro (consequência não antecipada).
  • Paleontólogos no século 19 descobriram que havia muitos fósseis pré-históricos na China. Para aumentar as chances de encontrar novas espécies (boa intenção)  ofereceram uma soma em dinheiro para cada osso que os camponeses lhes entregassem (incentivo perverso).  A consequência? Cada vez que um chinês encontrava um fóssil inteiro, preservado, ele o quebrava em vários pedaços, de modo que podia ganhar mais dinheiro do que se entregasse o fóssil inteiro (consequência não antecipada).
  • Uma lei para a proteção das espécies ameaçadas (boa intenção)  nos EUA, ordena que se faça uma inspeção nos terrenos em que se pretende construir. Se forem encontradas espécies ameaçadas naquele terreno, o projeto de construção é abortado. A consequência? As pessoas exterminam todo e qualquer bicho ou planta rara em seu terreno, de modo que a inspeção não corra o risco de achar nada (consequência não antecipada).

Uma coisa que me fascina é o fato de que, uma vez que a coisa já tenha acontecido, e que alguém tenha nos apontado a consequência desastrosa (porém não-antecipada), essa consequência parece óbvia. Mas, ANTES da intervenção, as consequência são, muitas vezes, imprevisíveis.

O fenômeno que vivemos hoje, esta epidemia sem precedentes de síndrome metabólica, diabetes e obesidade, é uma consequência não-antecipada de uma intervenção que tinha a melhor das intenções – a orientação de cortar a gordura da dieta.

Afinal, na época havia a teoria de que a gordura na dieta causava doença cardiovascular (teoria que hoje já se sabe errada – clique aqui,aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,aqui,aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

A pergunta, FATAL, na época, era: QUE MAL poderia haver em cortar a gordura da dieta? Afinal, na pior das hipóteses, não mudaria nada, e na melhor das hipóteses, salvaria milhões de vidas.

No vídeo abaixo, eu legendei um pequeno trecho do documentário Fat Head, de Tom Naughton, no qual este raciocínio pode ser apreciado nas palavras do Senador McGovern, o presidente do comitê do Senado americano que acabaria por nos lançar nesta enrascada: 

“Eu só quero argumentar que nós, senadores, não temos o luxo que os cientistas têm de poder esperar até que o último pedaço de evidência esteja estudado”.

Ah, se eles conhecessem a lei das consequências não antecipadas!! Porque esta frase contém em si a essência do desastre! Veja, se decisões bem pensadas, e baseadas em ciência sólida, ainda assim têm grande probabilidade de redundar em consequências não antecipadas, que dizer de uma decisão apressada de políticos que “não têm o luxo de poder esperar pela ciência”?

E não foi por falta de aviso. O Dr. Philip Handler, Presidente da Academia Nacional de Ciências à época, citado no vídeo acima, proferiu as seguintes palavras:

“Que direito tem o Governo Federal de propor que o povo americano conduza um vasto experimento nutricional, tendo a si mesmos como cobaias, com base em evidências tão fracas de que isso possa lhes trazer qualquer benefício?”

Sábias palavras, sabemos hoje. E que “vasto experimento nutricional foi esse?” A dieta low fat (de baixa gordura) – algo jamais antes tentado na história da humanidade. Repito, NUNCA antes o gênero humano tentou, propositalmente, evitar a gordura na dieta. Mas ninguém podia antecipar, no final do anos 1970, as consequências desastrosas do que estava por vir…

A seta marca a introdução das diretrizes nutricionais pelo governo americano, a linha cinza marca o consumo de gordura na dieta, e a linha preta marca o percentual de pessoas acima do peso nos EUA. O que saiu errado?? 

Vou recapitular aqui a história dos colonizadores franceses no Vietnam:

  • Em Hanói, Vietnam, durante o jugo colonial francês, as autoridades francesas decidiram resolver o problema da infestação de ratos na cidade (boa intenção). Para isso, bolaram um plano engenhoso: pagar uma soma em dinheiro (incentivo perverso) para cada pessoa que lhes trouxesse uma cauda de rato. O objetivo era exterminar os ratos. A consequência? As pessoas começaram a criar ratos em casa, para ganhar mais dinheiro (consequência não antecipada).

Nos EUA, nos anos 1970, o governo resolveu que cortar a gordura da dieta seria algo bom (boa intenção)  O objetivo seria reduzir os problemas cardíacos. A consequência? As pessoas começaram a comer cada vez mais carboidratos (consequência não antecipada). E os incentivos perversos? Foram dados à indústria alimentícia, que começou a lançar todo o tipo de produto light e diet, cada vez mais processados, cada vez mais artificiais, cada vez mais low fat, cada vez mais cheio de carboidratos!!

A comida de verdade

…deu lugar à comida processada, low fat, high carb


…e as consequências não antecipadas não tardaram a aparecer:

Seta: introdução das diretrizes

Linha cinza: consumo de gordura na dieta

Linha preta: consumo de carboidratos

Área Cinza: percentual de pessoas acima do peso

Seta: introdução das diretrizes

Linha cinza: consumo de gordura na dieta

Linha preta: consumo de carboidratos

Área Cinza: percentual de pessoas diabéticas

E qual a saída para não repetirmos o erro?

A evolução por seleção natural. Diferente da arrogância intelectual que nos leva à ilusão de que somos capazes de prever todos os cenários possíveis que podem decorrer de nossas intervenções em sistemas complexos – já vimos vários exemplos acima mostrando que as consequências não-antecipadas são inevitáveis – a evolução já testou virtualmente TODAS as combinações de circunstâncias possíveis em um intervalo de milhões de anos. Como já aludi em postagem prévia, não é necessário conhecimentos de biologia para saber qual a composição ideal da atmosfera para um ser humano – é aquela com a qual evoluímos. Da mesma forma, não precisamos estudar os efeitos deletérios da falta de gravidade nos astronautas para sabermos, com certeza absoluta, que a gravidade ideal para o ser humano é a da terra – nem mais, nem menos – pelo simples fato de que foi com ela que evoluímos.

Resulta que a evolução, pelo simples fato de lidar simultaneamente com todas as variáveis existentes e com todas as suas interações, atuando num período de tempo de escala geológica, consegue resolver da única forma possível o dilema das consequências não-antecipadas: ela não antecipa nada, testa tudo, e elimina o que não deu certo. Em uma escala suficientemente longa de tempo, o que restou é o que dá certo. Simples assim.

A atmosfera ideal é a da terra, pois é aquilo que o gênero humano sempre respirou; a gravidade ideal é aquela sob a qual o gênero humano se desenvolveu; e a dieta ideal é aquela com a qual o gênero humano evoluiu. Qualquer grande desvio tem altas chances de produzir consequências não-antecipadas. Não seja mais uma cobaia – coma páleo.