A semana das manchetes positivas – 4 – Reduzir a gordura saturada da dieta não é bom para o coração

Continuando com a série de manchetes indicativas de que o paradigma parece estar mudando, a manchete de hoje saiu publicada no Science Daily, um site dedicado a notícias científicas, completamente “mainstream”, isto é, não se trata de um site dedicado a publicar visões alternativas.

Eis a notícia original:

ScienceDaily: Your source for the latest research news

Estava começando a traduzir o texto, mas vi que a notícia já começou a aparecer nos sites de notícias brasileiros. E, claro, o Hilton Sousa, do www.paleodiario.com, me mandou a tradução completa ainda ontem à noite! Vamos ao texto:

Uma dieta de baixa gordura saturada não reduz o risco cardiovascular nem lhe ajuda a viver mais.

Fonte: BMJ – British Medical Journal

Resumo: Uma dieta de baixa gordura saturada não reduz o risco cardiovascular nem lhe ajuda a viver mais, diz um dos principais cientistas de pesquisa cardiovascular dos EUA. E as atuais diretrizes no sentido de substituir a gordura saturada com carboidratos ou gorduras poliinsaturadas ricas em ômega-6 são baseadas em dados falhos e incompletos dos anos 1950, argumenta o autor. As diretrizes dietéticas deveriam ser urgentemente revisadas e a vilanização das gorduras saturadas deveria ser interrompida a fim de salvar vidas, ele insiste.

Uma dieta de baixa gordura saturada não reduz o risco cardiovascular nem lhe ajuda a viver mais, diz um dos principais cientistas de pesquisa cardiovascular dos EUA e doutor em farmacologia em um editorial na revista científica Open Heart.

E as atuais diretrizes no sentido de substituir a gordura saturada com carboidratos ou gorduras poliinsaturadas ricas em ômega-6 são baseadas em dados falhos e incompletos dos anos 1950, argumenta o Dr. James DiNicolantonio.

As diretrizes dietéticas deveriam ser urgentemente revisadas e a vilanização das gorduras saturadas deveria ser interrompida a fim de salvar vidas, ele insiste.

DiNicolantonio aponta que a demonização da gordura saturada começou em 1952, quando uma pesquisa sugeriu uma ligação entre alto consumo de gordura saturada e mortes por doença cardíaca.

Mas o autor do estudo tirou suas conclusões de dados de 6 países, escolhendo ignorar os dados outros 16, que não se encaixavam em sua hipótese, e que uma análise subsequente dos dados dos 22 países a invalidava, diz DiNicolantonio.

Entretanto, a imagem de gordura ruim permaneceu, particularmente após o presidente americano Einsenhower sofrer um infarto por volta dos 50 anos, aponta DiNicolantonio em um podcast.

E isso desencadeou a crença de que, uma vez que essas gorduras aumentam o colesterol total – uma teoria também falha, diz DiNicolantonio – elas também deveriam aumentar o risco de doença cardíaca. E sendo estas as comidas com a mais alta densidade calórica, a ideia era a de que reduzir a sua ingesta iria naturalmente diminuir a obesidade, diabetes e síndrome metabólica.

Mas a evidência, que continua a se acumular, sugere o contrário, diz ele.

Há agora um argumento forte indicando que o consumo de carboidratos refinados seja o principal fator dietético causador da epidemia de obesidade e diabetes nos EUA, diz ele.

E enquanto uma dieta pobre em gordura pode reduzir o colesterol “ruim” (LDL), há dois tipos de LDL. E mudar para carboidratos pode aumentar o padrão B de LDL (partículas pequenas e mais densas), que é mais danoso à saúde do coração que o padrão A de LDL (partículas maiores e menos densas), bem como criar um perfil lipídico mais desfavorável, diz ele [nota do tradutor: em outras palavras, nem todo o colesterol alto representa risco, e o tipo de partícula de LDL realmente perigoso aumenta com o consumo de carboidratos, e não de gorduras].

Além disso, diversos outros estudos indicam que uma dieta com pouco carboidrato é melhor para perda de peso e para controle do perfil lipídico que uma dieta pobre em gordura, enquanto grandes estudos observacionais não encontraram nenhuma prova conclusiva de que uma dieta com pouca gordura reduza o risco de doença cardiovascular, complementa.

Mas na corrida para cortar a ingesta de gordura saturada, diversas diretrizes dietéticas recomendam aumentar o consumo de gordura poliinsaturada.

Entretanto, uma análise recente de dados publicados de ensaios clínicos randomizados mostra que substituir as gorduras saturadas e gorduras trans por ácidos graxos ômega-6 [óleos de sementes], sem um aumento correspondente em ácidos graxos ômega-3, parece aumentar o risco de morte por doenças coronariana e cardiovascular.

“Precisamos de uma campanha de saúde pública tão forte quanto a que tivemos nos anos 70 e 80, demonizando a gordura, para dizer que estávamos errados”, DiNicolantonio salienta no podcast.

A melhor dieta para melhorar e manter a saúde cardíaca é uma pobre em carboidratos refinados, açúcares e comidas processadas, recomenda.

E qualquer um que tenha tido um infarto não deveria estar pensando em trocar as gorduras saturadas por carboidratos refinados ou ácidos graxos ômega-6 – particularmente aqueles encontrados em óleos vegetais contendo grandes quantidades de milho ou cártamo, diz.

Fonte da história: a história acima é baseada em material publicado pelo BMJ-British Medical Journal. Nota: Materiais podem estar editados em conteúdo ou comprimento.

Referência:

J. J. DiNicolantonio. As consequências cardiometabólicas de substituir gorduras saturadas por carboidratos ou gorduras ômega-6 poliinstaturadas: As diretrizes dietéticas entenderam tudo errado ? Open Heart, 2014; 1 (1): e000032 DOI:10.1136/openhrt-2013-000032

Na site IG, temos uma entrevista com o Dr. DiNicolantonio:

http://saude.ig.com.br/minhasaude/2014-03-08/dieta-pobre-em-gordura-nao-reduz-risco-de-doenca-cardiaca-diz-pesquisador.html

Dieta pobre em gordura não reduz risco de doença cardíaca, diz pesquisador

Por Maria Fernanda Ziegler – iG São Paulo 

Texto

Aconselhamento atual de substituir gorduras saturadas na dieta estaria baseado em dados falhos da década de 1950

Arquivo pessoal

James DiNicolantonio é autor do editorial publicado no periódico científico Open Heart

A guerra entre manteiga e a margarina, ou entre a dieta da gordura vegetal e a da gordura animal, ganhou mais um capítulo na semana passada. O editorial do periódico científico Open Heart, do considerado British Medical Journal, afirma que a dieta pregada pela Associação Americana de Cardiologia, pobre em gordura saturada (gordura presente principalmente em produtos de origem animal), não diminui os riscos de doenças cardíacas, nem ajuda a obter uma vida mais longeva.

No editorial,o cientista cardiovascular James DiNicolantonio afirma que o aconselhamento atual de substituir as gorduras saturadas na dieta é baseado em dados falhos e incompletos da década de 1950. A Associação Americana recomenda o consumo limitado de gordura saturada em menos de 7% do total de calorias diárias e prega a substituição de gordura animal por gordura vegetal.

Veja abaixo entrevista concedida por James DiNicolantonio:

iG: Por que você decidiu escrever este editorial?

James DiNicolantonio: Eu queria passar a mensagem correta, pois acredito que muitas pessoas estão sendo prejudicados pelas atuais orientações. As pessoas precisam saber quão ruim é para a saúde comer açúcar, carboidratos refinados e determinados óleos vegetais processados.

iG: Por que dietas pobres em gordura saturada não refreiam o risco de doenças cardíacas nem ajudam a viver mais?DiNicolantonio: A gordura saturada é a gordura estável e menos suscetível ao ataque de radicais livres, assim cozinhar com mais óleos vegetais também não é uma boa ideia, já que os óleos são provavelmente altamente oxidados quando ingeridos. Quando a gordura saturada é substituída por carboidratos refinados, há um aumento na resistência à insulina. Isto causa o surgimento de partículas pequenas e densas de LDL, o mau colesterol, (que oxidam mais facilmente do que as partículas grandes de LDL) e também o maior acúmulo de gordura visceral (obesidade), inflamações no corpo e promove a doença cardiovascular. Se as gorduras saturadas são substituídas por óleo de milho ou de cártamo, estes óleos se incorporam ao LDL, o que faz o LDL muito mais suscetível à oxidação.

iG: Que explicação os cientistas deram em 1950 para afirmar que gordura saturada era prejudicial para a saúde?

DiNicolantonio: Em 1953, Ancel Keys publicou um estudo chamado “As seis cidades” [seis países, na verdade] que sugeria que quanto mais calorias de gordura uma pessoa consome, maior é o risco de ter doenças cardíacas degenerativas. Porém, o estudo tinha um problema: pegava apenas seis cidades, quando havia informações sobre 22 cidades. Cinco anos depois de este estudo ser publicado, dois autores publicaram os dados completos das 22 cidades e a relação entre gordura e doenças cardíacas diminuiu muito.

iG:O estudo das seis cidades foi publicado nos anos 1950. Por que esta relação entre gordura saturada e doenças cardíacas ainda é levada em conta atualmente?

DiNicolantonio: Há provavelmente uma porção de razões para isto. Uma delas e, talvez a primeira, é que nos Estados Unidos, nós não queremos admitir que estávamos errados. Mesmo que isso seja tão óbvio. Veja que uma vez que a orientação promoveu a redução de gordura saturada, houve o aumento do consumo de carboidratos refinados e de açúcares, que estão diretamente relacionados com o aumento da obesidade e diabetes. A segunda razão estaria ligada ao fato de muitas orientações de dieta serem tendenciosas e não terem revisões sistemáticas e de meta-análises. Geralmente elas partem de uma noção preconcebida. Promove-se ensaios que apoiam uma ideia e rejeitam os ensaios que não apoiam esta teoria.

iG: Qual foi o motivo desta demonização da gordura saturada? De onde partiu isso?

DiNicolantonio: Quando o presidente americano Eisenhower teve seu primeiro ataque cardíaco, os americanos ficaram desesperados por uma explicação sobre o que causava doenças cardíacas. Nesta época, foi pensado, pela primeira vez, que a gordura animal aumentava o colesterol e que a gordura vegetal o reduzia. Também se pensou que quanto maior o nível de colesterol de uma pessoa, maior o risco de ela ter doenças cardíacas. Então, chegou-se a conclusão de que baixando a gordura animal na dieta diária, substituindo alimentos ricos em gordura saturada por gordura vegetal, isto diminuiria o risco de doenças cardíacas por baixar o colesterol. Porém, esta teoria já se mostrou significativamente falha.

iG: Que estudo recente prova que esta teoria estaria errada?DiNicolantonio: A pesquisa mais recente que temos é a meta-análise publicada em 2013 por Chris Ramsden no British Medical Journal. Nesta pesquisa ele demonstrou que ao substituir gordura saturada, mais gordura trans, por gorduras omega-6, principalmente óleo de milho e cártamo, cresceram os riscos de morte por doença coronária e cardiovascular em quase 10 mil pacientes que participaram de ensaios clínicos randomizados.



iG: O senhor acredita que o aumento de doenças cardíacas na população está ligado a uma dieta pobre em gordura saturada?DiNicolantonio: Eu acredito que o aumento de doenças cardíacas na população é devido, principalmente, ao aumento de alimentos processados. Isto incluiria mais açúcar, mais carboidratos refinados e mais óleos vegetais processados.

iG: Qual a sua opinião a respeito da dieta mediterrânea, rica em peixe, frutas, verduras, legumes e cereais, e limitada em carnes vermelhas e laticínios?DiNicolantonio: A dieta mediterrânica tem baixo teor de açúcar e pouquíssimos alimentos processados ou carboidratos refinados, mas ninguém fala sobre este ponto importante. Ela também desbancou a dieta de baixo teor de gordura, pregada pela da Associação Americana de Cardiologia em dois ensaios clínicos. O estudo PREDIMED (Prevención con Dieta Mediterránea), indica uma redução maior na incidência de doenças cardiovasculares com uma dieta mediterrânea, comparada com uma dieta de baixo teor de gordura. O estudo que ficou conhecido como Lyon Diet Heart Study mostrou que a dieta mediterrânea reduz doenças cardiovasculares se comparada à dieta de baixa gordura saturada. Acho que também trata-se de algo sobre o estilo de vida de pessoas que vivem no Mediterrâneo e não apenas o que é consumido nestas regiões.