Karl Popper e a fada do dente

“Never let the truth get in the way of a good story.”
― Mark Twain

“He uses statistics as a drunken man uses lamp-posts…for support rather than illumination.”
―Andrew Lang (1844-1912) Scottish poet, novelist and literary critic

Eis que recebo a seguinte pergunta de uma leitora do blog:

“Estava lendo um livro (não diretamente relacionado à alimentação) e me deparei com este trecho: “David Cummings e sua equipe mostraram que proteína e açúcar suprimem a grelina, provocando uma rápida diminuição de 70% no hormônio da fome, enquanto a gordura faz os níveis de grelina caírem mais lentamente e apenas cerca de 50%. Os pesquisadores sugerem que essa fraca supressão da grelina por alimentos altamente gordurosos pode ser um dos mecanismos que determinam o aumento de peso causado por dietas com elevados teores de gordura.” (Jennifer Ackerman, A melhor hora pra você). Essa pesquisa tem algum fundamento? Não me pareceu coerente o açúcar reduzir o hormônio da fome a níveis menores do que a gordura, que nos deixa saciados por muito mais tempo.”


Isso me lembrou, imediatamente, do conceito de “ciência da fada do dente“, de Harriet Hall:

“You could measure how much money the Tooth Fairy leaves under the pillow, whether she leaves more cash for the first or last tooth, whether the payoff is greater if you leave the tooth in a plastic baggie versus wrapped in Kleenex. You can get all kinds of good data that is reproducible and statistically significant. Yes, you have learned something. But you haven’t learned what you think you’ve learned, because you haven’t bothered to establish whether the Tooth Fairy really exists.”

Tradução livre: “Você poderia medir quanto dinheiro a fada do dente deixa em baixo do travesseiro, se ela deixa mais dinheiro para o primeiro ou para o último dente perdido, se a recompensa é maior para o dente deixado em um saquinho plástico ou enrolado em um guardanapo. Você pode conseguir montes de dados, reprodutíveis e estatisticamente significativos. Sim, você aprendeu algo. Mas você não aprendeu aquilo que você acha que aprendeu, pois você não se preocupou em estabelecer se a fada do dente realmente existe“.


Antes de analisar todos os dados sobre a fada do dente, não custa verificar PRIMEIRO se ela EXISTE.

Você pode medir a grelina após o consumo de carboidratos, proteína e gordura para ver por que uma dieta com mais gordura engorda. Mas ANTES, convém verificar SE uma dieta com gordura engorda!!! O que os DADOS, a REALIDADE, enfim, essas coisas inconvenientes dizem?

Para entender a magnitude das evidências empíricas que demonstram a realidade de que dietas LCHF emagrecem, em média, o DOBRO do que as dietas de baixa caloria e baixa gordura, clique aqui (mais detalhes aqui), ou aqui.

Ou seja, o autor que nossa leitora transcreveu exemplifica de forma, digamos, pitoresca, um caso EXEMPLAR de ciência da fada do dente: explicações complexas para um fenômeno fictício.

“Never let the truth get in the way of a good story.”
― Mark Twain

Adaptado à nossa situação, a sarcástica citação de Mark Twain seria o equivalente a dizer: “jamais deixe que meros fatos atrapalhem a sua bela teoria”

Karl Popper, o grande filósofo da ciência, explica a relação entre os fatos empíricos e as nossas teorias. Conforma a Wikipedia:

Popper argumentou que a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efetuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos fatos.

O que a experiência e as observações do mundo real podem e devem tentar fazer é encontrar provas da falsidade daquela teoria. Este processo de confronto da teoria com as observações poderá provar a falsidade da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenômeno em análise. (Ver Falseabilidade). Em outras palavras, uma teoria científica pode ser falsificada por uma única observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá garantir que a veracidade de uma teoria científica seja eterna e imutável.”


Já analisamos a pergunta da leitora à luz da “ciência da fada do dente”. Vamos rever à luz de Karl Popper:

1) Os autores postulam que as diferentes alterações na grelina provocadas por carboidratos, proteínas e gorduras explicam o fato de que dietas de alta gordura produzem ganho de peso.

2) no “confronto da teoria com observações”, observa-se que um dos postulados (as alterações diferenciais de grelina) é empiricamente correta (ao menos por hora), mas que as pessoas que consomem dietas ricas em gordura e pobres em carboidratos são, em média, mais MAGRAS do que as demais, em TODOS os estudos que já foram conduzidos sobre o assunto.

3) Então, nas palavras de Popper, “Neste processo de confronto da teoria com as observações poder-se-á provar a falsidade da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenômeno em análise“.

É assim que a ciência funciona. Os fatos têm precedência. O resto, é teoria da fada do dente.

Certa feita escrevi uma dessas postagens inspiradas, cuja leitura recomendo como tratamento da insônia: Ptolomeu, os epiciclos e as calorias. A postagem ilustra bem o tema de que hora tratamos.

***

O PARADOXO DOS CAMUNDONGOS GORDOS

Recebi este email de outra leitora:

“Dr. Souto, estou fazendo um curso sobre Síndrome Metabólica e foi falado que a gordura saturada aumenta a resistência à insulina (spoiler alert: não é verdade – ver no final dessa postagem). Vi um artigo da Unicamp dizendo que a gordura saturada provoca uma inflamação do hipotálamo levando a resistência à insulina, por liberar citocinas inflamatórias. Estou bem insegura quanto ao consumo desta gordura depois de ter acesso a estas informações.”

Na verdade, esse é apenas UM email, mas eu devo ter recebido uns dez emails semelhantes. O motivo de tantos emails é um estudo, conduzido em camundongos.

Minha resposta foi:

“Dois problemas. 1) camundongos são animais muito diferentes de nós no que diz respeito à dieta. Eles, por exemplo, são adaptados justamente a comer aquilo a que nós não somos: grãos!! Lembre-se, eles são ROEDORES, seres que efetivamente conseguem comer sementes sem processá-las antes. E eles NÃO são carnívoros, de modo que dar bastante gordura animal para um ser cuja dieta básica é grãos e vegetais pode não ser uma boa, pelo MESMO motivo que dar muitos grãos e pouca gordura animal para um ser humano também não faz sentido. 2) O coordenador do estudo já parte de uma premissa completamente errada: “É sabido que quem ingere muita gordura ganha peso”. É sabido por QUEM, cara-pálida?? Me mostre UM estudo em humanos em que isso tenha sido demonstrado. TODOS os estudos demonstram o OPOSTO. Se você já parte da conclusão, é fácil montar experimentos que confirmem sua hipótese. O processo científico é feito ao contrário. Parte-se de uma hipótese, e monta-se um experimento para tentar provar que a hipótese é falsa. Se a hipótese sobreviver, ela fica mais forte. Procure no blog os estudos que realmente importam, os prospetivos randomizados feitos em humanos. Compre os livros do Taubes, e você encontrará DEZENAS de estudos em camundongos que contradizem este aí. E ONDE ESTÁ o braço de dieta com mais gordura e menos carboidrato? Pois há estudos em roedores mostrando benefícios de uma dieta com menos carbs. E a dieta que mais engorda e vicia os bichos… adivinhou, é a com alto açúcar, e Yudkin já havia estudado isso na década de 50. Mas se você parte do PRINCÍPIO que as gorduras saturadas são más, e desenha seu experimento para testar apenas isso, você achará o que quer achar. Se sua única ferramenta é um martelo, tudo é prego.”Nesta postagem (https://lowcarb-paleo.com.br/2013/12/o-figado.html), há um outro detalhe – o tipo de dieta de alta gordura que engorda roedores é uma dieta inflamatória, pelo tipo de gordura utilizada e por ser nutricionalmente deficiente:“Uma coisa que confunde quem é novo na área é o seguinte: embora todos os estudos em roedores mostrem que reduzir os carboidratos e/ou aumentar as proteínas seja benéfico para o fígado (e para os rins, e para a síndrome metabólica), há vários estudos em roedores nos quais uma dieta de alta gordura INDUZ esteatose, resistência à insulina e até mesmo obesidade. Isso contrasta radicalmente com os efeitos das mesmas dietas LCHF em humanos. Se, por um lado, é verdade que roedores têm uma dieta natural muito diferente da nossa (grãos, por exemplo, fazem parte da dieta normal destes animais, que são virtualmente herbívoros na natureza, não tendo evoluído comendo carne gorda portanto), por outro lado é importante saber que as dietas que são fornecidas aos animais de laboratório são dietas sintéticas comercialmente disponíveis. Uma dieta de alta gordura para camundongos, por exemplo, não é feita com manteiga de vacas alimentadas com pasto e ovos de galinhas caipira. Isto fica bem demonstrado neste fascinante estudo no qual os pesquisadores descobriram que dietas de alta gordura, baixa proteína e baixíssimo carboidrato produzem acúmulo de gordura no fígado de roedores. Aumentar a quantidade de proteínas na dieta protege o fígado até certo ponto, mas o que realmente faz diferença é a presença ou ausência de COLINA na dieta. A colina está normalmente presente nas dietas LCHF de humanos, pois faz parte da gordura animal oriunda de comida de verdade, mas está AUSENTE das dietas LCHF sintéticas oferecidas aos roedores. Esta dieta deficiente em colina provoca disfunção das mitocôndrias, que perdem a capacidade de oxidar adequadamente as gorduras, levando à acumulação das mesmas nas células hepáticas (e isso é agravado pela deficiência de proteínas na dieta). A reintrodução da colina na dieta dos roedores eliminou o efeito deletério da dieta LCHF sobre o fígado dos roedores. (Schugar, R.C. et al., 2013. Role of Choline Deficiency in the Fatty Liver Phenotype of Mice Fed a Low Protein, Very Low Carbohydrate Ketogenic Diet. PLoS ONE, 8(8), p.e74806. Available at:http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0074806). Ou seja, não era a gordura na dieta dos animais que lhes prejudicava, mas a ausência de colina (que, na comida de verdade, estaria presente). E quais as maiores fonte de colina na dieta humana? Ovos (gema!) e carnes gordas.Outro detalhe importante é que óleos poliinsaturados ômega-6 são especialmente eficazes em produzir o acúmulo de gordura no fígado e consequente resistência à insulina. Sabedores desse fato, pesquisadores induziram disfunção hepática em ratos associando álcool e óleo de milho em suas dietas. Quando o óleo de milho foi substituído por gordura saturada, o fígado dos animais melhorou (Zhong, W. et al., 2013. Dietary fat sources differentially modulate intestinal barrier and hepatic inflammation in alcohol-induced liver injury in rats.American journal of physiology. Gastrointestinal and liver physiology, 305(12), pp.G919–932.)Os autores salientam que as gorduras poliinsaturadas (óleos extraídos de sementes) são frágeis, oxidam-se facilmente, o que aumenta muito os danos oxidativos. Já as gorduras saturadas, especialmente as de cadeia média (óleo de coco por exemplo), são muito mais estáveis, reduzindo o stress oxidativo.”

Ok, eu sei que a explicação foi comprida. A versão curta, à luz da “ciência da fada do dente” seria a seguinte:

1) Camundongos que comem gordura saturada engordam;

2) Pessoas que comem gordura (saturada ou não), emagrecem;

3) Isso não significa que, a partir da publicação desse estudo, as pessoas que comem gordura saturada passarão a engordar. Isso significa que pessoas não são camundongos.

Numa análise Popperiana, o raciocínio seria:

 – Hipótese 1: gordura saturada produz inflamação no hipotálamo de ratos que os levam a engordar

 – Hipótese 2: o mesmo ocorrerá com seres humanos

-> experimento conduzido em camundongos deu suporte (não refutou) a hipótese 1

-> experimentos (DEZENAS) conduzidos em seres humanos REFUTAM a hipótese 2.

-> resultado: é necessário reanalisar a teoria para sabermos onde erramos (camundongos são herbívoros, a ração comercial é feita com óleos refinados e é deficiente em colina, etc), e postularmos novas hipóteses (tais como a desse artigo) a serem testadas em futuros experimentos.

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Bônus

Para quem teve paciência de ler até aqui, segue um rápido presente: artigo clássico, de 2003, prospectivo e randomizado, publicado no New England Journal of Medicine:

Traduzindo: “…os pacientes em dieta low carb tiveram o maior AUMENTO da sensibilidade à insulina do que aqueles em dieta de baixa gordura (aumento de 6% na sensibilidade à insulina em low carb versus aumento de 3% da RESISTÊNCIA à insulina na dieta de baixa gordura)”.

Mas o pessoal da UNICAMP disse que a gordura saturada aumenta a resistência à insulina… Bem, está na hora de chamar a fada do dente!