Flora intestinal – muito além dos carboidratos

Prepare-se, leitor! Essa será uma postagem DENSA. Se cansar de ler, vá para o final, e leia a conclusão. Estou há mais de UM ANO protelando essa postagem pelo tempo que sabia que demandaria e pela complexidade do assunto – enfim, para evitar as dores do parto. Mas, enfim, 2014 chegou e a postagem nasceu.


O corpo humano tem cerca de 10 trilhões de células. Células humanas, quero dizer. Pois cada um de nós carrega cerca de 100 trilhões de bactérias. Ou seja, para cada célula nossa, há DEZ células bacterianas. Não seria, portanto, errado se definíssemos a nós mesmos como uma grande colônia bacteriana ambulante. A maioria dessas bactérias encontra-se em nosso intestino. Essas bactérias evoluíram junto conosco – precisamos delas para viver. Elas nos ajudam a digerir nossa comida, ajudam a manter o número de bactérias patogênicas sob controle, e cumprem um sem número de outras funções (ativação de hormônios, produção de neurotransmissores, e por aí vai). Por isso mesmo, perturbações na flora estão associados a várias doenças, muitas das quais nem imaginaríamos que possam ter qualquer relação com o intestino.

Muitos artigos têm sido publicados sobre esse assunto, inclusive na mídia leiga, nos últimos meses:

  • Quando pacientes desenvolvem uma grave doença chamada colite pseudomembranosa – uma doença de alta mortalidade cuja causa é justamente alterações da flora intestinal devido ao uso excessivo de antibióticos – um dos únicos tratamentos é o transplante fecal. Você leu bem! Pega-se fezes de um familiar, passa-se em um liquidificador e se introduz através de uma sonda nasoenteral no paciente – a restauração da flora intestinal saudável cura a doença (veja aqui). Pacientes que receberam tais transplantes passaram a apresentar melhora de outras doenças, para surpresa dos médicos; O FDA americano já aprovou o tratamento em tempo recorde em 2013, por ser muito eficiente;
  • Pacientes com diabetes tipo 2 que recebem transplante de fezes de pacientes magros e sadios apresentam melhora na sensibilidade à insulina e nos triglicerídeos (veja aqui). No entanto, com o passar dos meses, o efeito desaparece (veremos porque adiante);
  • Doenças inflamatórias intestinais (Crohn, colite ulcerativa, cólon irritável) às vezes entram em remissão com transplante fecal (veja aqui);
  • Outras doenças auto-imunes (esclerose múltipla, asma, alergias, sinusite, artrite reumatoide, etc): há relatos de caso de melhora e mesmo remissão com transplante fecal (veja aquiaqui e aqui).

O que isso tem a ver com o assunto deste blog (dieta paleolítica e obesidade e doenças ocidentais)? Tudo. E, como veremos, é uma forma de conciliar várias contradições: 1) de que forma low carb funciona mesmo quando se consome proteínas que também elevam a insulina? 2) por que a perda de peso se interrompe (platôs de perda de peso) mesmo mantendo os carboidratos baixos?; 3) por que algumas sociedades com alta consumo de carboidratos (Kitava, Okinawa) são magros e livres das doenças ocidentais? 4) por que doenças de natureza inflamatória crônica e auto-imunes tendem a melhora com páleo?

Ok. Vamos começar com uma das notícias que circulou na mídia em 2013 sobre flora intestinal e obesidade. Veja os seguintes trechos dessa reportagem de revista Ciência Hoje:

“O experimento em questão começa assim: extraem-se bactérias da flora intestinal de irmãs gêmeas – isso é feito por meio de amostras de fezes. Mas, no caso, uma irmã é magra; a outra, obesa – isso ocorre em cerca de 5% dos gêmeos. Injetam-se esses micro-organismos no intestino de camundongos livres de micróbios.

Os roedores que receberam a flora das irmãs obesas ganharam mais peso e acumularam mais gordura, apesar de terem sido submetidos à mesma dieta e igual quantidade de comida que o grupo que recebeu as bactérias das magras.¨

Segue a reportagem:

“Vanessa Ridaura e colegas, da Universidade de Washington (EUA), puseram na mesma gaiola camundongos que haviam recebido as bactérias das gêmeas magras e aqueles que as receberam das obesas.

Camundongos praticam a coprofagia – ou seja, comem fezes. Com base nessa prática, os autores do estudo perceberam que, depois de 10 dias, os roedores obesos começaram a emagrecer e também tiveram o metabolismo alterado. Os camundongos ‘magros’ não foram afetados – ou sejam, seguiram magros e sem alteração metabólica.”

E agora, a parte mais interessante:

“Segundo os autores, as bactérias da magreza não conseguem se hospedar em indivíduos que não se alimentam saudavelmente. O trabalho está emScience. Ou seja, dietas não saudáveis (por exemplo, pobres em fibras) acabam inviabilizando a flora intestinal responsável pela magreza.

(por favor, não saia correndo para catar as fezes daquela vizinha magricela!)

E que “dieta saudável” seria essa, para humanos? Isso nos leva a esse maravilhoso artigo, publicado em 2012:

 Traduzindo: A comparação com dietas ancestrais sugere que carboidratos densos acelulares promovem uma microbiota (flora) inflamatória, e podem ser a causa primária da resistência à leptina e da obesidade.

Ok, leitores, apertem os cintos:

  • Os autores começam por indicar que foi um grande erro implicar o consumo de gordura como causa de obesidade (ou seja, são pessoas esclarecidas);
  • Com a dieta ocidental, manter-se magro requer restrição calórica voluntária contínua;
  • Mesmo os ocidentais magros têm leptina alta (leptina é um hormônio que deveria produzir saciedade e maior gasto calórico; neste contexto, leptina alta é um indicador de resistência à leptina, uma situação na qual há redução do gasto calórico e aumento da fome);
  • Os nativos de Kitava, que consomem uma dieta páleo de ALTO carboidrato (60-70% das calorias na forma de raízes e frutas, mas sem grãos nem açúcar), têm níveis de leptina, insulina e glicose dramaticamente mais baixos que os dos ocidentais (embora seu nível de atividade física seja o mesmo de um trabalhador braçal ocidental);
  • As causas não são genéticas/étnicas, pois os nativos que mudam-se para as cidades tornam-se obesos;
  • O mesmo fenômeno foi observado em outra culturas caçadoras-coletoras mundo afora;
  • É notável a independência da proporção de macronutrientes na saúde das populações que consomem dietas ancestrais:
    • Kitava: ALTO carboidrato, incluindo alto índice glicêmico
    • Masai, Kavirondo, Turkhana: muita carne vermelha, baixo carboidrato.
    • São todos igualmente saudáveis e livres das doenças ocidentais;
  • TODOS os estudos comparando uma dieta com grãos versus uma dieta sem grãos indicam benefício da dieta sem grãos;
  • Dietas páleo são cerca de 30% mais saciantes do que a dieta ocidental – medida em estudos clínicos controlados;
  • Esta maior saciedade é independente da densidade calórica, da densidade de fibras ou da proporção de macronutrientesbasta ser páleo.
  • O balanço geral das evidências aponta para os alimentos processados em geral e para os grãos em particular como os principais responsáveis pela obesidade;
  • A obesidade é caracterizada por inflamação crônica sistêmica;
  • Lipopolissacararídeos (LPS) circulantes – fragmentos de bactérias da flora intestinal, presentes no sangue e absorvidos através da parede do intestino – estão muito relacionados à inflamação crônica sistêmica e à síndrome metabólica;
  • Pacientes com fígado gorduroso têm níveis mais elevados de LPS circulantes e maior permeabilidade intestinal;
  • O consumo da dieta ocidental-padrão (alto carboidrato+alta gordura) está associado com aumento dos LPS circulantes
  • Inflamação do intestino precede e prediz a obesidade modelos animais de obesidade induzida pela dieta;
  • Esta inflamação é associada a alterações da flora intestinal e da permeabilidade intestinal;
  • Os LPS (oriundos das bactérias da flora intestinal) induzem a resistência à leptina através da ativação de determinados genes;
  • O início do aumento da ingesta alimentar nos modelos animais de obesidade induzida pela dieta coincidem com este aumento da leptina (e da resistência à leptina);
  • A leptina, se estivesse funcionando, aumentaria a sensibilidade do sistema nervoso aos mediadores da saciedade; no entanto, na vigência da inflamação induzida por LPS’s, isso não ocorre;
  • A modulação da microbiota intestinal de camundongos geneticamente obesos (Ob/Ob) com antibióticos reduz os níveis de LPS, marcadores inflamatórios, intolerância à glicose, gordura visceral e peso;
  • Estas alterações da sensibilidade à insulina, glicose e marcadores metabólicos relacionadas à flora intestinal é um fenômeno altamente conservada do ponto de vista evolutivo, estando presente até mesmo na mosca da fruta (drosófila);
  • Há evidências de que as floras intestinais de caçadores-coletores diferem significativamente das floras de pessoas com dietas ocidentalizadas;
  • Em roedores, uma dieta rica em gordura saturada aumenta a endotoxemia (presença de LPS’s pró-inflamatórios e pró-obesidade no sangue, presumivelmente pelo facilitação do transporte dessas substâncias através da mucosa);
  • Em humanos, no entanto, dietas low carb reduzem o peso de forma espontânea, enquanto dietas low fat só funcionam mediante restrição calórica forçada;
  • Em humanos, caçadores-coletores de sociedades com alto consumo de gordura são tão saudáveis quanto caçadores-coletores de sociedades de sociedades com alta consumo de carboidratos – ambos não apresentam sinais de problemas metabólicos ou inflamatórios;
  • Assim, há ALGO na dieta ocidentalizada que é responsável pela inflamação e obesidade, e não é a proporção de carboidratos e/ou gorduras;
  • Uma teoria universal da obesidade precisa ser capaz de conciliar as observações de que sociedades primitivas com dietas de baixo carboidrato e alto carboidrato são, AMBAS, magras e saudáveis;

Segue o artigo:

  • A HIPÓTESE:
  • O elemento comum à todas as variantes de dieta ocidental são os produtos não perecíveis FARINHA e AÇÚCAR;
  • Uma distinção fundamental entre os alimentos modernos contendo estes produtos e os alimentos ancestrais é a DENSIDADE DE CARBOIDRATOS;
  • No gráfico abaixo, em cor cinza estão os alimentos que fazem parte da dieta ocidental, e em branco os alimentos que fazem parte da dieta ancestral (páleo); observe que a densidade de carboidratos (quantos gramas de carbs estão presentes em 100g daquela comida) é MUITO maior nos alimentos atuais (modernos):

  • Os outros 2 gráficos mostram que há certa sobreposição entre densidade calórica e índice glicêmico entre alimentos ancestrais e modernos – ou seja, estes dois não são os fatores que diferenciam as dietas; 
  • Tubérculos, frutas e folhas guardam seus carboidratos em organelas intracelulares, dentro das células vegetais com paredes fibrosas; a densidade máxima de carboidratos nessas estruturas é de 23% (a maior parte das células são água);
  • Os CARBOIDRATOS ACELULARES (açúcar, farinha e amidos processados) são consideravelmente MAIS DENSOS;
  • Os GRÃOS também são DENSOS;
  • Alimentos vegetais com células vivas manterão sua densidade de carboidratos baixa até que as enzimas digestivas quebrem as paredes celulares;
  • Assim, o QUIMO (o produto da digestão no estômago) produzido pela digestão de carboidratos acelulares (farinha, açúcar, grãos) terá uma densidade de carboidratos MUITO MAIOR do que qualquer coisa que a flora intestinal humana possa ter encontrado durante a co-evolução humana-bacteriana;
  • Isto poderá alterar significativamente a composição dessa flora intestinal;
  • Propõe-se aqui que esta flora intestinal inflamatória, induzida pela dieta ocidental rica em carboidratos densos acelulares, possa ser o fator iniciador da resistência à leptina que caracteriza as pessoas que consomem dietas ocidentalizadas
  • UMA VEZ QUE a flora inflamatória esteja estabelecida, AÍ SIM o consumo de gorduras (especialmente as refinadas) aumentaria a absorção de LPS’s, o que tornaria uma dieta rica em AMBOS, carboidratos acelulares densos e gordura, altamente obesogênica;
  • A retirada total dos carboidratos acelulares densos tenderiam a restaurar uma flora intestinal menos inflamatória, resistente aos efeitos exacerbatórios da gordura sobre a obesidade;
  • Parece haver uma relação não-linear entre o consumo de carboidratos acelulares densos e a flora inflamatória, de modo que mesmo pequenas quantidades parecem induzir resistência à leptina;
  • As pessoas de descendência europeia parecem ter desenvolvido algum grau de resistência a esses efeitos quando comparados aos caçadores-coletores; nos europeus, em geral, a obesidade e a franca diabetes só aparecem quando, além de comerem pão, substituem as demais fontes de carboidratos celulares (frutas e vegetais) – por fontes de carboidratos acelulares densos: açúcar, farináceos e comidas processadas com óleos refinados
  • A adoção dos carboidratos acelulares densos produziu uma epidemia de cáries a partir do neolítico;
  • O mesmo fenômeno que ocorre no intestino, ocorre na boca – a indução de uma flora altamente inflamatória;
  • Patologias gengivais (periodontal) são altamente correlacionadas com doença cardiovascular, obesidade e diabetes;
  • A dieta mediterrânea é um POUCO melhor que a dieta ocidental padrão, devido à inclusão de mais carboidratos celulares no lugar de carboidratos acelulares densos e gordura, e ênfase em pães um pouco menos densos;
  • No entanto, uma quantidade suficientemente grande de carboidratos acelulares densos permanece, mantendo a microbiota intestinal inflamatória e prevenindo redução significativa da leptina;
  • Isso explica a necessidade de manter a restrição calórica voluntária na dieta mediterrânea para evitar o ganho de peso;
  • Uma dieta LOW CARB reduzirá drasticamente os carboidratos acelulares densos como um efeito colateral de reduzir TODOS os carboidratos;
  • Isso reduziria a flora intestinal inflamatória, com perda de peso SEM restrição consciente das calorias e melhora dos marcadores metabólicos;
  • Entretanto, dietas LOW CARB retêm alguns carboidratos (tipicamente de 20-50g/d), SEM preocupações quanto à sua densidade (clique aqui para ler a diferença entre low carb e páleo, que neste momento dever ter-se tornado óbvia);
  • Isso significa que a pequena quantidade de carboidratos que são mantidos na dieta, SE FOREM DENSOS, podem manter a flora inflamatória e, assim, ter o efeito aditivo das gorduras que facilitam a passagem dos LPS’s para a corrente sanguínea;
  • Isso, possivelmente, explica o “platô” (a parada de perda de peso) que frequentemente se verifica nas dietas Low Carb, inclusive com o reinício do ganho de peso mesmo mantendo os carboidratos baixos;
  • Mais uma vez, uma dieta paleolítica seria capaz de reverter a microbiota intestinal para um perfil menos inflamatório;
  • Na adoção inicial da mudança alimentar, ocidentais com sobrepeso podem inicialmente beneficiar-se de uma dieta páleo LOW CARB;
  • Entretanto, com o tempo (e assumindo que a pessoa não tenha o pâncreas permanentemente prejudicado pelo diabetes), a restauração da sensibilidade à insulina deve permitir a reintrodução de níveis maiores de frutas e raízes não-refinadas;
  • Isto é justamente o que tem sido relatado, de forma anedótica, pelas pessoas que adotam uma dieta páleo, e é compatível com o que se observa na ilha de Kitava;
  • A importância da celularidade e da baixa densidade  dos carboidratos poderia explicar porque suplementar fibras e antioxidantes não funciona – pois não afetam a flora intestinal da mesma forma que os carboidratos acelulares densos intactos (células vegetais íntegras); em outras palavras, as células vegetais devem estar íntegras – separar industrialmente a fibras e o amido e depois juntar novamente não tem o mesmo efeito.

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Ok, respire fundo, tome um café. E vamos adiante.

Isso significa uma mudança geral em tudo o que está escrito nesse blog desde 2011, em especial na teoria da insulina? Não necessariamente. Vou me socorrer de uma analogia da física.

Até o advento do século 20, a teoria de Newton e suas equações pareciam descrever com perfeição o movimento dos corpos e a gravitação. Haviam sido testadas por centenas de anos, e seus cálculos sempre descreviam os resultados experimentais com perfeição. Então, Albert Einstein propôs a teoria da relatividade. Suas previsões eram quase idênticas em situações de velocidades e gravidade terrestres, mas completamente diferentes em velocidades próximas à da luz ou em campos gravitacionais intensos (como os das estrelas). De fato, quando se substitui, nas equações da relatividade especial, valores de velocidade comuns na terra, essas equações ficam virtualmente IGUAIS às da física newtoniana.

Você ainda está aí? Ótimo! Onde quero chegar com essa analogia? É o seguinte:

  • Karl Popper, o grande filósofo da ciência, explicava que “a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efetuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos fatos.” (as diretrizes nutricionais vigentes, por exemplo, são contrariadas pelos fatos);
  • Uma teoria científica não pode, contudo, CONTRARIAR a realidade (como dizer que a terra é plana ou que a pirâmide alimentar é saudável);
  • Toda a explicação científica é, portanto, esquemática e, no fundo, uma simplificação provisória;
  • Já pincelei esse assunto em uma postagem prévia;
  • Isso significa que a teoria da insulina está ERRADA? Não, da mesma forma que a mecânica de Newton não está errada – está apenas INCOMPLETA;
  • A mecânica de Newton está CONTIDA na relatividade de Einstein;
  • Há, contudo, situações em que as explicações da mecânica clássica deixam de explicar os fenômenos físicos; da mesma forma, há situações em que a teoria da insulina é insuficiente para explicar a realidade (Kitava, por exemplo).

É neste contexto que proponho a re-leitura do seguinte trecho desta minha antiga postagem:

Somente a ciência experimental foi capaz de estabelecer com certeza qual teoria descrevia o mundo como ele realmente era. Mas nenhuma das teorias (geocentrismo ou heliocentrismo) negava o fato de que o sol nascia no leste e se punha no oeste. (…) Vejamos. O FATO da vida, demonstrado por todos os estudos prospectivos e randomizados, é que uma dieta pobre em açúcar e farináceos, sem glúten, menos processada, e rica em fibras, rica em proteínas, rica em gorduras naturais produz melhores resultados na saúde humana (ver aqui, ou aqui, ou aqui para alguns exemplos). Várias teorias podem ser utilizadas para explicar este fenômeno, de acordo com o paradigma que se adota. O Dr. Atkins e Gary Taubes diriam: “é claro, funciona pois reduziram-se os carboidratos e a insulina”; O Dr. Lustig diria “é claro, funciona pois removeu-se o açúcar, e com ele a frutose, que é uma toxina”; O Dr. William Davis diria “É claro que funciona, afinal é uma dieta sem glúten”; O Dr. Stephan Guyenet diria: “É claro que funciona, pois com a remoção dos alimentos processados e do açúcar, diminui a palatabilidade da comida, e come-se menos”; e Loren CordainRobb Wolf e Mark Sisson diriam “é claro que funciona, pois estes são os alimentos que nossos ancestrais consumiam, e aos quais estamos geneticamente adaptados”. Eu não sei se já está ficando claro para o leitor, mas alguns podem estar certos e outros errados, ou mesmo todos podem estar certos ao mesmo tempo. MAS ISSO NÃO MUDA os fatos. O sol continua a nascer e a se por, alheio aos devaneios geocêntricos ou heliocêntricos. A saúde das pessoas continua a melhorar de forma prodigiosa com estas modificações de estilo de vida, independentemente se isso se deve à adoção de uma dieta ancestral ou se é apenas pela redução da insulina. TANTO FAZ.”


Apenas acrescente, acima, a teoria da flora intestinal.

Há uma antiga lenda indiana, que cai como uma luva nesta situação:

File:Blind.JPG

“Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda.


Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio.

Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha.

No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele.

O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:
– Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes…

– Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra…

– Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia…

– Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante…

– Vejam só! – Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele.

E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.

Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:

É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!