Scientific American: Carboidratos, e não gorduras, prejudicam seu coração

Este artigo foi publicado ainda em 2010 pela Scientific American (dos EUA). Ou seja, como eu sempre digo, a ciência está aí, disponível – e não é de hoje – para quem QUISER ver.

http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=carbs-against-cardio

Science News

Edição de Maio de 2010

Carbs e o coração: MAIS evidências de que os carboidratos refinados, e NÃO as gorduras, ameaçam o coração.

Ainda permanece incerto se o novo pensamento será refletido na revisão deste ano das diretrizes federais para alimentação dos EUA (nota do tradutor: não, as diretrizes de 2010 seguem tão obtusas como as anteriores)

Por Melinda Wenner Moyer

Coma menos gordura saturada. Esta tem sido a mensagem do governo norte-americano nos últimos 30 anos. Mas enquanto os americanos têm obedientemente reduzido o percentual de calorias de gordura saturada desde os anos 1970, as taxas de obesidade mais que dobraram, o diabetes triplicou, e a doença cardíaca segue sendo a que mais mata no país. Agora, uma enxurrada de novas pesquisas, incluindo uma metanálise de cerca de duas dúzias de estudos científicos, sugere o motivo: os cientistas podem ter escolhido o culpado errado. Os carboidratos refinados, que muitos americanos consomem hoje no lugar da gordura, podem aumentar o risco de obesidade, diabetes e doença cardíaca bem mais do que a gordura – um achado que tem sérias implicações para as novas diretrizes sobre dieta esperadas para este ano. (Nota do tradutor: as diretrizes de 2010 continuaram demonizando a gordura, contra a evidência científica, mas isto é esperado, pois a nutrição virou uma religião, com mandamentos imutáveis escritos em pedra. Ciência é OUTRA COISA, que evolui na medida em que postulados antigos são superados por novas evidências experimentais)

Em março o American Journal of Clinical Nutrition publicou uma metanálise – que combina os dados de vários estudos – que comparou o consumo de alimentos relatados por cerca de 350.000 pessoas com seu risco de desenvolver doenças cardiovasculares em um período de 5 a 23 anos. A análise, supervisionada por Ronald M. Krauss, diretor de pesquisas de aterosclerose no Instituto de Pesquisas do Hospital Infantil de Oakland, não achou nenhuma associação entre o consumo de gordura saturada e o risco de doenças do coração.

Os achados juntam-se a outras conclusões dos últimos anos que vão contra a sabedoria convencional (senso comum) de que a gordura saturada faz mal ao coração porque aumentaria os níveis de colesterol total. Esta ideia “é baseada em grande parte em extrapolações, que não são sustentadas pelas pesquisas”, diz Krauss.

Um dos problemas com esta velha lógica é que “o colesterol total não é um bom preditor de risco”, diz Meir Stampfer, um professor de nutrição e epidemiologia da Escola de Saúde Pública de Harvard. Embora a gordura saturada possa aumentar os níveis de colesterol LDL (“ruim”), ela também aumenta os níveis de HDL (“bom”). Em 2008, Stampfer foi co-autor de um estudo publicado no New England Journal of Medicine que acompanhou 322 mulheres moderadamente obesas por 2 anos enquanto elas seguiam uma dentre 3 dietas: uma dieta de baixa gordura (“low fat”) restrita em calorias, baseada nas orientações da Sociedade Americana de Cardiologia; uma dieta mediterrânea restrita em calorias, rica em vegetais e pobre em carne vermelha; e uma dieta de baixo carboidrato (“low carb”) com calorias liberadas. Embora as mulheres do grupo low carb tenham comido a maior quantidade de gordura saturada e não tenham contado calorias, elas terminaram o estudo com a melhor proporção de colesterol LDL/HDL além de terem perdido o dobro do peso das que comeram uma dieta restrita em gorduras e em calorias.

Os achados de Stampfer não apenas sugerem que as gorduras saturadas não são tão ruins; eles indicam que os carboidratos podem ser muito piores. Um estudo de 1997, do qual ele foi co-autor, no Journal of The American Medical Association (JAMA),  avaliou 65.000 mulheres e identificou que o quintil (a quinta parte) de mulheres que consumiam mais carboidratos de fácil absorção – isto é, aqueles com maior índice glicêmico – tinham 47 % mais chance de desenvolver diabetes tipo II do que o quintil que consumia o menor índice glicêmico (já a quantidade de gordura que as mulheres consumiam não teve nenhuma relação com o risco de diabetes). E um estudo holandês de 2007 sobre 15.000 mulheres publicado no Journal of The American College of Cardiology descobriu que mulheres com sobrepeso e que encontravam-se no quartil que consumia refeições com carga glicêmica média maior (uma medida que incorpora o tamanho das porções, além do índice glicêmico das mesmas), tinham 79% mais chance de desenvolver doença coronariana do que mulheres com sobrepeso no quartil mais de mais baixa carga glicêmica. Estes efeitos podem ser explicados em parte pelo efeito io-iô que os carboidratos de alto índice glicêmico têm nos níveis de glicose do sangue, o que estimula a produção de gordura, a inflamação, aumenta o consumo calórico e a resistência à insulina, diz David Ludwig, diretor do programa para obesidade no Hospital Infantil de Boston.

Será que o pensamento mais moderno sobre gorduras e carboidratos estará refletido nas Diretrizes Dietéticas para os Americanos de 2010, atualizadas a cada 5 anos? (nota do tradutor: não, pois não há quantidade de evidências que mude a FÉ de alguém – e a nutrição deixou de ser uma ciência há muito tempo para tornar-se uma religião dogmática). Depende da força das evidências, explica Robert C. Post, vice diretor do Centro de Política Nutricional do Departamento de Agricultura dos EUA (nota do tradutor: departamento de quê? De saúde? Não, de AGRICULTURA. Cuja função é vender o quê? Grãos…). Achados que têm menos suporte são colocados na lista de assuntos que necessitam de mais pesquisas. No momento, explica Post, a principal mensagem da Agência para os americanos é limitar as calorias, independentemente da origem das mesmas. “Nós achamos que as mensagens para os consumidores têm que ser simples, curtas e diretas”, diz ele. Outro problema em relação às agências regulatórias, diz Stampfer, de Harvard,  é que as indústrias de bebidas com açúcar estão fazendo um lobby muito forte, tentado desacreditar os estudos científicos. 

Ninguém está sugerindo que as pessoas devam se atolar em gordura saturada (por mais tentador que isso possa parecer). Algumas gorduras monoinsaturadas e poliinsaturadas, como as encontradas no óleo de peixe e no azeite de oliva, podem proteger contra doenças cardíacas. Além disso, alguns carboidratos ricos em fibras (nota do tradutor: salada) são inquestionavelmente bons para o corpo. Mas as gorduras saturadas parecem ser neutras, comparadas aos efeitos deletérios dos carboidratos refinados e açúcares tais como os encontrados em cereais, pães, massas e biscoitos.

“Se você reduz a gordura saturada e a substitui por carboidratos de alto índice glicêmico, você não apenas não terá benefícios – você poderá na verdade produzir malefícios”, explica Ludwig. Na próxima vez em que você comer uma torrada com manteiga, ele diz, saiba que “a manteiga é o componente mais saudável”.