Ensaio Clínico Randomizado: low carb versus low fat e risco cardiovascular

Segue repercutindo FORTEMENTE o novo estudo publicado (prospectivo e randomizado), demonstrando MAIS UMA VEZ, que dietas low carb são superiores a dietas de baixa gordura tanto no que diz respeito a perda de peso quanto no que diz respeito a RISCO CARDIOVASCULAR.

Este estudo chega no momento em que a dieta de baixa gordura já está morta do ponto de vista conceitual (veja aqui, aqui, aqui e aqui), servindo de último prego no caixão da mesma.

Vou dissecar esse estudo bem devagarinho, para saboreá-lo aos poucos. Isso fica como homenagem a quem tentou nos censurar no Facebook, o que me deu uma súbita vontade de escrever MAIS.

Hoje, vamos tratar sobre o impacto da dieta low carb versus low fat sobre o escore de risco cardiovascular.

Relembrando: Por 12 meses, 148 indivíduos, homens e mulheres, negros e brancos, com IMC médio de 35, foram RANDOMIZADOS em dois grupos: LOW CARB com calorias à vontade, e LOW FAT (baixa gordura), high carb.

Vejamos o que aconteceu:

  • A linha azul é a dieta de baixa gordura e alto carboidrato, a dieta recomendada pelas diretrizes vigentes;
  • A linha vermelha é a dieta de baixo carboidrato (LOW CARB), com mais gordura;

Além do fato já absolutamente previsível de que o grupo que comeu mais gordura e menos carboidrato perdeu mais peso durante os 12 meses do estudo, olhem com cuidado o gráfico da direita.

O gráfico da direita mostra a mudança do risco de doença cardíaca nos próximos 10 anos, estimado de acordo com o Escore de risco cardiovascular de Framingham. Já falei extensamente sobre Framingham em outra postagem.

Sim,você está vendo certo. O grupo que comeu menos gordura e mais carboidrato, seguindo as diretrizes atualmente vigentes, teve um AUMENTO do risco cardiovascular, de acordo com o Escore de Framingham. E o grupo que comeu menos carboidratos, e mais gordura, especificamente mais do que o DOBRO da quantidade de gordura SATURADA do que as diretrizes nutricionais vigentes indicam, teve uma REDUÇÃO progressiva de seu escore de risco.

Se você acompanha esse blog há mais tempo, isso não deveria ser surpresa. Afinal, ainda em 2013 foi publicado um grande estudo prospectivo e randomizado, no New England Journal of Medicine, com 7500 pacientes, no qual foi demonstrado que uma dieta pobre em gordura AUMENTA a MORTALIDADE (não apenas “risco” calculado por um escore, mas morte mesmo – cadáveres, corpos):

A linha preta, acima, com maior mortalidade, o que motivou a interrupção precoce do estudo por motivos éticos, é a dieta de baixa gordura, aquela que é recomendada nas diretrizes nutricionais vigentes.

Ok, mas alguém poderia dizer que estas mudanças são todas de magnitude pequena. Afinal, no caso do estudo em pauta, a diferença absoluta entre os grupos é de 1,4% no escore de risco. No estudo do New England, a diferença de mortalidade, em termos absolutos, foi de apenas 1%. Bem, mas estas diferenças, embora pequenas, são maiores e mais significativas do que as dos estudos da estatinas. Ou seja, a MAGNITUDE do benefício ABSOLUTO do uso de estatinas é MENOR do que o da adoção de uma dieta mediterrânea com mais gordura. E, pelo visto, essa também é a tendência com as dietas low carb, ao menos segundo o escore de Framingham.

O que gera o seguinte paradoxo: você não confia no escore de Framingham? Então não faria sentido usá-lo como critério para indicar o uso de estatinas. Confia no escore de Framingham? Então deve admitir que o efeito de uma dieta de alta gordura e baixo carboidrato é mais benéfico do que o emprego das medicações em uma população de prevenção primária. You can’t have it both ways.

Então, pra que serve uma dieta de baixa gordura e alto carboidrato? Ninguém sabe. E, como o fracasso é órfão, logo ninguém vai querer saber. Afinal, comer comida insossa, ficar com fome, engordar e ainda por cima aumentar seu risco de morrer do coração? Melhor comprar logo um maço de cigarros. Afinal, fumar também aumenta o seu risco cardiovascular, mas pelo menos emagrece. Dieta com restrição de gordura, nem isso faz.