Revista Época – Gordura Sem Medo – repercutindo o livro Big Fat Surprise

Capa da revista Época que chega hoje às bancas – compre, leia, dê de presente.

Há cerca de 2 anos, eu fiz uma postagem comemorando uma reportagem da revista Veja:

É incrível o quanto evoluímos nestes dois anos!! A reportagem da Veja era tímida, cheia de ressalvas de vários especialistas. Eis o que escrevi na postagem de 2012:

“O Conteúdo da reportagem é misto. Não
fala praticamente nada sobre os carboidratos, e é comedido em suas
recomendações de quantidades “permitidas” de gordura. Mas, ainda assim,
faz um excelente trabalho ao deixar de demonizar a gordura na dieta. Ao
tratar sobre colesterol, são rasteiros e cometem inúmeros erros. Mas,
enfim, penso que a capa por si só faz MUITO para ajudar a aplacar a
“fatphobia”, a fobia da gordura.”

A reportagem da Época, ao contrário:

  • Explica em detalhes a história de como a fobia da gordura surgiu;
  • Conta a história de Ancel Keys, o pai da fobia da gordura;
  • Explica que os estudos mais bem feitos (prospectivos, randomizados – veja aqui e aqui) não corroboram essa fobia;
  • Explica que o grande problema são as consequências não antecipadas de ter substituído as gorduras por carboidratos;
  • Defende que o importante, mesmo é comer comida de verdade – fugir dos processados.
  • O único ponto negativo é a opinião de um conhecido cardiologista, que diz que “há estudos clássicos e rigorosos que comprovam a relação entre gordura saturada e altos níveis de colesterol”. Sim, isso é verdade, e isso é irrelevante, pois o que importa é que há inúmeros estudos de natureza mais rigorosa, do ponto de vista científico (prospectivos, randomizados), que mostram que seguir a orientação de reduzir a gordura na dieta não traz nenhum benefício em termos de mortalidade cardiovascular – ou seja, essa frase encapsula o problema que nos assola há décadas: a preocupação com o marcador (exame de sangue) em detrimento do desfecho realmente importante (morte), ignorando toda a evidência de que a intervenção para reduzir o primeiro (dieta de alto carboidrato) está aumentando o segundo (morte) via obesidade, síndrome metabólica e diabetes (LEIA ISSO).
  • A revista comenta ainda que “para cada artigo que diz que a gordura saturada não faz mal, há 10 que dizem o contrário”. Mesmo que isso fosse verdade, ciência não é uma competição de quem tem mais artigos, trata-se de uma área na qual há uma hierarquia de níveis de evidência. Como já expliquei em outras postagens, os estudos com maior nível de evidência indicam não haver ligação entre gordura (saturada ou não) e doença cardiovascular. Não importa quantos estudos observacionais existam – estudos experimentais, prospectivos e randomizados, sempre serão a última palavra, no que diz respeito a evidências.

 E não custa relembrar a icônica capa recente da revista TIME:

    Dois anos apenas se passaram, mas houve uma evolução radical na visão da imprensa em relação a uma abordagem que, até pouco tempo atrás, estava relegada a blogs (como o meu), e agora está completamente mainstream. O que aconteceu?

    O que aconteceu chama-se The Big Fat Surprise, o livro de Nina Teicholz, sobre o qual escrevi alguns meses atrás, e cuja postagem reproduzo na íntegra, abaixo:

    Há 7 anos, em 2007, era publicado o livro Good Calories, Bad Calories, de Gary Taubes. Em retrospecto e na minha opinião, este foi o mais importante livro sobre nutrição e saúde jamais escrito. Este livro, sozinho, com o peso de suas milhares de citações bibliográfica e de suas 600 páginas, mudou o equilíbrio do discurso nutricional nos anos que se seguiram. Se hoje pesquisadores famosos conseguem levar a hipótese alternativa aos periódicos científicos mais importantes do mundo, isso deve-se a esse JORNALISTA, Gary Taubes.

    Pois é novamente de uma jornalista que vem o livro mais importante da década, The Big Fat Surprise.

     

    Assim como os livros de Taubes, não se trata de um livro de dieta. Você não encontrará aqui receitas ou fases, alimentos proibidos ou permitidos. Não. Trata-se de uma magnífica narrativa sobre os fatos e pessoas que nos levaram a esta situação lamentável na qual nos encontramos, em que a diretrizes nutricionais estão de tal forma divorciadas do estado atual da ciência a ponto de sugerir que diabéticos consumam 60% de suas calorias na forma de glicose.

    Aqui você encontrará as repostas para a pergunta: “se todas as evidências apontam para um sentido, por que todos os especialistas afirmam o contrário?”

    O livro prende o leitor como se fosse uma obra de ficção. Nina consegue dar vida aos seus principais personagens e dar contexto histórico às suas ações e suas consequências.

    O capítulo sobre a dieta mediterrânea é especialmente fascinante e exemplifica, ao meu ver, como determinados conceitos emanados da cabeça de uma ou duas personalidades fortes podem tornar-se completamente hegemônicas e virais.

    O livro está tendo uma tremenda repercussão nos EUA – o que é bom, muito bom!  Veja alguns exemplos:

    Quando Gary Taubes lançou Good Calories, Bad Calories, o mundo foi pego de surpresa. A ideia de que a gordura faz mal (e, por conseguinte, de que deveríamos basear nossa alimentação em amido) era algo esculpido em pedra, com status de dogma. Taubes provocou as primeiras rachaduras neste consenso monolítico. Hoje, embora ainda permaneça grande e pesado, o consenso está desmoronando a olhos vistos.

    O livro de Nina Teicholz chega em outro contexto histórico. O mundo não estava preparado para Taubes – eram tempos sombrios. Mas o momento não poderia ser melhor para Nina. Para exemplificar o que quero dizer, reveja o tom destas manchetes recentes, inimagináveis há 7 anos: 

    Comidas “low fat” estão cheias de níveis “danosos” de açúcar,
    EUA propõem novos rótulos que ‘aceitam’ gordura e ‘demonizam’ açúcar, Gordura saturada não é a vilã para o coração, diz estudo,  Uma dieta de baixa gordura saturada não reduz o risco cardiovascular nem lhe ajuda a viver mais, Carboidratos e a glicose são prejudiciais para a saúde do cérebro.

    Sei que a década não acabou. Mas, até o momento, esse é o livro da década.

    P.S.: conversei com a autora, que já submeteu o livro a várias editoras nacionais. Ou seja, há planos para a sua tradução. Se você tem ligações junto à área editorial, entre em contato comigo.