É ZERO, mesmo?

Uma das grandes vantagens da comida de verdade é a ausência de rótulos.

Mas os rótulos não servem para nos deixar mais seguros? Para sabermos exatamente o que estamos comendo. NÃO. Como já escrevi em outra postagem sobre o assunto, os rótulos são peças de ficção com o objetivo explícito de lhe passar a perna. Comida de verdade não tem rótulo e, portanto, não mente.

Você sabe que um ovo tem proteína e gordura. Você sabe que uma batata tem montes de carboidratos. Você sabe que abacaxi tem açúcar. Mas você não faz ideia do que está dentro de uma embalagem, e a lei permite que o fabricante esconda a informação. De que forma?

1) Na tabela de Informações Nutricionais, qualquer coisa que pese menos do que 0,5g pode, por lei, ser considerada como ZERO

2) As informações nutricionais referem-se a UMA PORÇÃO, e não à totalidade da embalagem

3) O fabricante determina o que é uma porção.

Vamos a um exemplo. Toda a margarina (essa abominação) contém gorduras trans – é o produto natural da hidrogenação parcial dos óleos vegetais (o FDA está finalmente considerando bani-las nos EUA). Então, como é possível que haja margarinas no mercado anunciando conter ZERO de gordura trans?? É MUITO fácil!!

Digamos que 100g de margarina contenham 4,9g de gordura trans. Como eu faço para poder dizer que é ZERO, sem mudar nada na fórmula do produto?? Simples! Basta eu definir que uma PORÇÃO de margarina são DEZ gramas.

Se 100g contém 4,9g de gordura trans, 10g contém 0,49g de gordura trans. A a lei permite arredondar este valor para ZERO (afinal, é menos de 0,5g). Não é lindo?

O creme de leite de latinha, por exemplo, que alega ter ZERO gramas de carboidrato, será que tem mesmo? Um leitor deste blog ligou para o fabricante e descobriu que uma lata tem 9g de carboidratos. Então, porque o rótulo diz ZERO? Porque a porção a que o rótulo se refere é de 15 gramas, enquanto a lata de 395g de produto. E isso dá menos de 0,5g por porção.

E tem mais.

A legislação permite escrever ZERO açúcar no rótulo de um produto, independentemente do efeito que este produto possa ter no açúcar no sangue de um diabético (ou de você que quer perder peso). Como é que é?? Isso mesmo. Veja como.

Há várias substâncias que podem elevar a glicose no sangue e que não são, tecnicamente, açúcar. Nosso velho AMIDO é o exemplo mais óbvio (por isso não comemos farinhas em uma dieta low carb). Mas fique atento para 2 outros componentes:

A maltodextrina é um polímero de glicose. É rapidamente absorvida e eleva a glicose no sangue de forma extremamente rápida. É tão eficiente nisso, que é usada como suplemento por fisiculturistas que desejam um grande pico de insulina para aumentar o anabolismo. E a indústria coloca isso onde? Em um produto destinado a DIABÉTICOS!

Eis o que ocorre. Maltodextrina, tecnicamente, não é açúcar. Tudo bem, transforma-se em açúcar em segundos após entrar na sua boca mas, por lei, não é açúcar. O açúcar não serve apenas para adoçar. Ele serve para dar textura nas receitas, para da o “ponto”. Ou seja, você não pode simplesmente pegar uma receita que pede 4 colheres de sopa de açúcar e trocar por 20 gotas de sucralose. Pode até ser que adoce tanto quanto, mas vai desandar, não terá a textura correta.

Então, para suprir esta deficiência, a indústria resolve fazer um adoçante de forno e fogão. Desses que você adapta a receita com facilidade, pois pode usar a mesma quantidade do adoçante. Por exemplo, se a receita original pede 4 colheres de sopa de açúcar, você usa 4 colheres de sopa do adoçante de forno e fogão.

Mas precisa ser algo que tenha as mesmas propriedades químicas do açúcar – que tenha a mesma textura, que caramelize ao ser assado, etc. E a solução é… usar açúcar, é claro! Mas um açúcar que, por lei, possa ficar escondido. Entra aí a MALTODEXTRINA. Ela é açúcar (segundos após sua ingestão), mas o fabricante pode colocar no rótulo ZERO açúcar. Como a maltodextrina não tem gosto, eles então acrescentam adoçantes artificiais à mistura para que seja doce. É o pior de todos os mundos: você está usando açúcar (maltodextrina), com todos os malefícios que isso pode lhe trazer, mas o gosto é de adoçante, ou seja, nem mesmo o benefício do sabor você recebe em troca!

Já vi vários pacientes que permaneciam com triglicerídeos elevados após um período em low carb (um marcador de que há açúcar escondido) e, quando perguntei, descobri que estavam fazendo todo o tipo de guloseimas usando essa coisa na receita.

O que fazer??

Troque isso:

 

Por isso:

Esta segunda foto é composta por comida de verdade. Que não quer lhe enganar e não precisa de rótulos. Nem tudo nessa foto é low carb. Mas você sabe, só de olhar, o que é e o que não é.