quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O Salmão e o Biscoito

crédito imagem: Alice Vieira Souto
Arte by Alice Vieira Souto

Muitas vezes eu já repeti por aqui o velho adágio de que o ótimo não pode ser o inimigo do bom. Que a carne mais industrializada (ao menos para quem é diabético, ou pretende usar low-carb como estratégia) é melhor do que o pão mais integral e orgânico; que sal do Himalaia não acrescenta em nada em relação ao sal refinado comum (
veja aqui); que não se deve cair nas modinhas de super-alimentos.

Pois bem, algum tempo atrás recebi um link de uma coluna de um jornal importante no qual se dizia que o salmão normalmente consumido nos restaurantes japoneses brasileiros era basicamente um alimento ultraprocessado. O articulista falava inclusive que não era muito diferente de biscoito recheado - uma afirmação bastante bizarra.

E por que o salmão seria tão ruim quanto um biscoito? Porque praticamente todo o salmão consumido no Brasil é importado do Chile, onde é criado por piscicultura (em fazendas marinhas) e alimentado com ração à base de soja e milho, dizia o texto. Como a ração é ultraprocessada, o salmão seria basicamente um biscoito. Ao detalhar o problema, explicava-se que o salmão selvagem adquire seus ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa (EPA e DHA) comendo algas mas que, ao consumir ração à base de soja e milho, passaria a ter mais ômega-6 do que ômega-3. Ômega-6 seria inflamatório. Logo, biscoito.


Já expliquei aqui no blog o conceito de ciência da fada do dente. A ideia de que, antes de explicar os detalhes de um fenômeno, sempre convém antes saber se ele é REAL. Não me refiro a saber se salmão é realmente igual a biscoito, mas se, afinal, é verdade que salmão de piscicultura não tem ômega-3, ou que tem muito pouco, e que tem mais ômega-6 do que ômega-3?

Vamos ver a composição do salmão selvagem versus o biscoito (digo, o salmão de piscicultura), segundo o banco de dados do USDA:


Salmão Selvagem:



Ou seja, salmão selvagem tem 220 mg de ômega-6 e 2.586 mg ômega-3 em cada 100g


Biscoito recheado Salmão de piscicultura


Ou seja, salmão de piscicultura tem 666 mg de ômega-6 e 2.260 mg ômega-3 em cada 100g. Assim, embora seja correto afirmar que, tecnicamente, o salmão de piscicultura tem mais ômega-6 do que o salmão selvagem, é INCORERTO afirmar que tenha mais ômega-6 do que ômega-3. Aliás, a quantidade de ômega-3 é praticamente a mesma, e há MUITO mais ômega-3 do que ômega 6. Nada mal para um biscoito recheado.

Indo mais adiante, vamos investigar detalhadamente a composição das gorduras de ambos? Para isso, você precisa saber a nomenclatura: DHA, o ômega-3 que é tido como mais importante para o cérebro, é o 22:6(n-3); EPA, o ômega-3 que é tido como mais importante por suas ações anti-inflamatórias, é o 20:5(n-3). 18:3(n-3) é o ALA, que é o ômega-3 que nós não conseguimos usar direito, aquele que se encontra em plantas como linhaça e canola; e 18:3 é o ácido linoleico, que perfaz a maior parte do azeite de oliva.

Salmão selvagem:


Salmão biscoito de piscicultura:

Ironia das ironias, o salmão que foi comparado ao biscoito porque teria mais ômega-6 do que ômega-3 (como se isso realmente fosse o que diferencia o biscoito recheado de um peixe), não apenas tem MUITO mais ômega-3 do que ômega-6, mas na verdade tem mais DHA do que o salmão selvagem (ao menos nominalmente e nessa tabela, pois obviamente irá variar de uma amostra para outra). Como isso é possível? Porque o salmão é carnívoro, e portanto há peixes na composição da ração, e tais peixes por sua vez contêm ômega-3 que obtiveram de algas.

Michael Pollan, em seu excelente livro Em Defesa da Comida, explica o conceito de nutricionismo, a visão reducionista da nutrição. Pensamos em uma cenoura como beta-caroteno, em laranja como vitamina C, em salmão como ômega-3. Ignoramos o fato de que uma cenoura tem mais de mil compostos diferentes, e que sua complexidade irredutível é muito, mas muito mais do que beta-caroteno. Se ter mais ômega-6 do que ômega-3 fosse o grande problema, nozes, castanhas e amêndoas seriam veneno (têm muito mais ômega-6 do que ômega-3), e deveríamos ao invés disso beber óleo de linhaça, que tem bem mais ômega-3 do que ômega-6 (não faça isso!).

Observe que, nesta postagem, não estou entrando nas questões ecológicas da piscicultura, que com certeza merecem atenção, ou no fato de que a coloração do salmão de piscicultura vem de pigmentos (idênticos aos naturais) acrescentados à ração. Estou apenas sublinhando a bizarra comparação do salmão com o biscoito, e a consequente elitização das dietas. Veja, a pessoa já faz um esforço tremendo para largar alimentos ultraprocessados e altamente viciantes e hiperpalatáveis, poupa dinheiro para melhorar a sua alimentação, compra salmão para comer com legumes refogados, apenas para descobrir que - segundo os entendidos - é tudo em vão, porque o salmão não é selvagem e do Alaska, o sal não é do Himalaia, e os legumes não são orgânicos? Sabe o que essa pessoa fará? Vai comprar biscoito recheado, pois se é a mesma coisa, o biscoito é mais gostoso e muito mais barato.

As estratégias low-carb são altamente eficazes, com dezenas de ensaios clínicos randomizados mostrando emagrecimento, reversão de pré-diabetes, remissão de diabetes tipo 2, cura de esteatose, etc. E, nesses estudos que demonstraram tamanho benefício, os peixes não eram selvagens, as carnes não eram grass fed, os frangos não eram free-range, e os embutidos não eram artesanais.

Low-carb tem que ser SIMPLES, feita com comida de verdade normal e acessível. Não pode ser um conjunto bizantino de regras. Low-carb é BAIXO CARBOIDRATO, não ALTA GASTRONOMIA. 

O nutricionismo ajudou a indústria a convencer você de que é possível reduzir algo inconcebivelmente complexo (comida de verdade) aos seus componentes "principais" (macronutrientes, vitaminas, minerais, etc). Então, pega farinha refinada, açúcar refinado, gordura vegetal hidrogenada, acrescenta algumas vitaminas sintéticas e isso agora é tão bom quanto comida de verdade? Não, você dirá! Afinal, comida de verdade é muito, mais muito mais complexa. E é esse abismo que separa um salmão de um biscoito.

Há diferenças entre salmão selvagem e salmão de piscicultura? Certamente. Mas não são diferenças da mesma magnitude astronômica que separa um peixe de um biscoito recheado! Se seu orçamento permite comprar produtos melhores, acho ótimo. Mas o salmão segue sendo um alimento saudável e não processado, mesmo que tenha sido alimentado com ração em fazendas marinhas, e o mesmo vale para o frango e outros animais.

É importante lembrar também que a realidade tem primazia sobre os mecanismos. Se você olha para um salmão do sushi e vê apenas astaxantina sintética, ração com ômega-6, mercúrio e antibióticos, você provavelmente está sofrendo de algum grau de ortorexia. Esqueça por um momento esse monte de mecanismos assustadores e me diga o seguinte: acaso não é verdade que todos os ensaios clínicos randomizados e os estudos observacionais mostram bons desfechos de saúde com o consumo de peixe? Pois bem: nestes estudos, os peixes não eram selvagens, pescados um a um com vara, em riachos intocados. Estamos falando de peixe do mercado mesmo. A realidade - que o consumo de peixe normal, do mercado - está associado a bons desfechos - tem primazia sobre os mecanismos pelos quais deveria fazer bem ou mal. Antes de se perder nos detalhes, é preciso ver o todo: não tomar a árvore pela floresta.

Ainda hoje estava atendendo uma paciente que mora em uma cidade do interior. Ela queixava-se de que não tinha acesso a produtos artesanais, orgânicos em ungidos pelos influenciadores digitais. Vocês não imaginam o alívio e felicidade que ela teve quando eu expliquei que não era necessário. Que low-carb era simples: comida de verdade - plantas e bichos - feira e açougue - não processados ou minimamente processados, pobres em açúcar e amido. Só isso. Expliquei que, dentro desses parâmetros, buscasse a melhor qualidade que coubesse no seu orçamento e estivesse disponível em sua localidade.

Não se engane: cada vez que você desestimula o consumo de um peixe de piscicultura alegando que ele é análogo ao biscoito, você não está estimulando o consumo de peixes selvagens; você está estimulando o consumo do biscoito.

***

Eu entendo que, por trás desse tremendo equívoco, havia boas intenções (as mesmas que pavimentam, juntamente com a plausibilidade biológica, o caminho para inferno). O objetivo era dizer: "você não precisa consumir salmão criado em fazendas marinhas, que causa danos ecológicos lá no Chile, usa montes de combustíveis fósseis para chegar aqui, quando temos tantos peixes que podem ser localmente obtidos pela pesca sustentável e local em nosso país". EU CONCORDO com isso. Mas então, diga-se isso. Eu nunca vou concordar que os fins justificam os meios. Não minta nem distorça a realidade para avançar a sua agenda. Não diga que o salmão de piscicultura faz mal, pois não faz. Não diga que o salmão é biscoito, pois não é. Faça campanha para reduzir as importações, para evitar práticas ecologicamente incorretas e não-sustentáveis, e favorecendo a indústria local. Aí sim, estaremos no mesmo barco.


domingo, 16 de agosto de 2020

O frágil verniz da racionalidade

Na guerra, a primeira vítima é sempre a verdade, reza o famoso ditado. Já na pandemia, tudo indica que essa vítima é a racionalidade.

Tenho acompanhado com exasperação certas opiniões. Não as do governo, já que de onde menos se espera, dali que não vem nada mesmo. Me refiro a pessoas inteligentes e honestas, algumas cuja opinião eu leio, outras que conheço pessoalmente.

A sensação que tenho é de que, para muitos, a racionalidade é um verniz fino e frágil, que não resiste aos ataques de um evento de grande impacto, como o que vivemos. Removido esse verniz de racionalidade, rapidamente degeneramos para uma espécie de Mad Max intelectual, uma vale-tudo de pensamento mágico que, tudo indica, sempre esteve ali, escondido logo abaixo dessa tênue camada protetora do pensamento racional. A camada - vejo agora - era BEM mais fina do que se poderia supor.

Contexto

Uma hipótese - de que um remédio seja eficaz, de que um tratamento seja melhor do que outro - vem ao mundo com baixa probabilidade de sucesso. Algumas têm uma probabilidade melhor. Mas essas hipóteses de alta probabilidade de sucesso - por exemplo, a hipótese de que beber água limpa seja melhor para você - já foram descobertas e implementadas há muito tempo. Na expressão em inglês, são as "low hanging fruits", as frutas que estão na parte mais baixa da árvore. Estas são as primeiras a ser colhidas. Hoje, nos restam, metaforicamente, apenas as frutas mais altas - as que temos menor probabilidade de alcançar, com mais custo e mais trabalho.

A primeira coisa que precisamos entender é que o número de hipóteses corretas - as hipóteses destinadas a vencer na vida - é infinitamente menor do que o número de hipóteses que resultam ser incorretas. E é lógico que seja assim. Se você tiver um grande molho de chaves - com, digamos, 100 chaves - a chance de que uma chave qualquer consiga abrir a fechadura é muito pequena, se a escolha for aleatória. Há muito mais formas de se estar errado do que de estar correto. É uma questão de lógica.



Por este motivo, não testamos aleatoriamente todas as chaves. Usamos critérios. Chaves que obviamente não cabem na fechadura são descartadas. Chaves cuja marca é a mesma da fechadura - assumindo que haja marca - são priorizadas. Ainda assim, a chance de que uma chave escolhida seja correta segue sendo baixa. Por isso, usamos o conceito de hipótese nula: para uma chave específica, parte-se do princípio de que ela NÃO irá funcionar. Caso ela consiga abrir a fechadura, refuta-se a hipótese nula. A partir desse momento, temos evidência de que essa chave é a correta. O motivo pelo qual partimos da hipótese nula não é por sermos pessimistas. É apenas um fato estatístico da vida - quanto maior o molho de chaves, o mais provável é que uma chave não funcione. Essa é a hipótese default do universo em que vivemos.

A vida não é nada fácil no mundo do desenvolvimento de novos fármacos. Para cada novo composto que a indústria desenvolve, as chances de chegar a uma nova droga são mínimas. E não, a indústria farmacêutica não é burra. A tática não é a de tentar todas as milhares de chaves do gigantesco chaveiro para ver qual, ao acaso, encaixa na fechadura. Os compostos são pré-selecionados com base na BIOPLAUSIBILIDADE. Após estudar detalhadamente as rotas metabólicas (ou a estrutura de um micro-organismo), moléculas são desenvolvidas para interferir com tais estruturas (enzimas, receptores, etc) o quê, segundo a lógica e baseado nos mecanismos, deveria produzir o efeito desejado. Ou seja, é algo PLAUSÍVEL do ponto de vista BIOLÓGICO. No nosso exemplo acima, isso equivale a selecionar apenas as chaves que, visualmente, são compatíveis com o buraco da fechadura e têm a mesma marca.

De cada 5000 compostos promissores, com bioplausibildade, que "deveriam funcionar pela lógica", apenas 5 chegam ao ponto de ser testados em seres humanos. Destes, apenas 1 é aprovado. Ou seja, a chance de que uma molécula que, tudo indica, pelo mecanismo, deveria funcionar, efetivamente funcionar em humanos a ponto de virar um novo remédio é de 1 a cada 5000, ou 0,02%. E é por isso que, quando se vai testar um novo tratamento, assume-se a hipótese nula (a de que não funciona), não porque somos chatos ou estraga-prazeres, é porque somos realistas. O universo de hipóteses PROMISSORAS porém erradas será SEMPRE ordens de magnitude maior do que o universo pequeno das hipóteses verdadeiras.

Futebol
Existem muitos exemplos dentre as atividades humanas que têm um funil igualmente estreito. Vamos pensar no seguinte exemplo: digamos que seu sobrinho seja muito bom de bola. Muito acima da médias dos colegas. O professor não para de elogiar o menino, e o coloca para jogar com a turma dos mais velhos, pois seu desempenho é fora da curva. PERGUNTA: é possível que ele venha a ser o próximo Cristiano Ronaldo? Possível é, mas é PROVÁVEL? Esse é aquele momento que nos damos conta de que existem muitos MILHARES de meninos bons de bola, mas o processo seletivo é cruel e altamente competitivo. A grande maioria desses meninos, por mais promissores que possam parecer, jamais será profissional; se for profissional, jamais o será de um time grande; se for de um time grande, tem pouca chance de ser titular; e, por fim, mesmo na improvável hipótese de chegar a ser titular de um time grande - quantos desses serão um Pelé ou um Cristiano Ronaldo?

Por isso existem tantas etapas no processo seletivo de jogadores. Todos começam com baixa plausibilidade de vir a ser um craque. Alguns se destacam, e são escolhidos por algum "olheiro" para integrar as categorias de base de algum time menor. Campeonatos acontecem, e jogadores cada vez mais promissores são selecionados. Quando finalmente um jogador é comprado por um grande time da Europa, sua plausibilidade já é muito mais alta. É então que esse jogador passa a ter chances reais de ser o próximo Cristiano Ronaldo. O pai do rapaz dirá que SEMPRE SOUBE que ele estava destinado a ser o melhor. Mas isso é uma afirmação "ad hoc" - depois do fato. 15 anos atrás, milhares de pais pensavam a mesma coisa - e com bons motivos! - seus rebentos jogavam mesmo acima da média; era PLAUSÍVEL que viessem a ser craques no futuro. Mas, para um observador neutro, lá no início, o lógico é partir da hipótese nula, isto é, que aquele menino, embora jogue bola muito bem, provavelmente será garçom, recepcionista, médico ou qualquer outra coisa. A maioria dos meninos promissores permanecerão apenas isso - promissores.

Esta alegoria serve para várias coisas. Primeiramente, o cientista não deveria se apaixonar por sua hipótese. A mãe sempre vai achar que o SEU filho será o próximo Cristiano Ronaldo. Mas um observador mais racional sabe que a hipótese nula é a mais provável. Assim, não cabe ao mundo provar que aquele menino não é o maior craque de todos. Isso seria uma inversão do ônus da prova. Cabe ao craque se destacar.

A indústria farmacêutica sabe disso. Bilhões de dólares estão em jogo. Quando um novo composto é considerado promissor por uma questão de BIOPLAUSIBILIDADE, ele é testado primeiramente em tubo de ensaio. Ali, alguns compostos falham. Outros parecem promissores. Estes avançam para uma próxima etapa - testes em modelos animais. Trata-se de um GRANDE funil: muitos compostos que pareciam promissores caem fora nessa etapa seletiva. Alguns são tóxicos demais e matam o animal; outros têm efeitos não antecipados, em outras vias metabólicas nas quais não se havia pensado, resultando em efeitos adversos intoleráveis. Mais uma vez, inúmeros compostos sucumbem a essa fase. Outro problema muito comum é o de que o composto não atinge concentração suficiente nas células em que seu efeito se faz necessário: uma coisa é banhar células diretamente com uma solução daquele fármaco; outra bem diferente é administrá-lo por via oral, e descobrir que ele não atinge as mesmas concentrações no órgão alvo. Mais uma vez, inúmeros compostos promissores são descartados nessa fase.
Sobraram poucos compostos candidatos - os campeões das categorias de base da farmacologia. Mas o pior ainda está por vir - o funil segue estreitando-se.
Tradicionalmente, os testes de fármacos em seres humanos são feitos em diferentes fases ELIMINATÓRIAS. O composto, já razoavelmente promissor, tendo deixado para trás quase 5000 competidores, tem ainda uma chance menor do que 20% de virar uma medicação eficaz.

A fase 1 serve para descobrir a tolerabilidade e toxicidade em voluntários humanos. Também costuma testar diferentes doses para definir qual a melhor dosagem. São estudos pequenos, que não têm como objetivo testar eficácia. Vários compostos promissores serão eliminados nesta fase por toxicidade.

A fase 2 serve para estabelecer se a droga tem alguma atividade biológica em humanos e se mostra alguma evidência de eficácia. Em geral são estudos randomizados de pequeno porte, no qual um grupo é sorteado para receber a droga e outro para receber placebo. Cerca de 80% das drogas testadas irão falhar em estudos fase 2 (ou seja, a hipótese nula, a de que a nova droga é igual ao placebo, não conseguirá ser refutada).

A fase 3 é a Copa do Mundo dos estudos clínicos. É a fase mais complexa, MAIS CARA, e que envolve o maior número de pacientes. Por isso mesmo, não testa remédios aleatórios, pois, como já vimos, toda a droga (e, por extensão, toda a hipótese) começa com uma probabilidade baixíssima de ser campeã (ou seja, se se mostrar eficaz). Todo o processo prévio - as fases pré-clínicas in vitro e em animais, as fases I e II em humanos - serve para filtrar os compostos que são realmente promissores - a nata dos compostos - para chegar neste momento. Um típico ensaio clínico randomizado fase III custa perto de 50 milhões de dólares. Seria uma insanidade empregar esse tipo de esforço em drogas aleatórias. Quando um composto entra em um estudo fase 3, entre 25% e 30% das vezes o composto irá demonstrar eficácia e segurança, sendo então oficialmente aprovado pelas agências reguladoras. OBSERVE que, mesmo nessa fase, em que a o composto já passou por todas as etapas anteriores, A MAIORIA deles se mostrará INEFICAZ (ou não seguros) nos estudos de fase 3. Não é fácil ser Cristiano Ronaldo!

O estranho fenômeno da hidroxiclorquina
Vamos imaginar um rapaz muito promissor - Cloroquínion da Silva - o melhor jogador de futebol da sua escola, uma das incontáveis escolas de um grande e populoso país. Acontece que o presidente deste país (Trump, por exemplo) gosta muito deste rapaz, como se fosse seu filho. Logicamente, ele pensa "este menino com certeza é o próximo Cristiano Ronaldo"! Há milhares de jogadores promissores espalhados pelas escolas deste país, e seus pais acham que o seu filho será o melhor de todos. Mas, como sabemos, a maioria deles terminará como garçom ou médico, mas não como um novo Cristiano Ronaldo. Acontece que o padrinho de Cloroquínion é o presidente. E, como presidente, ele tem o poder de fazer Cloroquínion pular etapas. O restante dos candidatos a craque passará por muitos campeonatos, que naturalmente deixarão muitos para trás, e, depois de alguns anos e de muito esforço, terão selecionado alguns jogadores realmente muito acima da média. Dentre eles, alguns poucos serão realmente craques. Eles são escolhidos para compor a Seleção Nacional do país em questão. Mas, por um arroubo de vontade do presidente, Cloroquínion, sem nunca ter jogado além do campenato interno da sua escola, é escalado para fazer parte da Seleção. Diferentemente dos demais, ele não chegou lá por mérito. Sim, há um mínimo de plausibilidade ("ele bate um bolão no time da escola"), mas isso (saber jogar) é uma condição que TODO o jogador tem. E, mesmo assim, a chance de que um deles venha a ser um Cristiano Ronaldo segue baixa. Qual a chance de que esse alguém seja JUSTAMENTE Cloroquínion? Qual a chance de que, em nosso molho de 5000 chaves, a escolhida pelo presidente (Trump) seja justamente a que vai encaixar no buraco da fechadura metafórica?

O único motivo pelo qual falamos sobre hidroxicloroquina (HCQ) fora do contexto da malária, lúpus e artrite reumatoide é porque o presidente Donald Trump teve uma forte intuição de que deveria ser bom. De onde ele tirou isso? Resulta que um microbiologista francês, Didier Raoult, publicou um estudo que era um verdadeiro desastre em termos de metodologia científica. E este estudo teria ficado relegado às páginas esquecidas da história, um dos tantos exemplos de como o mecanismo do peer review deixa passar erros crassos. Acontece que um advogado americano chamado Gregory Rigano (um entusiasta da tecnologia blockchain, não um cientista) apareceu no programa noturno de Laura Ingraham na Fox News norte-americana, a rede de TV preferida de Donald Trump e da extrema direita daquele país. Como narra a revista Piauí, "Rigano, que na época se apresentava como consultor da Escola de Medicina de Stanford, o que era mentira, havia publicado um relatório celebrando o potencial da cloroquina: “Um tratamento eficaz para o coronavírus (Covid-19).” Era um documento composto no Google Docs e formatado para se parecer com uma publicação científica. O relatório tinha começado a circular na mídia direitista e também no Vale do Silício – Elon Musk tuitou um link para o texto. Raoult viu o documento e percebeu a atenção que ele estava recebendo na internet. Outro pesquisador poderia ter achado irresponsável e perigoso aquele tipo de publicação. Raoult, porém, começou a se corresponder com Rigano e com seu coautor, James Todaro, oftalmologista e investidor de bitcoin. E os autorizou a compartilhar os resultados que obtivera, mas que ainda não tinham sequer sido publicados."
E foi assim que Donald Trump se convenceu, através de um show de entretenimento da Fox News, que a hidroxicloroquina era a cura da Covid-19. Como na alegoria acima, Cloroquínion foi incluído na Seleção porque o presidente gostou dele, não por mérito. 

Que Trump ou Bolsonaro considerem a HCQ como a salvação da pandemia não me espanta. Como eu dizia no início desta postagem, o que me causa espécie são as opiniões de pessoas inteligentes e honestas, inclusive de médicos de renome.

Iluminismo
Se você está lendo este texto em seu smartphone, tablet ou computador pessoal, e se não corre o risco de ser preso, torturado e morto por discordar do governo, você deve isso a um movimento intelectual e filosófico do século 18 chamado Iluminismo. O que nos separa da Idade Média não é apenas o passar dos séculos. Nas palavras da Wikipedia, "O Iluminismo incluiu uma série de ideias centradas na razão como a principal fonte de autoridade e legitimidade e defendia ideais como liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional e separação Igreja-Estado". A constituição dos EUA, com sua tripartição de poderes e seus sistemas de freios e contrapesos (que, neste quesito, foi imitada pelo Brasil em 1988), é fruto deste movimento. Seu smartphone também. Foi o método científico que permitiu à humanidade dominar a matéria a ponto de fazer estas palavras aparecerem no dispositivo no qual você as lê - não a intuição de um presidente ou de quem fosse. É um triunfo de 300 anos de racionalidade.


Na Idade Média, o pensamento dominante era o pensamento mágico. A natureza era algo misterioso, comandada por deuses e demônios. Doenças eram maldições causadas por entidades sobrenaturais. Incontáveis senhoras idosas foram mortas e torturadas por séculos por causa de, entre outras coisas, epidemias. E não, elas não morreram por causa dos vírus, elas foram assassinadas. Por causa da irracionalidade, do pensamento mágico e das crendices, as várias pestes do nosso passado foram atribuídas a rituais de magia negra conduzidos por bruxas. Se muitas pessoas estavam morrendo de uma peste misteriosa, não podíamos ficar apenas assistindo sem fazer nada!! Mulheres idosas eram então acusadas de bruxaria, torturadas até confessarem seus crimes e então queimadas. Tempos depois, a peste passava, confirmando que a culpa era, de fato, das bruxas. Muitos séculos depois, presidentes fazem o mesmo raciocínio ("tomei um remédio e estou curado, logo o remédio foi a causa da cura").

A miséria da racionalidade
O que nos separa da Idade Média não é tanto o tempo - é a racionalidade. A racionalidade é o que faz com que sua avó seja protegida da pandemia em casa, e não queimada na estaca para combater a peste. É a diferença entre temer forças sobrenaturais e tentar apaziguá-las com rituais, versus entender as forças naturais e atuar sobre elas de forma científica. Se hoje não usamos mais sangrias e sanguessugas para drenar as "toxinas" do corpo, é por causa do método científico. Como eu disse no início dessa postagem, fico assustado ao constatar que a racionalidade iluminista é um fino verniz, nada mais que uma máscara. No primeiro desafio, essa máscara cai, revelando que somos ainda homens da Idade Média, prontos para testar qualquer coisa, de forma aleatória.

"Mas que mal poderia fazer?"
Suponhamos que Donald Trump tivesse ouvido na Fox News que sanguessugas são úteis no tratamento da Covid-19. E que um cientista francês mostrasse que a maioria das pessoas que usaram sanguessugas melhoraram (e isso seria verdade, visto que a maioria das pessoas melhoram, com sanguessugas ou sem). Quando alguém dissesse, exasperado "mas isso é um tratamento medieval!", era muito provável que a resposta fosse "mas que mal poderia fazer?" É um tratamento de baixo risco, e minha tia usou e ficou boa.

O problema é a morte lenta da racionalidade. Cada vez que médicos e autoridades de saúde adotam medidas irracionais, uma vela do Ilumismo se apaga. Sancionar - com a autoridade médica ou governamental - uma medida que carece de evidências é sancionar todas as medidas que carecem de evidência.

Quando eu li a notícia de que um prefeito de uma cidade de Santa Catarina estava propondo o tratamento da Covid-19 com ozônio retal, caí na gargalhada. Eu achei - mesmo - que fosse piada. Não era. O referido município já fornecia, com dinheiro público, hidroxicloroquina (um antimalárico), ivermectina (um remédio para vermes e sarna), cânfora (??) e agora propunha o ozônio retal.

Sim, vivemos numa distopia, mas a culpa é também dos médicos, não apenas de alguns políticos. Ou você realmente acha que seria possível abrir a caixa de Pandora da irracionalidade medieval, pegar apenas a hidroxicloroquina lá de dentro, e fechar a tampa? Uma vez que médicos renomados passem a receitar (e dizer publicamente que usam) um medicamento que não foi testado, não há como fechar a caixa. A cada cloroquina prescrita, o ozônio se aproxima um pouco mais do nosso reto coletivo.

A bioplausibildade pavimenta o caminho para o inferno.
Você lerá por vezes que há um racional científico por trás do uso da HCQ na COVID-19. Afinal, estudos in vitro demonstram a inibição da replicação viral, por mecanismos que envolvem o pH das vesículas intracelulares. Quem não tem experiência com ciências biológicas (a maioria dos médicos se incluem nesta categoria) poderia se impresionar com isso. O fato da vida é que a esmagadora maioria de tudo que apresenta plausibilidade biológica não irá funcionar no tratamento ou cura de doenças. Ter plausibilidade biológica não é garantia de nada. É apenas uma condição necessária para que um tatamento/remédio possa começar a longa trajetória de testes pré-clínicos e testes clínicos de fase 1, 2 e 3. Como já dissemos acima, apenas 1 a cada 5000 compostos consegue este feito. E TODOS tinham plausibilidade biológica.
Na analogia do futebol, a plausibilidade biológica é o equivalente a ser um menino bom de bola. Todo craque (Pelé, Cristiano Ronaldo, Messi) foi um menino bom de bola, mas quase nenhum menino bom de bola será um Cristiano Ronaldo ou um Pelé. Só porque o garoto joga bem, não significa que ele deve ser escalado para a final da Copa do Mundo sem ter uma carreira de sucesso antes. O fracasso seria praticamente garantido.

O Dr. Luis Correia, autor do excelente blog Medicina Baseada em Evidências, escreveu um maravilhoso texto sobre a inversão do ônus da prova. Leia a postagem, e escute o podcast dele. Para nós, vale aqui salientar alguns pontos.
  1. Não se pode provar um negativo. Nenhum estudo pode provar que algo NÃO funciona. A ideia de empregar coisas aleatórias, já que não há alternativa melhor, usando como justificativa a ideia de que não há estudos que demonstrem que NÃO funciona é irracional. Qual o estudo que mostra que cânfora ou ozônio retal não funcionam? Qual o estudo que mostra que queimar bruxas na estaca não funciona? O método científico é o contrário! Você parte do princípio de que algo NÃO funciona (pois o mais provável é que não funcione mesmo), e o ônus da prova recai sobre quem postula que é eficaz. Para isso, é necessário fazer a prova de eficácia, em um ensaio clínico randomizado. Se você está lendo isso num smartphone, é por causa da química, não da alquimia. Não foi a mistura aleatória de produtos químicos que culminou na sua bateria de lítio.
  2. O fato de haver pelo menos 5 ensaios clínicos randomizados que não mostraram efeito da HCQ sobre os desfechos da COVID-19 não prova que a HCQ não funciona, pois não se prova um negativo. A questão é outra: o que nós aprendemos testando algo cuja probabilidade pré-teste já era absurdamente baixa? Cloroquínion foi pinçado pelo presidente da república e colocado na final da Copa do Mundo e - vejam só! - não mostrou ser o novo Cristiano Ronaldo. Alguma surpresa nisso? Ele não foi campeão em sucessivos torneios - não houve sucesso em estudos fase I e II - por que alguém apostaria que seria o grande campeão? Porque Donald Trump gostou do que viu na Fox News?
  3. Quando você testa uma hipótese, e encontra uma diferença entre os grupos (do remédio e do placebo, por exemplo), sempre há uma possibilidade de que a diferença não seja real, e deva-se exclusivamente ao acaso. É isso, em termos gerais, que o "P" dos testes estatísticos tenta medir - a probabilidade de que a diferença observada deva-se apenas ao acaso, sendo portanto a hipótese nula verdadeira. Um P=0,05 significa que esta probabilidade é de 5%, ou seja, 1:20. Se você testar muitas vezes alguma coisa, há alta probabilidade de que algum dos estudos mostrará uma diferença estatisticamente significativa POR PURO ACASO, e que não corresponde a algo real. Por este motivo, é muito perigoso testar coisas com BAIXA probabilidade pré-teste em estudos de fase 3. Porque, por puro acaso, um estudo pode demonstrar resultado falsamente positivo. Por isso, repito, os vários ensaios clínicos randomizados da HCQ não provam que ela não funciona. O iminente ocaso do iluminismo está no fato de que estamos a usá-la com dinheiro público sem que haja prova de conceito (positiva) de que funciona. O simples fato de estarmos falando sobre este assunto já é uma falha civilizacional.
  4. Mesmo quando uma intervenção funciona, a magnitude do impacto individual é pequena. Coisas que comprovadamente são eficazes, como o tratamento da hipertensão para a prevenção de derrames, tem NNT da ordem de 50-60 (ou seja, você precisa tratar 50 pessoas para que uma se beneficie). Em outras palavras, se uma medicação fosse funcionar para COVID-19, não seria algo óbvio, no qual quem toma sobrevive e quem não toma morre - isso é pensamento mágico. Se diferença houvesse, seria algo discreto, e seria necessário um ensaio clínico randomizado com centenas ou milhares de pessoas para detectar as diferenças entre grupos.
Não é a primeira vez na história recente que a histeria coletiva se concentra em um tratamento irracional. Quem não lembra da "pílula do câncer", a fosfoetanolamina? A febre da fosfoetanolamina surgiu em 2016 quando um químico, professor aposentado da USP, Gilberto Orivaldo Chierice, espalhou a notícia de que este composto era a cura do câncer, com efeitos muito superiores ao da quimioterapia, sem os efeitos colaterais. Logo a pressão popular chegou a níveis insustentáveis, o que levou à aprovação de um projeto de lei - proposto, entre outros, por Jair e Eduardo Bolsonaro e sancionado pela então presidente Dilma Rouseff - liberando o uso da fosfoetanolamina mesmo que a droga jamais houvesse sido testada em humanos. Em 2017 o ensaio clínico randomizado de fase 2 foi interrompido por futilidade (não havia, obviamente, evidência se atividade biológica). Quantas pessoas deixaram de seguir tratamentos baseados em evidência perseguindo essa maluquice? Quanto dinheiro público foi gasto nesse estudo baseado em opinião de políticos e pressão popular?

Que a humanidade não aprende com a história é um fato autoevidente. A diferença - a GRANDE diferença - entre esse episódio lamentável de 2016 e o atual é que, naquela época, os médicos eram uma força pela RAZÃO. Hoje, eles carregam as tochas e os garfos da Idade Média, conduzindo a horda da insensatez.


A Covid-19 é um desastre do ponto de vista social, mas o risco individual é baixo. A esmagadora maioria das pessoas que contrair a doença ficará curada, independentemente do que faça. Mesmo em pacientes internados, a maioria irá sobreviver. É o terreno fértil para todo o tipo de viés. Eu tomo babosa com mel e não morro de COVID-19, logo a babosa me curou. Não é diferente da afirmação recente do nosso presidente e de um conhecido jornalista da CNN Brasil.

O que me traz de volta ao ocaso da racionalidade. A hidroxicloquina não é, ao contrário do que se diz por aí, uma droga muito tóxica. Complicações como arritmias cardíacas acontecem, é fato, mas são incomuns. Muitos médicos, movidos por boas intenções, dizem "por que não usar, já que não há alternativas"? A primeira resposta, de natureza puramente médica, é que isso não é o que se faz em medicina em nenhuma outra doença, incluindo as que são muito mais graves e que apresentam letalidade muito maior do que a COVID-19. Por que não usamos remédios aleatórios em esclerose lateral amiotrófica ou sepse? Porque não usamos HCQ ou algo do gênero nas epidemias de gripe? A segunda resposta é de natureza filosófica: ao consentir e dar legitimidade ao irracional, estamos refutando 300 anos de iluminismo. Subitamente, ozônio retal parece justificado. Afinal, o ozônio mata micro-organismos - existe portanto plausibilidade biológica. O presidente Trump, com o mesmo grau de astúcia, chegou à conclusão que se injetássemos desinfetante nas pessoas, poderíamos curar o vírus - afinal desinfetante mata vírus (algumas pessoas tentaram e morreram nos EUA). Abre-se uma caixa de Pandora da qual todo tipo de tratamento alternativo sairá com a sanção tácita de médicos de renome que renunciaram à racionalidade. Se pode HCQ e ivermectina, porque não homeopatia ou outros tipos de pensamento mágico? Todo o tipo de tratamento altamente duvidoso como soros rejuvenescedores, terapias "quânticas", prescrição de incontáveis suplementos e fórmulas intermináveis da "medicina alternativa" são baseados em bioplausibilidade (às vezes nem nisso). É isso mesmo que queremos? O mal que a prescrição da HCQ faz não é ao ritmo cardíaco; a HCQ é mais um prego no caixão da racionalidade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A mutante narrativa do campo anti-low-carb

Este texto foi escrito a convite do Francisco Silva, gestor do site www.PaleoXXI.com e presidente da Associação PALEO XXI, em Portugal, para ser publicado na revista Paleo XXI, que circula nas bancas por lá. Foi publicado na edição de dezembro 2019/ janeiro 2020. Com permissão do Francisco, reproduzo, abaixo, o texto na íntegra.

A mutante narrativa do campo anti-low-carb

Há quase 9 anos acompanho muito de perto a literatura científica no que diz respeito à alimentação pobre em carboidratos (“low-carb”) e saúde. Desde então, os estudos evidenciando os efeitos benéficos dessa intervenção para sobrepeso, obesidade, pré-diabetes, diabetes, resistência à insulina e síndrome metabólica vêm-se acumulando. Como trata-se de intervenção de estilo de vida, com baixos riscos e demonstrada eficácia, a ampla disseminação de tal informação deveria ter sido muito fácil. Mas não é o que tem ocorrido. A resistência do campo anti-low-carb é feroz. Tal resistência assemelha-se à hidra, o lendário monstro da mitologia grega, com várias cabeças: cada vez que se lhe cortava uma cabeça, nasciam outras duas. De forma semelhante, a narrativa do campo anti-low-carb muda a cada vez que a ciência demonstra que suas alegações são desprovidas de embasamento. O monstro não morre, apenas brotam-lhe novas cabeças. 

As primeiras objeções diziam respeito à gordura na dieta. A gordura era o inimigo. Comer gordura, diziam, engordava, e além disso entupiria as suas artérias. Grandes metanálises indicaram que a gordura da dieta não tinha nenhuma relação com doença cardiovascular, e muito menos com mortalidade por todas as causas. E as dezenas de ensaios clínicos randomizados mostravam perda de peso, a despeito da quantidade de gordura no braço low-carb dos respectivos estudos ser mais elevada.

Gorduras não eram o problema? Ah, então o problema são as proteínas! Proteínas, nos disseram, fazem mal para os rins! Esqueceram que uma dieta low-carb não é hiperproteica. E, mesmo que fosse, estudos observacionais não mostram relação entre consumo de proteínas e desenvolvimento de insuficiência renal. Ah, mas de certo irá sobrecarregar o fígado! Mas a ciência, essa inconveniente, mostrava justamente o contrário - todos os estudos indicavam benefícios da restrição de carboidratos (e do aumento de proteínas) sobre o funcionamento hepático.

Em seguida, vários ensaios clínicos randomizados (os estudos com maior nível de evidência científica) começaram a mostrar superioridade de low-carb para perda de peso e para o controle de diabetes. A narrativa passou então a salientar que low-carb não era TÃO BOA assim. Que estudos nos quais as calorias eram artificialmente mantidas fixas indicavam resultados iguais (nada mais óbvio); que, ao final de 12 ou 24 meses, não parecia haver diferenças (esqueciam de mencionar que, ao final deste tempo, a maioria não estava mais seguindo nenhuma estratégia dietética). Reparem que agora não mais se tratava de afirmar que low-carb não funcionava, e sim de que low-carb não era TÃO BOA assim - era apenas IGUAL às demais dietas. Como assim? Pouco tempo atrás as mesmas pessoas afirmavam que a estratégia era perigosa e não funcionava, e agora as mesmas pessoas fazem questão de dizer que funciona tanto quanto - mas não mais - do que as outras estratégias que eles sempre defenderam! Cortava-se uma cabeça da hidra, e outras cresciam em seu lugar.

A recente admissão pela ADA (Associação Americana do Diabetes) de que low-carb é a estratégia nutricional mais estudada em diabetes, bem como de que se trata da que produz as maiores quedas de hemoglobina glicada com redução simultânea da necessidade de medicamentos, colocou low-carb oficialmente nas diretrizes. Mais uma cabeça da hidra foi cortada. Não tardaria para que brotassem novas.

As cabeças mais recentes apontam para a carne. Você poderia alegar: “mas low-carb não precisa necessariamente de carne”, e estaria correto. Não obstante, a narrativa evolui nesse sentido, e tem sido muito eficaz. E trata-se de de uma narrativa muito mais forte do que as anteriores, eis que ataca por diversos ângulos simultaneamente - é um monstro de muitas cabeças!

A alegação de que carne vermelha faz mal à saúde é antiga, e é - ela mesma - uma narrativa mutante. Originalmente, a crítica era direcionada à gordura da carne. Como já vimos, tal crítica foi desmontada por vários estudos. Então surgiu outra cabeça, tentando correlacionar a carne com câncer colorretal. Mas tais estudos são estudos observacionais eivados de variáveis de confusão (os maiores comedores de carne em tais estudos também fumam mais, bebem mais, são mais obesos e sedentários). E há alguns fatos inconvenientes, tais como o European Prospective Investigation on Cancer and Nutrition (EPIC) no qual vegetarianos apresentaram mais câncer colorretal do que os que comiam carne, ou o fato de que não se consegue induzir câncer de cólon em animais de laboratório com carne.

Mal conseguimos cortar as cabeças das falsas alegações de saúde, e surgiu com força uma cabeça gigante: o consumo de carne estaria ligado ao aquecimento global e ao desperdício de água. Se você come carne, dizem-lhe, está destruindo o futuro de seus filhos e netos! 

Contudo, é um fato básico da ecologia que o CO2 emitido pelos ruminantes advém do capim que comem, capim esse que, para crescer, retirou O MESMO CO2 da atmosfera - não é CO2 novo, é um ciclo, que existe há milhões de anos. E o metano? Metano é um gás transitório, que é convertido em CO2 em cerca de 12 anos e, desta forma, volta ao capim que lhe deu origem. Se nossa preocupação for com o CO2 novo adicionado à atmosfera, bem, este vem dos combustíveis fósseis, que estão enterrados há 100 - 200 milhões de anos, e que portanto estavam FORA do ciclo fotossíntese-respiração deste planeta. É ridículo culpar ruminantes pelo que a indústria e os transportes estão a jogar na atmosfera.

O argumento do consumo de água é ainda mais falacioso. Quando se fala que 1 quilo de carne requer 15 mil litros de água, cerca de 95% disso é água da chuva! O que é bizarro, pois alguém acredita que a água deixaria de chover sobre a pastagem se o gado ali não estivesse? E a água que o gado bebe? Volta ao ambiente como vapor, urina e esterco. Isso não apenas não contamina a água, como na verdade fertiliza a pastagem e ajuda a sequestrar carbono no solo. A monocultura, contra a qual não se ouve falar quase nada nos dias de hoje, é que contamina aquíferos e rios com fertilizantes e pesticidas, além de desviar aquilo que seria destinado ao consumo humano para uso em irrigação - água essa que retorna contaminada para os rios, diferentemente do que ocorre com a água da chuva nas pastagens. Ademais, culturas alagadas liberam grande quantidade de metano, mas você não escuta as mesmas pessoas que criticam o consumo de carne vociferando contra o arroz. 

Recente documentário produzido por James Cameron e estrelando Arnold Schwarzenegger apresenta a hidra completa, no esplendor de todas as suas cabeças. Uma tremenda peça de propaganda, desenhada meticulosamente para avançar uma agenda vegana. Muitas pessoas serão vítimas dessa estratégia. E muitos têm a ganhar com a venda de alimentos ultraprocessados para substituir aquilo que não precisava ser substituído. Trata-se da velha tática de criar um problema a fim de vender a solução. Diga-se de passagem, James Cameron é dono da Verdient Foods Inc, que acaba de investir 140 milhões de dólares na Ingredion, fabricante de proteína extraída de ervilhas... 


Frente a esse monstro de múltiplas cabeças, é fácil ficar intimidado. É uma luta muito desigual. Como reza o ditado, uma mentira já deu meia-volta ao mundo no tempo que leva para uma verdade calçar seus sapatos. Temos apenas uma defesa - a informação de qualidade. Nesses tempos sombrios, expor a verdade é um verdadeiro ato de subversão, e comer carne tornou-se um manifesto de resistência. A moda low-fat durou 40 anos, mas acabou cedendo. Cabe a nós cortar as novas cabeças da hidra, mesmo que leve décadas.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Reitor da Universidade A&M do Texas exige providências de Harvard

Há cerca de duas semanas publiquei aqui o escândalo da tentativa de censura das metanálises que indicavam que carne vermelha não deveria ser evitada (visto não haver evidência confiável de qualquer relação com câncer, doença cardiovascular e diabetes). Se você ainda não leu, leia aquela postagem antes de continuar.

O escândalo foi narrado em detalhes nas páginas do JAMA, e havia ali o seguinte trecho:

"Outro ataque veio durante uma recente conferência de cardiologia preventiva de um dia, na qual metade das apresentações foram sobre dietas plant-based. Durante seu discurso, Willett mostrou um slide intitulado "Desinformação", que culpou várias organizações e indivíduos: a "mídia sensacionalista", especificamente o periódico Annals of Internal Medicine e a repórter de ciência de longa data do New York Times Gina Kolata, que escreveu a primeira história do jornal sobre as metanálises da carne; “Big Beef” (a indústria da carne), citando especificamente o cientista de nutrição da Texas A&M University Patrick Stover, PhD, vice-reitor da escola e co-autor da diretriz de consumo de carne NutriRECS; e "acadêmicos baseados em evidências", ou seja, NutriRECS e Gordon Guyatt, MD, MSc, presidente do painel que escreveu as diretrizes de consumo de carne."
Na sua cruzada cega e semi-religiosa contra o consumo de carne, Willett e Hu, da Escola de Saúde Pública de Harvard, parecem ter passado dos limites. Eis o slide projetado por Willett difamando Gordon Guyatt (nada mais, nada menos do que o pai da Medicina Baseada em Evidências) e o Dr. Patrick Stover, vice-reitor da Texas A&M.

A Texas A&M University é a mais antiga instituição pública de ensino superior do Texas, fundada em 1871. É uma das 10 maiores universidades dos EUA. 

Pois bem, o reitor da Texas A&M está agora pedindo publicamente a cabeça do Hu e Willet. Eis a carta aberta endereçada ao presidente da Universidade de Harvard:



22 de Janeiro de 2020

Para:
Dr. Lawrence S. Bacow
President
Harvard University
Massachusetts Hall
Cambridge, Massachusetts 02138

Prezado Dr. Bacow,

Escrevo para informá-lo de meu desânimo com as recentes ações dos membros do corpo docente de Harvard, Dr. Walter Willett e Dr. Frank Hu e seus associados, Dr. David Katz e True Health Initiative (THI). Suas ações, conforme descritas em um artigo recente do JAMA, são antiéticas, distorcem os resultados de importantes pesquisas científicas e, em nossa opinião, são falsas e prejudiciais para a Texas A&M University e seus professores. São assuntos sérios que comprometem os valores defendidos por sua instituição e devem ser corrigidos imediatamente.

Confio que você tenha ficado tão surpreso quanto eu depois de ler o artigo da JAMA e peço que você dê uma olhada nas ações ultrajantes da THI. O JAMA descobriu que a THI e vários de seus membros do conselho, incluindo os professores Willett e Hu, de Harvard, descaracterizaram a pesquisa científica e acusaram falsamente os cientistas da Texas A&M de venderem-se para interesses da indústria. De acordo com o JAMA, a THI não apenas quebrou a política de embargo de periódicos, mas aparentemente usou bots automáticos para inundar a caixa de entrada de e-mails do editor-chefe dos Annals of Internal Medicine.

Vários professores da sua instituição estão envolvidos como membros do conselho ou consultores da THI e colaboraram com a THI em seus esforços para desacreditar as evidências científicas que são contrárias à sua ideologia. Posso garantir que a pesquisa da Texas A&M é conduzida em função da ciência, e apenas da ciência.

Além da minha preocupação com as descobertas do JAMA, estou anexando uma ilustração que o Dr. Willett apresentou em uma conferência de cardiologia para atacar um renomado professor da Texas A&M e a própria universidade como sendo influenciado pela indústria. Esta alegação sem fundamento foi rejeitada de forma independente e demonstrada falsa no artigo JAMA.

No momento, não temos uma base sólida para mostrar que essas ações contra a Texas A&M e seu corpo docente são endossadas ou toleradas por sua instituição e esperamos poder trabalhar juntos para resolver esse problema. Essa resolução deve incluir uma avaliação séria da Harvard de sua afiliação à THI e uma revisão ética abrangente de qualquer professor de Harvard envolvido com a THI. Vários cientistas cortaram laços com o THI por causa dos problemas discutidos nesta carta. A Texas A&M aplaude a posição adotada por esses cientistas e incentiva Harvard a mostrar a mesma coragem.

A Texas A&M pede que Harvard se junte a nós para uma abordagem puramente científica da nutrição em prol da saúde pública e da confiança pública e rejeite as políticas e ações antiéticas da THI que procuraram desacreditar a ciência e interferir no processo científico.

Atenciosamente,
 
John Sharp
Reitor

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A censura do blog - e o novo canal no Telegram

A coisa começou após uma postagem sobre diabetes. Mais especificamente, a postagem na qual eu falava das novas diretrizes nutricionais da ADA (Associação Americana de Diabetes) que passavam a adotar low-carb como uma das estratégias nutricionais padrão, e a que obtinha os melhores resultados, em diabetes tipo 2. Inúmeras pessoas começaram a me dizer que não conseguiam compartilhar a postagem nem no Instagram, nem no Facebook:


Logo descobri que não era possível sequer enviar o link da postagem pelo messenger ou por direct. O motivo permanece um mistério ("viola os padrões da comunidade"), e por mais que as pessoas selecionassem a opção "se você acha que isso é um erro, avise-nos", nunca houve uma resposta.


Não só isso: pouco tempo depois, o blog inteiro foi bloqueado. Faça o teste você mesmo. Tente compartilhar qualquer postagem desse blog no Instagram ou Facebook. A coisa chega ao extremo de bloquear qualquer página que aponte para o blog - inclusive Linktree, etc. Seja lá qual foi o crime, deve ser inafiançável...

Recentemente, tenho pensado muito sobre isso. A internet começou com o conceito da descentralização - não havia um computador central da internet. A internet é a coletividade das redes de  computadores que a compõem. Este blog deve o seu sucesso a esse aspecto democratizante da rede. Uma pessoa, com seu computador pessoal, é capaz de falar para o mundo. Antes da internet, isso só poderia ser feito através de uma rede de TV, ou de um grande editor. A internet parecia remover tais gargalos que separavam autor e audiência, e o algoritmo do Google, ao indexar as páginas por popularidade e por citação, parecia oferecer algum tipo de meritocracia digital. 

Mas isso foi antes da ascensão das redes sociais. Aquilo que surgiu para conectar antigos colegas de escola e parentes, virou A INTERNET de fato. Muitas pessoas obtêm todas as informações e notícias exclusivamente na Rede. Para boa parte da humanidade, a internet é o Facebook e o Instagram. Que são uma única empresa - A Rede Social. A internet, que nasceu descentralizada, agora roda - em sua maioria - nos servidores de uma única corporação privada, com sede nos EUA, regida por regras próprias e pouco claras, às quais você prestou vassalagem, num pacto faustiano, ao clicar "eu concordo".

Por este motivo, criei um novo canal para passar informações ao meu público sem a censura kafkiana da Rede Social. 

O canal pode ser acessado em t.me/drsouto

Lá no canal, escrevi um pequeno texto de boas-vindas:

"O Instagram e o Facebook baniram (há vários meses) o compartilhamento de qualquer link do meu blog, seja em postagens ou até mesmo em mensagens. Já reclamei - sem resposta. Meus leitores já reclamaram - sem resposta.
A verdade é que essa empresa tomou para si a prerrogativa de decidir, unilateralmente, o que você deve ou não deve ler, o que você deve ou não deve ver na sua time-line. E a culpa é nossa. Nós que conferimos a essa empresa o status de monopólio da informação, oferecendo de graça todos os detalhes de nossas vidas, em troca de vídeos de gatinhos. 
A verdade é que não podemos ficar na mão de tais plataformas. Existe vida fora do ecossistema Facebook/Instagram. Para essa empresa, você não é o CLIENTE - os clientes são as empresas que compram as suas informações. Para essa empresa, você (e seus dados, e sua vida) é o PRODUTO. 

De agora em diante, estarei postando aqui tudo o que for relativo ao meu blog, todos os novos estudos e publicações que achar relevantes para o meu público e - por que não? - o que me der na telha.
Seja bem-vindo ao Ciência low-Carb Sem Censura."

O fato de que o algoritmo deste leviatã digital decide o que você deve ou não ler e assistir deveria ser assustador. Nos anos de chumbo, a censura oficial tentou banir a circulação da informação inconveniente mediante o uso da força. Eram mesmo muito toscos, nossos censores. O que A Rede Social fez foi muito mais eficaz. Como explica Yuval Harari, um algoritmo que conhece você melhor do que você mesmo é capaz de lhe entreter com aquilo que você mais quer ler e ver, ao mesmo tempo em que censura aquilo que A Rede Social julga, em sua onipotência e onisciência, que deve censurar. Quando ainda se lia jornal, você poderia ler opiniões diferentes em diferentes periódicos. Agora, o algoritmo lhe fornece a versão que ele sabe que você irá gostar mais. E se a Rede decidir que você não deve ler algo - você nem saberá que está sendo cesurado. Pois a vida, nesta distopia para a qual caminhamos, é integralmente contida dentro do ecossistema da própria rede.

Voltando à censura do blog. O que fazer? É difícil saber, quando nem se sabe o motivo. Terá sido denúncia de um grupo organizado (no próprio Facebook?)? Terá sido uma queixa de alguma sociedade/grupo insatisfeito? Como resolver, se não sei o motivo? Como se defender quando não se sabe do que se está sendo acusado? 

Nessas horas, o livro O Processo, de Franz Kafka, vem à mente:

"Nesta obra, o protagonista, atônito, ao ser informado que contra ele havia um processo judicial (ao qual ele jamais terá acesso e fundado numa acusação que ele jamais conhecerá), percorre as vielas e becos da burocracia estatal, cumpre ritos inexplicáveis, comparece a tribunais estapafúrdios, submete-se a ordens desconexas e se vê de tal modo enredado numa situação absurda, que a narrativa aproxima-se (e muito) da descrição de confusos pesadelos. Mas não distam muito de pesadelos os processos reais que tramitam nos vãos da estrutura pesada, arcaica, burocrática e surreal das instituições zelosas da Justiça, de modo que, por fim, Franz Kafka terá sempre o mérito de ter, no início do século passado, retratado a sociedade de muitos povos, com fidelidade e crueza dignos de alçar sua obra à imortalidade." (Wikipedia)

Penso que a solução para essa situação kafkiana passa por sair um pouco do ecossistema da Rede Social, pois ao contrário Josef K., o personagem do livro, isso não nos foi imposto. Nós é que clicamos em "eu aceito".

Espero vocês todos em t.me/drsouto

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O dia em que a nutrição quase implodiu


Em 1962, o mundo quase acabou. No episódio conhecido como a Crise dos Mísseis, os EUA descobriram que a União Soviética havia instalado mísseis com ogivas nucleares na ilha de Cuba, a apenas 140 Km do território estadunidense. A tensão subiu a níveis perigosos. Nos 13 dias entre 16 e 28 de outubro, a civilização esteve à beira do abismo. No dia que ficou conhecido como "sábado negro", um avião espião dos EUA foi abatido pelos soviéticos em Cuba, e seu piloto morreu. Literalmente, o mundo como o conhecemos quase acabou. Mas as negociações diplomáticas e o empenho dos mandatários Kennedy e Kruschev evitaram a guerra termonuclear total, culminando com a retirada dos mísseis em 28 de outubro de 1962.

Você pode não ter percebido, mas algo muito parecido aconteceu no mundo da nutrição em 19 de novembro de 2019. O dogma nutricional esteve a um passo da aniquilação. Não fosse a intervenção de nossos bravos heróis, David Katz, Walter Willett e Frank Hu, você poderia achar que a carne vermelha não vai lhe matar. Assim como Kennedy e Kruschev, esses estadistas do status quo, esses faraós da pirâmide alimentar fizeram o possível e o impossível para bloquear a explosão do seguinte dispositivo termo-nuclear:

Disfarçado neste inocente exemplar de um dos mais prestigiosos periódicos científicos da medicina, estavam 5 revisões sistemáticas e metanálises sobre carne vermelha e mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, desfechos cardiometabólicos, derrame, câncer e diabetes.

A conclusão?
Não há evidências de ensaios clínicos randomizados - o tipo de estudo que poderia estabelecer causa e efeito - de que o consumo de carne vermelha aumente o risco de doença cardiovascular, câncer ou diabetes. Quanto aos estudos observacionais de epidemiologia nutricional - o tipo de estudo que é repleto de vieses, nos quais fatores de confusão turvam os resultados -  relações entre carne vermelha e desfechos ruins eram de magnitude diminuta e grande incerteza, de modo que não justificariam a orientação de reduzir seu consumo. Coma seu filé.

19 de novembro de 2019 foi a terça-feira negra da ortodoxia nutricional. Na edição de anteontem do JAMA (Revista da Associação Médica Americana - um periódico científico altamente respeitado), foi publicado um extenso e detalhado relato das medidas desesperadas que Katz, Willet e Hu empregaram para censurar essa informação e, assim, proteger os crédulos cidadãos do mundo sobre as fake news. Afinal, o Hamburger do Futuro é sem carne vermelha, não é mesmo?


A seguir, traduzo alguns trechos deste excelente texto do JAMA, de modo que você, possa ter uma ideia da magnitude dos interesses por trás da demonização da carne vermelha. Todos os trechos em itálico são traduções literais do editorial do JAMA.

"É quase inédito que periódicos médicos sofram reações negativas sobre estudos antes que os dados tenham sido publicados. Mas foi o que aconteceu com o Annals of Internal Medicine no outono passado, quando os editores estavam prestes a publicar vários estudos mostrando que as evidências que ligam o consumo de carne vermelha com doenças cardiovasculares e câncer são muito fracas para recomendar que os adultos comam menos carne."

"A editora-chefe da Annals, Christine Laine, MD, MPH, viu sua caixa de entrada inundada com cerca de 2000 e-mails - a maioria trazia a mesma mensagem, aparentemente gerada por um bot - em meia hora. A caixa de entrada de Laine teve que ser fechada, ela disse. Não apenas o volume era sem precedentes em sua década à frente do respeitado periódico, como o tom dos e-mails era particularmente cáustico."

""Nós já publicamos muito sobre prevenção de lesões por armas de fogo", disse Laine. "A resposta da NRA (National Rifle Association, uma associação de defende os donos de armas de fogo no EUA) foi menos raivosa do que a resposta da True Health Initiative.""

E quem é a True Health Initiative ("iniciativa para a saúde verdadeira", em português)?

"A True Health Initiative (THI) é uma organização sem fins lucrativos fundada e chefiada por David Katz, MD."
"Walter Willett, MD, DrPH, e Frank Hu, MD, PhD, pesquisadores de nutrição de Harvard que estão entre os principais nomes em seu campo, atuam no conselho de diretores da THI."

"Katz, Willett e Hu deram o raro passo de entrar em contato com Laine sobre a retirada dos estudos antes de sua publicação"


 A MELHOR FRASE DE TODO O ARTIGO: "Talvez isso não seja surpreendente. "Alguns dos pesquisadores construíram suas carreiras baseadas em epidemiologia nutricional", disse Laine. "Entendo que é perturbador quando as limitações do seu trabalho são descobertas e discutidas à luz do dia."

OUTRO PARÁGRAFO LAPIDAR DO ARTIGO DO JAMA: "Mas o que em grande parte foi esquecido é que Katz, THI e muitos de seus membros do conselho têm numerosos laços na indústria. A diferença é que seus vínculos estão principalmente com empresas e organizações que lucram se as pessoas comerem menos carne vermelha e seguirem uma dieta mais baseada em vegetais. Ao contrário da indústria de carne bovina, essas entidades são cercadas por uma aura de saúde e bem-estar, embora isso não seja necessariamente baseado em evidências."

"Nos artigos do Annals, os membros do NutriRECS (a instituição que congrega os autores dos 5 artigos) e seus co-autores escreveram que procuravam trazer rigor científico às diretrizes atuais de consumo de carne, baseadas principalmente em estudos observacionais que não estabelecem relações de causa e efeito."

"[As metanálises] não encontraram nenhuma ligação estatisticamente significativa entre o consumo de carne e o risco de doenças cardíacas, diabetes ou câncer em uma dúzia de ensaios clínicos randomizados que registraram cerca de 54.000 participantes. Eles encontraram uma redução irrisória do risco de doença entre as pessoas que consumiam 3 porções a menos de carne vermelha semanalmente, em estudos epidemiológicos que seguiram a milhões de pessoas, mas tal associação era muito incerta".

"As demandas para retirar os documentos do Annals antes de serem publicados sugerem que a política de embargo da revista havia sido violada. (Os embargos proíbem repórteres e assessores de imprensa das instituições dos autores de divulgar artigos antes de serem publicados. Quebrar um embargo é uma violação grave.)"

Mas nossos valentes não estavam preocupados com a ética ou com as leis - afinal, estavam em uma missão para salvar a utopia plant-based que está por vir:

"Quatro dias antes da publicação dos artigos, Katz e 11 membros do THI enviaram uma carta a Laine pedindo-lhe que “retrate preventivamente a publicação desses artigos, aguardando uma revisão adicional por seu escritório”. Os signatários incluíam os membros do conselho do THI Hu e Willett; Neil Barnard, MD, presidente do Comitê de Médicos para Medicina Responsável (PCRM); o ex-cirurgião geral dos EUA Richard Carmona, MD, MPH; David Jenkins, MD, PhD, professor de nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto; e Dariush Mozaffarian, MD, DrPH, reitor da Escola Friedman de Ciência e Política Nutricional da Universidade Tufts. "

Barnard é o mesmo sujeito que disse em um documentário do Netflix que comer um ovo é o mesmo que fumar 5 cigarros. Esta gente é capaz de qualquer coisa para avançar sua causa fanática.

"É realmente assustador que esse grupo, que inclui pessoas como Walter Willett e Frank Hu da Escola de Saúde Pública de Harvard, que por acaso é a minha alma mater, tivesse ciência disso e estivesse ajudando nessa trama", disse Laine." 

"O PCRM de Barnard chegou ao ponto de pedir à Federal Trade Commission (FTC) "para corrigir declarações falsas sobre o consumo de carne vermelha e processada divulgadas pelos Annals of Internal Medicine".
"Apesar do nome do PCRM (Comitê de Médicos para Medicina Responsável), menos de 10% de seus 175.000 membros são médicos, de acordo com seu site, que descreve a missão da organização como "salvar e melhorar vidas humanas e animais por meio de dietas baseadas em plantas e pesquisas científicas éticas e eficazes".
"Cerca de três semanas depois, o PCRM pediu ao promotor público da cidade da Filadélfia, onde fica o escritório editorial da Annals, "para investigar possíveis perigos imprudentes" resultantes da publicação dos documentos e recomendações."

"Outro ataque veio durante uma recente conferência de cardiologia preventiva de um dia, na qual metade das apresentações foram sobre dietas plant-based. Durante seu discurso, Willett mostrou um slide intitulado "Desinformação", que culpou várias organizações e indivíduos"

Ancel Keys era um amador perto desse pessoal. Censura prévia, ameaças, judicialização, assassinato de reputações. E com a chancela da Escola de Saúde Pública de Harvard por trás... Entre os alvos de Willet, estavam "acadêmicos baseados em evidências ”, ou seja, a NutriRECS e Gordon Guyatt, MD, MSc, presidente do painel que escreveu as diretrizes de consumo de carne."

E quem é Gordon Guyatt? Nada mais, nada menos do que "um professor ilustre da Universidade McMaster em Hamilton, Ontário, [que] liderou o desenvolvimento, há 30 anos, do conceito de medicina baseada em evidências. Em uma entrevista à Canadian Broadcasting Company, alguns dias após a publicação dos artigos de carne, Guyatt chamou a resposta de "completamente previsível" e "histérica"."

Esse episódio poderia entrar para a história como o dia que a EMINÊNCIA tentou assassinar a EVIDÊNCIA. Literalmente, Willett, o mais eminente nome da epidemiologia nutricional, atacou publicamente o pai da Medicina Baseada em Evidências em um PowerPoint de uma conferência de cardiologia de viés plant-based. Por que a carne vermelha TEM QUE SER ruim!

"O THI faz parte de um "movimento" da dieta à base de plantas" "Enquanto isso, os laços da indústria e outros possíveis conflitos de interesse parecem ser comuns entre os membros do conselho da THI e a própria organização." "Entre os "parceiros" sem fins lucrativos listados no site da THI estão #NoBeef, o Olive Wellness Institute, que se descreve como um "repositório científico sobre os benefícios nutricionais, de saúde e de bem-estar das azeitonas e derivados"; e o Projeto Plantrician, cuja missão é "educar, equipar e capacitar nossos médicos, profissionais de saúde e outros influenciadores da saúde com conhecimento sobre os benefícios incontestáveis da nutrição baseada em plantas". "Entre os parceiros com fins lucrativos da THI estão a Wholesome Goodness, que vende "alimentos melhores para você", como batatas fritas, cereais matinais e barras de granola "desenvolvidos com orientação do renomado especialista em nutrição Dr. David Katz"; e Quorn, que vende produtos sem carne feitos de micoproteínas ou fungos fermentados transformados em massa." 

Parece delicioso.

Outra instituição de Katz é a ACLM. "Entre os "parceiros" corporativos da ACLM está o Plant Strong by Engine 2, que realiza retiros "projetados para promover e celebrar o seu potencial à base de plantas", e a MamaSezz, que oferece "refeições integrais à base de plantas prontas para consumo, sem porcarias”.

"O membro do conselho da THI Jenkins listou em seus “interesses concorrentes” dezenas de bolsas de pesquisa de empresas e grupos do setor, incluindo a Pulse (leguminosas) Research Network, o Almond (amêndoas) Board da Califórnia, o Conselho Internacional de Nozes e Frutas Secas; Associação de Alimentos de Soja da América do Norte; o Instituto de Amendoim; A Kellogg do Canadá; e Quaker Oats Canada."

Termina assim o artigo do JAMA: "As diretrizes confiáveis costumavam depender de quem eram as organizações ou as pessoas de quem elas vieram. ”Hoje, porém,“ o público deve saber que não temos grandes informações sobre dieta ”, disse Laine. "Não devemos deixar as pessoas com medo de sofrer um ataque cardíaco ou câncer de cólon se comerem carne vermelha".

***

No final de cada episódio do desenho animado, o narrador diz, com voz empostada "e, mais uma vez, o mundo foi salvo graças às Meninas Super-Poderosas". Bem, isso é ficção. Felizmente, na vida real, David Katz, Frank Hu e Walter Willett, nossos meninos super-poderosos, salvaram de fato, o mundo de seus patrocinadores. A terça-feira negra passou, as pessoas continuam achando que carne vermelha causa câncer e infarto, e a humanidade caminha alegremente para a normalização da noção de que a saúde virá não de uma fazenda, e sim de uma fábrica. Bem-vindo ao (hamburger do) futuro.